Fechou a porta do banheiro com um baque seco e se apoiou na pia, sentindo o peso da lembrança em seus ombros, fisicamente. Era como se estivesse prestes a ficar doente, a sensação opressora subindo por cara poro seu, ao contrário do que faltara ao Soldado na época.

Não era como se pudesse exigir uma consciência moral de si mesmo, considerando todos os fatos, mas, ainda assim, enquanto encarava os próprios olhos rodeados por olheiras escuras pela noite perturbadora e mal dormida, era complicado saber que suas mãos eram as mesmas mãos sujas Dele.

Ignorando os fios escuros bagunçados, tirou as roupas e ligou o chuveiro, se enfiando de cabeça na água mais gelada possível. Por um longo minuto, foi como se não sentisse nada, como o Soldado de antes, depois apenas absorveu a temperatura da água — olhos fechados e mãos em punho, como se assim pudesse controlar o incontrolável. Aquelas imagens, aquele passado, faziam parte dele, não deveria ser uma surpresa sempre que retornassem, de um inconsciente tão fértil quanto cruel, para assombrá-lo.

Lá fora, a porta se abriu com cuidado e ele ouviu os murmúrios de Wanda e da Bruxa. Não se importou que a senhora tivesse percebido que havia algo de errado. Não devia nada a ela — sua dívida era consigo mesmo e, mais importante, com as pessoas afetadas pelas ações do Soldado, por suas ações, essencialmente. Queria ter tido forças, um dia, para ter lutado contra sua opressão, contra a força que a lavagem cerebral da H.Y.D.R.A. exercia sobre sua mente, mas, olhando para trás, se lembrava apenas e claramente de submissão.

Notou que estava há muito tempo embaixo do chuveiro, apesar de seus pensamentos estarem muito longe. Sequer notava a água fria, de fato, era como se estivesse anestesiado para as sensações mais humanas e comuns, como quando sua cabeça ainda era tomada pelo Soldado Invernal. Por isso, desligou a torneira e se enxugou, sem pressa, procurando no reflexo do espelho algo que fosse mais de si mesmo do que daquela sua outra metade.

Gostava de manter a barba, pois ao Soldado isso não era permitido, bem como os cabelos devidamente cortados. Os fios maiores evocavam uma parte emblemática da imagem do Soldado, todas as suas vítimas sabiam que Ele tinha os cabelos castanhos longos e costumeiramente desleixados, caindo em torno do rosto e sobre os olhos.

Estes, por sua vez, continuavam tão claros quanto sempre; porém, aparentavam faltar alguma vida, a jovialidade que, antes, conseguia associar a si mesmo. Bucky costumava conviver com a leveza de quem não se levava a sério, mas nunca mais conseguira acessar essa parte de si mesmo novamente e já fazia alguns anos que Ayo o declarara livre das amarras da H.Y.D.R.A e do Soldado — ao menos, mentalmente, pois não havia gatilho capaz de colocá-lo naquele estado novamente.

Agora, os olhos azuis que o encaravam de volta eram perturbados, resignados e desprovidos de qualquer brilho ou grande emoção. Apertou as mãos sobre a pia, com cuidado para não causar nenhum estrago: o Soldado possuía esse tipo de onipotência, capaz de torná-lo repentinamente vazio por dentro.

A não tão breve reflexão, no entanto, foi interrompida quando Wanda bateu na porta — os nós dos dedos leves contra a madeira, como que para não perturbá-lo -, e não esperou resposta antes de abrir suavemente e colocar apenas a cabeça para dentro do banheiro.

- Ei. — Ela murmurou em tom preocupado, os olhos o examinando detidamente. — Você está bem?

- Sim.

Notou o apertar de lábios condescendente e o breve suspiro ao, de fato, adentrar o pequeno cômodo e se aproximar sem pressa, provavelmente procurando as palavras certas — embora, para Bucky, elas não existissem.

- Eu... Notei que não era um sonho comum. Era uma lembrança. — A ruiva começou, cautelosamente, o encarando através do reflexo do espelho. Concordou com um breve aceno, encarando a bancada da pia à procura do que fazer em seguida, enquanto Wanda cruzava os braços e apoiava o quadril por ali. — Do Soldado, não sua.

- Somos a mesma coisa. — Alcançou a escova de dentes e a pasta, por falta de escolha melhor. Precisava ocupar sua mente e suas mãos. Precisava deixar de focar nos olhos esverdeados dela, tão bonitos e tão certos sobre ele, pois não se sentia assim sobre si mesmo. — Nunca vamos deixar de ser.

- Isso não é verdade.

- Não? Então porquê estava usando magia para me deter?

Wanda piscou, claramente indignada por seguir por este caminho, quando tudo o que queria era lidar com aquilo. A lembrança, o Soldado, seu passado como um todo, a Casa Kaminski e as demais vítimas. Sob o olhar exacerbado dela, se pôs a, simplesmente, escovar os dentes, dizendo a si mesmo que gostaria que ela saísse, que ela desse espaço para que pudesse ser quem estava destinado a ser, que ela pudesse desistir dele e de sua mente.

No entanto, quando terminou de escovar os dentes — sem qualquer necessidade aparente — e a sentiu se mover para passar os braços ao redor dele, envolvendo-o com delicadeza através do abdômen e apoiando o queixo em seu ombro, percebeu que não gostaria, de fato, que Wanda se afastasse. Era assim que ela se sentia sobre ele?

Prendeu os lábios em uma linha fina e apertou os dedos em punho, incapaz de bloquear o calor do corpo dela atrás do seu em contraste com sua pele fria do longo banho, ou mesmo a respiração tranquila que, agora, parecia dar ritmo à dele, confortando-o em um silêncio bastante adequado ao que costumavam ser.

Engoliu em seco, correndo os olhos pela figura deles dois no espelho, Wanda um pouco mais baixa, na ponta dos pés, logo atrás dele, para conseguir manter o contato visual e a toalha branca envolvendo a parte debaixo de seu corpo, de forma que não a incomodava. Parecia... Confortável demais. Ideal demais. Íntimo demais.

Ela suspirou contra seu pescoço, o queixo apoiado em seu ombro, o silêncio do ambiente preenchendo-os. Os olhos dela apenas sustentavam os seus, seriamente, como se o conhecesse o bastante para saber o que esperar de mais uma de suas crises de identidade, o que não era tecnicamente verdade.

- Você não me machucaria. Nunca. E não apenas porque posso me defender. Eu... Simplesmente, sinto isso. — Ela murmurou, sustentando os olhos nos dele. — É assim que sei que você e Ele são... Completamente opostos. E por isso se torna tão... Resignado quando ele tenta tomar a superfície novamente, porque há muita consciência disso em você. E isso é bom, Bucky. É bom.

Se perguntou se Wanda era, realmente, capaz de ter essa percepção por conta de seus poderes ou se se tratava apenas da ideia que gostaria de ter sobre Bucky, da conclusão a que chegara sobre ele durante o breve e inequivocamente estranho convívio, que haviam estabelecido desde que, por um motivo totalmente difuso agora, resolvera ficar na cabana.

Não elaborou sobre o assunto, nem queria entrar em detalhes sobre o pesadelo, algo que, possivelmente, ela deve ter notado, pois apenas firmou abraço em torno dele, os dedos fincados em seu peito nu, pouco se importando que se encontrava apenas de toalha, e se colocou na ponta dos pés para alcançar sua bochecha e depositar um breve e suspirante beijo ali.

Era um movimento muito atípico para o que eles haviam sido nos últimos dias, uma vez que, apesar dos óbvios momentos de intimidade natural entre eles, não haviam ido muito além disso. A esse ponto, já suspeitava que, assim como ele, a ruiva tentava traçar certa distância para evitar que se decepcionasse com as próprias expectativas, com sentimentos temivelmente inominados se expandindo em terreno pouco propício.

Então, ela o examinou uma última vez antes de deixar o banheiro sem pressa, fechando a porta com discrição. Bucky engoliu em seco, ainda desfrutando da sensação de formigamento onde as mãos dela antes se encontravam e também por conta do contato tão íntimo, tão... Confortável, como se rotineiro.

Era como se Wanda estivesse habituada a tranquilizá-lo, lidar com ele depois daqueles momentos paralisantes, como se o compreendesse; e, ato contínuo, o próprio Bucky não se opusesse a deixar alguém enxergá-lo tão profundamente como ela vinha fazendo. Pois, antes, não havia essa opção, mas não conseguia deixar de pensar no toque e na voz convicta dela o distanciando do Soldado sem grandes esforços.

Passou os olhos pelo próprio aspecto cansado, mentalmente drenado pelo pesadelo, e ainda apoiou as mãos sobre a pia por bons dez minutos antes de retirar a toalha e vestir apenas uma calça limpa de moletom. O Soldado era imbatível e o homem que encarava no espelho estava exausto, talvez essa fosse a maior oposição entre eles, então, se sentiu mais à vontade para voltar ao quarto.

Encostou a porta do banheiro com cuidado, notando que Wanda estava sentada contra a cabeceira da cama, com as pernas encolhidas contra o corpo e os olhos fixos na escuridão, que se espalhava atrás da janela, poucos metros à sua esquerda. O movimento chamou a atenção imediata dela, que apenas o acompanhou com os olhos enquanto voltava para a montanha de almofadas improvisadas no chão.

Mesmo que com feições explicitamente preocupadas, parecia perdida em pensamentos alheios, mas não entrou em detalhes. Simplesmente se deitou, apreciando o corpo fresco e mais leve em contraste com o peso e a velocidade de seus pensamentos ansiosos, esperando que a ruiva desligasse o abajur em seguida. Ao menos, podiam voltar a cultivar o silêncio que vinham cultivando pelo resto da madrugada, já que sabia que nenhum deles voltaria a pregar os olhos.

Com um dos braços sobre os olhos, apenas pode notar o movimento baixo de Wanda se movendo entre os próprios cobertores antes de, efetivamente, desligar a iluminação. Porém, embora antecipasse a quietude, não foi o que aconteceu, pois, no segundo seguinte, sentiu algo sendo jogado ao seu lado e, cauteloso, abriu os olhos para constatar que se tratava de um travesseiro e que a própria ruiva começava a se ajoelhar logo ao seu lado, no pequeno espaço vago das almofadas.

- O que está fazendo?

- Não é óbvio?

Com um abanar de mãos, ela mandou que se movesse e, ainda um pouco extasiado, Bucky se arrastou até o limite das almofadas, que felizmente encontravam o sofá logo ao lado esquerdo dele. Não havia, realmente, espaço, mas Wanda conseguiu se espremer onde sobrava, puxando o cobertor sobre si, e eles se ajeitaram por um momento de relutância até que estivessem de frente um para o outro.

O gesto era um tanto intimidante, mas seria mais se conseguisse enxergar perfeitamente os olhos dela profundamente invasivos dela. Por hora, podia apenas sentir a respiração quente contra a sua, e, em seguida, os dedos alcançando levemente sua têmpora e percorrendo o espaço com calma deliberada.

- Gostaria de poder tirar esse rastro de dor que o Soldado deixa em você. — Ela murmurou baixo, porque era sensível às emoções alheias, ainda que se recusasse a lê-lo de verdade. — Você poderia ter deitado na cama. Sua presença jamais me incomoda, Bucky... Pelo contrário.

Evitou um suspiro rendido e concordou com um breve aceno, antes de, ainda silenciosamente, alcançar a ponta do cobertor fofo que a ruiva trouxera da cama, o puxando para cobrir a ambos e a trazendo para mais perto por instinto, algo que ela apenas anuiu.

Podia sentir a preocupação emanando dela no tom cauteloso com ele e seu estado silencioso. Fazia algumas semanas que não percorria aquele caminho, especialmente na presença da ruiva, mas, era sempre assim: os fantasmas do Soldado voltavam para assombrá-lo quando menos esperava.

Tentou condicionar si mesmo a ignorar o pesadelo e a presença do Soldado Invernal correndo por sua pele, e se concentrou em Wanda, no perfume inebriando todos os seus sentidos sem que pedisse permissão e nos fios espalhados sobre o travesseiro, de maneira que seus dedos podiam alcançar as pontas macias entre eles.

Brandamente, como se fosse um movimento corriqueiro, Wanda se aconchegou contra ele, rodeando-o com um dos braços enquanto entremeava as pernas entre as suas e enfiava o rosto em um espaço confortável entre seu pescoço e o ombro. Não havia tensão nem incerteza, apenas... Uma espécie de experimento, que corria dela para ele.

Na primeira e única vez que dormiram juntos, havia sido natural, por conta do sexo. Agora, no entanto, eram apenas eles, seus sentimentos quebrados e suas boas intenções, então soava mais relevante, tanto quanto íntimo e definitivo, ainda que tivesse sido motivado por algo completamente desagradável, que ainda pairava sobre eles.

Então, em um agradecimento tácito, apenas arrastou os dedos pelos cabelos dela e depositou um beijo em sua testa, meio que sobre os olhos, e voltou a fechar os seus, sentindo tudo em seu interior estremecer e enternecer.

Notas finais
Bucky! Wanda tem suas questões, mas, mesmo que a ajude, não deixa de ter as dela, o que não deixa de ser triste! Espero que gostem, agora, da forma como ela está para ele também! ♥ Me deixem saber se estão gostando da história! ♥