– Vamos, semideuses! – o centauro instigava seus alunos e nem percebia que era assistido timidamente da sacada da Casa Grande pela pequena Silvia.

A menina já tinha dois anos e seu pequeno colar de contas possuía o anel de sua mãe e o registro em argila de três verões: o de sua chegada e os dois seguintes dos verões nos quais fizera aniversário.

Qualquer criança se assustaria com tantas outras crianças e adolescentes manejando espadas e um cara que, do nada, levanta de sua cadeira de rodas e vira um cavalo da cintura pra baixo, mas a garotinha já estava acostumada.

Aliás, a mentalidade de Silvia era muito mais avançada do que deveria, graças, provavelmente, a tudo que comandaria a vida dela (as Três Parcas deviam se divertir muito) e convivência com o asqueroso Sr. D. O deus dos vinhos odiava tanto seu castigo de viver com semideuses que nem se preocupava em moderar as palavras. Silvia foi aprendendo os podres do Olimpo, o desejo de Dioniso por quebrar sua maldição e que ela própria não deveria ter nascido.

– Essa menina é a desgraça do Olimpo, centauro, e você sabe disso! – o deus dizia.

A pequena não sabia o que era “desgraça”, “Olimpo” e “centauro” com certeza, mas imaginava que o significado era “Ela é ruim para os deuses, Quíron”, era só o que faria sentido. Toda vez que ouvia isso (e eram várias vezes), ela saía correndo para seu quartinho escondido lá nos fundos da mansão. Sentia-se só.

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Aos quatro anos, Silvia começou a treinar. Quíron não aliviava nem um pouco e parecia temer cada movimento de sucesso que a pequena fazia, como se ela fosse extremamente perigosa. Os treinos aconteciam de madrugada, enquanto todos dormiam. Não podia ser vista por ninguém. A jovem semideusa amadurecia muito rapidamente, mesmo estando isolada, mesmo tendo tão tenra idade, e isso fazia Quíron e Dioniso tremerem com seu futuro.

Nenhum outro semideus sabia sobre Silvia, exceto os poucos selecionados que presenciaram sua chegada. Ela não tinha amigos, como os outros que observava escondida atrás da janelinha de vidro fumê do seu quartinho. Tinha quatro anos de idade e não brincava, não falava com ninguém, só treinava, não tinha um pai a quem fazer preces ou jogar comida na lareira mágica e nem mesmo podia morar num chalé como os outros. Sentia desejo de sorrir e ser feliz como os campistas que via, mas nem sabia como fazer isso.

Os invernos eram as piores épocas, apesar de ela preferir o frio. Os semideuses faziam uma excursão anual ao tal do Olimpo e o lugar deveria ser superlegal, visto que todos voltavam alegres e contando engraçadas situações vividas por lá no dia da viagem, coisas que ela jamais vivera. Naquele ano, ela estava decidida a não deixar aquilo passar sem saber o que significava e por quê não podia participar.

– Quíron, o que é o Olimpo? – ela perguntou, durante a pausa de três minutos do treino da madrugada anterior à viagem.

– É a casa os deuses – o centauro respondeu secamente, sem querer se estender em conversas com a menina.

– E o que são deuses?

– São os seres que comandam nosso mundo, mas só nós que somos seres mágicos conseguimos vê-los. Pessoas comuns não os vêem.

– Por que?

– Por causa da Névoa mágica.

– E por que não posso ir ao Olimpo com vocês?

Quíron parou um pouco.

– Por que seu pai não deixa.

Então... Quíron sabia quem era seu pai... Houve uma pausa dos questionamentos.

– O que são Três Grandes? – Quíron travou.

– São... os deuses mais fortes. Agora vamos treinar!

Ela não entendeu a razão do centauro parecer tão subitamente tenso com aquela pergunta. Havia algo escondido ali, mas ela preferiu ficar quieta. Algo lhe dizia que mexer naquele assunto lhe causaria problemas. Então os semideuses iam para a casa dos deuses enquanto ela ficava presa naquele mausoléu sob o cuidado das harpias da limpeza? Aquilo não parecia... como o Sr. D dizia...? Justo! Aquilo não parecia justo. E Silvia foi começando a perceber que o mundo mágico não era tão encantador quanto parecia.

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Quase oito meses completos depois, mais precisamente no dia 12 de agosto, Silvia completou cinco anos de vida, mas parecia ter dez. Sua pequena espada permitia-lhe fazer estragos a qualquer coisa que a atacasse. O lago se tornou seu paraíso, mesmo que só pudesse vê-lo, sem entrar nele. Mas tudo acontecia somente durante as noites mais tardias.

Silvia continuava sozinha, isolada de todos. Aprendera por si só, lendo, escondida, os livros velhos da mansão, que os Três Grandes não podiam mais ter filhos, como Perseu e Jasão, porque eles eram tão poderosos que sempre causavam confusão. Aprendera que os semideuses dormiam no chalé equivalente a seu pai ou mãe olimpiano e que o chalé de Hermes também abrigava os indefinidos. Mas ainda não sabia por que ficava isolada dos outros. Talvez meu pai também não me deixe ficar perto dos outros... Isso, muitas vezes, machucava.

Os treinos continuavam mais espaçadamente e Quíron parecia cada vez mais alarmado. O tempo fazia a frequência dos treinos diminuir cada vez mais, como se o centauro já não gostasse tanto assim de passar esse tempo com ela. Ele nunca pareceu gostar. Quando completou seis anos, os encontros já não ocorriam mais.

Silvia agora permanecia trancada em seu quartinho o dia todo. Seus cabelos ondulados e castanhos estavam grandes e seus olhos verde-azulados pareciam gélidos como os das aves de rapina. Ela queria ser normal como os outros, mas não sabia porque não podia. E odiava não poder. Começou a ter problemas de comportamento, mas ninguém notava.

Foi no inverno daquele ano que as coisas mudaram, aos seus seis anos e meio. Ou começaram a mudar. Silvia estava em seu quartinho, como sempre, brincando de jogar uma velha e surrada bola de baseball pro alto, deitada em sua cama, tentando se distrair, quando um homem de aparência jovem, pele bem alva e olhos e cabelos negros como a noite apareceu das sombras.

Qualquer criança normal gritaria de medo, mas Silvia era uma semideusa treinada, apesar da pouca idade, e, depois de ter um certo “desprezo protetor anti-rejeição” acionado por qualquer criatura, nada mais a surpreendia ou a amedrontava. Pelo menos não que ela demonstrasse. Levantando-se de um salto já empunhando sua pequena e muito leve espada, a garota apontou-a firmemente para o invasor, que nem sequer se moveu.

– Acalme-se. Não sou um monstro e não vou atacar você.

– Quem é você? – ela indagou, o pulso firme ao redor do punho da espada.

– Normal que não me conheça, visto que está praticamente... presa aqui – ele se sentou à beira da cama da menina, ficando à altura dela, que estava de pé, e olhou diretamente em seus olhos – Eu sou Hades.

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