The Hurting. The Healing. The Loving.
12 Capítulo 11
Wanda não apareceu naquela manhã.
Desde que chegaram da cidade na noite anterior, após o episódio na rodovia junto ao pé da montanha, ela havia se dirigido ao quarto avisando que não estava com fome e não jantaria. Bucky não comentou, apenas foi dormir e acordou naquela manhã esperando encontrá-la de pé, pois Wanda parecia ter o hábito de levantar assim que o dia raiava.
Porém, tudo na cabana se mostrava absolutamente quieto e silencioso. Até mesmo o movimento do lado de fora, de brisa e aves acordando, parecia ter sido... Repentinamente pausado. Bagunçando os cabelos, estreitou os olhos para a vista além da janela tentando enxergar algo fora da normalidade, mas não havia nada, além do que impalpável, aquilo que não conseguia descrever, mas habitava tudo ao redor que, tinha certeza, estava relacionado aos poderes da ruiva.
Aproveitando que ainda havia pão de massa preta, apenas fez ovos mexidos como acompanhamento e esperou, sem detectar qualquer movimento antes de resolver sair. Wanda sabia se cuidar, Sam havia dito no dia anterior, sugerindo que o que poderiam fazer – como meros soldados treinados em combate – por alguém como ela era ínfimo.
Bucky não discordava até certo ponto, pois sequer compreendia como funcionava aquela aura escarlate em torno de Wanda Maximoff, assim como por toda ela, especialmente nos olhos, mas a noite anterior havia acendido um alerta nele. Por mais que fizesse uso dos poderes, nem mesmo a jovem parecia saber o que havia acontecido. Então, antes que resolvesse sair para correr como pretendia, resolveu bater no quarto dela.
Três vezes, seu dedo soou contra a porta sem qualquer resposta.
— Wanda. – Esperou, tentando identificar algum movimento do outro lado, mas não havia nada. Olhou ao redor, com o cenho franzido tentando encontrar algum sinal de que ela saíra sem que houvesse percebido, mas tudo aparentava estar em seu devido lugar, inclusive a porta do quarto de hóspedes, firme e permanentemente fechada. – Wanda, está aí?
Bateu novamente, um pouco mais alto. Estava pronto para testar a fechadura em detrimento da privacidade dela, quando a maçaneta foi girada num ruído baixo e a porta lentamente aberta numa fresta pequena, como que num gesto de permissão. Desconfiado, empurrou a superfície de madeira esperando encontrar lá dentro algo parecido com o que vira no outro quarto, a entidade e a energia escarlate habitando por todo o lugar.
Porém, o cômodo parecia simplesmente comum e ordinário, não fosse o monte encolhido na cama sob cobertores pesados. O cabelo de Wanda estava esparramado sobre o travesseiro, completamente bagunçado em todas as direções possíveis e suas feições se encontravam fechadas e tensas enquanto tremia, claramente apertando os cobertores sobre si. Pelo que podia observar de onde estava, respirava com dificuldade em razão dos calafrios que a tomavam a todo o instante.
Era uma cena completamente atípica, que não esperava relacionar a alguém tão, aparentemente, forte quanto ela. Miticamente forte. Como era possível que ficasse doente e à mercê de algo tão fundamentalmente humano? Franzindo o cenho, encaminhou-se até a cama e desligou o abajur antes de colocar a mão sobre a testa, notando a temperatura super quente emanando dali.
— Você está ardendo em febre. – Murmurou sem conseguir chamar a atenção dela. Em meio a um suspiro resignado, apertou onde deveria ser o ombro sob os cobertores, tentando acordá-la sem muita brusquidão. – Wanda, você está doente.
Sem forças, a ruiva se remexeu sob os cobertores e tentou abrir os olhos para encará-lo, mas não durou muito antes de se virar, abraçando lentamente o travesseiro do lado direito da cama. Estava acostumado a vê-la muito exausta a qualquer momento do dia, como se dispendesse energia demais em alguma atividade, porém, nada havia sido como aquilo.
— Não se preocupe. – Ela murmurou de maneira enrolada, engolindo em seco, o que ele teve que se aproximar para entender. – Vai passar.
— Porquê está com tanta febre...?
Questionou intrigado como que para si mesmo sem realmente esperar resposta, acompanhando um novo tremor perpassar o corpo dela. Percebeu que ela ainda estava com as roupas do dia anterior, que havia usado para ir até a cidade, e que, o que quer que a tenha batido, aconteceu logo depois de terem chegado.
Em meio a um suspiro resignado, voltou à cozinha e abriu alguns armários procurando algo que pudesse ajudar. Por algum motivo, embora não a visse realmente usar, Wanda possuía uma cesta com ervas de todos os tipos. Fosse o que fosse o motivo daquela febre, sabia que remédios artificialmente fabricados não resolveriam. Com facilidade, identificou o vidro de manjericão e despejou uma boa quantia de folhas dentro de um copo antes de colocar em infusão com a água quente da chaleira.
Então, pegou uma bacia de porcelana grande e foi até o banheiro para encontrar a pilha de toalhas brancas e felpudas que estavam sempre à disposição na prateleira de três apoios junto à porta. Voltando ao quarto de Wanda após encher de água a bacia, notou que a jovem continuava na mesma posição, dormindo pesadamente apesar de encolhida. Sabia que, nesses casos, dormir era sempre um fator aliviante, pois o próprio corpo se empenharia em combater o motivo da febre.
Porém, como não poderia sequer começar a imaginar o que poderia tê-la levado àquele estado, resolveu fazer o que estava ao seu alcance. Colocou a bacia sobre a mesa de cabeceira e alcançou o ombro de Wanda para fazê-la se virar. A viu resmungar alguma coisa, mas não compreendeu e, por isso, concentrou-se em molhar a toalha dobrada e colocá-la sobre a testa, primeiramente, pressionando por alguns segundos.
— O que está fazendo...?
Ela tentou empurrar sua mão quando colocou a toalha obviamente fria sobre o pescoço quente. Porém, sequer tinha forças para lutar ou abrir os olhos, apesar do incômodo evidente. O tom de voz era rouco e completamente enrolado, provavelmente pela falta de água. A Maximoff estava naquele quarto desde a noite anterior e não tinha ideia de quantas vezes conseguira se levantar antes de realmente ser vencida pela febre.
— Precisamos baixar sua febre. – Pressionou a toalha novamente no pescoço, vendo-a claramente tremer enquanto, inconscientemente, tentava se ajeitar na cama, abraçando o travesseiro, agora felizmente voltada para ele.
— Vai passar. – A respiração alta pela onda de tremores fazia com que o estado dela soasse preocupante, no mínimo. Ainda assim, ela tentava completar a frase em sussurros e Bucky apenas acompanhou tentando decidir se havia alguma consciência no que ela dizia ou se eram apenas delírios. – Não é necessário... É ela...
Estacou o que fazia, encarando-a como se estivessem de fato conversando, o que era absurdo. Com o cenho franzido, examinou a aparência totalmente caótica, de cabelos vermelhos espalhados por todos os lados, as olheiras sob os olhos, ainda que fechados e os lábios sem cor ressecados pela febre. Wanda não parecia realmente presente naquele quarto para manter um diálogo minimamente coerente, mas aquilo não era algo a se descartar.
— O que tem ela? – Esperou por um instante, observando-a apenas cochilar. – Wanda, o que tem ela?
Insistiu chamando-a um pouco mais alto, o que a fez despertar por um instante, respirando fundo. Percebeu que os olhos verdes conseguiram focar nos dele, ainda que estreitos pelo esforço e, possivelmente, a pouca claridade que adentrava pela janela de cortinas puxadas. No entanto, durou apenas alguns segundos e, logo, Wanda se deixou levar pelo sono novamente fechando os dedos sobre o pulso que mantinha a toalha contra o pescoço dela. Esperou que ela fizesse qualquer movimento para tentar afastar denovo a toalha fria ou sua mão, mas, ao que parecia, esse seria o único esforço físico que ela empenharia ali.
— Vai passar...
Continuou com as compressas frias por mais alguns minutos até notar que o corpo dela não tremia mais em espasmos contínuos pelo frio. Então, deixando de lado a toalha, foi até o banheiro do corredor novamente e revirou as gavetas onde a havia visto guardar os instrumentos de primeiros socorros, que utilizou no curativo em sua cabeça, encontrando um termômetro.
Agradeceu mentalmente que as roupas de Wanda fossem largas o bastante para, simplesmente, afastá-las no ombro e verificou que o pequeno aparelho já estava ligado antes de colocar sob o braço dela. Enquanto esperava o baixo apito, olhou ao redor sem reservas, examinando o quarto dela à procura de algo que explicasse o que acontecia, mas também atento aos pequenos detalhes que pareciam nada ter a ver com seu segredo e o recente acontecimento no quarto de hóspedes.
Era totalmente simples, com um armário de duas portas junto à janela e uma cômoda de quatro gavetas sob um espelho logo ao lado da porta que levava ao banheiro. A única coisa que parecia realmente mais confortável era a cama de dosséis pesados de madeira na qual ela se revirava sob as cobertas. Com um meneio de cabeça, porém, notou objetos aleatórios espalhados de qualquer jeito sobre a superfície de madeira da cômoda, junto às coisas pessoais da ruiva.
O pingente em forma de medalha em prata prensada lhe chamou a atenção primeiro. Levantando a corrente com os dedos enluvados, notou a figura de uma santa aparentemente católica entalhada no alumínio malmente arredondado. Parecia algo feito à mão e provavelmente não teria sido caro em – virou o pingente entre os dedos – 1995, a data também havia sido marcada em letras não muito caprichadas.
Além disso, havia algo que parecia uma faixa para cabelo na cor azul escura, um relógio digital de visor e pulso muito pequeno, que estranhamente estava estacado numa data dos anos 90 e, por fim, sobre um porta-coisas de porcelana havia uma fina aliança de ouro moldada para um dedo pequeno demais. Examinou o interior para encontrar as iniciais W e V juntas e colocou tudo de volta onde pertencia sem conseguir conectar objetos tão aleatórios, mas, ao mesmo tempo, tão específicos — exceto pela aliança, claramente uma lembrança de Visão.
O apito do termômetro soou no silêncio do quarto abafado, despertando-o de seus devaneios, e Bucky foi pegá-lo, constatando que a febre parecia controlada e, talvez, agora ela dormisse melhor e não tremendo de frio como estava anteriormente. Então, foi até a cozinha e pegou o chá que havia preparado para deixá-lo junto à cabeceira da cama. Em algum momento, Wanda acordaria e concluiria que serviria para combater o motivo de sua febre, qualquer que fosse ele.
Por isso, ajeitou a roupa dela nos ombros e a cobriu novamente. Mesmo sabendo que esse não era o procedimento certo para alguém no estado dela, não seria um carrasco e a faria deliberadamente passar frio, visto a óbvia fraqueza e falta de consciência em que a mulher se encontrava. Então, se encaminhou à porta e saiu do quarto.
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