Quando subiu pesadamente e sem pressa os degraus da cabana no anoitecer daquela tarde, imediatamente sentiu o aroma de comida preencher o ambiente, assim como o movimento totalmente inesperado do lado de dentro a julgar pelo modo como deixara Wanda completamente doente dormindo.

Havia rodeado parte do lago contando mentalmente os minutos, se forçando a se concentrar em algo quase tangível para se manter são, enquanto observava a paisagem que, apesar de pitoresca, parecia lhe sussurrar algo muito baixo em seu ouvido.

Era como se, o que tivesse de ver e o que procurasse, embora não soubesse o quê, estivessem bem à sua frente, mas tudo o que conseguia enxergar soava superficial e não ia muito além do que os olhos podiam captar. Se tratava de nuances, as quais, muito possivelmente, a ruiva da cabana explorava. Se havia alguma certeza em Bucky naquele momento estava relacionada ao fato de que Wanda não escolhera se estabelecer ali de maneira aleatória.

Franzindo o cenho, a encontrou junto ao fogão cozinhando algo em fogo baixo enquanto mexia calmamente. Os cabelos estavam molhados e penteados, caindo soltos pelas costas e o pijama era de cor diferente do que usava enquanto dormia.

— Achei que tivesse partido. – Wanda se manifestou primeiro, sem fazer questão de se voltar a ele. – Por um momento.

— E você não é... Sensível às presenças alheias? – Elaborou lentamente, deixando a jaqueta que há muito tirara e carregara por todo o caminho sobre o encosto do sofá, que costumeiramente servia de cama.

— Estou tentando não invadir a privacidade da sua mente.

Wanda declarou de maneira linear, sem deixar de surpreendê-lo. Realmente, não sabia o quanto de sua mente se encontrava completamente à mercê dos poderes dela e, embora soubesse que era muito, não passava por sua cabeça que ela tivesse que se controlar para evitar “invadi-lo” – como se fosse seu primeiro instinto.

Tentou chegar à uma conclusão sobre a opinião dela a respeito da possibilidade de ir embora a qualquer momento, mas não havia nada emocional no timbre da voz, apenas factível e até... Apático, de certa forma. Ponderou que fosse mais por seu estado de fraqueza do que qualquer outra coisa, a julgar pela postura cansada dos ombros e o tom baixo.

— O que está fazendo?

Resolveu mudar de tópico, pois, embora realmente preferisse que ela não se embrenhasse pelos recônditos mais traumáticos de seu cérebro, também não tinha a intenção de pressioná-la.

— Alguma comida de verdade. – Ela respondeu sem entrar em detalhes e continuou após um instante. – Ainda dá tempo de tomar banho antes que fique pronto.

Bucky levantou uma sobrancelha se perguntando se, ao menos, parecia sujo, mas simplesmente anuiu à sugestão com uma breve concordância antes de pegar suas coisas e realmente seguir para o banheiro.

Desde que chegara, vira Wanda apenas beliscando qualquer coisa comestível e se movimentando para fazer uma refeição apenas porque já estava pronta, totalmente desinteressada. Não imaginava como ela estava sobrevivendo com alimentos instantâneos e apenas embutidos, mas dava para ter uma ideia pela forma como parecia realmente fraca nos últimos dias. Provavelmente sua mente e seus poderes vinham demandando mais energia do que dispunha.

Terminou sua higiene aparando as arestas da barba sem realmente tirar o comprimento, algo que vinha se tornando um hábito. Raynor o convenceu que precisava da rotina de um ser humano comum, como ir ao cabeleireiro com frequência, conversar com pessoas normais, que não tivessem a ver com seu passado de forma alguma, conhecer novos lugares, manter o hábito de exercícios físicos e fazer a barba nos dias corretos.

Assim, quando olhasse no espelho, não se associaria imediatamente ao Soldado Invernal e às coisas que fizera sob o domínio mental da H.Y.D.R.A. Funcionava em algum nível, ponderava todas as vezes que se encarava depois de terminar um desses processos, mas não completamente, afinal o problema não era sua aparência, mas o que fizera com aquelas mãos e o instinto de um assassino em sua cabeça.

Terminou de recolher suas coisas e voltou à sala, notando que Wanda já havia colocado à mesa e tomava um chá qualquer junto à janela baixa que dava para a varanda, segurando a xícara de generosa com ambas as mãos. Não parecia exatamente concentrada, mas um pouco perdida a julgar pelo olhar muito longe. Não lembrava em nada a mulher poderosa que realmente era, mas praticamente uma adolescente distante e desleixada, a julgar pelo conjunto azul claro de pijama que, curiosamente, terminava nos pés vestidos em meias claras.

Então, em resposta à sua movimentação, guardando seus pertences de volta à mochila espaçosa, Wanda desviou sua atenção a Bucky, antes de se dirigir à mesa sem demora.

— Vamos comer, então. – Se acomodou à mesa logo à frente dela, observando que havia preparado uma refeição simples de purê e cordeiro mal passado. Teria apostado numa prática sopa de legumes, mas ela parecia determinada a comer algo mais sólido a julgar pela forma como se serviu sem demora depois que Bucky fez o mesmo. – Eu coloquei especiarias locais, espero que não se importe.

— Vivi no Leste Europeu muito mais tempo do que em qualquer outro lugar. Tudo isso é... Familiar pra mim. – Explicou depois de provar o prato. – E você cozinha bem.

Um brilho satisfeito surgiu rapidamente nos olhos verdes e Wanda apenas meneou a cabeça, voltando a comer em silêncio. Não havia realmente o que conversar, pois não queria adentrar em detalhes sobre sua longa estada naquela parte da Europa e a ruiva parecia sempre mais centrada em si mesma. Logo, os dias se tornariam iguais demais, sabia, e pensava sobre como seria quando acontecesse quando ela cortou o silêncio, não muito mais interessada na comida.

— É uma projeção. – O tom baixo no sotaque sokoviano cortou novamente o silêncio que percorria cada metro quadrado da cabana. – Você perguntou o que era... Aquilo que viu. É uma projeção astral.

Levantou as sobrancelhas, surpreso pela decisão, ainda que ela não parecesse exatamente feliz por estar compartilhando aquilo. Enquanto tentava encaixar a nova informação com o pouco que sabia e havia visto, a observou usar o garfo para brincar com a comida no prato e travar os ombros em tensão.

— Porquê há uma projeção astral no quarto de hóspedes?

Perguntou no mesmo tom tentando não a acusar, simplesmente, por ter escondido isso. Certamente, não a conhecia o suficiente para se colocar numa posição julgadora, além de não conhecer a extensão de seus poderes. Wanda, então, deu ombros e molhou os lábios, se preparando para encontrar as palavras certas.

— É difícil explicar. – Ela pareceu decidir, por fim, no que Bucky franziu o cenho e ajeitou os talheres com cuidado ao lado do prato.

— Como consegue fazer isso? Como... Desenvolveu essa habilidade?

— Quando vim pra cá, notei que ficava muito cansada quando usava meus poderes por um tempo recorrente. – Meneou a cabeça, quase aliviada por finalmente ouvi-la verbalizar o que havia pairado por tanto tempo ali. – A projeção é uma alternativa a isso.

— Ainda parece em constante exaustão. – Argumentou, sem compreender o ponto.

— Sim, mas não como antes. – Ela soltou um sorriso amargo, provavelmente recordando algum acontecimento relacionado.

— A projeção parece muito diferente de você. – Wanda levantou os olhos para encará-lo com atenção, de repente. – Quero dizer... Ainda é você em aparência, é claro, mas tem algo... Algo não natural, que não é próprio seu.

Havia notado, Wanda era sempre reacionária, uma característica tão puramente humana que a sombra escarlate dela não parecia ter absorvido. Apesar da cor, a outra era fria e sobrenatural, como uma entidade distante e muito aquém da realidade daquela cabana, que jamais seria acessível e, por isso, a instantânea expulsão do quarto de hóspedes.

— Quando faço uso dos meus poderes... Não é só eu. – Novamente, a ruiva pareceu incomodada em meio a um suspiro mecânico. – Há essa... Outra parte de mim agindo, me complementando. É isso o que ela é.

Bucky franziu o cenho, recordando os murmúrios delirantes de horas atrás, quando, ainda que estivesse claramente queimando em febre, tinha certeza que passaria porque se tratava “dela”, essa outra face do que Wanda era.

— Enquanto delirava com febre, você disse que era “ela” e que ia passar. O quê ou... Quem é ela?

A observou se recostar à mesa, os cabelos já mais secos caindo sobre os ombros e a postura pensativa, de braços cruzados. Havia desistido completamente da comida. Não sabia se Wanda fazia algum truque com os poderes, mas nunca conseguia ler muita coisa nas feições, além do óbvio cansaço e a resistência de se abrir.

— Eles chamam Feiticeira Escarlate. – Imediatamente, a imagem da figura etérea no quarto de hóspedes lhe veio à mente e imaginou se a ruiva continuava mantendo-a enquanto conversavam. – Antes, soava como uma lenda com a qual as pessoas não gostam de brincar, pois coisas ruins e inexplicáveis acontecem quando se toca neste nome. Agora... Eu sou ela ou... Ela sou eu... Eu não sei...

— Então, porquê a febre? Porquê ela estava fazendo aquilo?

Continuou a perguntar tudo o que podia para tentar conseguir juntar as peças, mas Wanda se levantou, não exatamente abrupta pela falta de forças, apenas... Apática. Tudo nela parecia apático, desde que voltaram da cidade, desde que ela vira algo na estrada.

— Às vezes, eu ultrapasso os limites e... Alguém precisa pagar o preço. – Ela disse de maneira conformada, recolhendo o próprio prato e se dirigindo à pia, claramente tentando finalizar a conversa.

— E há um motivo específico para se colocar nesse lugar de esgotamento total? – Insistiu, concluindo que os limites talvez tivessem a ver com o uso excessivo dos poderes daquela que ficava no quarto de hóspedes. Wanda deixou o prato dentro da cuba da pia e se apoiou nos dois braços, abaixando a cabeça. Quando notou que ela deixou o silêncio se prolongar, também se colocou de pé e se dirigiu até ela. Percebeu pelo perfil sombreado como ela engolia em seco enquanto mantinha os olhos fechados. Não havia dor em suas feições, mas um incômodo claro residente nos olhos firmemente cerrados. – Espero que seja algo que valha a pena.

De repente, Wanda o encarou e, apesar de parecer mais próxima e humana, também aparentava mais agonia a julgar pelas lágrimas seguras no canto dos olhos esverdeados. Porém, ela continuou apenas pensando e Bucky, por fim, colocou o prato sobre a pia e se afastou, sem mais nada a acrescentar.

Notas finais
Novas interações entre eles e a explicação do que a gente já sabe o que é, mais ou menos. É claro que, ao longo da história, farei algumas mudanças sobre a Feiticeira Escarlate para o melhor desenvolvimento de tudo! Enfim, me deixem saber se gostaram deste capítulo e como essa jornada tá sendo pra vocês! ♥