The Hurting. The Healing. The Loving.
45 Capítulo 44
Bucky soube que Wanda dormiu assim que colocou a cabeça no travesseiro quando voltou ao quarto e notou o abajur ligado, iluminando a ruiva encolhida contra si mesma sobre os cobertores. Esperava que não ficasse doente por conta de toda aquela exposição a temperaturas diferentes em pequenos intervalos de tempo, mas também desejava que o período de treinamentos, finalmente, terminasse.
Demorou para pegar no sono, novamente no chão, sobre as almofadas do sofá estrategicamente ajeitadas para formar um colchão improvisado. Era uma grande mudança em relação à noite anterior, mas notou como Wanda havia ficado magoada por não mencionar que prometera a Sam — e Sarah -, que iria embora para o Dia de Ação de Graças.
Consultando o calendário no celular, notou que o feriado americano seria em menos de dez dias, mas, é claro que a irmã de Sam estava fazendo as compras para que não faltasse nada à mesa dos Wilson no próximo fim de semana. Era onde ele pertencia agora, sua mente insistiu em lembrar, pois fazia tempo demais que não tinha uma família e Steve fora embora, justamente, em nome de uma.
Com o braço cruzado sobre o rosto, sentiu os olhos pesarem apenas imaginando o que Sam poderia ter dito a Wanda. Não o culpava, apesar de tudo, pois deveria ter contado, muito antes da noite anterior, que tinha planos de ir embora, que não ficaria para sempre, que sua vida precisava continuar enquanto ela explorava sua própria jornada.
A inquietação também estava com ele no instante em que acordou, muito antes do nascer do sol. Costumava acordar cedo, mas a ansiedade que o distanciamento de Wanda causara na noite anterior fez com que perdesse de vez o sono e ainda se revirou sobre as almofadas, buscando uma posição mais confortável, mas foi o suficiente, por isso jogou os cobertores para o lado e se levantou buscando um moletom e o coturno.
A claridade da manhã começava a alcançar a janela de cortinas muito claras, mas era a respiração pesada que o dizia que ela dormia tão pesadamente quanto horas antes, quando saíra do banheiro, e a encontrara enrolada contra si mesma sob diversos cobertores ainda com a luz do abajur acesa.
Se aproximou para tirá-lo da tomada e, enquanto examinava o rosto bonito, mas aparentemente tenso, mesmo com a respiração profunda, não resistiu em tatear a pele macia e os fios ruivos da maneira mais delicada possível. Sequer cogitara se deitar ali, mesmo depois da noite anterior, pois era óbvio que Wanda queria distância e eles não eram, efetivamente, nada um do outro. Assim eram as coisas hoje em dia e ele respeitava isso, mas o possível prolongamento daquele tratamento de silêncio fez com que algo na boca de seu estômago se retorcesse dolorosamente.
Foi assim que decidiu se afastar e se concentrar em seu próprio sono, da mesma forma que, agora, se concentrava no café sendo lentamente passado na cozinha da Bruxa enquanto todos aqueles pensamentos ansiosos sobre ela e ele e seus objetivos distintos ultrapassavam sua mente em uma velocidade completamente antinatural.
O cheiro da floresta que os rodeava era diferente naquele horário, notou assim que abriu a porta dos fundos e se encaminhou para a mesa de madeira sob uma das grandes árvores frondosas, que ladeavam o lago, nos fundos da propriedade da bruxa, se sentando sobre a própria superfície alta.
Se perguntou se teria alguma privacidade ou se estava sendo observado por algo místico e imperceptível, mas, quanto a isso, não havia o que fazer e não conseguia se importar menos. No espaço de algumas semanas, sua vida tinha virado de cabeça para baixo de uma maneira totalmente inesperada e gostaria de saber o que poderia fazer quanto a isso, mas, ao mesmo tempo, sabia que não havia nada de prático e objetivo sobre o que sentia por Wanda.
Seus olhos deixaram as ondulações do lago e recaíram na xícara de café firmemente segura entre seus dedos comuns. Fazia tempo demais que não sentia aquele tipo de emoção tipicamente humana, que o fazia querer se encolher e se expandir ao mesmo tempo; que o preenchia e satisfazia por inteiro, ao passo que também o fazia estremecer em temor e tentar, inutilmente, recuar enquanto seu coração estava todos os passos à frente da racionalidade de sua mente.
A brisa fria perpassou seu rosto, mas não se importava com o clima. Logo a xícara de café estava finalizada, seus pés se apoiavam no banco comprido que rodeava a mesa e Bucky se perguntava se, em algum momento de sua vida pré-Soldado Invernal, sentira algo assim. Levou a mão ao peito, incomodado com a sensação física de agonia, e tentou se lembrar, mas nenhum rosto que significasse alguma coisa lhe vinha à mente. Se houvesse, pensou, talvez não precisasse se esforçar tanto.
— Você não sente frio?
Paralisou ante o murmúrio baixo e se voltou na direção da casa para assistir uma Wanda Maximoff se aproximar enrolada em um cobertor, com as feições inchadas de sono, os olhos estreitos e os cabelos bagunçados pela noite pesadamente dormida. Nos pés, calçava uma bota emprestada de Sprite, que ficava junto à porta dos fundos da cozinha e aquela era a imagem que menos associaria à ruiva, mas, ainda assim, soava absolutamente adorável.
— Menos do que gostaria. — A observou se aproximando e, por fim, Wanda decidiu sentar- se no banco, logo ao lado de seu joelho, de costas para ele. — Acordei você quando saí?
Ela apenas negou com a cabeça e se manteve quieta, aparentemente tensa, e eles seguiram assim por um tempo: o silêncio preenchendo tudo o que deveriam dizer um para o outro, afinal, era evidente, pela maneira como ela demorou para contar sobre a ligação de Sam, que algo parecia não dito ali.
Wanda tinha uma xícara de chá sob o edredom e tomava alguns goles de vez em quando, embora mantivesse a postura encolhida na manhã fria cada vez mais clara pelo raiar do sol. Pensou em contar sobre o que descobrira com Sprite, mas não soou correto começar assim, então a própria ruiva optou por fazê-lo após um suspiro pesado.
— Me desculpe por ontem, eu… eu não sabia que tinha… Planos de ir embora. — Ela abaixou o rosto, de forma que os fios pesados encobriram qualquer expressão que pudesse tentar ler. — Bem, ao menos, não tão cedo, depois do que conversamos.
Bucky agradeceu mentalmente que a xícara de café já estava posta sobre a mesa ao seu lado, pois seus dedos se entrelaçaram em nervosismo mútuo pelo rumo daquela conversa. Ela havia pedido que ficasse, pois precisava de alguém que confiasse em meio a todo o caos em que estava vivendo e, nessa época, sequer sabia a verdade sobre ser filha de Chthon.
Com o tempo, a ideia de ir embora e deixá-la ali, quase que à própria sorte, parecia cada vez mais errada, até inapropriada, por isso sequer passou por sua cabeça que, em algum momento, a data combinada com Sam em um impulso covarde chegaria.
Estava tão concentrado nela e no que acontecia ao seu redor que voltar só parecia uma opção quando recebia uma ligação, recordando que havia um mundo para além de Wanda Maximoff. Tinha que encarar que não era como se estivesse ansioso para voltar para um ente querido ou algo do tipo, como quando ainda combatia ao lado de Steve na Segunda Guerra e datas como o Dia de Ação de Graças eram esperadas ou ultrapassadas de maneira solitária.
Porém, ao mesmo tempo, era o que precisava ser feito, certo? Sempre encarou sua estadia ali como temporária, embora, a cada vez que a olhasse nos últimos dias, suas convicções estremecessem em alguns centímetros. Era como se a noite anterior tivesse mudado tudo, mas também nada.
— Eu não sei… Se, realmente, tenho.
Suas mãos espalmaram uma contra a outra e Bucky não levantou os olhos para encará-la. Podia sentir a atmosfera desconfiada em torno de si e Wanda não demorou para se virar novamente, encarando o lago tanto quanto ele em um silêncio desconfortável.
— Tenho a impressão de que… — Ela gaguejou em seu sotaque mais pesado do que o comum, os dedos ansiosos se sobressaindo ao redor da xícara de chá grande, que segurava mesmo com o edredom ao redor. — Está sempre agindo como se estivesse prestes a pegar o primeiro trem.
Bem, essa era a maior verdade sobre Bucky. Sempre que algo que ela fazia lhe causava algum sentimento inédito e diferente, ponderava que aparentava ser bem menos complicado, simplesmente, pegar um trem e partir. Seria melhor assim, pois uma parte muito confiável de seu instinto, constantemente, o alertava de que alguém não sairia inteiro dessa história e, depois da última noite, desconfiava com bastante veemência que fosse ele.
Apesar de tudo, não era como se não tivesse previsto que seria assim e, por isso, sempre tentara evitar qualquer passo arriscado com Wanda. No entanto, ali estavam eles depois de ultrapassar todos os passos arriscados, pois, é claro, parecia incapaz de tratá-la e à situação como um todo de maneira fria e razoável.
— Combinei com Sam de voltar para o Dia de Ação de Graças depois daquela noite no hotel. — Não havia mais o que esconder e o celular descansava no bolso do moletom para retornar a ligação do dia anterior. — Ele me esperaria em Praga.
— Er... — Ela pareceu ter prendido a respiração e descansou a xícara no banco ao seu lado para ajustar o cobertor em torno dos ombros e mantê-lo ali de maneira apertada. Observou que Wanda pareceu inquieta por um momento, mas logo respirou fundo, buscando as palavras certas em seu tom baixo e profundo. — Eu não… Não queria que se arrependesse.
— O quê? — A fala foi mais rápida do que o próprio cérebro, quase esmagada pelo tom quebrado dela. Wanda se lembrava de tudo o que havia acontecido naquela noite? Ela não deveria ter que se preocupar com isso em relação a ele ou a ninguém, mas ficou surpreso que fosse algo que passasse por sua mente. Algo que deveria ter pairado sobre a ruiva por todo o dia anterior após a ligação de Sam, o que fez com que se contorcer internamente. — Wanda…
— Eu apenas… — Ela procurou as palavras certas, meneando a cabeça em negação e observou a própria bota contra a grama seca. — Eu sei que sou uma bagunça e que ficar perto de mim pode soar como… Um fardo. Mas eu pensei… Que… Eu senti…
— Wanda, pare. Só… — Se inclinou, alcançando a caneca de chá que ela segurava firmemente e a tomou para si sem enfrentar muita resistência, colocando na mesa, ao lado da sua. — Pare.
A ouviu suspirar insatisfeita e se colocar de pé, como se precisasse disso para conseguir colocar a cabeça em ordem. Ainda enrolada no edredom, parecia uma imagem muito frágil e distante daquela que sempre associava a tudo o que Wanda era. Poderia considerar mais íntimo e confortável e, por um breve instante, desejou que não estivessem ali, pois não gostaria que ninguém mais pudesse presenciar aquela faceta dela. Apesar de cansada e farta de tudo, também era mais desarmada.
— Durante toda a minha vida, em algum momento, todos tentaram minimizar ou mascarar o que eu sou, quem eu sou. Mesmo Visão, quando… — O tom dela não era desgostoso nem embargado, apenas linear e conformado, mas, de repente, Wanda suspirou pesadamente e pareceu mudar de ideia. — Por algum motivo, quando você me olha, sinto que não vê a garota descontrolada que todos veem, entende? Nunca houve qualquer temor ou desconfiança e isso é… Novo pra mim. Só gostaria que tivesse sido sincero sobre… Realmente, ir para a casa.
— Venha aqui… — A viu apenas apertar os lábios e virar o rosto em frustração, como que para engolir as palavras e crenças próprias. Então, se inclinou novamente e alcançou a parte da frente do cobertor para puxá-la até que voltasse a se aproximar. Mesmo com alguma resistência, em passos pequenos, Wanda deixou que a puxasse mais e mais perto, apesar de toda a tensão que a habitava, sentado cada vez mais próximo da borda da mesa de maneira, o que deixava seus olhos na mesma altura. Mas não era só isso… Não queria que qualquer “discussão” fosse ouvida por terceiros, muito menos todas as outras coisas. — Eu realmente deveria ter contado sobre os planos de ir embora para o feriado… Mas, acho que… Não queria te desapontar com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. E também… Não queria lidar com… a ideia de te deixar aqui sozinha. Você me confunde e isso não é ruim, é apenas… Uma constatação.
Ela levantou os olhos por um instante, o tom esverdeado um pouco mais claro contra a claridade da manhã e os cabelos meio fora de ordem, também devido a hora. Apesar disso, ainda parecia como a mulher que estava sempre concentrada demais em seus próprios pensamentos e convicções, apesar de ser muito silenciosa em relação ao mundo. No entanto, Bucky não queria que fosse silenciosa com ele ou sobre eles.
— Está tudo bem… Eu fui egoísta quando pedi que ficasse, eu apenas pensei…
— O que você pensou?
Ela desviou os olhos e a observou tentar insistir, mas seus dedos, de carne e osso, tão quentes quanto a pele da nuca dela, se infiltraram ali, e a puxaram para si, interrompendo o falho discurso de autopiedade quando sua boca pousou sobre a dela. Parecia fazer tempo demais e seus lábios se encaixavam tão perfeitamente bem quanto na outra noite. Então, quando sentiu que ela suspirou e, provavelmente, não tentaria emendar outra crise de identidade e insegurança, se afastou apenas o suficiente para olhá-la, sem pressa.
— Wanda… Você sabe que nada do que aconteceu ontem foi apenas por… Empatia, não é? Você não é um fardo, não está nem perto disso. — Ela abriu os olhos para olhá-lo, ainda de braços cruzados por conta do edredom, mas não deu qualquer resposta concreta. Ajeitou os cabelos ruivos e compridos ao redor do rosto praticamente desenhado, fascinado por poder olhá-la tão de perto novamente. — Sinto muito que Sam tenha dado a entender que era uma certeza, mas… essa nunca foi a minha, mesmo quando pensava que deveria ir. Você até pode ler a minha mente.
Ela sorriu sem muita vontade e, finalmente, se moveu para abraçá-lo. Bucky se ajeitou sobre a mesa de maneira que não ficasse na lateral junto ao banco e Wanda se colocou entre suas pernas, os braços o rodeando sem se livrar do cobertor e sem se preocupar com o próprio peso ao se deixar ser sustentada por ele. E quando contornou a cintura quente dela por baixo do empecilho do tecido grosso e ajeitou seu queixo contra a curva do pescoço macio, inebriado pelo cheiro dos cabelos ruivos compridos, já a sentia um pouco menos tensa do que aparentava antes.
— Não preciso ler sua mente. — Ela murmurou.
— Ah é? Porquê?
Se afastou, estreitando os olhos para a versão matinal da ruiva, perfeitamente capaz de se lembrar da constatação desdenhosa de que seus pensamentos eram altos demais e que tentava bloqueá-los de maneira deliberada para lhe dar privacidade. Porém, Wanda somente voltou a abraçá-lo em meio a um suspiro vencido, sem nada a dizer.
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