Notas iniciais
Han... Não sei o que colocar aqui. Boa leitura..? - Little Thunder

POV Luigi

Estávamos no quinto dia de viagem, e tudo o que conseguimos fazer até agora foi andar para o norte. Como se isso fosse pista concreta para alguma coisa, aparentemente tínhamos que encontrar um lugar frio, gelado.
As mochilas nas nossas costas chacoalhavam, algumas pesadas com os mantimentos. Apenas o necessário, dizem, mas ninguém cumpre. O necessário estava matando minha coluna e meus pés estavam sendo esfaqueados pela caminhada.
– Se não fosse pelo peso eu teria trazido o meu violão. – Resmunguei, cansado. Enquanto a noite se aproximava, podíamos ver o pôr-do-sol. Mas nos recusávamos a contemplá-lo.
– Quando alguma coisa nos atacasse o que você faria? – Disse Mi. – Usaria o violão no lugar do seu amado arco?
– Primeiro. – Comecei a retrucar. Tive a leve impressão de Samuel ter sorrido. – Meu violão é tão amado quanto meu arco. Segundo. A gente não ta em um desenho animado.
– Quem me dera se estivéssemos. – Ouvi Isa dizer mais a frente. – Em três minutos atravessávamos o país.
– Eu não sei, não. – Disse Michelle. – Deuses gregos, romanos, magia, semideuses... Parece uma coisa que crianças gostariam.
– Mas tem um desenho animado disso. Acho que do Hércules, da Disney. – Prosseguiu Isa, séria. – É um desenho bastante profundo, embora não conduza com a realidade.
– É. O cabelo do meu pai não pega fogo. – Respondeu Cora.
– E Hermes não parece uma junção hippie com grega. – Disse Samuel.
Ficamos em silêncio. Depois de alguns passos, Isa continuou:
– E se você raspar o cabelo e barba do meu pai, a cabeça dele não parece um amendoim.
Acabamos caindo na risada, sem nunca parar de andar.

O sol já havia desaparecido, e ainda não havíamos encontrado um lugar decente para acampar. Todos estávamos cambaleando, cansados, reclamando da vida. Literalmente, por falar nisso.
Depois daquela profecia, ultimamente um clima de merda, alguém vai morrer havia se instalado entre nós. E por muito que ninguém quisesse especular, acho que as apostas internas de cada um já estavam altas. Meu palpite? Hum... Ninguém.
Por um fio a vida ficará, não é a melhor metáfora de morte. Já vi melhores. Talvez, no máximo, uma proximidade perigosa. Mutilação, ferimentos graves... Não. Gravíssimos. Mas não tinha nenhuma suspeita de ninguém. Acho que é melhor assim.
A noite chegara totalmente. O céu estava carregado de nuvens, e só alguns pontos deixavam a lua aparecer. Armamos acampamento na base de dois montes, a cerca de 300 metros do lado esquerdo da estrada. O lugar não era o mais estratégico, já que poderíamos estar em um lugar mais seguro. Se algum caminhão perdesse o controle, provavelmente cairia ali. Talvez o lugar mantivesse a discrição por conta do matagal próximo de nós.
Acendi uma fogueira média. As chamas crepitavam no ar frio da noite. Eu não tinha muita ideia de onde estávamos, mas o clima estava esfriando cada vez mais a medida que avançávamos. Isa puxou uma pedra e se sentou. Mi ficou agachada ao meu lado, esquentando as mãos, enquanto eu cutucava o fogo.
– Apaga isso. Você vai acabar trazendo alguma coisa pra nos jantar. – Resmungou Isa.
– Vamos morrer congelados sem isso, mesmo que realmente atraia alguma coisa. – Retruquei.
– Se você não reparou, Solzinho da Rihappy, tem alguma coisa nos observando, e ela vai adorar saber onde estamos. – Um grito agudo de uma águia soou ao longe. – Eu avisei. – Ninguém se moveu. Outro grito. Galhos se partiram. Aquela coisa havia pousado.
– Desmontar acampamento. Agora. — Disse Mi, alto o suficiente para que Samu e Cora pudessem ouvir.
– Como assim? – Cora colocou a cabeça pra fora da barraca no mesmo instante. — Acabamos de parar e vocês querem continuar andando?! Por causa de um passarinho?!
– Cora prec... – Comecei, mas ela me interrompeu.
– Nada Cora...! – O tom de voz dela aumentava. – Todos nós estamos morrendo de sono e você quer sair andando como se fossemos feito se titânio!
– CORA! – Gritei. Ela se calou, surpresa. – Esse é o problema!
– Não existem águias tão ao norte. – Completou Isa. – E o trinado dela... É desigual. É mais agudo e estridente.
Cora não disse mais nada. Samuel saiu da barraca.
– É o que isso, então?
– No mínimo eu chutaria um grifo. – Disse Mi, em tom mais baixo. Senti meu sangue gelar. Os outros também ficaram desconfortáveis. – E se fosse vocês, pararia de gritar e desmontava tudo. Devemos estar perto do ninho dessa coisa.
Se tivéssemos muita sorte, uma sorte cagada, seria só Aquila, nos vigiando por Zeus. Mas duvidava muito que os deuses se importassem conosco agora, quem dirá o deus dos deuses.
– A gente dá conta dele... – Disse. Não estava tão certo. – Eu espero.
– Todos vocês. Desmontem tudo. – Isa assumiu o seu tom autoritário. Todos devem ter percebido, pois parecem gostar de vê-la assim. Ela parecia dar a mensagem que se você não fizesse o que ela pediu (ou mandou, no pior dos casos), Isa apareceria as quatro da manhã com uma faca na sua garganta. – A partir de agora, andem com as armas em punho ou em acesso fácil. Quando estivermos o mais longe possível desse bicho, acampamos.
Depois que todos estávamos prontos para seguirmos, pendurei a bainha da espada na cintura, deixei a mochila pendurada com uma alça, o arco preso a ela, e a aljava no outro ombro. Ajeitei as flechas de modo a ser mais fácil de puxá-las.
Preparamos as nossas favoritas, mas pares de adagas também ficaram ao alcance. Ninguém parecia ansioso para batalhar, até porque já estávamos lutando contra o sono.
– Luigi! – Cora parecia ter tido uma idéia. – Quanto dinheiro você trouxe?
– Pra quê você quer saber?
– Energéticos. Adrenalina, talvez. – O pessoal pareceu dar um pulo de animação no mesmo lugar. Ouvi alguém dizer Yeah! – Já faz bastante tempo que não passamos por nada, se seguirmos a estrada provavelmente chegaremos a algum posto ou loja de conveniência.
Ela tinha razão. Começamos a andar, e pouco antes de amanhecer, encontramos uma loja onde compramos cinco energéticos, seringas e frascos de adrenalina injetável, assim como um pouco mais de comida.
– Esses daqui – Apontei para os energéticos – vocês podem beber a vontade. O gosto é meio ruim no começo, mas depois vocês acostumam. Mas as seringas com adrenalina são só de último caso. Se encontrarmos com aquele grifo, que pelo visto ainda está atrás da gente, são só pro caso de vocês estiverem cansados demais para continuar lutando.
Todos assentiram. O grito do grifo cortou o ar novamente.
– Vamos. – Disse Isa. – Olho nos céus, viajante.
Andamos. Andamos. Andamos, acompanhando as estradas que levavam mais para o norte do país, sempre ouvindo o grito do grifo depois de certo tempo. Mi começou a contar elefantes, tentando calcular a distância. Mas a cada grito, ele parecia vir de um local diferente. A grama passou a ficar mais seca, até naquele mesmo dia chegarmos a neve, pouco depois de almoçarmos.
A neve estava cobrindo grande parte do chão, e havia uma floresta de pinheiros a nossa direita. A estrada fez uma curva, em retorno, então tivemos que continuar em linha reta. Era cerca de três da tarde no horário local, quando tivemos que subir uma colina. O vento frio dificultava a subida, mas por sorte a neve não estava tão funda, e os casacos eram grossos.
Quando chegamos no topo, paramos para tomar fôlego. Mi pediu que não respirássemos pela boca, pois isso só cansaria mais. Engoli em seco, com o gosto de sangue no fundo da garganta. Outro grito.
Olhando para o norte, bem distantes, a cerca de sete ou oito dias de viagem, estavam as montanhas. Depois das colinas e antes das montanhas, talvez tivesse uma cidade ou duas, onde podíamos passar um tempo.
– Lá! — Disse Isa, apontando para o horizonte. — Eu lembro daquelas montanhas, mas era ainda mais para o norte, depois dela. — Ela parecia um pouco mais animada. E desanimada ao mesmo tempo. Pelo menos estamos na direção certa, espero.
– Galera, senta aí. – Falei, tirando a mochila das costas. – Vou cuidar das bolhas dos pés de vocês, antes que a neve faça com que ninguém aguente tirar os sapatos.
Obedeceram. Nem todo mundo estava com bolhas nos pés, já que dependia do sapato, mas tinha algumas bem feias. Costurei uma linha com remédio dentro de cada bolha de cada um. No início arde um pouco, mas cura. O processo de calçar o sapato foi lento. Todos queriam descansar, mesmo sob o efeito do energético.
Isa pareceu apreensiva por um instante. Cora pareceu perceber também. Ambas se levantaram e sacaram a espada antes que percebêssemos o que estava acontecendo. Instantes depois, o grifo pousou, fazendo o chão tremer, com um grito que podia ter estourado os tímpanos.
– CRAW PRA VOCÊ TAMBÉM, MONTE DE PENAS! — Gritou Cora, bradando a espada na direção do animal. Era enorme. Maior do que qualquer pessoa, o corpo era de um leão, mas tinha cabeça e asas de águia. A pelagem era de um caramelo escuro, e as penas de marrom mais claro. Puxei uma flecha e atirei, acertando em um ponto perto do pescoço, mas o monstro pareceu não se importar, acertando Cora com a pata dianteira e jogando-a longe.
– CORRAM PARA O BOSQUE! – Gritou Mi, ajudando Cora a se levantar.
Eu e Isa atiramos flechas no animal, tentando retardar a criatura, dando tempo dos outros correrem. Acertei uma flecha perto do olho, e aquilo o deixou realmente incomodado. Ocupado demais tentar arrancar a flecha, deu tempo o suficiente para continuarmos correndo.
Quando alcançamos os outros, Isa fez sinal para que nos espalhássemos. O cheiro de semideus o confundiria.
Cada um correu para um canto. Me escondi atrás do tronco de uma árvore, e deixei o arco preparado. Eram apenas minutos, mas pareciam horas. Esperamos. Mas não havia sinal algum da besta.
– Merda... — Sussurrei.
Tinha dado meio passo para o lado quando o monstro pousou bem no meio de nós com um grito. Atirei. No momento em que a flecha ia acertá-lo, a causa desviou a trajetória.
– Adrenalina! – Ouvi Samuel gritar, em algum ponto atrás do grifo. Voltei para trás da árvore e corri. Os outros fizeram o mesmo.
Tirei a seringa na mochila, a segurando com tanta força que achei que fosse rachar. Aquele bicho ia seguir algum de nós. E me escolheu.
Não teria como. Ele iria me alcançar. Minhas pernas estavam mortas e o frio não ajudava. Podia ouvir as patas pesadas e mortais quebrando galhos e folhas. O corpo empurrava as árvores. Só tinha um alvo. Eu.
Estava cansado demais. A minha corrida se tornou mais lenta, embora meu cérebro gritasse para que eu corresse. Não, não, não! Em dez segundos aquela coisa me alcançaria. Cinco segundos. Merda. Três. Um.
No último segundo, Isa apareceu voando, e Cora se teleportou pelas sombras, ambas empurrando o grifo, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse.
Isa estendeu a mão e a aceitei de bom grado. Corremos até Cora, que em um instante nos levou para outro lado do bosque, onde Mi e Samuel esperavam. Mas não era o suficiente. O grifo ainda estava atrás da gente.
– A adrenalina, rápido! – Disse Mi.
Cada um injetou sua porção. A diferença de força foi instantânea. Mais despertos. Mais atentos. Mais elétricos.
O som do bater das asas do grifo o denunciou. Ele não estava se importando nem um pouco em bater as asas nas árvores, e consequentemente, derrubá-las. Subiu mais alto e passou por nossas cabeças, fez uma curva e estava prestes a pousar em cima da gente, mas Cora nos tirou dali. Frustrado, o grifo grasnou, gritou, que seja. Preparei o arco e Isa fez o mesmo. Samuel, Cora e Michelle partiram para o combate corpo a corpo. As espadas não surtiam efeito, e quem dirá as flechas.
– Não adianta! – Gritei.
– Vocês não adiantam, eu sim! – Gritou Isa.
Se lembram do céu carregado de nuvens? Agora eles estavam se concentrando apenas ali, em cima de Isa. Um raio caiu em cima dela. Por um instante achei que ela fosse morrer, mas carregou a descarga elétrica nas mãos e no braço.
– Flecha! – Gritou ela.
Demorei pra entender. Preparei o arco, calculei o tempo e soltei. Enquanto a flecha cortava o ar, Isa liberou toda a descarga elétrica naquela flecha de bronze celestial.
Com um último golpe de espada, Samu e as meninas se afastaram, enquanto a flecha atingia o animal.
Quando os espasmos pararam, o grifo, com dificuldade para respirar, grasnava baixinho, deixado deitado na neve. Me aproximei, com cuidado. Em um grito de protesto, ele tentou se levantar, mas isso só o deixou mais machucado.
– O que você pensa que está fazendo? — Disse Mi.
– Matá-lo, o que você acha?
– Isso é cruel... De certo ponto de vista.
– Ele nos atacou! — Bradou Cora, que servia de apoio para Isa, ainda meio tonta. — E seria mais cruel deixá-lo morrendo lentamente.
– Samu, segura a cabeça dele, por favor? — Pedi. Ele obedeceu.
Tirei a espada, e em um golpe suave, cortei sua garganta. Em um último grito baixinho, sua vida se foi. Limpei o sangue da espada com a barra da blusa, enquanto mais e mais jorrava, pintando a neve de branco.
Inimigos aguardam o inverno que consigo traz o sangue do inferno.

Notas finais
Comentem caramba -qqq to ficando magoada - LT