The Hunter
2 Capítulo 02 - Natenska
Notas iniciais
Capítulo 02
Natenska
A viagem até a Polônia tomou varias horas do meu dia. Assim que cheguei, reparei que o clima era um pouco mais agradável que o de Moscou, embora ainda fosse frio.
Meu próximo passo seria chegar a pequena cidade onde Natenska estaria me esperando, mas seria uma longa viagem de trem. Sendo assim, resolvi recorrer a um método mais rústico e rápido. Fiquei um tempo em um bar próximo ao aeroporto apenas observando o movimento. Assim que vi um rapaz parando com uma Ducatti vermelha resolvi abordá-lo.
– Lamento rapaz, mas vou ter que ficar com sua moto.
Ele disse algo que não compreendi. Não sabia nada de polonês, provavelmente ele também não entendeu meu inglês.
Fechei meu punho direito e, antes que ele terminasse de falar, já estava caindo ao chão com dois dentes a menos na boca. Fiz um pequeno corte no indicador com isso, mas já havia sentido dores muito maiores que esta antes.
Algumas pessoas que estavam sentadas nas mesas do bar levantaram-se, assustadas. Porém, nesse meio tempo, eu já havia arrancado com a moto e estava em alta velocidade.
Realmente a Ducatti 999 era fantástica. Além da beleza, ainda alcançava velocidades impressionantes. Pude sentir o vento no meu rosto, mas já não estava com frio, uma vez que a adrenalina já tomava conta do meu corpo.
A viagem até a pequena cidade em que Natenska me esperava foi rápida naquela belezinha. Certamente que chamei muita atenção ao entrar na cidade. Isso era algo que definitivamente eu não gostava: chamar atenção. Tentei ignorar aquilo, mas não era fácil com tantos me olhando a todo o momento. Decidi me “esconder” em uma pequena lanchonete. Não tinha comido nada o dia inteiro, então iria aproveitar a oportunidade para me alimentar.
Definitivamente a culinária polonesa não era das piores. O jantar, embora que um pouco cedo para isso, estava muito bom. Logo após, paguei a conta e voltei para cima da Ducatti.
Era hora de resolver o que eu tinha vindo resolver. Então antes de dar a partida na moto, peguei meu celular e disquei um número que estava na agenda.
– Edward, querido, onde você está?
Eu ri com aquilo, desde quando Natenska me chamava de querido?
– Mais perto do que você imagina.
– Já está na Polônia? Quer que eu vá te buscar?
– Onde você está? Me passe o endereço.
Ela me disse o local onde estava. Iria localizá-lo com o GPS do celular.
– Logo estarei ai – disse a ela antes de desligar.
Coloquei a moto em movimento e não me surpreendi ao fato de ela estar me esperando em frente a um motel.
– Onde arranjou a moto? – perguntou assim que me viu.
– Peguei emprestada.
– Deveria usar um capacete, é mais seguro.
– Seguro é a nossa profissão – respondi, sarcástico.
Dessa vez foi ela quem riu. Natenska era uma bela mulher. Muito alta, pouca coisa mais baixa do que eu, também possuía os olhos num tom verde um pouco mais claros do que os meus próprios. Estava vestida com uma calça que acentuava as coxas grossas e bem definidas, além, é claro, de uma grossa parca cinza com detalhes em preto. Seus cabelos, ao qual desconhecia a cor original, estavam compridos até quase a cintura e de um forte tom de vermelho.
– Você foi muito rápido, chegou aqui em menos de 24 horas.
– Espero que a informação valha a pena todo o esforço.
– Vai valer. E tem mais uma coisa que vai valer a pena.
Ela aproximou-se de mim e me beijou. Pude sentir o sabor daqueles lábios carnudos e provocantes enquanto sua língua explorava a minha boca. Correspondi ao beijo na mesma intensidade.
– Vamos entrar? Não gosto muito do frio.
Concordei com ela enquanto entregava as chaves da moto ao rapaz do estacionamento. Percebi que ele estremeceu. Provavelmente estava com medo de arranhar uma moto tão valiosa. Mal sabia ele que se eu ficasse por ali por muito tempo a polícia logo viria procurar por ela.
O interior do motel era bem melhor do que a fachada, que já estava um pouco descascada com o tempo. Tinha duas poltronas de aparência confortável ao canto. No outro canto havia uma lareira, que um senhor aparentando mais de cinquenta anos estava acendendo. Mais ao fundo ficava o balcão da recepção e, ao lado deste, uma escada para subir aos demais andares.
Natenska falou com a recepcionista. Ao contrario de mim, ela falava polonês fluentemente. Após tudo acertado, ela passou o dedo provocantemente embaixo do meu queixo, convidando-me a subir.
O quarto situado no segundo andar era pequeno, porém aconchegante. Aquecido por um aquecedor elétrico, ele tinha uma enorme cama de casal no centro. O chão era totalmente envolto em carpete e a única janela coberta por uma cortina. Ao lado direito havia uma porta que dava para um pequeno banheiro.
Assim que entramos, Natenska retirou sua parca e revelou suas armas: duas pistolas Glock. Ela era quase tão boa quanto eu em atirar com duas armas, mas não aguentaria o coice da desert. Pendurou o agasalho em um chapeleiro que ficava atrás da porta e as duas armas em uma mesinha de cabeceira.
A seguir, ela aproximou-se de mim e retirou meu sobretudo. Após isso, passou a mão levemente pela parte não afiada da lâmina de uma das foices de minha kusarigama.
– Edward e sua kusarigama.
– Fala isso como se não gostasse de meu estilo de luta com ela.
Ela deu uma breve risada.
– Eu tenho até medo, se você faz aquilo com um vampiro, não gosto nem de imaginar o que faria com um humano.
Retirei a kusarigama e meus dois revolveres, pousando ambos também na mesinha de cabeceira.
Natenska me empurrou para a cama e eu deixei-me cair nela. Ela deitou-se por cima e me beijou do mesmo modo como o que fez antes de entrarmos no prédio.
Com Natenska era sempre assim. Primeiro ela procurava o prazer e apenas depois disso vinha o trabalho. Não demorou muito para que nossas roupas fossem espalhadas por aquele quarto. Depois que terminamos, permanecemos deitados nus um ao lado do outro. A maioria dos casais normais diria um “eu te amo” numa situação como aquela. Foi o que disse quando tive a minha primeira relação sexual.
Afastei minhas lembranças da mente. Fiz com que elas voassem para longe, afinal, eu nunca amaria de novo. Natenska e eu nos dávamos bem, mas éramos apenas isso: amigos de sexo. Além, é claro, de cúmplices.
– Acho que lhe paguei muito bem, mereço a informação que você tem não é?
– E se merece. Mas lamento não poder corresponder a altura. Ela é só uma pista um tanto vaga.
– Pistas vagas são o máximo de informação que eu tenho conseguido ao longo desses sete anos. Pode falar.
– Na Itália, num convento de freiras, uma jovem beata acabou engravidando.
– E o que tem isso de mais?
Natenska pegou um cigarro e fez menção de acendê-lo. Antes disso, porém, retirei-o de sua mão.
– Hei! – protestou ela. – Gosto de fumar após fazer sexo.
– E eu odeio a fumaça, você sabe disso – ela protestaria novamente, mas eu a interrompi. – Continue.
– Certo, certo, sem cigarros.
Ela pousou novamente o maço em cima da mesinha de cabeceira.
– Pelas minhas fontes, a beata era virgem e muito devota. Além do mais, ela tinha se isolado no convento há um ano e apenas uma freira a visitava todos os dias. Quando perguntam a ela o que aconteceu, ela simplesmente respondeu que foi o demônio. Mas na verdade acho que quem justificou desta maneira foi a madre superior e não a própria garota.
– Entendo.
– Entendeu agora? Pode não ser quem você procura, mas com certeza é um deles.
– Certo, vale a pena conferir.
Depois de contar essas coisas, Natenska tocou em mim novamente por debaixo dos cobertores.
– Um segundo turno? – perguntei à ela.
– Se você aguentar.
– É mais fácil você não aguentar. Lembre-se que tenho o sangue dele correndo em minhas veias.
* * *
Natenska insistiu para me acompanhar até a Itália e eu tive que convencê-la novamente de que trabalhava sozinho.
Deixei-a dormindo no mesmo quarto do motel e sai para arranjar um outro local para mim. Tinha algumas coisas à planejar.
Peguei minha Ducatti 999 – agora era minha – e dei a partida. No meio do caminho, nas ruas desertas da pequena cidade, percebi um vulto correndo ao meu lado.
Freei a moto bruscamente e um ser humanoide passou pela frente dela em meio a um salto. Quando a Ducatti estava quase parando, algo me atingiu e eu fui jogado ao chão.
Chutei a criatura que tinha pousado em cima de mim e ela saltou para trás. Levantei-me em um impulso e pude ver claramente quem estava me atacando. Eram dois vampiros.
– O que vocês querem de mim, seus sanguessugas? – perguntei, mantendo a calma.
– Nosso mestre está cansado de suas intromissões. Mandou-nos para que nós o eliminássemos – o vampiro de cabelo castanho respondeu.
Ambos eram um pouco mais baixos do que eu, e mais magros também. Um deles tinha os cabelos castanhos curtos, enquanto o outro possuía cabelos negros até os ombros. Ambos vestiam-se normalmente com calças jeans e jaquetas do mesmo tecido.
– Mais problemas? Era tudo o que precisava. E a inda terei de manter um vivo para interrogatório.
O de cabelos castanhos deu um riso debochado. Quando eles avançaram, saquei minhas armas e destravei a trava de segurança. Disparei contra os dois. O de cabelos negros saltou para o lado e se escondeu atrás de uma construção que me pareceu uma loja. O outro também tentou se esquivar, mas foi atingido de raspão no ombro.
A seguir, ele correu para a minha esquerda, porém, em campo aberto. Era tudo o que eu precisava para descarregar as 14 balas restantes nas duas desert eagle. Ele conseguiu evitar quatro projéteis, mas, assim que foi atingido pela primeira vez, acabou recebendo todos os demais disparos. Tomei cuidado para não atingir a cabeça, pois este seria meu interrogado.
Em um movimento rápido, enquanto corria em encontro ao vampiro caído, soltei os dois cartuchos vazios e recarreguei com uma destreza que poucos conseguiam igualar.
Guardei as duas armas no coldre e peguei a kusarigama. O vampiro tinha se levantado e vinha ao meu encontro, sangrando. Golpeei-o no peito de cima para baixo. Em seguida, girei o meu corpo e o atingi com a outra foice, cortando-lhe a barriga. O próximo golpe foi contra o antebraço esquerdo que tentava me atingir. Este logo caiu ao chão, decepado e em meio a muito sangue. O vampiro gritava em agonia; som que eu gostava muito de ouvir.
Percebi que o outro vampiro fez o movimento que eu esperava: me atacou. Iria reagir nesse exato momento, mas o desgraçado era rápido e só pude me esquivar. Mesmo assim, suas garras atingiram parte do lado direito do meu peito e, desta vez, era meu sangue que estava sendo derramado. Recebi um chute no peito que me desequilibrou e quase me derrubou. Acho que duas ou três costelas se quebraram, o desgraçado era muito forte.
Ele lançou uma nova investida, desta vez na intenção de morder meu pescoço e terminar com a luta. Esse foi seu erro, pois larguei a foice da mão esquerda e peguei o revolver. No momento em que ele se debruçou sobre mim, foi jogado para trás com um tiro a queima roupa.
Com destreza e agilidade, puxei a foice caída ao chão através da corrente, uni as duas e guardei a kusarigama, para, então, pegar o outro revolver.
O vampiro já estava de pé e corria para se esconder novamente. Mas os disparos foram certeiros e de uma distância suficiente para derrubá-lo de novo. O sexto tiro foi na cabeça, para que esse verme sanguessuga não me incomodasse mais.
Após guardar novamente as duas armas, peguei a kusarigama e arremessei a foice direita contra as costas do vampiro de cabelos castanhos que tinha pensado em me atacar e, quando viu o amigo caído, resolveu fugir. A lâmina fincou-se as costas dele com perfeição e eu só precisei puxar a corrente com força para derrubá-lo novamente.
Aproveitei que ele estava caído ao chão e pisei sobre o braço inteiro. Agora seria a hora de interrogá-lo e, se ele não respondesse as minhas perguntas, então iria pagar pelos danos feitos à minha nova moto, pelas escoriações que adquiri com a queda e, principalmente, pela dor lancinante nas minhas costelas.
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