Notas iniciais
Amores da minha vida ou não, leiam aí seus lindos! Mellody

POV Jane

Frio. Frio congelante. Frio que gela o sangue. É divertido. Ver a neve e o gelo engolir você, como se sua existência não fosse absolutamente nada. Você se torna parte dela. Parte da imensidão branca.
Rodrigo não gosta. Claro que não, ele não entende. Rodrigo não entende nada. Pobre irmãozinho. Acha que sabe das coisas. Nunca entendeu direito o por que de estarmos ali, do por que de fazermos aquilo, do por que de sermos assim.
Desde que aquele incidente com vovó e vovô, Rodrigo nunca mais agiu do mesmo jeito. Parece hesitar, indagar a própria decisão. Não gosta de me seguir mais, como sempre fazia. Seria isso... Medo?
Eric não se importa muito. Reservado demais. Observa demais. Oculto demais. O tapa-olho da um toque legal.
E Gabriel. Ah, meu fofinho! Ele me entende! Gosta de mim. Me ajuda com os surtos. Os outros geralmente fogem. De certo modo, os surtos são legais. Gabriel me deixa estripar alguns animais que passam perto demais da toca. É divertido.
Espera, quem está aí? Quem são vocês? E cadê a minha faca? Cadê minha faca?! Minha... Minha história? Pra que vocês querem saber. Ah, foda-se mesmo.
Sou Jane Lilith. Tenho um irmão mais novo chamado Rodrigo. Somos filhos de Tântalo. Uma vez ele disse que a morte brutal/violenta/sangrenta/desumana de nossos pais te deixaram louca! Nunca gostei de nossos pais. Não agiam como tal. Embora a imagem violenta de pedaços de carne e pele, manchas de sangue cobrindo toda a parede, corpos desmembrados sem ossos e órgãos, com cheiro de carne carbonizada e em putrefação acelerada podia ter deixado um trauma realmente muito grande em qualquer um. Olhando agora... Era até bonito de se ver, se você observasse bem. Algo como... Uma obra de arte de um artista incompreendido. Eu tinha 10 anos e Rodrigo, 4. Agora temos 18 e 12. Grande coisa.
Nunca descobrimos quem era o assassino. Me levaram para ver uma mulher velha de uns cinquenta anos. Passamos a morar com os nossos avós. Passei a odiar a minha vida. Rodrigo não se lembra de nada que aconteceu quando entramos no quarto de nossos pais, mas eu lembro.
O que eu vi ali, foi a entrada para um mundo que eu não fazia ideia que existia. Coisas começaram a mudar em mim a partir daquele dia. Coisas se remexeram. Vozes surgiram. Vozes amigas, que me ajudam muitas vezes. Vozes que querem e devem ser ouvidas. O sangue e a morte se tornaram comuns.
Eu passei a ter... Como eles chamavam? Transtornos psicóticos? Acessos de loucura? Alguma coisa desse gênero. Me levaram em vários psicólogos. Eu adorava a reação deles quando eu contava sobre a morte dos meus pais.
Me receitaram remédios. Eram horríveis. Totalmente horríveis. Amargos. Gosto de vômito regurgitado. Parei de tomá-los. Vovó descobriu. Brigou comigo. Naquela noite ela achou uma ratazana estripada. Gritou como nunca.
Não se zangaram mais por eu parar de tomá-los. Mas aí as vozes começaram a se agitar. Me machucam por dentro. A dor é excruciante as vezes. Nada faz elas pararem de gritar, todas juntas e misturadas, dentro da minha mente. Nada. Exceto...
Matar.
A expressão de horror, traição, medo, dor, sofrimento e agonia de meus avós ainda está marcada em mim. Vovô já estava morto. A boca estava ensopada de sangue, como uma pequena piscina. No facão de açougueiro, ainda estava preso ao coração, repousado na cabeceira. O relógio fazia tic-tac. Tic-tac. O coração costumava fazer tum-tum. Tic-tac. Tum-tum. Tic-tac. Tum-tum.
Vovó estava chorando. Como se lágrimas fossem arrancar as cinco facas em seu peito, curar magicamente as feridas e desaparecer a cicatriz. Ela me perguntava o porque. Mas a única coisa que eu fazia era socar seu rosto. Era um milagre que ainda estivesse viva. Tic-tac. Tum-tum. Click, disse a porta.
Rodrigo disse alguma coisa através da fresta. Eu peguei mais uma faca e perfurei o crânio de vovó. No dia seguinte, quando a perícia chegou, Rodrigo conversou com eles. Mas eu não fiquei em casa. E não ficaria.
As vozes não haviam parado de falar desde o dia anterior. Não queriam se calar. Não iriam se calar. Rodrigo me encontrou em um beco com um gato malhado, semi-morto. Disse que a polícia havia encontrado uma pista sobre o assassino dos nossos pais. Mas que não suspeitavam que era eu que tinha feito aquilo com meus avós. Bando de incompententes. Naquele momento, as vozes se calaram, e eu pude ouvir a minha consciência novamente. Vingança.
Meses e meses, Rodrigo passou seguindo as pistas do assassino. E eu fui atrás. Não voltamos mais para a casa de vovó e vovô. Não havia mais nenhum outro parente vivo. Rodrigo era esperto. Sempre achava alguma coisa.
As vozes as vezes ficavam inquietas. Mas aprendi a sossegá-las. Rodrigo não podia morrer. Não, não. Não podia. Rodrigo não podia morrer. Mais alguém não. Meu pai não levaria mais ninguém para servir a Hades, não, não.
Uma tarde nublosa. O céu não parecia contente. Comentei isso com Rodrigo. Ele apenas concordou. Estava muito evasivo. O fitei por alguns minutos. Estava suando frio.
Começou a ventar. Entramos em uma lanchonete quando um guarda-sol quase nos acertou. Foi aí que eu o vi.
Ele estava sentado em uma das poltronas-cadeiras da lanchonete. Acho que estava tomando café. O cabelo preto estava totalmente bagunçado. Os olhos negros escondiam um segredo obscuro. Estava totalmente usando preto, e isso só o deixava mais fofinho naquela tarde deprimente. As roupas estavam meio surradas e rasgadas.
Ele pareceu me notar. Me analisou. Corpo e alma. Sorriu. Não um sorriso qualquer. Um sorriso "eu sei quem você é". Ele pareceu saber das vozes na minha cabeça. Rodrigo disse que era melhor nós sairmos dali. Eu não quis. Cheguei mais perto. E ele permitiu.
Me contou seu plano. Me convidou. E cá estou. Não pretendo voltar. Gabriel tenta acalmar as vozes, mas elas não querem animais. Querem gente. Pessoas. Qualquer um.
Quando eu matei aquela menininha em Boston ele pareceu conturbado. Não quis me deixar sair mais. Mas sempre trás uma coisinha especial. Um doce, uma roupa nova. Quando sugeri matar a oráculo, ele deu um pulo da cadeira.
Ele não quer que eu a mate. Quer uma profecia. Uma profecia que diz que ele vai vencer. Que nós vamos vencer. Eu quero vencer. Mas quero vencer matando. Não esperando. Esperar é chato. Esperar é monótono. Esperar não é sangrento.
Da última vez, eles esperaram. Esperaram. Mas foram derrotados. Eu tinha um mal pressentimento sobre esperar. Agir era melhor. Algo para distrair a mente, como o som de pele, músculos, tendões e ossos sendo penetrados. Um lamurio de agonia final. O último suspiro. O relaxamento de todo o corpo.
A falta de movimento.
Era muito divertido praticar. Mas matar... Era melhor.
Ficar no meio do nada. No meio da neve. No meio do Ártico. No meio do fim. No meio do gelo. No meio do nada. No meio da neve. No meio da solidão. Doce, doce solidão.
Nunca ficava, fico ou ficarei sozinha. Gabriel me faz companhia. Mais do que os outros. Me ouve. Me ajuda. Me guia. Me da dicas para matar. Ele gosta de mim. Eu gosto dele.
Ele gosta de ficar observando a caverna. Toca algumas vezes nas paredes. Cria novas paredes e cômodos. Bielzinho fica muito cansado as vezes. Eu o abraço e fica tudo bem. Mas as vezes... Dá para ouvi-la.
Chutando paredes, berrando com os pulmões mesmo com a mordaça e amarras. Gabriel tentou ser generoso. Deixou-a solta no quarto durante um dia. Ela tentou arrombar a porta.
Tumb. Tumb. Tumb. Tumb. Diz a porta do quarto de tortura. Tsc tsc. Ela não tem educação.
A garota fica na sala dela o tempo todo. Não pode sair. Não deve sair. Quando tiramos a mordaça, grita e nos berra ameaças. O que ela era? Uma mortal com o dom de um cadáver de dois mil anos.
E nós?
Nós.
Somos o exército de Urano.

Notas finais
Espero que tenham gostado Eu adorei comentem o que gostou gatos Um beijo e um queijo Até mais - Mellody