The Hero - Black Falcon
1 Capítulo Um
Notas iniciais
“Você está em casa. Você nunca vai estar sozinha...
Você está em casa. Você encontrou o seu caminho de casa”
A luz da manha adentrava na sala pela grande janela que ocupava uma parede inteira no alto do prédio. De lá era possível ter uma bela visão de toda a cidade: os altos prédios, os carros e as pessoas que passavam com certa pressa pelas ruas, seguindo suas vidas. Qualquer pessoa que olhasse do alto do prédio sentiria certo tédio fruto da normalidade da cena. Mas não a mulher que ali estava.
Emily se encontrava parada em frente à grande janela olhando para tudo aquilo com certo fascínio e desejo. Seu olhar refletia sobretudo saudade, mas lá no fundo também apreensão. Ela estava nervosa, o que era de se esperar para qualquer um em sua posição. Sete anos pensou Sete longos anos e agora eu finalmente estou em casa. A mulher caminha nervosa, dando passos longos e calculados por toda a extensão da parede de vidro.
Enquanto olhava para fora da janela um misto de sentimentos confusos se fez presente em seu peito. Um deles era caloroso e reconfortante, ela estava em casa. Depois de todos aqueles anos tinha conseguido. Casa a palavra ficava ecoando em sua cabeça desde que pusera os pés no prédio. O outro sentimento era o mais próximo de medo que se permitia sentir. Ela tinha mudado tanto nos últimos anos e tinha medo de como eles a veriam. Sim, eles. A sua família: seus pais e sua irmã, as pessoas que ela mais amava no mundo. O fio de esperança que a impediu de sucumbir à escuridão. O mais irônico é que tinha passado esses anos no próprio inferno, tinha conhecido o mais próximo possível de um demônio e, sobretudo tinha perdido o medo de morrer. Em um dos anos chegou a pensar que a morte seria uma benção, o fim da agonia. Não temia perder a própria vida, mas temia que as pessoas com quem se importava a vissem como um monstro, a vissem do jeito que realmente era. A idéia a assustava como próprio diabo. O pensamento a deixava com um gosto extremamente amargo na boca.
Assassina. Monstro. Assassina. Odiosa. As palavras ficavam rodopiando em sua mente, à acusando, alimentando seus medos. Ela tinha matado e faria de novo, sem sombra de duvidas para proteger a si mesma ou aqueles que amava.
À medida que o tempo passava, sua impaciência crescia. Estar “presa” naquela sala a irritava profundamente, somando isso a todos os sentimentos confusos que sentia naqueles minutos que mais pareciam horas a deixavam muito próximo a pessoa que tinha se transformado. Calma, paciência é tudo. Mantenha tudo sobre controle. Pensava. Respire. Mantenha o controle. Se concentre em outra coisa. Respire.
Foi ai que viu, que se viu, refletida no espelho. Tinha estatura média, cabelos castanhos claros e olhos verdes, a aparência era praticamente a mesma de sete anos atrás salve algumas mudanças que seriam compreensíveis. Mas aquela não era ela. Não a garota de sete anos atrás. As coisas tinham mudado de uma maneira tão grande naqueles anos que mais parecia outra vida. Ela tinha amadurecido de todas as formas possíveis. A mulher na sua frente tinha olhos desconfiados que analisavam cada pequeno traço de informação que o ambiente podia fornecer: saídas estratégicas, armas, possíveis ameaças. Era um habito que tinha aprendido a cultivar e que depois de um tempo era impossível de desligar. Não que ela quisesse fora este mesmo habito que a mantivera viva nesses anos.
E foi por esse habito que ela soube que pessoas entravam na sala antes mesmo de se virar. O barulho de passos ao fundo, três pessoas se ela não estivesse enganada. Pelo menos uma delas usava saltos que faziam pequenos barulhos que ecoavam por todo o corredor. E dois passos de sapatos normais, deduziu assim que eram seus pais e mais uma pessoa. O médico que a examinou mais cedo, supunha.
Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Foi à conta exata antes que a maçaneta rangesse e a porta fosse aberta. Por um segundo tudo ficou silencioso. Neste minuto Emily viu flash’s de toda a sua vida passar de ante de seus olhos. Sua mãe, seu pai e sua irmã jantando, rindo, brincando e viajando. Ela nos braços de seu antigo namorado, Ian, os dois rindo, se beijando nos braços um do outro e outras imagens aleatórias até o dia do acidente, e depois disso tudo o que fez para sobreviver.
–Minha filha- sussurrou a mãe de Emily, Catelyn. Ela era uma mulher de meia idade, com cabelos lisos loiros escuros e bonitos olhos verdes. O tempo tinha sido bom com ela, possuía poucas marcas de expressão, pele perfeita.
Emily finalmente se vira e olha para sua mãe notando que ela tinha mudado pouco nesses últimos anos. Atrás de sua mãe estava seu pai com seus cabelos prateados e olhos azuis.
Catelyn corre a seu encontro e abraça de forma voraz –Emily...Minha querida Emily...Senti tanto a sua falta- diz entre soluços. Seu pai logo chega e também a abraça. Emily solta à respiração aliviada sem ao menos se dar conta de que o fazia. E por alguns minutos nada mais importa nada que não fosse o fato: Estava de volta, nos braços de pessoas que a amavam. Talvez exista salvação afinal.
XXXX
Logo após o reencontro seus pais saem com o médico para “resolver alguns assuntos pendentes” em particular. Emily sabia exatamente o que aquilo significava, o médico queria ter algum tempo com seus pais para falar tudo o que tinha achado com sua breve com consulta, prepará-los provavelmente. O que a inquietava era que eles provavelmente ou a achavam frágil e idiota ou que tinha ficado maluca e nenhuma das duas alternativas era satisfatória e foi por isso que agora ela se encontrava atrás da porta ouvindo tudo o que o médico dizia com seus pais.
–Vocês têm que se preparar- dizia o doutor com aquilo que devia ser sua voz de médico para dar noticias ruins- Eu não posso afirmar ao certo o que vai acontecer mas...O que ela passou...Não posso imaginar...Não posso se quer supor como ela vai levar tudo isso
–Ela vai ficar bem não é doutor? – perguntou Catelyn apreensiva
–Ela é forte é claro que vai ficar bem. Vai ter todo o apoio que precisar – respondeu o pai rapidamente
–Ela vai precisar disso. Os senhores vão ter que ser fortes. Fisicamente ela está bem, ou melhor está bem agora...
–O que quer dizer? – corta a mãe
–Ela tem...Bem o corpo dela está parcialmente coberto com cicatrizes de diferentes estágios, algumas eu posso supor as causas, outras nem tanto...
–O que...?- sua mãe pergunta surpresa
–Deixe com que o doutor acabe de falar Catelyn, pelo amor de Deus – Charles diz impaciente- Termine doutor
–Além das cicatrizes, a senhorita Danver tem varias fraturas que não foram tratadas adequadamente. Basicamente o corpo dela não teve nem tempo nem tratamento adequado para as fraturas o que o forçou a se tratar como podia.
– Meu Deus – sussurra Catelyn
–Ela não falou absolutamente nada a respeito. Na verdade não falou praticamente nada desde que chegou, o que é tanto compreensível quanto preocupante. Vocês precisam fornecer um ambiente confortável onde ela se sinta confortável para que venha a falar sobre o assunto.
Neste momento Emily saiu de perto da porta, já tinha ouvido tudo o que precisava saber. Eles estavam certos, seu corpo não teve o tempo adequado para se curar de todos os ferimentos, mas o que ela podia fazer? Ficar deitada em uma cama ou tentar sobreviver? Talvez falar algo como “Me desculpe, não posso lutar pela minha vida agora, pode voltar daqui a um mês?” ou melhor “Me mate logo, você sabe minha perna está doendo muito para que eu me levante então acabe logo com isso”. Médicos. Bufa
Alguns minutos depois Catelyn entra na sala com uma muda de roupa para Emily. Uma calça de alfaiataria branca, uma blusa azul de tecido fino e um blazer preto por cima além do colar e brincos. Catelyn com certeza pensava que aquilo era mais adequado para alguém do porte social de sua família. Mesmo assim, Emily não podia deixar de notar que aquilo ainda estava um pouco “despojado” de mais para mãe. Ai compreendeu que aquilo só podia ser obra de sua irmã mais nova, Izzi. Apostava suas fichas nisso e ia até mais longe, apostava seu par de espadas naquela idéia.
Ao chegar à porta da propriedade Emily ainda está sem palavras. Aquilo parecia um sonho. Agora sim, ela estava de volta, realmente de volta. A casa, ou melhor, a mansão da família Danver, tinha um estilo clássico, era cercada por bonitos jardins verdes que despertavam milhares de lembranças na mulher. A parte de dentro da casa tinha uma misturada de clássica com atual em seus 12 quartos, 9 banheiros e muitos cômodos a mais que isso. Aquilo cheirava a lar.
Assim que Emily entra na mansão os empregados estão enfileirados e dão todos boas vindas a ela. Aquilo, certamente era coisa de sua mãe. Pelo canto do olhos Emily vê uma jovem mulher com cabelos loiros iguais de sua mãe e olhos azuis descendo as escadas rapidamente e indo ao seu encontro e lhe dando um abraço apertado.
–Ems, eu sabia que não tinha morrido...eu sabia – diz sua irmã sentimental
–Eu nunca, nunca descumpriria algo que prometi a você pestinha, nunca – diz sorrindo. Ainda conseguia se lembrar com clareza do dia que partira.
~~Flashback on~~
–Você tem mesmo que ir?
–Tenho sim pestinha, mas eu volto antes da festa de Magge
–Promete?-pergunta sorrindo
–É claro, vou voltar o mais rápido que conseguir. E vou te ajudar a se arrumar pra festa e aposto que...Qual o nome dele?...Mike?...Isso mesmo Mike, vai te notar
–Mike? Que Mike? – pergunta vermelha como um pimentão, tentando disfarçar.
–Não sei- responde Ems entrando na brincadeira
–Ei, o Ian vai? – pergunta tentando mudar de assunto.
–Não, não vai – responde meio irritada
–Vocês brigaram de novo?
–Só porque ele é um imbecil- Emily abaixa e da um beijo na testa da irmã- Já vou
–Volta rápido ta?
–O mais rápido que eu conseguir. Prometo
~~Flashback off~~
O mais rápido que eu conseguir. As palavras ficam ecoando na cabeça de Emily. Sete anos. Que ironia.
–Você cresceu pestinha
–Pode parar de me chamar assim?
–Nunca – responde Emily sorrindo
Izzi olha para o relógio rapidamente –Eu tenho que ir, mas quando voltar te ajudo com tudo
–Vou esperar – responde Emily
Catelyn leva a filha para seu antigoovo quarto e Emily com nostalgia repara que ele não tinha mudado em nada, se não estivesse tão limpo ela até podia ter achado que ninguém nunca tinha entrado lá desde que se fora. O pensamento era inquietante de uma forma estranha. Emily passa o resto da tarde em seu novo quarto refletindo sobre sua antiga vida e pensando na nova. Já sabia que teria que mentir para as pessoas que amava para protegê-los, porém na prática, percebeu que aquilo seria muito mais difícil do que achava. Não podia ser Black Falcon e Emily Danver ao mesmo, não do jeito que queria.
A hora do jantar finalmente chega e o desconforto da recém chegada era palpável para toda a família presente na mesa de jantar. Catelyn tinha feito tudo o que podia para que a refeição ocorresse do modo mais normal possível, mas era difícil. Emily não conseguia se sentir confortável em casa, não conseguia relaxar nem desligar o instinto de observar a tudo e a todos procurando por ameaças. A situação desmoronou no meio do jantar quando uma das empregadas que Emily nunca tinha visto, colocou a mão em seu ombro para perguntar algo. A mulher agindo pelo instinto animalesco se levantou rapidamente e torceu o braço da empregada forçando o corpo da mesma tão baixo que sua cabeça estava prensada na mesa. Emily ligeiramente trocou de posição colocando força em seu corpo para quebrar o braço do agressor quando um grito a tira de seus pensamentos e a lembra de onde está.
Puta merda. Inferno. Se xinga mentalmente enquanto todos na mesa a encaram assustados.
–Querida – sua mãe é a primeira a falar.
–Preciso de ar- ralha e corre pra fora de casa em direção a garagem. No caminho só consegue pensar em como é idiota e como aquilo nunca daria certo.
Então vê uma moto preta, não uma moto qualquer, a moto e ao lado dela sua chave. Não pensa duas vezes antes de montá-la e correr para o conforto que a adrenalina da velocidade fornecia.
Pilota pela cidade a mais de cem por hora até o porto, onde entra em um galpão abandonado e um homem armado esta a sua espera. Assim que chega tira um maço de dinheiro da blusa e paga a segunda parte do acordo. O homem sai sem fazer perguntas, de onde tinha o contratado as coisas funcionavam assim. O pagamento estava acertado e nenhuma pergunta era feita.
Caminha até a caixa e quando abre encontra seu par de espadas, sua roupa e algumas facas. Passa a mão por toda a extensão das laminas sentindo o poder que dali emanava. Agora assim, estava completa. Olá Black Falcon pensa sorrindo sozinha no galpão.
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