Notas iniciais
Oe galera, saboreiem o novo capítulo. Espero que gostem beijos da Corujinha.

P.O.V Michelle

Um passo. Frio. Outro passo. Cansaço. Dois passos. Frio. Outro passo. Dificuldade de se focar. Três passos. Frio. Outro passo. Tontura. Quatro passos. Frio. Outro passo. Fome. Quinto passo. Frio. Outro passo... O que estávamos fazendo ali...?
Já fazia uns três dias que estávamos subindo aquela montanha e ainda não fazíamos idéia para onde iríamos. Podíamos até chegar no topo e achar o esconderijo de Gabriel (que eu duvidava que estivesse com uma placa vermelho-escarlate com letras neon dizendo “ESCONDERIJO DO MAL AQUI -> DESÇA AS ESCADARIAS SINALIZADAS COM HOLOFOTES!”), mas e depois? Estávamos no meio de montanhas, o que faríamos depois? Suprimentos não duram para sempre, a não ser que você tenha uma cornucópia como a da Piper. No meio da neve. Perdidos, no meio da neve. Pensar ficava cada vez mais difícil. E se você estivesse perdido em pensamentos, simplesmente, o seu subconsciente deveria estar atento onde você estaria pisando. Era difícil fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
O ataque do grifo só serviu pra nos lembrar de uma coisa: o perigo nos acompanhava. Sempre acompanhou. Sempre acompanharia. Sempre acompanhará. Estar no Acampamento não significava que você estaria seguro. A qualquer momento você poderia ser arrancado pra fora da cama, e ser enviado pra uma missão suicida, ou ser alertado que uma guerra estava prestes a começar, de novo.
O que me preocupava, não era o fato dessa guerra acontecer, mas sim onde ela aconteceria. Mesmo que conseguíssemos encontrar Gabriel antes dela começar, o que aconteceria com o exército dele? Da outra vez se dispersaram, por medo, julgamos. Mas não. Estavam se reagrupando. Aquele era o primeiro ato da peça dos deuses e titãs. O segundo ato foram os três anos. O terceiro e último ato, era o agora.
O perigo era eminente, indiscutível. E acima de tudo, impossível de ser esquecido. É possível sentí-lo. Ele pesa. Faz sua visão e sua audição se tornarem mais aguçadas a cada barulho incomum. Seja um galho quebrando, seja um passo arrastado. Não sabia qual era a sensação de se segurar o peso do céu nas costas, e esperava nunca tê-la, mas acredito que era equivalente ao perigo.
Parar naquele hotel, mesmo que mal assombrado, deve ter sido uma das melhores coisas que fizemos. Estávamos caminhando a dias e em sacos de dormir no meio do chão. Era anti-humano e anti-semideus também. E então... Estávamos em um quarto de hotel e poderíamos dormir o quanto quiséssemos, até descobrirmos que a cidade toda era fantasma e absolutamente macabra. Bem, ao menos tivemos uma pausa. Fazia um bom tempo que eu não dormia assim, sem pesadelos e profundamente. Era uma sensação boa.
Havia acordado com um raio de sol batendo de leve em meu rosto. O calor aconchegante das cobertas dificultou a saída da cama, mas quando vi a outra cama arrumada, e Isa e Cora de pé, soube naquele instante que tinha algo errado.
Me lembro vagamente do que aconteceu depois, já que tinha acabado de acordar. Encontramos os meninos na recepção. Em um piscar de olhos tudo se bagunçou e puf, já estávamos saindo da cidade com uma pressa que me surpreendeu.
Quando chegamos a uma distância considerável, e já havíamos subido uma boa parte da montanha, a cidade tremeluziu e sumiu. Não pude deixar de pensar em um filme de terror quando um arrepio tomou conta do meu corpo.
Voltei ao presente quando meu pé afundou mais do que devia na neve e prendeu minha perna à altura do meu joelho.
Luigi, que estava logo atrás de mim, e Isa, logo a frente, me ajudaram a retirar a perna. Agradeci e continuamos. Estávamos quase no cume da montanha. A neve estava alta e os pés continuavam afundando. Isa jogou uma corda para nós, ainda tentando seguir o plano dos passos, embora hora fazia mais sentido não pisarmos no mesmo lugar. Fazia pelo menos cinco minutos que estávamos usando a corda, quando Luigi a largou e disse:
– Galera, já deu. — Ele se sentou em uma pedra que estava apoiada na montanha. Quando a pedra afundou mais um pouco na neve, ele se levantou rapidamente. — Eu to com bolhas nos pés e preciso comer.
– Eu apoio. — Disseram Cora e Samu, quase em uníssono.
Isa assentiu, aparentemente também cansada. Ela tirou a mochila das costas e me pediu ajuda pra distribuir as barrinhas de cereal entre todos. Depois, tirou algumas garrafas de suco, que ficaram pela metade.
– Lá em cima, vamos encontrar muita neblina. E se a nevasca não tiver parado, não vamos ver nada. — Disse. As barras de cereal estavam com gosto de gelo. Era o único sabor que consegui sentir. Não era muito apetitoso.
– E o que vamos fazer? — Perguntou Samu enquanto procurava alguma coisa na mochila.
– Vamos precisar de algo pra nos segurar e podermos andar sem cair ou trombar em alguma coisa, caso a nevasca ainda esteja lá em cima. Como uma árvore firme ou aquelas bengalas que os velhos usam, Bastão de Hoover.
– Prefiro usar um gancho. — Luigi o tirou de dentro da mochila e mostrou um mecanismo que, quando ativado, deixava a mostra quatro garras pontiagudas.
– Achei estranho. — Disse Isa, de repente.
– O que? — Perguntou Cora.
– A nevasca acabou aqui. Mas... — Ela olhou pra cima, como se quisesse confirmar o que estava dizendo. — Ela parece que continua lá em cima. — Nuvens escuras cobriam a montanha. — Temos que ir.

Os agasalhos já não estavam fazendo o trabalho direito. As luvas estavam ficando gastas. Os cachecóis mal se seguravam. Gorros? Perdemos. Protetores de orelha? O ferro que os segurava estava nos congelando. Como tinhamos conversado mais cedo, a neblina chegou, e com ela, uma lufada de neve na cara. Colocamos o plano em ação.
Do modo que cada um podia, agarrávamos em qualquer coisa que víssemos, sem nunca soltar a corda. O topo havia chegado. Estávamos exaustos. Acampamos ali no cume, com Isa e Cora verificando o local. Sem monstros, sem irregularidades, sem chão estável, sem perigo aparente, segundo elas.
Samu e Luigi montaram as barracas enquanto eu procura por madeira ou alguma coisa pra podermos queimar. Encontrei um pinheiro ali perto. Recolhi alguns galhos e voltei para o acampamento.
A neve não tinha cessado, apenas diminuído, mas a neblina sumira. Não fazíamos idéia de que horas seriam, já que as nuvens da nevasca cobriam tudo. Ficamos acordados por mais um tempo, pra termos certeza que a fogueira aguentaria. Entramos nas barracas e dormimos.
Tudo começou com um clarão. A medida que as luzes diminuíam, percebi as figuras. Isa estava machucada e com manchas de sangue seco por todo o corpo. A roupa estava surrada, manchada e rasgada. Parecia prestes a gritar, de fúria, ódio, medo, ou qualquer que fosse o motivo.
Depois, eu, Cora, Samu e Luigi. Estávamos do outro lado da sala, procurando por algo e discutindo entre nós, mas não parecíamos notar Isa. Perto dela, conseguia ouvir sussurros hostis, mas não conseguia distinguir nenhuma.
Um último grito de raiva de Isa.
Acordei com Cora delicadamente chutando meus pés, me mandando acordar.
– Vamos, precisamos aproveitar enquanto a neblina ainda não voltou e a neve parou.
A descida foi mais rápida. Não tinha muitas árvores e pedras seguras no caminho, então tive uma idéia. Um trenó improvisado, embora fosse arriscado, caso uma vala ou um penhasco aparecesse no meio do caminho.
Usamos o pinheiro que tinha achado no meio do caminho, arrancamos a casca e fizemos cinco trenós, pro tamanho de cada um.
Contamos até três e começamos a descer. Não tenho palavra pra descrever o quão legal foi ter feito aquilo. Ninguém conseguia parar de rir, e algumas vezes alguém gritava quando aparecia uma pedra no caminho e a casca da árvore saltava.
Tínhamos descido uma boa parte quando ouvimos o som de algo nos seguindo. Olhamos ao redor. Lobos nos acompanhavam, vultos cinzas descendo a montanha em alta velocidade, no meio das pedras e da neve. Aceleramos.
Os lobos ficaram para trás, mas não pararam. Ouvi o uivo de um deles. Os outros acompanharam. Latidos.
Ouvi Isa gritar, nos chamando, mandando parar. Obedecemos, até porque já havíamos chegado na base da montanha. Os lobos nos cercaram, andando em círculos. Um deles, ou melhor, uma, que parecia ser a líder da matilha, se aproximou. Mas não fez mais nada.
– De onde surgiram esses lobos? — Perguntou Cora. Eram pelo menos oito.
O chamei, estalando os dedos. Sem pestanejar, a loba se aproximou, me farejando. Fiz um carinho na orelha. O pelo macio era cinza claro e tinha manchas de um cinza mais escuro. Os olhos azuis claros me fitavam, curiosos.
– Cuidado. — Disse Isa. Mas mesmo assim, ela também chamou um dos lobos, que se aproximou com mais cautela. Pareciam mansos. Samu e Luigi também tentaram, mas os lobos rosnaram e deixaram os dentes a mostra.
– Ártemis não tem lobos? Ela é a deusa da caça e lidera as Caçadoras, faz sentido se os lobos não gostam dos meninos.
– E a profecia diz que “Lua ilumina com bondade generosa”. Duvido que ela seja tão generosa assim — Disse Samu.
Me virei pra loba que era a líder da matilha. Trazia uma coleira de couro com um pingente de lua. O virei. Stella.
– Ei garota, você vai nos levar até Ártemis?
Ao ouvir o nome da dona, a loba alfa soltou um uivo, longo e prolongado, que cortou o vale onde estávamos.

Notas finais
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