The Heir of The Universe
4 Capítulo IV
Notas iniciais

POV Luigi
Um bom tempo havia passado desde a última vez que os tinha visto.
Nunca fui de despedidas ou daqueles reencontros melosos. Acho que todos do grupo eram como eu. As coisas fluíam naturalmente conosco. Bom, não exatamente, já que Samu voltou fazia pouco tempo e estava meio fora de si. Parece mais pensativo, mas acho que ele ter entrado pra banda vai ajuda-lo a relaxar.
Peguei o baixo, esperei a contagem, as noras iniciais e iniciei a melodia. Quando tocávamos, a sensação era de que podíamos fazer qualquer coisa que quiséssemos. Samu na bateria mandava bem, mesmo sendo seus primeiros ensaios. Seguimos a playlist que Isa havia feito para tocarmos na nossa apresentação na semana seguinte. I'm So Sorry acabou. Logo em seguida, era a vez de Avenged Sevenfold. As caixas de som gritavam, mas a bateria dessincronizou pela segunda vez no ensaio e Isa pediu que parássemos. Nem ligava muito.
Meu pensamento se focou no baixo, e nem liguei muito pra o que estavam falando, até que um grito de Samuel me fez erguer a cabeça.
Só soube o quão crucial era aquela conversa, depois.
– NÃO! VOCÊS NÃO ENTENDEM! NENHUM DE VOCÊS PERDEU UM ALGUÉM POR SUA CULPA! POR SUA DISTRAÇÃO!
Morte de Isabella. Aquilo tocou em um ponto fraco em mim, admito, e tentei me desligar da conversa, mas não consegui.
O clima se tornou tenso no instante em que as palavras acabaram por sair da boca de Samu e se tornou ainda pior quando Isa respondeu.
– CALA A BOCA! — A voz de Isa, elevada, me deu um susto enorme, um grito de raiva e angústia. — EU ENTENDO SIM, SAMUEL. EU PERDI MINHA IRMÃ TAMBÉM, CARALHO!
Arregalei os olhos de tal maneira que, se fosse totalmente humano, eles teriam voado pra fora das órbitas. Isadora tinha, ou melhor, havia tido, uma irmã!
O silêncio era ensurdecedor naquele momento. Por excesso de pressão ou por qualquer outro motivo, Isa correu na direção das árvores, saindo como uma bala de cima do palco.
Pensei que deveria segui-la, mas quando vi que Samu corria pra fora dali, decidi que ele precisaria de mais consolo que Isa, já que a perda dele provavelmente era mais recente e a probabilidade dele querer fugir novamente fosse maior.
– Ela tem uma irmã gêmea. Ela morreu há alguns anos. — Disse Cora.
– Por que ela não contou antes? — Sussurrei.
– Ela tem medo do que vocês podem pensar. — Ouvi o barulho de passos no piso de madeira, e imaginei que Cora estava saindo. Michele ficou parada e saiu depois de um tempo também.
Estava na metade da colina, quando vi Samuel vasculhar um local, perto das raízes da árvore de Thalia, em busca de algo, e voltar com uma garrafa de vidro com líquido transparente.
“Espertinho...”
Ele se deitou sem beber, de olhos fechados e braços junto ao corpo com a garrafa. Vodka, talvez? Me posicionei em pé atrás de sua cabeça, esperando que ele abrisse os olhos, e quando o fez, franziu a testa decepcionado por ver minhas pernas e não o céu.
– Ta fazendo o quê aqui sozinho? — Perguntei, num tom irônico.
– Estou... — Ele tentou esconder a garrafa. — Respirando.
– Foi foda o que aconteceu... — Tentei conversar, mas ele me cortou.
– Se for falar da Isa, eu chamo ela aqui e podemos falar nós três.
– Me passa uma garrafa. Deixa eu beber também, vai.
Ele me entregou a garrafa, resmungando alguma coisa ao ver o sorriso na minha cara. Dei alguns goles longos. Tentei conversar com ele, durante um bom tempo, e entramos num assunto paralelo, as garotas. Samu estava defensivo demais. Até que pro meu azar, e dele, me engasguei com um gole e comecei a tossir.
– Me leva pra enfermaria! — Disse, com esforço. Minha garganta queimava. Meus pulmões gritavam.
Samu riu até perceber que eu havia mesmo engasgado. Começamos a nos levantar no exato momento em que Coraline brotou do nada.
– O que ta acontecendo aqui? — Ela começou um diálogo que não ouvi, graças ao meu surto mortal de tosses. Ainda tossindo, reparei que Michele também tinha brotado do nada. Inventaram teletransporte e eu não to sabendo?
Cora pegou meu braço e me empurrou até ela, dizendo algo sobre mosquitos. Michele concordou e se afastou comigo, tossindo como louco e mais vermelho que pimentões.
Não me lembro de muita coisa, só de que Quíron estava na sala da Casa Grande.
– Enfermaria. — Ouvi a voz de Mi. Subimos as escadas. — Will?
Will. Um dos meus irmãos. Seu segundo chalé era a enfermaria, mas quando não estava lá, sabia se divertir. Nos dávamos bastante bem, inclusive, todo o chalé.
Mi me deixou com meu irmão, que me levou até o fundo da enfermaria e pediu pra que eu me sentasse em uma maca.
– Inseto? De todas as piores desculpas pra ter se engasgado, você me vem com essa de inseto? — Will começou a rir.
– Eu juro que não fui eu que inventei essa. — Tosse. — Eu juro. — Tosse. Tosse. Tosse. — Me dá logo um copo d'água.
– Mas irmão! Como ousa? — A cena já estava virando uma comédia. — Como o prestado médico que sou, jamais cometeria tal ultraje convosco! Para seu caso de inseto gargantite, eu recomendo...
– Não. — Cortei. Tosse. — Will, sério, não faz isso. — Estava tossindo demais, não daria pra impedi-lo sem cuspir na cara dele. Wil pegou uma bacia verde.
– ... A... BACIA! — Ele completou, me dando um murro tão forte na barriga que senti meu estômago virar uma ervilha. Só consegui ver a bacia na minha cara enquanto cuspia toda a Vodka que havia bebido. — Cara, você é louco, tava bebendo pura!
– Babaca. Já te falei que você exagera demais. — Praguejei, e ele riu. Aquilo ia ficar roxo mais tarde.
– E eu já te falei que você exagera no porre. — Começamos a rir, até um garoto entrou, mancando. — Nos vemos no jantar maninho.
– Claro... Se eu ainda tiver estômago até lá.
Tirei o resto da tarde que me sobrara pra andar pelo acampamento e pensar. Isabella. Como o tempo voava, três anos... Meu pensamento não se contentou com a melancolia de lembra-la, quis passar adiante. Me forçou a imaginar o que teria acontecido com a irmã de Isadora. O que a teria feito esconder de nós? Cora disse que ela tem medo, mas mesmo assim, medo de que? Ainda não superou? Isso já faz quanto tempo?
Continuei perdido em pensamentos, como o que acontecera na "conversa" entre Samuel e Coraline, até que a corneta anunciou o jantar.
Corri apressado para junto da mesa de Apolo. Estava com fome, já que Will me fez vomitar o café da manhã e o almoço. Não cheguei a encontrar ninguém no caminho, talvez porque todos já estavam comendo ou com pressa de chegar a mesa e garantir um lugar com os irmãos.
Quando me sentei, cumprimentei todos à mesa. Notei Samuel calado na mesa de Poseidon, fitando o prato de comida. Coraline eventualmente lhe lançava olhares frios, cortando o ar que os separava, e incomodando os outros ao redor. Olhares que eram evitados. Michele conversava com os irmãos. Isa estava sentada sozinha na mesa de Zeus, bebericando um milkshake de chocolate. Murmurou alguma coisa pra si mesma, se interrompeu e uma lágrima escorreu. Quando percebeu que eu a olhava, meu deu um sorriso nervoso e disse, sem proferir uma palavra: “Estou bem. Falo com vocês depois.”
Comemos bastante naquela noite, assim como em todas as outras, e nos dirigimos para a fogueira, deixando algumas oferendas. Nosso chalé correu para pegar alguns instrumentos acústicos. Todo o acampamento se sentou em volta para nos ouvir tocar algumas músicas, mesmo com Samu recusando os bongôs de Will.
Os que sabiam, cantavam ou tocavam conosco. Eventualmente, até um coral aparecia. Depois que nos sentamos e eu consegui por as mãos em um violão de cordas de aço (provavelmente de Cora, mas não pude ter certeza) comecei a tocar uma música mais calma, e todos os outros acompanharam.
Quando tudo estava mais calmo, era possível ouvir as pessoas conversando. Observava os olhares de Cora para Samuel, até que uma voz me chamou atenção.
– O que quer que ela quisesse saber, vai continuar querendo... — Me virei. Um garoto pálido, de cabelo pintado de azul e os prateados estava atrás de mim. Se apresentou, meio desajeitado, quando percebeu que eu o havia notado. — Hãn, sou Ângelo, prazer.
– Ângelo? É novo por aqui? — Perguntei, cautelosamente. Ele conhece Cora e Samu? Mas como? — Acho que não tinha te visto antes.
Ele olhou para os dois novamente, ainda sorrindo. Um calafrio me percorreu.
– Bom, mais ou menos. Estou aqui há um mês. Filho de Hécate, aliás. Ah, e, não se preocupe. Seus amigos estavam discutindo perto da colina mais cedo.
Aquilo me deu um certo alivio, mas não deixei de ficar na defensiva.
– Hum. Prazer, sou Luigi, filho de Apolo.
– Deduzi, pelo jeito que você toca o violão e o baixo. Também toco guitarra e percussão, mas não tão bem.
– Espera, você toca guitarra?
– Sim, acabei de falar.
– Logo, você toca violão.
– Acho que sim.
– E você nunca tocou na fogueira.
– Bom, é que eu... — Não deixei que ele terminasse. Tímido ou não, anti-social ou não, iria tocar.
– PESSOAL! — Bradei, me levantando. Todos pararam. Silêncio total. Nossa. — Esse aqui. — Puxei o braço do garoto, fazendo-o se levantar. — É o Ângelo. Ele é novato, toca violão e NUNCA, nunca tocou na fogueira do Acampamento.
Todos fingiram um arquejo de surpresa, me ajudando a fazer cena. Alguns estavam morrendo de rir.
– E como todos sabemos, este, é um acampamento de tradições! — Entoei a voz de um patriota. Meus amigos se matavam de rir. — E qual é a nossa tradição, galera?
– Show, show, show, show! — Todos bradaram, em uníssono. Ângelo deveria estar querendo me matar, mas não me importei.
Balancei as mãos pedindo silêncio, e aguardei.
– Pois é... Tragam para mim... A Mancha do Sol! — O acampamento arquejou, uma mistura de suspense e risadas.
Em poucos momentos, eu tinha em mãos o violão mais bonito que já tive a chance de tocar.
Vermelho vinho, pintura fosca, e no braço, em cada uma das divisões, um símbolo representando um dos deuses gregos. Ergui o violão com a mão esquerda e o braço de Ângelo, com a direita.
– Ao novato! A Mancha do Sol! — Bradei. — Que comece o show! — Todos aplaudiram, e entreguei o violão a Ângelo, que o recebeu, desajeitado.
Ele o posicionou sobre o joelho e errou um acorde, gerando algumas risadas e alguns "Vai, cara! Você consegue!". Seu sorriso tímido de antes se fechou em uma cara de determinação perversa, e ele passou a correia em volta do pescoço.
– Que comece o show. — Disse o garoto, de modo que só eu ouvi.
Começou então, a melhor e mais fluída apresentação da música Jhonny B. Good que eu já tive visto. E estava sendo tocada em um violão! Todos que estavam ali, escancararam a boca no solo inicial, e as mesmas bocas cantaram os refrões enquanto o blues voavam para fora dos dedos de Ângelo.
Ele olhou pra mim de relance, e fez um sinal, que entendi exatamente o que ele queria fazer. Agarrei o primeiro violão que vi na minha frente e acompanhei a base da música para que ele pudesse solar.
Ele era realmente bom. Eu diria que faz frente até mesmo com Cora. Ele terminou com uma batida no final do solo, e eu não me lembro da última vez que o Acampamento aplaudiu tanto. Nós dois trocamos um high five e voltamos a nos sentar, rindo de toda a encenação combinada com a apresentação.
Me deitei no chalé, abraçado ao violão, até o sono chegar.
– E aí vômito! — Gritou Will do beliche debaixo, perturbando o silêncio do chalé. Todos riram. Provavelmente já sabiam.
– Seu filho da mãe. — Disse, rindo. — Ainda ta doendo, sabia?
– Da mãe eu não tenho certeza cara, mas por parte de pai, aqui dentro é tudo a mesma coisa. — Riso geral. Continuamos conversando, até que gradativamente, cada um de nós foi adormecendo.
Acabei caindo no sono também. Não queria ter dormido, queria ter ficado acordado, para evitar todo aquele pânico e desastre. Mas quem saberia? Meu sonho começou com uma escuridão total.
– Isadora. — Uma voz grave, monstruosa e metálica disse. Uma luz branca se acendeu em um canto a minha esquerda, revelando uma garota caída no chão, com o cabelo no rosto. Isa?
– Samuel. — Outra luz ao lado de Isa, surgiu, mostrando outra silhueta, mas dessa vez masculina, também feita de sombras e escuridão.
– Michele. — A luz que continha a silhueta de Myh se encontrava no centro de tudo o que eu via até agora.
– Coraline. — Agora eu tinha certeza. Eram meus amigos. Éramos nós. Todos estavam estendidos no ar, como se crucificados. Eram quatro. Sobrava espaço para mais uma.
– Você. — A última luz se acendeu, ao soar da voz, que sorria sonoramente. Vi minha silhueta deitada no chão inexistente. Todos nós éramos escuridão, mas eu sentia que meus amigos estavam vivos menos... Eu.
As luzes se apagaram, voltando para a escuridão inicial de antes.
– E por fim... Eu. — Uma luz maior que as outras se acendeu no centro. Uma silhueta, acompanhada de outras quatro, três masculinas e uma feminina, prostrou-se a frente. Eles pairavam sobre um chão invisível, de frente para mim. Pude sentir seu olhar, mesmo sem ver. — Que comece... O show.
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