The Heiress II ─ The Rising
31 O Bosque Encantado
Notas iniciais
É claro que, com toda a minha ingenuidade, eu realmente esperava que as férias fossem tranquilas. O plano era ir jogar quadribol no dia seguinte, e foi pensando nisso que fui dormir. Pelo menos eu tentei dormir. Mas, todas as vezes que eu fechava os olhos parecia que eu era sugada para dentro de um pesadelo terrível e eu, apavorada, acordava suspirando profundamente.
Eu tinha vislumbres do que parecia ser um corredor sem saída, mas que ao voltar para trás tinha milhares de saídas, porém totalmente confusas. Por qual eu iria? Parecia quase um labirinto e eu estava sozinha por lá. Isso me aterrorizava tanto que eu acordava como já disse, apavorada. Ou muito mais que simplesmente apavorada.
“Não consegue dormir?” questionou Perón, em minha mente. Sorri levemente, me tranquilizando ao saber que pelo menos alguém estava ali para falar comigo. Gina e Hermione já estavam no décimo sono, provavelmente, ressonando tranquilamente e com certeza elas não estavam se preocupando com pesadelo algum. “É parece que sim...” ele continuou.
“Estou tendo pesadelos”, pensei na esperança de que ele pudesse ouvir.
“Eu posso te ouvir” ele confirmou “Pesadelos com o que?”.
“Uma espécie de labirinto, pra frente é sem saídas, pra trás tem até demais para eu decidir. Que tipo de pesadelo bizarro é esse?” confessei, frustrada, olhando pro teto “Onde está você?”, perguntei.
“Bem ao seu lado” respondeu Perón e eu olhei para a cama, encarando seus olhinhos brilhantes e sorri, relaxando. Eu meio que estava com medo de fechar os olhos e ser tragada por aquele pesadelo sem sentido, que me deixava aflita por algum motivo. Mas a presença de Perón ali me deixava mais tranquila.
“Porque posso falar com você, mesmo?”, questionei sonolenta, tentando não fechar os olhos.
“Porque eu sou seu familiar.” Respondeu ele e então me lembrei sobre o livro de animagia, que mencionava familiares: “animais mágicos que criam um forte vinculo com o dono, podendo até mesmo se comunicar telepaticamente. É um vinculo inquebrável, e se o dono morrer, o animal também morre. Porém se o animal morrer, o dono sentirá profundamente sua perda, não podendo substituí-lo por nenhum animal da mesma espécie”. Então eu tinha um vinculo mágico ultratrágico com Perón? Por isso então é que ele é especial pra mim. “Você também é especial pra mim...” disse meu gatinho.
“Sou especial para o mundo todo”, brinquei e ele miou quase como se estivesse rindo e depois bocejou. Nunca tinha visto um gato bocejar, mas...
Enquanto eu fazia carinho na cabeça de Perón que não conseguiu ficar acordado, fui recordando de tudo o que aconteceu e lembre-me então da pedra parecida com um grande ônix.
Abri minha mochila onde minha jaqueta estava e peguei a pedra do bolso. Ela estava surpreendentemente quente e quando a toquei tudo o que eu senti foi dor. Estava fervendo e meus dedos colaram-se a ela, como uma cola quente. Minha mão estava fervendo, queimando, doendo... Reprimi um grito, para não acordar as meninas e então algo estranho aconteceu.
A pedra congelou totalmente e minha mão queimada em contato com o gelo me fez levar um choque enorme. Mas a minha mão queimada foi se curando e poucos minutos depois, a pedra estava normal, como se nada tivesse acontecido. E minha mão também, tirando uma cicatriz na palma, que era parecida com um pássaro ou até mesmo um minidragão.
Mas o que era aquilo? O que era aquela pedra? Seria um ovo de seja lá o que for a imagem que estava em minha mão? Ovo de pássaro... Teria de ser um grande pássaro, pois a pedra era duas vezes o tamanho de um ovo normal. E se fosse de dragão, talvez fosse realmente um minidragão. Porque sempre acontecem coisas estranhas comigo?
Não pude chegar a nenhuma outra conclusão, pois nesse momento, Gina e Hermione deram um pulo na cama e sentaram-se, assustadas.
─ O que houve? ─ perguntei. Era madrugada, o céu estava escuro e estava até um pouco frio. Era cedo demais para elas acordarem daquela forma.
─ Pesadelo ─ respondeu Mione, ofegante.
─ Eu também! ─ concordou Gina, suspirando profundamente ─ Era uma espécie de labirinto e tinha apenas seis entradas, mas eu só podia ir por uma. Qual escolher? Foi terrível ─ ela contou e eu apenas pisquei os olhos, com um pressentimento de que aquilo queria dizer alguma coisa.
─ Intrigante, o meu era o mesmo ─ afirmou Mione, pensativa e então me olhou ─ Porque não está dormindo? ─ me perguntou.
─ Não consegui dormir, esse pesadelo também me perturbou ─ contei e elas se entreolharam.
─ O que isso quer dizer? O que significa? ─ questionou Gina preocupada. Era a primeira vez que eu e Hermione estávamos tendo uma conversa concreta. Quem diria que pesadelos unem as pessoas, hein?
─ Não faço a menor ideia ─ dei de ombros ─ Talvez mais pra frente vamos nos ver em frente a uma grande decisão a escolher, com vários caminhos a tomar ─ continuei pensativa e então sorri ─ Quer dizer, não é como se fossemos estar diante de um labirinto real, não é? ─ debochei.
Eu realmente não deveria ter dito isso, não mesmo, pois nesse momento uma luz forte invadiu nosso quarto na toca, tirando minha visão.
─ O que está acontecendo? ─ questionou Hermione, desesperada ─ Não estou enxergando nada!
─ Eu também não! ─ concordou Gina, quase gritando.
─ Acalmem-se, seja lá o que for não pode ser tão ruim assim... ─ falei, tentando acalmar a mim e a elas.
Eu e minha boca grande. Eu iria acabar prevendo minha morte, sem duvidas, porque o que aconteceu não era nada ruim. Era pior. Não estávamos mais em nosso quarto seguro, estávamos em uma caverna cheia de luzinhas brilhantes, que pareciam... Fadas?
─ Fadas? ─ questionei e então foi como se tudo estivesse aumentando, ou melhor, como se nos tivéssemos diminuído, pois vimos claramente belas garotas com asas de fadas voando ao redor da grande caverna ─ que não era tão grande quando estávamos no tamanho normal ─ e olhando pra gente curiosamente.
─ Essa não ─ suspirou Hermione, esfregando os olhos ─ Fadas não costumam ser gentis com quem invade seus santuários, e nesse momento, estamos em uma colônia de fadas. Da pra imaginar o quanto estamos encrencadas? ─ ela desesperou-se.
─ Ou elas querem algo de nós ─ contrapôs Gina, pensativa.
─ O que elas poderiam querer de nós, simples humanas? ─ perguntou Mione, incrédula.
─ Sabia que nós entendemos vocês? ─ comentou uma fada bonita, com cabelos encaracolados e castanhos trajando um vestido de pétalas de rosas vermelhas, ao voar até nós. Ela tinha uma coroa de flores na cabeça, o que logo sugeriu que era ela quem mandava ali. Seria ela a rainha das fadas? ─ Sou Gilleanna, rainha dos Bosques Encantados das Fadas Celestiais ─ apresentou-se sorrindo.
─ Majestade ─ eu fiz uma reverencia sendo acompanhada das garotas, que estavam um pouco temerosas por estarem na presença da rainha das fadas ─ Sou Lya e estas são Hermione e Gina ─ apresentei-nos, respeitosamente.
A rainha Gilleanna riu, sendo acompanhada de duas fadinhas ao lado delas.
─ Não precisam de toda essa formalidade, garotas. Vocês estão aqui por um motivo e tanto quanto dói para eu dizer-lhes, não fui eu que as chamei ─ disse a rainha com um leve sorriso.
─ Não? Então quem foi, majestade? ─ questionou Hermione, confusa.
A rainha suspirou profundamente, quase como se estivesse pesarosa e então sorriu tristemente para nós.
─ Venham! ─ ela chamou-nos e então voou pela caverna até uma passagem que até aquele momento ainda não tínhamos percebido.
Seguimo-la, tendo consciência de que tinha outras fadas nos seguindo e então nos deparamos com um lugar que certamente não era no planeta terra. Era majestoso demais para ser. O céu era de um azul arroxeado, com estrelas brilhantes que pareciam mais perto do que nunca. E uma lua cheia, quase mágica, brilhava no lindo céu. As arvores pareciam ser de todas as cores, menos verde. A grama sim era verde, num verde lindo, que estava um pouco escuro por causa do brilho da noite. As flores que enfeitavam a grama eram cintilantes, quase fluorescentes.
─ Isso é mágico ─ exclamou Hermione, em uma voz suave e encantada. Concordei com ela, é claro. Mas isso nem de longe era o mais incrível.
Unicórnios, belos centauros, fadas, elfos e duendes superfofos andavam pelo bosque, sem intrigas, sem rixas, sem brigas. Era como se fossem irmãos, uma família enorme e festeira. Tinha até mesmo alguns sátiros tocando belas melodias em flautas de madeira. E na copa das belas árvores coloridas estavam casinhas bonitas, ricamente decoradas com flores e o que pareciam ser cristais coloridos.
─ Onde estamos? ─ sussurrou Gina, tão encantada quanto eu e Hermione.
─ Acho que é a terra das fadas ─ sussurrei de volta, impressionada.
─ Está certa ─ a rainha disse aparecendo ao nosso lado, sorrindo ─ Aqui é o Bosque Encantado, morada de todas as criaturas mágicas que renegaram o mundo humano para viverem aqui em paz e tranquilidade. As Fadas Celestiais criaram essa dimensão para que fosse nosso refugio longe da crueldade de seu mundo. Mas só tem um problema: ficamos longe do problema, mas isso não significa que ele ficou longe de nós. ─ contou a rainha, nos olhando em expectativa.
Era tudo muito chocante para eu assimilar seja lá o que for que ela estava tentando dizer.
─ Quer dizer que vocês estão em perigo? ─ perguntou Hermione, salvando a pátria.
─ E que nós vamos ter que ajudá-las? ─ perguntou Gina, em seguida.
─ Quase isso ─ disse a rainha, envergonhada ─ Estamos em perigo, mas quem as chamou aqui foi o causador desse perigo, o Grande Lorde da Escuridão ─ ela explicou e eu ri.
─ Olha, sei que isso é trágico demais, mas não podemos ajudar. Somos apenas crianças e, além disso, da forma que você disse, esse cara é perigoso. Jamais o venceríamos. E tem mais, já temos um Lord pra cuidar, e olha que ele nem voltou da morte ainda ─ contei e ela me olhou como se soubesse que eu diria aquilo.
─ Acontece que ele as quer aqui para fazer algo, em seguida, quando ele conseguir o que quer, ele nos deixará em paz. Porém, se vocês não aceitarem, jamais sairão daqui e ele nos dominará com suas trevas e então todos nós pereceremos ─ disse com pesar e eu bufei.
Pelo visto eu não podia passar nem um dia mais sem viver uma aventura ou correr perigo. Eu parecia Harry agora, um imã para problemas.
─ Não acredito nisso! ─ cruzei os braços, irritada. Quem era esse Lord do não sei das quantas e o que ele queria com a gente?
─ Vamos lá, é a única opção de sairmos daqui. Sabe que os meninos precisam da gente! ─ disse Hermione, implorando com o olhar.
Fechei os olhos e pensei em tudo o que eu ia perder, mesmo que aqui fosse uma personificação do paraíso. Eu não ia deixar nada me separar dos que eu amava mais uma vez!
─ Acho que vamos ter de fazer uma visitinha a esse tal Lord aí ─ falei sorrindo, mas por dentro, um pressentimento de que algo iria acontecer estava cada vez mais forte. Seja lá o que fosse acontecer, não seria algo do qual esqueceríamos tão cedo.
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