The Heir of The Universe
6 Capítulo VI
Notas iniciais

POV Isa
Uma das coisas que eu mais odeio, é quando você tem que mostrar algo importante pra um alguém ou pra uma multidão, vem uma desgraça alheia e estraga tudo.
Passei horas e horas acordada. Eu contei quantas foram. No mínimo, 23 horas totais de madrugadas viradas. Me certificando de que nada desse errado no dia da nossa apresentação. Deuses, eu quero matar aquele ser. Estragou tudo. Sabe tudo? Então, TUDO. Na verdade, eu achei que tinha matado.
Tinha tido alguns pesadelos absurdamente chatos ultimamente. Não me lembro direito deles, mas sempre acordava suando frio e com as cenas passando como furacões.
Só me lembro de um, em que eu estava totalmente machucada e mancando, fugindo de alguma coisa. Arfava, corria desesperadamente. Estava aonde? Não parecia com lugar algum onde já tinha ido. Algumas montanhas cheias de neve e neve pra todos os lados. Tropecei, atravessei o chão fofinho e gelado e mergulhei numa escuridão infinita.
As vezes eu só queria receber um dia de folga da vida de semideus.
De manhã, treinava a voz. Afinava os instrumentos do pessoal. Checava as caixas de som. Supervisionava os efeitos sonoros.
No resto do tempo, treinava com meus amigos, treinava sozinha, cuidava de Aurora, conversava com o pessoal, e coisas do tipo. Mas honestamente, não tinhamos ataque de monstros já fazia meses. Aquilo estava absurdamente tedioso.
Me chamem de viciada em música. Me chamem do que quiser. Mas fala sério. Quando você está prestes a entregar o trabalho que mais vale pontos pra professora, você não repassa ele inteirinho na cabeça pra que nada dê errado?
Enfim, vou poupar vocês de tudo isso, do negócio da banda e tal. Han, vejamos... Ah sim, o surto do ensaio. Esse assunto não ta meio batido não?
O fato é que, depois que conversei com Mi, o fardo, que eu nem me lembrava que existia, foi diminuindo. Não estava brava com Samu e nem com ninguém. Indiferente, apenas. Também, não sabia se Michelle tinha contado pros outros sobre Laura.
Naquele mesmo dia, (dois atrás) Luigi me encarou na hora do jantar. Embora eu tivesse dito que eu ia ficar bem, naquela hora eu não estava. Especialmente pelo fato de que as minhas memórias de infância voltaram a tona. Aquilo me atingiu. E muito.
A situação piorou quando eu nem pedi o jantar e simplesmente um milkshake de chocolate surgiu na minha frente. E eu gosto de milkshake de flocos. Flocos, mano. FLOCOS. Chocolate é o favorito dela, não meu. Claro, desabei né?
Mas quando fui dormir, me acalmei e até me lembrei de um dia em que nós duas estávamos brincando no parque. Dormi com um sorriso no rosto e lágrimas no travesseiro.
A pessoa que ( eu tenho quase certeza de que sei quem é ) mandou aquela carta pra mim disse que voltaria em três dias. Pois bem. Sabe a coragem? Ela me faltou nesses três dias.
O bilhetinho que disse pra Mi que mostraria no ensaio? Era a carta. Mas eu consegui marcar um ensaio com o pessoal? Não. Ou seja, foi tudo em cima da hora e eu não consegui falar com eles.
Resolvi que mostraria depois da apresentação que... daríamos na frente de todo acampamento. Ai deuses. Eu estava histérica. Não no bom sentido. Estava quase tendo um surto, e já tinha bebido quase uns dois litros de água com açúcar. Ia pegar diabetes desse jeito.
Era o terceiro dia. Acordei cedo, tomei um banho, me vesti e fui tomar café. Tinha escolhido uma bota marrom, calça jeans clara e uma blusa rosa com contas douradas. A corneta soou e fui tomar café-da-manhã. Comi um misto quente e fui pra arena treinar um pouco. Tirei a presilha do meu cabelo e a transformei no meu arco.
Puxei a corda e a flecha de energia se formou. Tinha melhorado e muito nos últimos meses. Agora conseguia acertar no centro do alvo, mesmo se estivesse se movendo e eu a três metros de distância.
Fui caminhando paralelamente aos cinco alvos de feno do outro lado da arena. Enquanto caminhava, atirava. Quando atirei a quinta flecha, fui ver meus resultados. Tinha ido bem. Acertei todos. Só não acertei exatamente no centro.
– Fala Cora.
Me virei a tempo de vê-la saindo das sombras, na sua caminhada matinal. Bota preta, calça jeans escura, blusa do acampamento, jaqueta de couro. “Quanto mais preto melhor.” Sorri.
– Ainda me pergunto como você adivinha. — Disse ela, cruzando os braços. Dei de ombros.
– Também não sei. Cora... — Estava carregando a carta desde o dia que a recebi. Tirei do bolso e mostrei a ela. — Leia.
Cora apanhou o pedaço de papel dobrado da minha mão e começou a lê-lo. Quando terminou, seus pensamentos pareciam ter ido a mil por hora.
– Precisa mostrar isso a Quíron. Recebeu isso quando? — Desviei o olhar. — Ah... Há três dias...
– Ferrou, né?
– Claro...
– Foi por isso que eu tava desesperada pra marcar ensaio com vocês. Alguma idéia? – “Queridinha, isso não justifica o fato.” Cala a boca consciência.
– Não. Vai mostrar quando? — Indagou ela. Posicionei uma flecha e atirei. Ouvi o som de feno carbonizado. Acertei no centro.
– Depois do show. — Disse, simplesmente.
Faltava cerca de duas horas pra nossa apresentação. Estava ajudando os filhos de Hefesto e Hermes a montarem o palco. Ouvi alguém subindo os degraus do palco. Era Mi.
– Oi Isa. — Disse ela, sorrindo. Os cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo. Usava uma blusinha de coruja feita de contas, bermuda jeans que ia até o joelho e um all star preto. — Tudo bem?
– Sim. — Respondi, voltando atenção pro equipamento. — Deuses, eu to muito nervosa. To com o pressentimento de que algo vai acontecer. — “AVÁ. ESQUECEU DA CARTA QUERIDA? VAI FERRAR SEUS AMIGOS DESSE JEITO. ” Consciência, eu juro que vou te espancar.
– Hum. Tipo o quê? — Dei de ombros. — Ah, então é só nervosismo. — Ela riu. Me concedi uma risadinha também. — Isa, posso te pedir uma coisa?
– Claro, o que foi Corujinha?
– Sabe a Shots, do Imagine Dragons? — Assenti. — Já viu o acústico?
– Já. Se for pedir pra colocar na apresentação, não vai dar. Tanto por não ser tão conhecida, por não usar a maioria dos instrumentos, quanto por estar em cima da hora. Inclusive, tive que tirar a I'm So Sorry e colocar a Radioactive por causa disso.
– Ah... — Ela pareceu decepcionada. Fitou os próprios pés.
– Mas isso não nos impede de tocar agora. — Michelle ergueu o olhar, feliz. — É até bom pra testar.
Depois que terminamos de tocar, Mi me ajudou a conferir os instrumentos, tocando alguns acordes de cada um. Faltava cerca de meia hora. Luigi chegou junto com Samu, conversando, e Cora chegou logo depois. Os semideuses já estavam se posicionando na frente do palco. Em poucos minutos, uma multidão já estava aglomerada na praia.
Com a ajuda de uma rampa, Quíron, na forma de centauro, subiu até o palco. Um holofote o acompanhou e os telões ligaram. Disse algumas palavras e depois passou o microfone pra mim. Minha alma gelou e não conseguia mais sentir minhas pernas. O sol se punha a nossa esquerda. Todos os olhares sobre mim, como no dia em que fui reclamada. Saudades daquela época.
– Boa noite a todos, somos a banda Only a Cover. Quem aqui ta afim de música boa?! — A platéia bradou. Alguns assobios de alguém lááá do fundão. Quase não deu pra ouvir. – E 1, 2, 1, 2, 3, 4!
Saí do holofote, que apagou gradativamente. As luzes do palco focaram na bateria. Samu tocou alguma coisa aleatória, deixando um tom de mistério. Depois, começou. Cora e Luigi acompanharam.
Vou deixar a playlist aqui pra vocês: Let's See How Far We've Come, Hail to The King, Radioactive, GDFR, Numb, Summer, Behind Blue Eyes, Counting Stars, I Am Wrong, Summertimes Sadness, Boom Clap, Burn, Clarity, Dance Again, Don't Worry Child, Feel This Moment, Heart Attack, Levels, Maps, Moves Like a Jagger, Party Monster e mais um tanto de outras por aí. A playlist era grande. Acho que deu umas três horas.
Só sei que eu estava com a garganta enterrada com direito a um funeral, suando, exausta e eufórica quando acabamos. Os outros não pareciam melhores, mas sorriam.
Todo mundo tinha gostado. Nada tinha dado errado. Agradeci aos deuses, e especialmente a Apolo, por ter me dado voz o suficiente pra aguentar tudo aquilo.
Era uma noite quente. As ondas do mar iam e vinham, tranquilas. Uma brisa fresca soprava de vez em quando. As árvores farfalhavam. A multidão gritava. Estrelas pontilhavam o céu.
Tudo bem.
Quando abri a boca pra dar os agradecimentos finais e encerramos a apresentação, uma estática repentina surgiu. Normalmente, já doí os ouvidos. Agora imagine ampliada por quatro caixas de som super potentes. Aposto que até meus pais, que moram do outro lado do país atualmente, ouviram.
Tentei pedir desculpas, mas o microfone não reproduziu som algum. O botão indicava que estava ligado e uma luzinha mostrava que estava funcionando.
Tinha ficado surda? Não. Ouvia meus amigos conversando. Alguma coisa tinha dado errado. Sabia. Merda. Desgraça. Caralho. Bosta.
As luzes do palco piscaram. Os instrumentos falharam. Alguns faiscaram. Uma das tomadas entrou em curto-circuito perto de Mi, que gritou. Samu puxou água do oceano e apagou o fogo com cuidado pra não dar choque no pessoal. Filhos de Hefesto e Hermes corriam de um lado pro outro tentando saber o que estava acontecendo. Puxei Flávia pelo braço quando ela passou na minha frente.
– O que ta havendo?
– Não sabemos. — E continuou correndo, verificando as caixas de som e cabos.
Conversei com Cora, Mi, Samu e Luigi. Pedi pra que esperassem. Gritei pra platéia, avisando sobre o imprevisto. Gritei tão alto que meus pulmões arderam. Os que estavam na frente, passavam o recado pros que estavam atrás. Estava tudo um caos.
Ficamos assim por uns cinco minutos, até que uma voz começou a falar, sendo que o único microfone era o meu. Um fundo sonoro estava ao fundo, mas ninguém tocava. Todos se calaram, inclusive Quíron, que discutia comigo.
– I've been away, searching for a reason/ Another purpose to find/ I've sailed the seas, fought my many demons/ I've looked to gods in the skies/ I've stood in hell, where many had to suffer/ I stared the devil in the eyes/ Walked many roads to witness ancient idols/ And found the great gates of fire/ Had many storms, question my conviction/ Gave armies reason to rise/ The hangman's searching for bones he can borrow/ While I escaped in the night/ Fight or flight/ Live again/ All roads end/ I'll be coming home/ Tend your light/ 'Cause on this night/ I'll be coming home/ Escaped the hail of calculated mortars/ Then drank the blood of a king/ The desert rain has washed away direction/ Had angels looking after me...
Cora correu na minha direção e só disse uma coisa: Coming Home. Troquei um olhar com ela. Nós duas não esqueceríamos daquela voz mesmo se quinze anos se passassem. Estava entrando em pânico. Cora estava incrédula. Era impossível esquecer.
E continuou assim, cantando. A platéia estava em silêncio, exceto por alguns murmúrios confusos. A voz. Me fazia lembrar de tudo que aconteceu a três anos.
Da nossa corrida pra chegar a Grécia, dos monstros que tivemos que enfrentar, do que vimos, do que encaramos, do que fizemos, do que lutamos no final. A batalha contra ele voltou a minha mente. Quando aquela lâmina maldita me cortou, uma dor excruciante ( pior que a maldição Cruciatos, creio eu ) tomou meu corpo inteiro, mesmo sendo um corte superficial.
Cheguei a pensar que finalmente ia encontrar minha irmã de novo. Estava ansiosa pela morte. Agora vejo o quão louca eu estava pra acabar com o sofrimento. “Quem sabe eu consigo encontrar Isabella na fila pro submundo?” Eu chegara a pensar. Não sabia como, mas eu tinha escapado daquilo. Muitos diziam que era uma puta sorte. Eu achava que o meu carretel de vida ainda não tinha acabado.
O tempo estava congelado. Voltei ao presente. Ainda fitava Cora. O pânico correu pelas minhas veias. Me segurei no suporte do microfone. Podia desabar ali mesmo, a qualquer minuto. Quíron falou algo. Eu não ouvi. Não me importava. Ele devia ter morrido. Não tinha como fugir. Não tinha. “Ou tinha?” PELA TERCEIRA VEZ CONSCIÊNCIA, CALA A ESSA BOCA.
Quando a voz parou de cantar, todos estavam em silêncio, confusos. Não tinha nada a ver com o show. Nós, que fizemos os ensaios, que preparamos todo o material com o pessoal da produção (literalmente), sabíamos disso. Mas a platéia pensava o contrário.
De soslaio, a minha esquerda em algum ponto do oceano, vi um feixe de luz branca se erguer no ar, como fogos de artifício. Um clarão branco cobriu todo o céu. Tudo ficou claro como dia, até mais, ao ponto que tivemos que fechar os olhos e proteger o rosto ao máximo que podíamos.
Ainda pude distinguir o som de alguma coisa grande pegando fogo e caindo em algum ponto a minha direita. Não deve ter acertado ninguém, pois não ouvi gritos.
A luminosidade foi abaixando, até se extinguir por completo. Murmúrios de confusão passavam por todo mundo. Os instrumentos e o microfone pareceram estarem voltando ao normal. As caixas de som estalaram.
– Som, 1,2,3?
Minha voz ecoou no silêncio. Deixei o microfone no suporte e passei a mão pelos cabelos, tentando entender o que merda tinha acabado de acontecer, quando me lembrei da coisa que tinha ouvido. Uma parte, mais próxima da floresta, parecia carbonizada, junto com mais alguma coisa.
Me concentrei e deixei que as brisas da noite me levassem. Pousei delicadamente na areia. Comecei a caminhar na direção da área chamuscada. Receosa, confusa, confiante, determinada, corri.
Uma mensagem havia sido gravada no chão. Aquele que nunca deveria ter partido, retornou. Mesmo que não estivesse escrito, quase podia ver as letrinhas minúsculas, do tamanho de formigas: Avisei você, filha de Zeus. Uma espada, que eu acreditava que estivesse enterrada no meio das tralhas no porão da Casa Grande, estava repousada tranquilamente no meio de um pentagrama perfeito, feito na areia.
Meu cérebro se recusou a pensar. Minha perna se recusou a me sustentar. Tudo me recusava. Meu corpo me expulsava de mim. Minha alma foi lançada no vazio.
Vozes me chamavam, mas eu era apenas um nada jogado no nada. Um ponto na escuridão que ameaçava se fechar em tono de mim.
Não tentei afastá-la.
Não tinha esperança.
Não tinha mais nada em que me agarrar.
Estava sozinha.
No vazio.
Sozinha.
Novamente.
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