The Hunter

4 Capítulo 04 - Sonhos do Passado


Notas iniciais
Uma parte do passado de Edward será revelado.

Capítulo 04

Sonhos do Passado

Diversos flashes de memória se passavam pela minha cabeça. Jully. Por que não conseguia esquecer esse nome mesmo depois de tanto tempo?

–... oço! Moço!

Despertei-me dos devaneios com Giuliana me chamando. Balancei a cabeça e apoiei a face na palma de minha mão direita. Desta vez não haveria outra maneira. Teria de voltar para Londres; teria de voltar para aquela cidade amaldiçoada.

Fiz menção de sair da torre da mesma maneira que entrei, porém senti meu sobretudo sendo segurado pela moça no mesmo recinto.

– Por favor, me tire daqui – pediu ela com um olhar de piedade.

Não queria perder tempo com aquilo. Eu não era uma instituição de caridade para ficar ajudando todo mundo. Sairia daquele local o mais rápido possível e resolveria meus problemas pendentes, mesmo tendo que enfrentar aquela cidade para tal. Não iria ajudar ninguém. Estava determinado.

No instante seguinte, eu descia a torre em um difícil trajeto, em minhas costas estava Giuliana, agarrada em meu pescoço e as pernas enlaçadas em minha cintura. Sempre tive o coração mole para com mulheres que precisassem de ajuda. A descida não foi mais difícil do que subir, porém pular o muro do convento com aquela garota nas costas não foi uma tarefa assim tão simples. Se fosse um objeto, a jogaria pelo muro. Mas era um ser vivo, então tive que tomar cuidado.

Por fim, logo estávamos do outro lado do muro e nos afastando. Pegamos um táxi e a deixei na cidade. Ela saberia para onde ir e, de qualquer forma, aquilo não era mais problema meu. Ela se despediu de mim e agradeceu com um beijo no rosto.

Horas mais tarde, eu estava dentro de um avião. Viajava de primeira classe – danem-se os custos do Hunting Nights. Meu destino era aquela cidade maldita onde perdi tudo o que me poderia trazer a felicidade. Mas isso não importava, depois de sete anos, minha vingança estava próxima.

O avião aterrissou no aeroporto de Heathrow. O mesmo no qual parti 10 anos atrás para meu treinamento, era o que me via voltar. Ao sair da aeronave pude sentir a nostalgia me invadindo. As pessoas com seus casacos, o jeito pomposo dos britânicos, as construções que me cercavam; tudo isso me remetia ao passado.

Passava pouco das três da tarde e eu iria dormir, pois a noite era a melhor hora para se pedir informações. Chamei um táxi e pedi ao taxista para que me levasse ao hotel mais próximo. Chegando neste, não reparei no quarto ou qualquer outra coisa, apenas cai na cama e dormi.

Nunca imaginei que lembranças pudessem fazer tão mal para uma pessoa. Porém, estas me perseguiram até em meus sonhos.

* * *

Era final do verão daquele ano e, milagrosamente, não chovia em Londres. Eu cursava meu segundo ano. Era um colégio realmente grande e com mais de dois mil alunos. Nenhum deles me chamava a atenção, até que botei meus olhos nela.

– Acorda, Edward! A aula vai começar – Jean me chamava.

– Que chatice – disse em meio a um bocejo.

– Não sei como consegue essas notas. Só quer saber de dormir. Você é mesmo humano, Edward Van Killen? – disse ele em um tom de brincadeira.

Dei um tapa de leve na cabeça de Jean pouco antes do professor entrar na sala. Foi então que eu a vi. Cabelo loiro ate o meio das costas, olhos tão azuis quanto o céu no dia mais claro que possa existir. O rosto perfeito, sem marca alguma de espinhas ou qualquer outra coisa. E o corpo. Ah! O corpo dela era perfeito. Tinha os seios médios e bem desenhados. Os quadris na proporção certa. Só faltaria uma coisa para ser a mulher perfeita para mim, e isso eu descobriria logo após a aula.

Ela se apresentou para a sala como sendo Jully Garder, sua família tinha se mudado recentemente para Londres e ela estudaria naquele colégio a partir de então.

Quanto mais ansioso se fica, mais o tempo demora a passar. E aquelas horas pareceram dias, talvez semanas. Mas o fim da aula chegou e eu fui falar com ela. Estava quase na saída do colégio. Ela caminhava pelo gramado, paralelamente ao muro do prédio da administração. Seguia em direção a rua sendo banhada pelas sombras das diversas árvores que enfeitavam o pequeno jardinzinho. Foi então que a segui e alcancei.

– Olá, Jully – disse sorrindo.

– Edward, não é? – respondeu-me ela.

– Então você sabe meu nome, talvez isso deixe as coisas mais fáceis.

– Ou talvez mais difíceis.

Ela também sorria, porém, seu sorriso não era algo sedutor igual ao meu; era um sorriso de alguém que esperava se divertir com o que iria fazer. Mal sabia ela que quem se divertiria mais seria eu.

– Por que tornaria as coisas mais difíceis?

– Você é o cara mais popular da escola. Tira sempre notas excelentes. É o melhor em todos os esportes. Os garotos morrem de inveja de você, mas não mais te desafiam porque você surra qualquer um que tentar algo do tipo. E, principalmente, todas as garotas deste colégio querem sair com você, mesmo sabendo que você apenas procura uma noite de sexo e depois as descarta.

Ela tinha minha biografia completa. No entanto, esta continha um erro: saí, sim, com grande parte das garotas daquele colégio, porém, nunca levei nenhuma delas para cama. E se alguma dissesse ao contrario, estaria mentindo.

– Parece que você andou se informando sobre mim. O que significa isso? – disse em um tom sarcástico, porém, sedutor.

– Que eu procuro saber o máximo das pessoas que decido evitar.

Ai! Aquilo deveria ter doido. Mas eu gostei.

– Tem certeza que quer me evitar, Jully?

Dei a volta por seu corpo. Antes mesmo que percebesse, já estava atrás dela, sussurrando em seu ouvido.

– Tem certeza?

Ela se virou para mim e eu aproximei meus lábios dos dela, mas não a toquei. Nossos olhos se encontraram. Azul e verde pareciam dançar em sintonia um com o outro. Ela sorriu. Depois me empurrou com força contra a parede.

– Não vou cair em seus joguinhos infantis. Idiota!

Ela foi embora e eu fiquei. Acho que, naquele momento, soube o que era estar apaixonado.

* * *

Nos dias seguintes eu continuei a insistir, chegando até ao ponto de ser um pouco chato. Porém, Jully não dava sinal algum de que cederia. Mas eu não iria desistir. Sendo assim, mudei de estratégia. A partir daquele momento não saí com nenhuma outra garota e comecei a me aproximar dela de uma maneira diferente: ao invés de chamá-la para sair, sempre tocava em outro assunto qualquer.

No começo isso a deixava surpresa, uma vez que ela sempre esperava que eu fosse tentar seduzi-la ou algo do tipo. Mas, depois de um tempo, ela começou a se acostumar a ideia de me ter como amigo e começamos a manter conversas cada vez mais longas e animadas.

Descobri que estava fazendo progresso em nossa amizade em uma aula de química. Teríamos de fazer um trabalho em duplas e ela veio sentar-se ao meu lado por conta própria.

– Posso fazer dupla com você? – perguntou.

Eu me surpreendi com isso, mas tentei não demonstrar. Acho que fui convincente.

– Claro – respondi.

Ela sentou-se da mesma maneira como fazia todas as coisas: graciosamente. Começamos a trabalhar e eu não aguentei a possibilidade de provocá-la um pouco.

– Aposto que veio se sentar comigo só por causa das minhas notas em química.

– Lógico que não, seu bobo. Quis fazer com você porque eu gosto de sua companhia.

– Sei – respondi com tom sarcástico na voz.

– Só pra te provar eu vou fazer o trabalho por nós dois.

Eu não a deixei fazer isso, mas sabia que ela era realmente capaz de tal ato.

* * *

Os dias se passaram e, com o tempo, acabamos nos tornando ótimos amigos, praticamente inseparáveis. Parecia que ela tinha se esquecido completamente da maneira como nós nos conhecemos, com ela dizendo que queria me evitar.

Todos os dias eu a acompanhava até sua casa e foi numa dessas idas que aconteceu.

– Sabe o que as garotas andam comentando de você? – disse ela enquanto caminhava ao meu lado.

– Não.

– Que acham que você é gay.

– Elas acham, é? – respondi em tom normal.

– Não se preocupa com isso?

– Não. Mas fico curioso em saber as teorias delas.

– Primeiro elas dizem que você não quer mais sair com garota alguma.

– Isso é verdade, elas perderam a graça para mim. Um bando de fúteis, que só ficavam comigo por causa de um pouco de popularidade.

– Entendo. Elas dizem, também, que você ficava com elas só para manter as aparências e nunca se interessou por sexo.

– Nunca me interessei por sexo com elas.

Ela parou de andar. Eu também parei e a encarei.

– Fala sério?

– Sim. Acho que sexo não é uma coisa a ser feita com qualquer uma, tem que ser com a pessoa certa.

– Estou chocada. Sempre tive uma opinião diferente sobre você.

– As aparências enganam – respondi simplesmente.

– Quer dizer que você nunca encontrou a pessoa certa?

– Não disse isso.

– Agora não estou entendendo mais nada.

– Então já vai entender.

Agi por impulso. Fui imprudente. Arrisquei meses de paciência e dedicação por causa de poucos segundos de prazer.

Mas fiz o que fiz, apesar de me arrepender. Selei seus lábios nos meus agindo com tal velocidade que ela não conseguiu evitar. Porém, o beijo não foi rápido e, sim, lento e carinhoso. Ela retribui no começo, mas acho que se arrependeu e me empurrou.

– Seu idiota!

Ela gritou comigo e saiu correndo. Na hora fiquei um tanto quanto arrependido. Porém, depois, comecei a pensar que talvez não tivesse feito nada de errado, uma vez que ela correspondeu de início. No entanto, fiquei ainda mais confuso ao me lembrar do fato dela ter me empurrado e rejeitado.

Mulheres, até hoje não consigo entendê-las.

* * *

De qualquer maneira, decidi que seria melhor me desculpar no outro dia, e foi exatamente o que fiz na saída do colégio. Eu a segui pelo caminho que sempre fazia: cortando caminho pelo jardim, e a segurei pelo braço.

– Quero falar com você.

– Eu também quero falar com você – respondeu ela.

– Me desculpe por ontem – nós dois respondemos ao mesmo tempo.

Não pudemos evitar rir com a incrível coincidência. Ambos nos arrependemos do que fizemos por achar que tínhamos ofendido um ao outro.

– Não devia ter te beijado daquele jeito que fiz ontem. Fui impulsivo e acho que acabei te magoando.

– Eu não pedirei desculpas com palavras.

Era raro alguém me deixar intrigado, porém ela conseguiu. Mas isto durou apenas um segundo, pois foi Jully quem me roubou um beijo.

Eu não demorei a retribuir-lhe. Enlacei-a pela cintura enquanto ela envolvia minha nuca com seus braços. Com minha outra mão eu acariciava-lhe as costas. Nesse meio tempo nossas línguas brincavam uma com a outra. Parecia que dançavam dentro de nossas bocas. Aquele era uma sensação que nunca me esqueceria: beijar e ser beijado por alguém que se ama e te ama é indescritível.

Depois disso, começamos a namorar. Resolvi fazer tudo da maneira correta. Falei com os pais dela pedindo-a em namoro, mesmo sob seus protestos de que isso era antiquado e tudo mais. Constatei que seu pai chegava próximo aos dois metros de altura. Mesmo eu sendo muito alto, me senti um anão perto dele. Mas, como não tenho e nunca tive medo de homem, encarei a situação.

* * *

Os meses se passaram e nosso namoro continuou indo muito bem. Ambos queríamos dar o próximo passo, porém, nunca encontrávamos um local apropriado. Isso mudou um pouco depois de meu aniversário de dezessete anos. Meus pais saíram para um jantar com alguns amigos e acabaram deixando a casa apenas para nós dois. Parecia até que tinham feito propositalmente. Para mim, esse foi o melhor presente de aniversário que poderiam me dar.

Não perdi tempo, pedi comida chinesa, que eu sabia ser a preferida dela, e um bom vinho para acompanhar. A convidei para vir até minha casa. Ela estava realmente linda, como sempre. Trajava um vestido azul claro, de mangas curtas e pouco abaixo dos joelhos. Este realçava suas belas curvas enquanto um pequeno laço mantinha uma parte de seu cabelo preso atrás da cabeça e uma parte solta.

– Jully, você está realmente linda hoje.

– Só hoje?

– Engraçadinha. Sabe que você é linda de qualquer jeito.

A recebi com um beijo rápido e carinhoso.

– Você também não está mal.

Eu me vestia com uma calça jeans detalhada e uma camisa de botões na cor preta. Tinha deixado meu cabelo adquirir sua tonalidade branca original, parando de pintá-lo. Fiz isso a pedido, dela que percebeu essa estranha característica em mim.

– Vindo de você isso é um elogio.

– Sabe que estou brincando, né, meu lindo?

Jully me abraçou e beijou de uma maneira que apenas ela sabia fazer. Após caricias trocadas, fomos jantar. Nem foi preciso dizer que tivemos uma noite agradável juntos, principalmente após o jantar quando subimos até meu quarto.

Ela reparou bem na decoração, como sempre fazia. Meu quarto era pequeno e tinha poucas coisas. Entre elas uma cama pequena. Meu guarda roupas ficava a direita da entrada e, à esquerda, ficava uma mesa com um computador e alguns livros. Atrás da cama havia uma ampla janela com uma cortina, ambas fechadas.

– Que foi? Parece que nunca esteve aqui antes? – perguntei ao ver que ela vasculhava o quarto todo.

– Nunca o vi tão arrumado.

– É que sabia que receberia alguém muito importante hoje.

– Mas eu já vim aqui outras vezes.

– Mas não quando estávamos apenas nós dois na casa.

– E o que pretende fazer comigo, hein, safado?

Ela disse isso mordendo levemente o lábio inferior, me provocando. Eu caí em sua armadilha logo de cara, e gostei muito disso. A tomei em meus braços em meio a beijos intensos e não levou muito tempo até estarmos deitados na minha cama nos acariciando.

Eu podia explorar todo seu corpo com minhas mãos. A princípio parecia que ela não cederia, mas estava apenas me provocando. Não levou muito tempo para que, além de aceitar meus carinhos, levasse suas mãos a fazer trajetórias semelhantes em meu corpo.

Foi então que fizemos amor pela primeira vez. Sim, com ela foi justamente isso, com as que vieram após ela foi apenas sexo. Mas, naquela noite, eu me senti o homem mais feliz e realizado do mundo.

– Eu te amo, Jully.

Disse para ela enquanto a envolvia em meus braços. Ainda estávamos nus e ela estava deitada parcialmente em cima de meu corpo. Sua perna direita estava sobre as minhas; e seu braço direito acariciava meu peito. Podia sentir seu corpo junto ao meu, estávamos exaustos e suados, mas seu perfume era doce e inconfundível.

– E você, senhor Edward, é o único homem de minha vida.

Ambos estávamos felizes, muito felizes. E esperávamos que a felicidade durasse para sempre. Doce ilusão.

* * *

Me revirei na cama com essa parte do sonho. Digo sonho, pois até aquele ponto foi isso mesmo: um sonho muito bom, do qual nunca mais queria acordar. Mas, infelizmente, este sonho logo daria lugar a um pesadelo.

Notas finais
E o que acharam do Edward adolescente? E quem imaginava que ele já foi tão diferente do que é atualmente? Agora eu tenho duas notícias para vocês. A ruim é que, por falta de tempo, The Hunter passará a ser mensal a partir de agora. A boa notícia é que A Ordem de Drugstrein continuará sendo semanal. Para quem não conhece, é uma história de fantasia em um cenário pseudo medieval. Mas não é só de ação que esta fiction se trata, mas de conflitos entre muitas raças e do desenvolvimento do protagonista desde quando ele se torna um aprendiz de mago até chegar a um nível de mestre. Se alguém ficar interessado, segue o link http://fanfiction.com.br/historia/589040/A_Ordem_de_Drugstrein/