Notas iniciais
Oe galera :3 espero que gostem do cap (serão postados nas segundas agora) - LT

POV Isa

Um grifo não era um bom sinal. Não estávamos adentrando em um território qualquer. Estávamos nos afastando cada vez mais de qualquer contato com a humanidade. Se precisássemos de ajuda, a probabilidade de alguém nos ouvir seria menos que 1%.
A neve deixara de ser rala e se tornara mais profunda. Nossos pés constantemente afundavam. Passamos a andar em fila única, refazendo os mesmos passos do amigo a frente.
Estava frio. Os casacos mal aguentavam. Encontramos uma cidadezinha pequena, mais ou menos na base das montanhas. Precisávamos de descanso. O grifo não nos dera o luxo de descansar.
Passamos em um mercado, reabastecemos os suprimentos e depois pedimos informação para alguns moradores sobre algum lugar em que podíamos ficar. No fim das contas, ficamos em um hotel pequeno e simples, mas aconchegante o suficiente.
Pegamos dois quartos. Um pros meninos e um para mim, Cora e Mi. Desabamos nas camas. Como só tinha duas, revezamos. Duas dormiam e uma vigiava. Pedi para as duas descansarem. Elas pareciam piores do que eu.
Admito, nem eu estava em bom estado. Afinal de contas? Quem estaria? Quando as duas adormeceram, liguei a pequena televisão, com o som quase no mudo. O silêncio do hotel era aterrador. Era quase como se o local nunca fosse habitado, exceto pela atendente solitária e o faxineiro.
Procurei o canal de notícias. Roubo, prisão de uma gangue, tráfico de drogas, alguma coisa sobre o pé-grande, aparição de extraterrestres...Uma garotinha morta tinha sido encontrada em um beco em Nova York. Segundo relatos, uma mulher parecia ser a autora do crime. Uma foto da menina apareceu, junto com outra do corpo, quase todo cortado. Não parecia ter mais de seis anos. O apresentador agradeceu ao repórter. Previsão do tempo. Uma nevasca forte e incomum iria chegar ao norte do país em algumas horas.
– Adoraria saber como vamos sair dessa. Precisamos encontrar Gabriel. Não podemos simplesmente esperar a neve passar. – Disse pra mim mesma.
Desliguei a TV e fui até o corredor. Nosso quarto era o 248. O dos meninos era 260. Pareciam números totalmente aleatórios. O hotel só tinha quatro andares (contando com a recepção) e com seis quartos em cada andar. Seria meio impossível ter mais de duzentos, só se você contasse o enorme número de cupins, ratos e baratas. Dei algumas batidas no quarto dos meninos. Não obtive resposta. Deixei pra lá.
Desci as escadas até o térreo. Tive um susto quando terminei de descer o último degrau. Estava tudo revirado. Papéis jogados de qualquer jeito no balcão. A cadeira da recepcionista estava tombada. A mesinha de café e os sofás, virados ou deslocados. Os quadros nas paredes estavam tortos ou rasgados. Vasos de plantas sujavam o chão de madeira com terra. Nenhum sinal da atendente.
Ouvi um barulho a minha esquerda. Voltei até a escada e me escondi. Dei uma espiada. Não havia nada. Uma porta levava ao refeitório. Ou melhor, o que sobrava dela. Ficar ali e descobrir o que era aquilo não era uma boa idéia. Todos os outros cansados e sonolentos também não. Deixaria que dormissem. Trancaria a porta e esperaríamos.
Sem fazer qualquer ruído, fui até o balcão, peguei um papel, escrevi um recado e o coloquei no bolso. Subi as escadas novamente. A cada degrau, um rangido. Queria ganhar uma farpa no pé por cada degrau a ser denunciada por tábuas velhas.
Deslizei o bilhetinho por debaixo da porta do quarto dos meninos. Avisei sobre a nevasca e pedi que trancassem a porta e esperassem até eu voltar.
Entrei no nosso quarto de novo. Cora estava acordando quando apareci.
– Ta aonde? – Fiz sinal para ela se calar e tranquei a porta. Cora franziu a testa. Os cabelos negros estavam embaraçados. Fui na suite e entreguei uma escova pra ela.
– É o seguinte: tem alguma coisa na recepção. Não sei se é um monstro, alguém caçando a gente, assassino ou ladrão. Só sei que ta uma bagunça lá em baixo.
– Ta, e vamos fazer o que? Ficar aqui, trancadas no quarto contanto fofocas? – Respondeu Cora, ironicamente, enquanto desatava os nós.
– Vou ignorar. Deixei um bilhete no quarto dos meninos. Eu vou dormir. Mi vai acordar daqui a pouco. Fala pra ela sobre a recepção. Quando todos estivermos descansados, caímos fora daqui.
– Não consigo deixar de ter um pressentimento ruim. – Disse ela, enquanto me ajeitava no colchão. – Alguma coisa está se movendo nas sombras...
Não a deixei terminar. Adormeci assim que encostei a cabeça no travesseiro.
Tive um sonho com a mesma cidadezinha. Estava escura, sombria, abandonada. O céu estava em um tom estranho. Uma cor que não consegui definir.
As lojas estavam saqueadas. As casas, queimadas, destruídas ou desmoronando, com tábuas de madeira nas janelas e portas. As ruas pareciam não ser limpas a anos. Até a prefeitura estava em pedaços. Um dos lados havia caído. A torre da igreja soou. Parecia meia-noite.
Avistei uma placa com o nome da cidade, mas não conseguia lê-la. Tentei me lembrar. Um nome familiar. Conhecia aquele lugar. Mas simplesmente não lembrava o nome. Parecia muito com a cidade de um filme... Ou seria uma série? Livro? Ou era mesmo real?

Acordei sendo brutalmente sacudida. Soltei um resmungo, mas minha boca foi coberta.
– Tem algo lá em baixo. — Disse Mi, num sussurro quase inaudível. Cora destampou minha boca.
– Vamos chamar os meninos e sair logo daqui. — Respondi. Elas assentiram.
Me sentia melhor do que em muitos dias. Tinha descansado, embora o sonho tivesse deixado a desejar. Analisando melhor, a cidade em si parecia uma mentira. Os moradores eram vagos, como se estivessem em uma espécie de torpor.
Nada ali parecia realmente vivo. Era como se tivéssemos entrado em um local inexistente, a sombra de uma cidade que há outrora, era viva.
Saímos do quarto. O alguém ou a coisa já havia passado pelo corredor. Arranhara as portas e paredes, embora não tenhamos escutado.
Descemos em silêncio. A recepção estava organizada novamente, mas não havia ninguém ali.
– Mas... — Comecei, mas fui interrompida.
– Tem alguma coisa aqui. Também vimos as marcas de garras na parede. — Disse Mi.
– Mas a Isa disse que a recepção estava destruída.

Em um instante absolutamente macabro, assim que piscamos, a recepção apareceu totalmente devastada. Ninguém precisou dizer nada. Apertamos a alça da mochila nas costas e partimos para fora dali.

Algumas pessoas estavam andando na calçada. Elas não pareciam ter expressão. Um homem veio na nossa direção, mas não desviou do caminho, como se não se importasse conosco. Reduzimos a marcha, mas quando ele se aproximou, simplesmente passou direto por nós. Um calafrio o perseguiu.

Continuamos em frente, prestando mais atenção onde estávamos agora. Pessoas continuavam seguindo, mas pareciam cada vez menos frequentes. Uma mulher começou a correr e gritar no meio da rua "Saiam daqui! Saiam! Por favor, ouçam-me! Antes que seja tarde!" Continuou gritando "Por favor!" até que uma brisa suave soprou, levando-a como pó.

– Corram. — Sussurrei.

Não queria cansar ninguém, mas isso honestamente não era normal. Em nenhum lugar isso seria normal. Não entraria nem no nosso nível de normalidade. Corremos. As ruas ecoavam nossos passos. Não havia mais pessoas. Apenas brisas frias. Rangidos de abandono. A terra ali estava inabitada. Nem ratos ou baratas, que antes que havia visto no hotel, apareciam por ali, correndo entre muros e o meio-fio da rua.

Chegamos ao fim da cidade. Havia uma trilha que cortava as montanhas. À nossa esquerda, o paredão de pedra que era a montanha. A direita, o vale e a cidade que acabamos de cruzar. A medida que subíamos, a vegetação ficava mais escassa e o ar mais rarefeito.

Alguns pontos não havia mais trilha, por conta de desmoronamentos. Tínhamos que pisar com cuidado. Um deslize poderia machucar muito ou no pior dos casos, ser fatal. Segurávamos em raízes, pedras, plantas. Qualquer coisa que desse pra segurar e que estivesse o suficientemente firme para servir de apoio. Quando estávamos em um ponto bom da montanha, em que a inclinação parava, voltava a ser plana e fazia uma curva no rochedo, paramos para descansar um pouco.

– Olhem. — Disse Samu.

A princípio,não vi nada de estranho lá em baixo, mas só então notei que não havia mais cidade, apenas um espaço em que não havia vegetação, somente terra.

– Não era uma cidade comum. — Disse. — Era uma cidade fantasma.

– Cada vez que seguimos para o norte, as coisas parecem fugir de controle. — Continuou Michele.

Ela não precisava continuar a frase.

"Estávamos ficando fora do domínio dos deuses"

Notas finais
Espero que tenham gostado! Compartilhem, comentem, e acima de tudo continuem acompanhando :3 - LT