The Hunter's Chronicles

1 Conto 1 - O Apache


Com exceção dos pássaros que podiam ser ouvidos cantando e grasnando aos montes em várias direções diferentes e do pequeno titilar da pequena cascata tocando a superfície da água, o silêncio reinava absoluto naquele pedaço de floresta. Tratava-se de uma pequena reserva ambiental situada em Ídra, uma cidade na parte ocidental do continente, ao norte de Yorubian, em Mimbo. Nela, encontravam-se vários espécimes raros e alguns praticamente extintos ao redor do continente, só sendo encontrados ali. O contato com aquelas criaturas únicas e maravilhosas, juntamente com belíssima flora do local proviam a Shagga o ambiente perfeito para uma meditação. Sempre recorria a esse ritual de relaxamento antes de uma luta. Postara-se numa pedra larga, bem no meio do lago e ali passara toda a manhã, esvaziando a mente e alimentando o espírito com energias positivas. Percebendo, pela intensidade dos raios solares, que o sol já era o de meio dia, muito provavelmente, libertou-se completamente de seu estado passivo e pôs-se de pé para fazer sua viagem. Bebeu um pouco da água do lago e fez alguns alongamentos antes de partir. Era um homem alto, de membros longos e musculosos. O queixo era quadrado e forte, o rosto sério e pouco expressivo. O cabelo que caia pelos ombros desarrumado, era de um castanho bastante claro, enquanto a pele era relativamente bronzeada devido ao contato constante com a natureza diurna.

Já do lado de fora da reserva, deu uma ultima contemplada em sua beleza.

Não falharei com você, afirmou com convicção. E partiu.

Pensou em pegar um dirigível, mas decidiu que um simples ônibus seria rápido o suficiente para chegar sem atraso ao seu objetivo. E estava certo. Demorou um pouco mais de uma hora para chegar. Quando pensou em fazer uma breve meditação já estava à sombra da magnífica Torre Celestial. A colossal estrutura se erguia até sumir de vista, com seu aspecto irregular e assimétrico. Por mais que não fosse chegado a construções humanas, preferindo a simplicidade da natureza, não podia deixar de se impressionar com tamanha obra, por mais que já estivesse acostumado a vê-la.

Desceu da condução e pôs-se a vaguear descompromissado pelo pequeno comercio situado aos pés da grande torre. Estava com fome e podia sentir centenas de cheiros diferentes espalhados entre as diversas tendas de comida na região. Temperos e carnes; bebidas e caldos; aperitivos e doces. Era impossível contar, mas apesar do turbilhão de cheiros chamar-lhe bastante a atenção, Shagga trazia consigo algumas frutas que pegara na reserva e para ele isso bastava. Era vegetariano e até encontrar o cheiro de comida natural perdida naquele mar porcarias, demoraria uns bons minutos por mais que confiasse no seu olfato. Decidiu sentar-se em um pequeno quiosque há poucos metros da entrada da torre e saborear sua salada de frutas secas.

O barulho era descomunal, pessoas iam e vinham de todas as direções gritando e gesticulando. Grande parte em êxtase por ter acabado de assistir alguma luta empolgante, outra grande parte ansiosa aguardando começar alguma luta que estivessem esperando há muito. De vez em quando também um lutador conhecido descia da torre para andar pela cidade e alguns fãs iam ao seu encontro pedir autógrafos, gerando mais tumulto pelas ruas. Ali, naquele quiosque também se encontrava uma das mesas de apostas clandestinas mais famosas da região, não atoa Shagga havia escolhido aquele local para comer, queria saber da expectativa popular para a sua luta, visto que era uma das mais – se não a mais – aguardada do dia. Estava de costas e encapuzado para não ser reconhecido.

— ... Agora a grande luta do dia, seus cagões – falava um homem gordo com uma voz meio rouca, provavelmente o organizador da mesa de apostas. – Mostrem as verdinhas e façam suas apostas!

Os homens gritaram em aprovação. Sacavam bolos de dinheiro e objetos como jóias e relógios de grande valor. Esse era o motivo dessa mesa de apostas ser clandestina. A própria torre tinha um sistema de apostas, era inclusive uma de suas maiores fontes de renda, mas lá só era permitido dinheiro. E para algumas lutas importantes também existia um valor mínimo obrigatório para se apostar e esse valor raramente era barato. Por isso, muitos recorriam a apostas clandestinas.

Como já esperado, o rival de Shagga era, de longe, o preferido dos apostadores, até porque se tratava de um Mestre de Andar. Shagga era o desafiante e, por consequência, a zebra na luta.

— Acham que o Conde vai ter algum trabalho dessa vez? – perguntava um homem na mesa. Conde era como se chamava seu rival e parecia que ele próprio se apelidara assim.

— Ah, sem chance – respondeu outro, em tom decidido. — Há anos que não perde, não tem como um novato no andar representar algum perigo — de fato Shagga havia alcançado o 200º há pouco tempo, mas não tinha tido muito trabalho com seus oponentes até agora.

— Ouçam-lhes o que digo, já cheguei a ganhar até 5 milhões nessa mesma mesa apostando no conde em ocasiões passadas – pela forma de expressar e pela confiança nas palavras, Shagga julgou que se tratava de um veterano de apostas. – Mas desta vez vou ir contra a Maré. Preciso de dinheiro e se apostar no Conde hoje não ganharei muito, já que ele é a aposta certa da maioria e além do mais, — o homem, que pareceu a Shagga ser idoso, fez uma pausa enquanto tomava um gole de alguma coisa. — Já vi outras lutas do novato, ele tem talento.

— Ele é formidável! – disse outro homem concordando com o velho. – O jovem Apache... Acho que ainda tem muito a nos mostrar.

— Nossa, é verdade! Não sabia que luta seria contra o Apache – dizia um homem meio arrependido.

— Pois é – o velho veterano voltava a falar – as pessoas já estão tão acostumadas a apostar no Conde e ganhar dinheiro fácil que se esquecem de avaliar seus adversários e o Apache na certa representa perigo.

Shagga era conhecido como Apache devido a suas roupas similares a de alguns povos indígenas, com uma simples calça e uma túnica larga triangular. Também usava uma pena de falcão atrás da orelha e eventualmente pintava o rosto com faixas vermelhas e azuladas, outra característica indígena. Não se incomodava com o apelido, sendo sincero consigo mesmo até havia gostado e também gostava de ser a zebra numa luta, quanto menos expectativa gerada em cima de si, melhor era seu desempenho. O que deixava Shagga um pouco receoso era o fato do seu oponente ser um verdadeiro mistério, apesar de toda a sua fama na torre. Normalmente Shagga não se preocupava muito em estudar seus oponentes, mas como dessa vez lutaria contra um mestre e a pedido de seus amigos, acabou reunindo um pouco de informações sobre ele. Não conseguiu muito, não encontrou gravações de suas lutas e poucos dados eram realmente fidedignos. Contudo, conseguiu o contato de um homem chamado Melk, que além de veterano de apostas, tinha fichas detalhadas de grande parte dos lutadores conhecidos na torre e ele vendeu a Shagga algumas informações. Infelizmente, nada falava sobre suas habilidades, pois o conde havia ganhado suas ultimas seis lutas sem precisar usá-la e Melk não tinha dados de lutas anteriores. O que descobriu era que o Conde vencia rápido. Das seis lutas, quatro haviam durado menos de três minutos. Apenas um lutador misterioso e Marlock haviam durado mais do que isso lutando contra ele. Este ultimo fora um famosíssimo lutador, tido por muitos como o usuário de Emissão mais poderoso da torre, no entanto havia sucumbido em combate perante o Conde. Essa talvez fora a única ocasião em que o Conde não era o favorito em uma luta. Apesar da velocidade com que ganhava as lutas, dos adversários poderosos que vencera e dos golpes letais que aplicava — visto que matava quase 100% de seus combatentes, tendo apenas deixado vivo o lutador misterioso — Shagga percebeu que o Conde não era invencível, pois ele apanhava. E se as estatísticas de Melk estivessem corretas, apanhava bastante. Havia perdido, nas ultimas seis lutas, catorze pontos e esse era um número altíssimo para um mestre de andar. Ele era, na verdade, o mestre que mais havia perdido pontos e, pior, — ou melhor, para Shagga- um dos que menos pontuava. Só havia feito dez pontos no total das lutas e em uma delas perdeu três e matou o adversário antes de marcar sequer um. Pelo que parecia ele não gostava de prolongar as lutas, mas também não conseguia terminá-las sem se expor a ataques.

Lembrar desses dados deixava Shagga confiante e as palavras do veterano na mesa de apostas aumentaram ainda mais essa confiança. Shagga agora havia se afastado da mesa e entrado na torre; sua luta começaria em breve. Chegando próximo ao seu camarim, destinado aos lutadores antes das lutas, retirou o manto e abriu a porta. Assim que a empurrou, ouviu um barulho baixo e oco, como um estalo. Não conseguiu ver nada, pois o breu reinava dentro da sala, mas sentiu odores humanos. Rapidamente deixou o Ten escorrer por todo seu corpo, ficando em estado de alerta máximo. Já estava se preparando para examinar o cômodo com o Gyo quando as luzes se acenderam.

— SURPRESAAA! – um pequeno couro de vozes havia entoado e quando as luzes se acenderam Shagga percebeu que se tratava de seus amigos.

Wíla, Ken, Trevis, Kyle e Eliot haviam vindo para desejar boa sorte. Eram seus amigos e todos trabalhavam com Shagga na restauração da reserva. Não só na reserva de Ítaca, iam para todos os cantos ajudando a preservar espécies de plantas e animais em extinção. Eram biólogos, no entanto apenas Shagga exercia a profissão com uma licença Hunter no currículo. Já estavam juntos há quase dez anos e já haviam ajudado centenas de espécies ao redor do continente e pouco ganhavam em troca. Pelo contrário. Tinham que gastar bastante dinheiro frequentemente. Impedir que seres vivos ameaçados de extinção sumissem do planeta não era uma tarefa barata caso não tivesse um patrocinador bondoso ou interessado em ajudar, e isso eles não tinham, cada um se virava como dava para ajudar, a maioria tinha empregos paralelos apenas com essa intenção. Kyle havia herdado uma pequena fortuna e era que mais gastava geralmente. Trevis e Ken eram mecânico e professor, respectivamente, e seus salários os impediam de contribuir muito. Eliot era empresário e ganhava bastante bem, mas como era um negócio de família, vez ou outra tinha que dar mais prioridade para empresa do que a causa do grupo, mas todos eram compreensivos quanto a isso. Já Wíla era a "líder". Era ela quem viajava a procura de espécies em perigo e procurava nos dar algum lucro com trabalho, fazendo acordos com cientistas e universidades interessados nas espécies que salvavam. O amor pela natureza havia unido a todos e essas eram, sem dúvidas, as pessoas mais importantes na vida de Shagga, uma vez que não tinha família viva. Foi encontrado vagando pela floresta ainda muito novo por um velho e solitário monge. Este o havia acolhido, alimentado e ensinado o que sabia sobre a natureza e os homens.

Para contribuir com o grupo, restara a Shagga o combate. Não tinha outras habilidades em que se destacasse. O velho monge, no entanto, tinha-o ensinado a lutar. Havia aprendido a lutar com as mãos, com lança, espada e machado. Também aprendeu o Nen com um jovem pescador pouco depois de passar no exame Hunter e praticava quase que diariamente desde então. Não gostava de lutas, era verdade, mas tão pouco fugia de uma e a torre pagava razoavelmente bem por uma. Era um ótimo jeito de ganhar dinheiro rápido. Acontece que, se quisesse salvar a reserva, teria que ganhar muito dessa vez. Um empresário havia feito um acordo com o governo e comprado, pelo menos, 14.600 hectares da área ambiental e estava disposto a transformá-la em um imenso shopping. Apesar dos apelos de todo o grupo e também de pessoas que moravam próximas a reserva e gostavam de frequentá-la, o empresário não cedeu. Disse que só abriria mão de seu Shopping Center se fosse ressarcido em dinheiro e o preço ficara estimado em salgados 2 bilhões de jenis.

Era a clássica ganância humana. Com o simples intuito de enriquecer, o empresáriozinho estava disposto a desmatar uma floresta única no continente, onde tanto fauna quanto flora, eram de uma raridade pura, singular e fora isso que levara Shagga ao 200º andar. Os pisos inferiores não pagavam mal, era verdade, acima do 180º, por exemplo, podia-se ganhar até 50 milhões por luta. Acontece que para chegar ao valor que precisavam teria que lutar diversas vezes, se fosse o caso, então resolveu pular para o 200º. A sua sorte foi que as regras de premiação do 200º mudaram um pouco, pois até pouco tempo não se ganhava um centavo a partir desse andar, só credibilidade, moral e aposentos privados. Agora, entretanto, ganhava-se 1 bilhão aqueles que conseguissem derrotar um mestre de andar. Essa premiação havia sido uma manobra dos executivos da torre, que perceberam que o número de desafios aos mestres vinha caindo consideravelmente, tendo em vista que as lutas contra os mesmos eram deveras sangrentas e muitas vezes mortais, por esse fato resolveram então dar um incentivo a mais para enfrentá-los. E foi o caminho que Shagga recorreu. Como para desafiar um mestre de andar precisava-se de um mínimo de 10 vitórias, Shagga havia lutado, no espaço de três meses, contra 11 adversários. Era um número altíssimo para esse período de tempo, pois no 200º os lutadores tinham até três meses para se preparar, então teve que aceitar lutar contra qualquer um que o desafiasse, quase não tendo a chance de escolher os oponentes. Apesar das desvantagens como: a falta de informações sobre seus oponentes, a fadiga entre as lutas – chegou a lutar três vezes no mesmo dia — e da pressa, tinha ido bem. Perdera apenas uma para um usuário de reforço e, quanto ao restante contra quem lutara, só havia tido dificuldade contra 2. Estava até meio desapontado com o nível dos lutadores do andar, mas ao mesmo tempo aliviado por ter alcançado a décima vitória com rapidez. Shagga fora aconselhado a escolher bem contra que mestre lutaria, mas apenas o Conde se mostrou disposto lutar de imediato e como o prazo para pagarem estava quase expirando, não lhe restara muita escolha. Teve três semanas para se preparar para luta e se julgava preparado. Wíla e os outros, com muito esforço, conseguiram juntar pouco mais de 1 bilhão, agora só dependia de Shagga.

Nos minutos que se seguiram antes da luta, seus amigos brincaram, conversaram, aconselharam e brindaram no camarim. Estavam muito felizes por Shagga ter se dedicado tanto para ajudar, porém também estavam visivelmente preocupados, principalmente Wila. Dizia o tempo todo para não exagerar e se percebesse que a luta seria perigosa demais, que simplesmente desistisse. Shagga preferia morrer a fazê-lo, mas mentiu para confortá-la. Faltando apenas dois minutos para a luta, começavam a se retirar dos aposentos.

— Arranque a cabeça dele, sim? – disse Kyle animada. Era a que estava mais confiante na vitória de Shagga.

— Escute, a ultima coisa que quero agora é pressioná-lo – dizia Trevis. – Mas estamos tão perto! Dê tudo de si, ok? Tenho toda a fé que vencerá!

— Sabe muito bem que não suporto... bem, isto – Ken fazia um gesto para o fundo do corredor, onde platéia gritava a medida que a narradora fazia a apresentação dos próximos lutadores – Mas não nos restou muitas opções, então, boa sorte, amigo. Vença mais uma!

Eliot limitou-se a dar um sorriso e uma pancada amigável no ombro. Ele sabia que para Shagga isso já bastava como motivação.

— Prometa-me de novo – exigiu Wíla. Os outros já iam seguindo no corredor para assumir seus lugares na platéia. – Prometa-me que irá desistir imediatamente caso corra perigo – seu semblante era triste e preocupado, mas de alguma forma isso realçava sua beleza. Seus claros e grandes olhos castanhos estavam agora também penetrantes e lacrimejosos.

— Prometo – mentiu Shagga e se curvou para passar os braços ao redor de Wíla quando ela o abraçou.

— Independe do que aconteça, você será sempre o meu campeão, sabe muito bem disso – agora, com o corpo junto ao dele, ela parecia extremamente frágil, mas Shagga conhecia muito bem sua determinação e sabia que podia se igualar a força física de qualquer homem do mundo – então não exagere. Daremos um jeito de salvar a reserva, não se preocupe.

— Você quem manda, chefe.

— Bobo – disse ela dando um soco de leve em seu braço. Agora ela sorria, achava graça quando a chamavam assim pois não via o menor motivo, do mesmo modo que Shagga não via o menor motivo para desviar os olhos daquele sorriso. – Então vá pegá-lo, Apache.

— irei – e se dirigiu para a arena.