The Hurting. The Healing. The Loving.
44 Capítulo 43
Bucky andou de um lado a outro na sala de estar do segundo andar. Já havia se sentado, se levantado, examinado os livros e objetos na estante ao redor, ficado curioso sobre os outros aposentos e não havia mais o que fazer, senão esperar.
Wanda pediu para que não presenciasse seu treinamento naquela noite, pois seu temor a tinha desestabilizado antes. Por mais que não pudesse ler diretamente seus pensamentos, a ruiva estava a par de cada emoção que a cercava e Bucky não estava imune. Pelo o que presenciara, quando estavam na cidade, cercados por estranhos, era algo que não conseguia simplesmente evitar, como deliberadamente evitava mergulhar em sua mente. Este tipo de empatia era algo não exercido, mas naturalmente dela.
Por isso, lá estava ele, simplesmente esperando pelos resultados da segunda noite de testes. A Bruxa já havia declarado que Wanda tinha alcançado um ponto em que só precisava lapidar o feitiço necessário para esconder o Livro dos Abandonados, pois era como se uma trava tivesse sido ultrapassada a partir da concentração que deveria manter debaixo d’água. Esperava que ela não pudesse sentir, mas, ainda que não pudesse acompanhar todo o procedimento, sentia o nervosismo percorrendo cada poro seu.
Resignado, seguiu até o quarto e se aproximou da janela, que possuía vista para o lago aos fundos da residência da Bruxa. Como na outra noite, havia sido iluminado por diversos lampiões e pode acompanhar o exato instante em que Wanda voltava a submergir na água gelada, depois de, provavelmente, ter feito o mesmo algumas a julgar pelos cabelos molhados e a respiração pesada.
Usava o mesmo vestido da noite anterior, o que fez com que seu estômago revisasse em uma ansiedade conhecida, mas se conteve. Enquanto a olhava, por algum motivo, recordou todo o seu comportamento durante o dia, o que, recapitulando, podia considerar, ao menos… Curioso.
Ao sair do banheiro, ela já tinha seguido a Bruxa e estava no andar debaixo tomando café da manhã. Quando adentrou a cozinha, aparentemente estava concentrada demais em um livro de feitiços de aparência antiga aberto logo ao lado de uma típica xícara de chá, enquanto a mais velha fazia uma explicação floreada sobre conceitos de magia, que, no momento, sabia que eram mais genéricos do que qualquer outra coisa.
Anunciou que iria sair para uma rodada de exercícios matinais, muito mais para matar o tempo e colocar a cabeça no lugar do que por necessidade, e até respondeu Sprite de forma sarcástica quando a garota perguntou se podia acompanhá-lo. Tinham estabelecido uma dinâmica confortável, após sua impressão sobre ela e a Bruxa ser momentaneamente posta de lado.
Com um último olhar, notou que Wanda continuava distraída com seu livro e, por isso, seguiu para fora. Cerca de duas horas depois, quando voltou, sem qualquer perspectiva de como encarar ou interpretar a noite anterior, a não ser com naturalidade, afinal o distanciamento que tentou impor após a hospedaria não funcionou como o previsto, Sprite disse que a ruiva estava em uma sessão de estudos sobre o Livro.
A Bruxa estava tentando guiá-la em uma forma de descobrir mais informações sobre Chthon e sua suposta tentativa de retorno ao mundo terreno, como Wanda havia tentado na noite anterior. Apesar de não usufruir de poder o bastante para lidar por si mesma com o Darkhold, sem sucumbir à força de sua magia, a experiência da mais velha podia ajudá-la naquela jornada exploratória e impor limites que a ruiva tentava transpassar sem se preocupar com as consequências — como fazia quando mantinha a projeção astral no quarto de hóspedes enquanto tentava seguir com uma vida normal.
Porém, sabia de tudo isso apenas porque Sprite lhe contara. Ela não estava muito preocupada. Na sala de estar do segundo andar, narrava tudo de maneira despretensiosa com um livro na mão e as pernas sobre a poltrona. O que era estranho, porque, em qualquer outra ocasião, Wanda estaria à vontade para contar a Bucky suas intenções, seu próximo passo, prepará-lo para o que poderia dar errado.
Nada disso aconteceu naquele dia, nem mesmo quando colocou o vestido, já seco, que usava na noite anterior, e ajeitou os cabelos, deixando a tiara sobre a cômoda para colocar a de flores selvagens frescas preparadas pela Bruxa e, meramente, informando que tentariam fazer o teste do feitiço de uma forma diferente. Então, Wanda saiu sem esperar muita concordância e desceu as escadas com os pés descalços, sem se preocupar com o frio que se instaurava do lado de fora.
— Ela vai ficar boa nesse feitiço. — A voz soou mais perto do que esperava e Bucky se virou para encarar Sprite se colocar ao seu lado, acompanhando a cena mística pela janela. Apesar de seu óbvio receio, a Bruxa manipulando a natureza ao seu redor para agir mentalmente contra a mais volta, não deixava de ser uma cena curiosa, esotericamente, bonita. — Ou em qualquer outro que desejar, na verdade. Ela é muito poderosa e habilidosa na mesma medida.
— Eu sei.
— Sabe mesmo? — O tom dela foi condescendente ao cruzar os braços e deixar de lado a visão do outro lado da janela. Bucky meramente a encarou por um instante, antes de se voltar ao movimento na água, metros abaixo, no instante em que Wanda voltou à superfície respirando rápido. Era mais aliviante não ter ninguém forçando sua cabeça embaixo d’água como Sprite havia feito na noite anterior. — Às vezes, tenho a impressão de que não conhece a magnitude do que Wanda realmente é.
— Só porque eu não tenho medo dela? Não a trato como uma arma de destruição em massa, como todos fizeram em algum momento? — Sentiu que Sprite apenas o analisou por um instante, no silêncio alongado através do cômodo.
— Não. Pela forma como a olha… — A garota de cabelos curtos precisou buscar as palavras, ao passar que ele próprio sentia a respiração se perder. — Apesar de toda a grandeza, você parece enxergar muito mais a mulher do que a bruxa.
Não se apressou em retrucar e contestar. Tentar fugir e driblar com respostas evasivas não ia mudar o que realmente sentia em relação a Wanda Maximoff. Ele não a temia, mas temia por ela, e gostava de pensar que tinha algum privilégio por ter acesso àquele lado mais humano, terreno e menos tempestuoso dela quando o mundo parecia enxergar apenas a Feiticeira Escarlate, a mulher que não conseguia controlar os próprios poderes, vontades e sentimentos.
Apesar disso, sabia também que era um tanto quanto fascinado pela persona de olhos e tiara avermelhados, o que o deixava lívido, às vezes, pois aquela era sua faceta menos confiável e mais volúvel, mas, ainda assim, não deixava de fazer parte do conjunto complexo que aparentava ser.
— Porque acredita que sabe tudo sobre todos ao seu redor? — Optou por tentar insultá-la, o que a faz encará-lo de maneira maliciosa.
— Não é o que acredito. Apenas… Vivi por tempo o suficiente para enxergar além das superficialidades que as pessoas gostam de mostrar.
Ela sorriu falsamente doce e Bucky apenas voltou a encarar a janela, embora devesse concordar que a ansiedade e temor quando a acompanhava emergir e submergir momentos depois fosse muito latente, pois imediatamente associava às passagens violentas e sombrias do Soldado Invernal, de si mesmo, torturando uma vítima.
Engoliu em seco e esperou, novamente, que Wanda não pudesse sentir aquele tipo de emoção emergindo dele, mesmo à distância, então se afastou da janela e se acomodou no sofá que residia no quarto de hóspedes, ainda observando Sprite, que observava a cena de braços cruzados.
— Ok… Como sabia sobre o ataque à cabana?
— Eu deduzi. — Bucky meramente revirou os olhos, não comprando essa história nem por um segundo. Porém, escolheu não pressioná-la, afinal Sprite não se impressionava muito sobre ele, até que a menina de aparência jovem e alma incrivelmente antiga começasse a falar. — Meus irmãos Eternos e eu… Sempre vivemos entre os humanos. Camuflados, tacitamente auxiliando em processos de conhecimento que, para eles, a depender da época, eram um mistério. Nós sempre fomos bons em nos misturar e… Mesmo que eu não tenha mais qualquer dom maior, continuo fazendo o que aprendi ao longo dos séculos. É como um ciclo vicioso, eu acho. Quando abri mão dos meus poderes, tinha toda a intenção de deixar esse caminho para trás, mas… É quem eu sou, não importa como e onde esteja.
Podia fazer paralelos de sua história com a escolha de Sprite. Ela era muito mais do que qualquer herói de seu tempo poderia sonhar. Um Eterno, como Wanda explicou, era um Ser superior, quase equivalente a um Deus ou algo do tipo, mas, ainda assim, abriu mão disso em nome de experiências que só poderiam ser sentidas por humanos comuns.
Se olhasse para trás, faria facilmente essa troca. Não se importava nem minimamente com sua segurança física, pois era alguém que não deveria viver nesse tempo. Trocaria, sem grandes pesares, todos os seus poderes e habilidades pela chance de viver sem as memórias e traumas advindas do Soldado Invernal, ainda que isso implicasse uma mortalidade muito iminente — como Steve havia escolhido. Seria, sem receios, um homem comum, talvez um Soldado com alguma patente no exército, pois apreciava defender seus ideais, mas, ainda assim… Só mais um na multidão, assim como Sprite.
— Foi isso o que fez? Esteve se camuflando por aí?
— Eu vou todos os dias até a cidade, verificar se há algo de diferente, tentar prever algum movimento dos seguidores de Chthon. Eles não são muito discretos. — Ela explicou com um dar de ombros, simples. — Quando vêm a Tanier estão sempre em grupo e, naquela noite em especial, parte deles parecia eufórica demais enquanto alguns aparentavam algum receio…
— Como eles podem achar que têm alguma chance contra Wanda? — Questionou, confuso, o que passava por sua mente já há algum tempo.
— Eles têm, se conseguirem desestabilizá-la. — Juntando as mãos atrás do corpo, Sprite se encostou contra o parapeito, de costas para a janela, e o analisou por um instante. — Wanda Maximoff instável é um prato cheio para qualquer um que queira atingi-la. Seja para controlá-la ou derrotá-la.
Bucky meneou a cabeça em uma breve concordância, tentando encaixar as peças daquele quebra-cabeça em sua mente.
— Então… Por isso fui envenenado naquela noite?
— Acha que pode desestabilizá-la? — Sprite retrucou de forma ferina, no que ele apenas arqueou a sobrancelha, ganhando um dar de ombros.
— Os seguidores de Chthon queriam mesmo atacá-la ou… Era apenas um jogo, para mostrar que podem encontrar vulnerabilidades nessa… Realidade protegida de Wanda? — Sprite respirou fundo e, de perfil, encarou o lado escuro de fora novamente.
— Não há como saber. — Sprite respirou fundo e, de perfil, encarou o lado escuro de fora novamente, o rosto fazendo sombra na janela por conta da iluminação do quarto. — Mas é bom que ela esteja aperfeiçoando novas maneiras de se proteger. Ela parece… Mais consciente e preocupada sobre isso.
Imaginou mesmo que Wanda não estaria testando apenas o feitiço para proteger o Darkhold naquele dia, pois estivera explorando novos caminhos no Livro e daí surgiu a ideia do teste sob pressão. Esperava que ela não estivesse deixando com que aquela peça de magia, que se mostrava claramente obscura, a drenasse e a manipulasse da forma como achava que fazia em alguns momentos, mas, tinha de admitir, que a maneira drástica que se mantivera afastada dele naquele dia parecia estranha e incômoda, para dizer o mínimo.
— Você… — Tentou buscar as palavras corretas, para não parecer tão suspeito, embora os olhos de Sprite fixamente sobre ele dissesse que, sim, aquela abordagem falsamente despretensiosa não seria facilmente comprada. — Notou algo diferente em Wanda hoje?
— O que quer dizer? — Deu de ombros, incapaz de explicar que Wanda mantivera a distância dele, depois de passarem a noite juntos. — Bem… Agora que está perguntando… Estava mesmo calada, mas nada anormal para os padrões dela.
Apesar de ter vivido entre humanos por tantos séculos, claramente possuía aquela petulância e distração dos adolescentes, que o irritava ao extremo. Sprite voltou a encarar a janela e avisou que a aula tinha terminado, se encaminhando imediatamente para a porta do quarto, provavelmente para saber alguma novidade sobre a evolução da ruiva no feitiço.
Bucky apenas observou e esperou, levando os dedos aos olhos, repentinamente cansado das intrigas e cenários inexistentes que sua mente criava. Wanda estava preocupava em aprender e, provavelmente, era por isso que estivera concentrada nos ensinamentos da Bruxa durante todo o dia, e não neles.
Quis gemer em descontentamento apenas por passar a pensar neles como um, mas se obrigou a respirar fundo para tentar acalmar o abrupto nervosismo, assim como o tremor em seus dedos humanos. Encarou a própria mão, como se fosse uma grande traidora do que sentia, e a fechou no instante em que Wanda chegou ao quarto, fechando a porta atrás de si com cuidado.
Estava encharcada da cabeça aos pés, como na noite anterior, o que não era nenhuma surpresa, embora parecesse mais… Fisicamente exausta, como quando mantinha a projeção astral no quarto de hóspedes da cabana. Tinha os olhos avermelhados, a pele corada pelo frio e a respiração rápida e dificultosa, mas se concentrou em encontrar um conjunto quente de moletom na cômoda de madeira próxima à porta.
— Ei... — Sem pressa, ela levantou a cabeça e piscou lentamente ao encará-lo. — Foi tudo bem?
— Sim. — Ela estreitou os olhos e mordeu os lábios de maneira frouxa por um momento, como se levasse um momento para elaborar verbalmente o que tinha em mente. — Eu apenas… Acho que extrapolei hoje.
Havia algo não dito ali, no olhar esverdeado dela sustentado no dele por segundos inteiros; algo pesado, mas não como um soco, mais como algo que pressiona lentamente, de dentro para fora. O vestido e os cabelos ruivos escorrendo pelas costas eram o mesmo, mas Wanda estava diferente e Sprite não precisava reafirmar isso, pois aparentava em cada expressão dela e o modo modo defensivo como se movia. Ainda assim, optou pelo caminho mais seguro no terreno oscilante que se tornara aquele quarto.
— Você… Precisa de alguma coisa?
Wanda negou brevemente e abaixou o rosto para as roupas, que segurava com tanto afinco entre os dedos tipicamente inquietos. Por um momento, acreditou que ela fosse dizer algo, que realmente fizesse sentido para a pessoa que enxergara por todo aquele dia, mas a ruiva pareceu ter mudado de ideia.
— Tenho que me aquecer e descansar. — O sotaque dela soou forte, mesmo no murmúrio e Wanda passou por ele para entrar no banheiro. Contudo, ela mudou de ideia novamente e, apoiada na porta com a mão fortemente fechada em torno da maçaneta, se voltou a Bucky. — Na verdade… Sam ligou.
— Ah…
Seus olhos recaíram sobre o celular esquecido no tampo da cômoda, junto com outros pertences de ambos. Sequer havia tocado no aparelho durante todo o dia, pois, não se importava com tecnologias e, num geral, não tinha com quem se comunicar realmente.
— Ele disse que Sarah perguntou se você tem algum pedido especial para o jantar do Dia de Ação de Graças.
Bucky voltou a olhar o rosto inexpressivo, que o analisou de volta por um breve momento, antes de realmente entrar no banheiro e bater a porta com um baque seco. Fechou os olhos em um suspiro pesado e se encostou contra o sofá novamente, bagunçando os fios sem cuidado ante a pouca perspectiva de consertar aquilo.
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