The Heir of The Universe
17 Capítulo XVI
Notas iniciais
POV Samu
Quanto mais subíamos, mais o frio nos sufocava. A ideia de seguirmos os passos uns dos outros foi boa, afinal, diminuíamos as pegadas e os indícios que éramos um grupo peregrino de semideuses. O grifo pelo menos esquentava nossas costas, sim, isso foi uma ironia. Havíamos descansado naquela cidadezinha no pé da montanha, mas o cansaço estava voltando aos poucos. Tentei me lembrar do que acontecera lá.
Assim que Luigi e eu chegamos em nosso quarto, a primeira coisa que eu disse foi:
– Ironia ou zoação? Quarto 260?
– Sei lá cara, só quero dormir.
E foi com essa frase que ele se jogou na cama do quarto e caiu no sono. Demorei um pouco mais. Averiguei o perímetro do cômodo pra ter certeza que teríamos alguma rota alternativa de fuga. Como Luigi já estava dormindo, e nada o acordaria, resolvi ficar acordado de vigia em uma poltrona que virei pro rumo da janela. Estava tão exausto que acabei dando alguns cochilos, acordando de sobressaltos. Em um desses meio-cochilos, ouvi alguém bater na porta e chamar, mas a voz parecia indistinta. Ignorei. Mais tarde, acordei, ainda na janela. Estranhamente, acordei dentro de uma bolha d'água. Normalmente isso acontecia quando Isabella tinha pesadelos e vinha me acordar pra conversarmos até ela dormir. Desfiz a bolha rapidamente e liguei a TV, pra ter algum barulho naquele quarto além do ronco de um porco dormindo. Quando liguei a TV, vi um pedaço de papel em cima do carpete, embaixo da porta. Percebi a letra de Isa assim que o abri.
“Meninos, a recepção ta uma bagunça. Uma nevasca vai chegar daqui a pouco. Não dêem uma heróis e desçam lá pra baixo. Descansem e fiquem alertas. Assim que eu e as meninas estivermos descansadas, chamamos vocês. Me aguardem. — Isa”
Aquele bilhete estava escondendo alguma coisa, mas resolvi seguir os conselhos dela. Voltei pra poltrona. Luigi ainda dormia. Era um sono que dava inveja, mas acabei não resistindo. Abri a tornei e me concentrei na água, formando uma pequena bolha. A conduzi até o short de Luigi e deixei a água escorrer até molhar metade do short.
Voltei até o banheiro, escondi a tolha e as roupas dele debaixo da cama. Deitei na cama ao lado, rindo baixinho e apaguei. No meu sonho, eu corria sem rumo. Aos poucos, vi surgindo meus amigos. Mas algo estava errado. Isa e Cora não eram as mesmas que eu conhecia. Quando elas se viraram para olhar para trás, os olhos delas estavam... Estranhos. Mas antes que eu pudesse assimilar alguma coisa, Luigi me acordou as pressas. Levantei da cama assustado, e uma onda de tontura me atingiu.
– O que foi? — Disse, me apoiando na cabeceira da cama.
– Você viu a carta da Isa e continuou dormindo?!
Luigi conferiu a porta três vezes seguidas e depois foi até a janela. Me deitei na cama novamente, e fingi que tinha voltado a dormir. Ouvi um xingamento baixinho dele. Devia ter notado o short. Correu pro banheiro. Antes de acabar dormindo de novo, ouvi ele revirando as gavetas e a mochila. Sufoquei o riso no travesseiro quando o ouvi gritar de frustração. Adormeci.
Acordei algumas horas depois. Luigi estava sentado no chão assistindo televisão. Ao ver que eu tinha acordado, se afastou para o lado para que eu me sentasse do seu lado. Notei que ele ainda não havia trocado o calção. Um barulho alto nos fez levantar. Luigi desligou a TV e disse:
– Pega as coisas. Não ligo mais para o que a Isa disse, vamos dar o fora daqui agora.
– E as meninas?
– O quarto delas fica no caminho, vamos.
No momento da pressa, peguei as mochilas embaixo da cama do Luigi, que ainda não havia se tocado. Quando tentamos abrir a porta, mas havia emperrado. Luigi tomou distância e a arrombou, embora parcialmente, mas o suficiente para passarmos.
O corredor estava arranhado. O papel de parede em algumas partes havia sido arrancado. As lâmpadas piscavam por mal contato ou se encontravam quebradas no meio do chão. O carpete estava sujo, rasgado e bolorento. Quando chegamos no quarto das meninas, a porta estava aberta, as luzes apagadas e tudo arrumado. Ouvimos vozes vindas do andar de baixo. Isa, Cora e Michelle estavam paradas no meio da escada, vendo a recepção arrumada como antes.
– Tem alguma coisa aqui. Também vimos as marcas de garras na parede. — Disse Michelle.
– Mas Isa disse que a recepção estava destruída. — Disse Luigi. As meninas se viraram, aparentemente só agora notando que havíamos chegado.
– O que está acontecendo? – Falei baixinho, mas ninguém me ouviu.
Em um momento macabro, a recepção se transformou, se tornando a bagunça que Isa havia dito. Ninguém disse nada, apenas saímos dali o mais rápido que podíamos. Corremos pelas ruas da cidade, agora desertas, mal cuidadas, gastas e fantasmagóricas. Os prédios estavam destruídos. Estavam fechados com tábuas de madeira, demolidos em montes de destroços ou com paredes e/ou vitrines quebradas, assim como as portas estavam escancaradas ou derrubadas. As pessoas que encontrávamos, pareciam não nos ver e quando vinham na nossa direção, nos atravessávamos. A única coisa que deixavam era um rastro de calafrios e melancolia.
Chegamos no final da cidade. Começamos a subir a montanha. Quando chegamos em uma certa curva no rochedo, voltei a olhar pra cidade. Estranhamente, ela tremeluzia, como se fosse um holograma com defeito.
– Olhem. — Disse. Todos se viraram. Instantes depois, a cidade desapareceu. Não havia nada, só uma parte coberta de terra, sem vegetação e nem neve. Me pergunto se a nevasca que Isa viu no noticiário fazia parte da cidade ou se era real.
– Não era uma cidade comum. — Disse Isa, com um tom quase imperceptível de medo na voz. — Era uma cidade fantasma.
– Cada vez que seguimos para o Norte, as coisas parecem fugir de controle... — Disse Mi. Ela não precisava completar a frase. “... dos deuses.” Pensei comigo mesmo.
Continuávamos a subir a montanha, em um tom mais lento, para não nos cansarmos, mas não podíamos parar, se não congelávamos. Usávamos a técnica de pisar onde o outro pisava quando os trechos ficavam mais estreitos. Isa usava um graveto pra testar os pontos mais frágeis.
Todos os dias o caminho piorava. A neve ficava cada vez mais funda ou difícil de se enfrentar. Nossos casacos pareciam que iriam congelar se não nos movêssemos.
Mais a frente, vi que a perna de Michele afundou, mas Luigi a ajudou a se levantar. Ele sussurrou alguma coisa e os dois seguiram conversando, lado a lado. Um vento frio passou por nós. Isa gritou para virarmos de costas. Virei a tempo de sentir um vento forte me atingindo. Quando nos levou ao chão.
Quando cessou, nos viramos, mas sem aviso prévio, ele voltou e acabou nos derrubando no chão fofo, branco e congelante. Isa tirou uma corda que estava na mochila passou pra Michelle, que passou pra Luigi, que passou pra mim e que passou pra Cora. Prendemos o pulso na corda, a esticamos e voltamos a andar. O vento não cessara, mas agora passara a trazer neve consigo. Ficava cada vez mais difícil continuar a caminhar.
Isa gritou algo, mas não conseguimos ouvir pelo barulho. Michele gritou algo de volta, mas o vento também a abafou.
Estávamos no meio do nada. A neve nos rodeava. Os suprimentos poderiam acabar a qualquer momento. E nem nos comunicar conseguíamos. Pelo visto, a nevasca não fazia parte da cidade fantasma.
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