The Hunter's Chronicles
2 O Conde
Enquanto andava olhava para trás, observando Wíla sumir de vista no extenso corredor. Sua desatenção foi tanta que nem se deu conta que a narradora já estava nas apresentações.
—... E SOFREU APENAS UMA DERROTA DESDE QUE CHEGOU NESSE ANDAR . AQUELE QUE É CONHECIDO COMO "O APACHE", SHAGGAAA!!!!!
Ao ouvir seu nome se dirigiu ao centro da arena. Para sua surpresa, o número de aplausos e gritos ao seu favor suplantava consideravelmente as vaias. A arena estava lotada, Shagga observava. Um caldeirão de pessoas o encava de todas as direções, fazendo um barulho tão possante que o piso da elevada plataforma de concreto na qual se encontrava parecia vibrar sob seus pés. Por sorte, uma de suas maiores virtudes era a concentração e quando a luta começava não sentia pressão nenhuma. Não ouvia e nem via nada a sua volta, só o oponente. Por isso fechou os olhos, respirou fundo e limitou-se a se concentrar no que viria. Esse simples exercício inicial de controlar o foco foi tão eficiente que novamente deixou de ouvir parte da fala da narradora, que já apresentava seu oponente.
— ... ELE, UM DOS INTEGRANTES DO HALL DA FAMA DA TORRE CELESTIAL, CONDEEEEEEEE DE BARTHORY!
Shagga havia ficado impressionado com a torcida a seu favor, pois ainda não tinha visto a do Conde. A arena quase veio à baixo quando ele se dirigiu para a plataforma central. Gritos eram escutaveis e cartazes com seu nome eram visíveis de todas as direções, para não falar nos aplausos e assobios. E o Conde, nitidamente, se deleitava com tudo aquilo. Acenava e sorria displicentemente para toda a arena, para o extremo delírio de seu público. Enquanto ele retribuía o calor da torcida, Shagga aproveitou para avaliar o oponente, e viu um estranho jovem caminhando ao seu encontro. Se o Conde tivesse sequer 20 anos, Shagga ficaria surpreso. Não era alto e faltavam-lhe músculos aparentes, embora o aspecto esguio caísse-lhe estranhamente bem. Era branco como cal, tanto na pele quanto nos curtos cabelos em forma de tigela, que se encontravam embaixo de um ridículo chapéu, semelhante a uma mini cartola. Usava roupas vitorianas impecavelmente limpas, com detalhes em azul e branco e seus caros sapatos escuros possuíam um pequeno salto. Ver aquela figura extravagante acenando e sorrindo futilmente e extasiado com a própria popularidade, deram a Shagga a certeza de que venceria.
Ele luta pelo ego, eu luto por um ideal, disse para si mesmo.
Quando se postou no centro da arena o Conde dirigiu-lhe um sorriso divertido acompanhado de uma breve reverência. Parece nem ter se dado conta de que o juiz lhe falava, dando as habituais instruções antes da luta. Shagga também não prestou atenção no juiz, limitando-se a encarar seu adversário intensamente. Percebeu que seus olhos tinham um estranho brilho vermelho.
— Lutem! – finalmente o juiz deu a ordem. Tamanha era sua concentração que Shagga só conseguia ouvir a narradora e a platéia bem ao fundo.
Esperou na mesma posição por alguns segundos. Como o Conde gostava de acabar rápido com suas lutas, imaginou que gostasse de atacar primeiro, mas ele não esboçou o menor sinal de iniciativa. Continuava também na mesma posição; a mão esquerda na cintura, o braço direito pendendo para baixo relaxadamente e com o divertido sorriso ainda a lhe cruzar os lábios. Vendo que o Conde mostrava pouco interesse em começar a luta, Shagga deixou a aura escorrer por todo seu corpo e correu em sua direção. Imprimiu uma velocidade considerável ao ataque que tinha como destino o rosto do oponente, contudo, quando estava a poucos metros de sua face, desapareceu. Sua velocidade foi tamanha que virou um borrão no ar, reaparecendo em seguida no flanco esquerdo do Conde para disparar um poderoso chute contra sua cabeça. Este, porém, simplesmente levantou seu braço para bloquear o ataque. Ainda no ar, Shagga rodopiou o corpo tão furiosamente que, por instantes, pareceu um pequeno tornado e usou o impulso causado pelo giro para desferir um violento pisão contra o rosto do Conde, que tornou a defender com o mesmo braço. Dessa vez, levantou o cotovelo para que o antebraço recebesse o golpe. Shagga então aproveitou o impulso oferecido pelo bloqueio para se afastar dali.
Ok, a defesa dele é excelente, concluiu. Veremos agora sua agilidade.
O Conde estava na mesmíssima posição em que começara o combate, como se nem tivesse se mexido. Contudo, agora o sorriso no rosto era mais largo. Shagga correu em sua direção novamente, já calculando o quanto de aura precisaria distribuir para o próximo ataque. No seu primeiro golpe havia depositado algo próximo de 60% de aura no chute. Entretanto, o segundo pareceu bem mais próximo de alcançar o objetivo e nele não tinha mais do que 45%. Já estava a menos de 7 metros do Conde quando disparou uma onda de aura para sola dos pés no momento exato em que pisava no chão. Isso lhe deu uma explosão de velocidade absurda! E a distância entre eles desapareceu em milésimos de segundo. O Conde, quando viu um punho esquerdo fechado tão próximo de si, preparou o braço para receber o golpe, mas nunca veio nenhum, pois Shagga novamente havia se tornado um borrão bem na sua frente e desaparecido de imediato. Se encontrava agora a poucos metros sobre sua cabeça e havia canalizado aura em ambas as pernas de tal forma que pelo menos 40% transbordava de cada uma. Dobrou as pernas e esticou-as de uma vez, deixando a aura e o peso de seu corpo fazerem o trabalho. Um estrondo sacudiu a arena e uma densa cortina de poeira veio à tona. Sob os pés de Shagga havia um enorme buraco, fundo e largo, mas não sentia ou via nenhum corpo jazido ali. Quando procurou em volta viu o Conde parado. Na mesma posição e com o sorriso cada vez mais largo, mas agora no lugar onde Shagga havia iniciado o combate.
A velocidade dele também não é de se subestimar. Pensava agora nas estatísticas de Melk. Se ele quisesse, poderia ter aproveitado a poeira para fazer um ataque furtivo. Muito estranho desperdiçar uma chance dessas...
Ao que parecia ele não tinha nenhuma vontade em acabar rápido com a luta como Shagga supôs. Pelo contrário, parecia estar se divertindo. Começou a questionar seriamente as informações de Melk. Com a velocidade e o reflexo que tinha apresentado, era pouco provável que havia perdido tantos pontos. Estava um pouco confuso agora.
— Ora, não vai me dizer que já está cansado – disse o Conde de repente quando Shagga permaneceu estacado por alguns momentos. Apesar da aparência jovial, uma voz estranhamente grave e estridente lhe escapava dos lábios. – A sequência de ataques estava tão criativa — não falava em tom provocador, e sim quase decepcionado. Shagga o ignorou.
Olhou para o relógio e viu que mal haviam se passado 30 segundos desde o inicio do combate. Duvidou que a grande maioria do público estivesse conseguindo acompanhar a luta. Provavelmente, para eles os combatentes tinham feito pouco mais do que trocar de lugar até o momento.
Bem, quanto antes acabar melhor, decidiu e começou a liberar seu Hatsu.
Shagga não esperava vencer um mestre do andar só com o básico de Nen, mas imaginou que conseguiria 1 ou 2 pontos, pelo menos. Pretendia também testar a força dos golpes do adversário antes de partir com tudo, mas agora era tarde. Beast Alliance estava pronto.
— Oooh! – exclamou o Conde em sinal de surpresa. – Uma habilidade assim não se vê todos os dias.
Os pêlos do braço direito de Shagga haviam engrossado, alongado e escurecido. O braço direito que, também aumentara consideravelmente de tamanho, tinha agora pelo menos o triplo de músculos. Vou começar com o Punho de Joe, Shagga decidiu. E sem titubear partiu para cima.
Logo de cara jogou aura para os pés, com a explosão de velocidade correu alguns metros em linha reta depois ziguezagueou até o Conde. Fechou o punho e deu um golpe preciso, reto e, dessa vez, ele precisou dos dois braços para se defender. Abaixou a cabeça e juntou ambos em forma de "x". O impacto o fez deslizar dezenas de metros pelo piso da plataforma e quando ele abaixou os braços, que lhe obstruíam a visão, Shagga já estava no seu encalço, com o punho apontando para seu rosto. Por pouco perdeu o equilíbrio quando acertou apenas o ar, e não o rosto do Conde. Viu de relance uma sombra passar por cima de si. Virou rápido para ver que o Conde pousava suavemente há metros dali. Shagga estava surpreso com a velocidade e o tempo de reação do oponente, mas foi o próprio Shagga quem ouviu um elogio.
— Você é realmente rápido se levar em conta seu tamanho – disse sorrindo, sempre sorrindo. – Suponho que seja um transformador, correto?
— Parece que você andou fazendo pesquisas sobre mim – respondeu Shagga confirmando as suspeitas do Conde.
— Não seja tão tolo – disse ele rindo. – Não gosto de ter nenhum tipo de informação sobre meus oponentes antes de enfrentá-los. Tira toda a graça da luta! – continuou a falar andando calmamente de um lado para o outro. — Comecei a suspeitar da natureza de sua aura porque você faz muitas firulas ao atacar, raramente dá um golpe direto. Transformadores adoram truquezinhos. Alguns controladores também, então não tinha certeza até você usar sua habilidade. Ela mudou a anatomia do seu braço completamente, ou seja, transformou-o – frisou está última palavra. – Enfim, estou curiosíssimo pra saber mais a respeito sobre essa habilidade.
— Se chama Beast Alliance – explicou Shagga de forma obediente. – Com ela, posso copiar partes do corpo de animais com que tenho certa afinidade. Este braço – disse abrindo e fechando as mãos. – Pertence a um tipo de gorila que habita as montanhas orientais do continente. É provavelmente o primata vivo mais forte.
— Incrível, devo admitir. Dito isso – continuou o Conde. – Também devo supor que você é um Hunter ambiental – Shagga confirmou com um aceno. O Conde sorriu – Bem, em troca de ter me revelado tantas informações sobre si mesmo é justo que eu deixe você me acertar com esse braço.
— Como?
— Isso, mesmo. Pode me dar um golpe direto, não vou reagir – e em seguida abriu os braços em desafio.
Seria um truque? Se perguntou Shagga. Ele viu que passo passar facilmente por sua guarda e agora nem sequer pretende se defender?
— O mau de vocês transformadores é achar que todos gostam de truquezinhos como vocês – disse o Conde impaciente. – Ataque de uma vez, já disse que não vou reagir.
Shagga canalizou aura no braço. A atitude do Conde era claramente suspeita, mas Shagga aceitaria o desafio. Desconfiava que ele fosse revelar sua habilidade e isso o empolgou , queria se provar que era digno de vê-la, já que o Conde, ao que parecia, derrotou a esmagadora maioria dos adversários sem precisar dela. Shagga avançou, novamente com ajuda da explosão de velocidade devido à aura nos pés. Pensou em atacar o flanco, ou até mesmo a nuca, mas decidiu não fazer firulas, por isso deu um ataque direto, na barriga. Um barulho meio oco pôde ser ouvido. O braço afundou no corpo do Conde até o cotovelo e conseguiu sentir certa rigidez vinda do interior de seu corpo, devido a quantidade de aura que ele havia usado para se proteger, possivelmente. Sua boca se escancarara e seus olhos estavam tão esbulhados que quase saltavam das órbitas. Shagga pensou em continuar a investida, mas deteve-se e recuou um pouco, esperando alguma reação do Conde. Este, por sua vez, havia caído de joelhos. Logo depois levou uma mão a barriga e com a outra se apoiou no chão, pois por muito pouco não tombou para frente.
— Dois pontos – ouviu uma voz bem ao fundo e percebeu que se tratava do juiz. Quase havia se esquecido dele.
Com muita dificuldade, o Conde erguia-se. As pernas finas bamboleavam como folhas de árvore expostas a uma tormenta. Quando estava quase ereto passou a mão na boca para limpar a saliva. Havia se babado todo ao abrir a boca no momento do golpe, porém era só saliva. Estranhamente não havia uma gota de sangue. O Conde repentinamente riu. Começou com uma risada baixa e atrapalhada, que foi aumentando o tom, depois começou a tossir e quase engasgou. Passado a pequena crise, a risada aumentou de tom até se tornar histérica e obscena, ecoando por todo o andar. Era uma risada perturbadoramente divertida. Shagga não conseguiu conter os calafrios.
— Impossível não parabenizá-lo depois disso – disse o Conde aplaudindo. – Se eu não tivesse juntado quase toda a minha aura na sola dos pés, teria sido arremessado 200 andares abai...– tentou conter uma nova onda de riso mas foi em vão.
Ele não precisou terminar o raciocínio para Shagga começar a suspeitar de sua fala. Era impossível ele ter concentrado aura nos pés e não no local do impacto, dado a força do golpe. Com o Punho de Joe, a força física de Shagga chegava a quadruplicar e com a adição de um pouco de aura que fosse a força do punho se tornava ridiculamente destrutiva, e ele não havia poupado aura no ataque. Pelo menos 60% estava muito bem canalizada envolta da mão gigantesca. E, além do mais, havia sentido certa resistência ao socar o corpo do Conde. Foi uma rigidez considerável; socá-lo havia sido semelhante a socar uma parede de puro concreto, não acreditava que não tinha usado a maior totalidade da aura para evitar de ser arremessado. Aliás, mal acreditava que houvesse se defendido sem usar o Ko. Todavia, Shagga não pôde evitar de ver algum sentido no que o Conde dissera.
Mesmo se eu considerar que ele usou o Ko pra se defender do golpe, como ele se manteve no chão, realmente? Pensava Shagga, novamente confuso. Ou ele usaria aura nos pés ou na barriga; ou ele seria arremessado ou seus órgãos agora seriam geléia. Estou esquecendo de outra possibilidade? Terá a ver com sua habilidade?
— Bem... – o Conde por fim conseguiu se recompor e fez sua voz estridente soar pela arena. – Como prometi, não reagi ao seu ataque. Não que eu conseguiria, devo admitir – ele se apressou em explicar. – Contudo, agora sairei da defensiva, portanto continue me impressionando – disse e sorriu maliciosamente.
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