The Greek Norse Girl I - O Enigma dos Sete Mares
3 O Treinamento - parte 1
A notável memória da criança a permitia lembrar do nome aprendido há algum tempo. Aquele era o deus dos mortos, dono e guardião do Mundo Inferior. Provavelmente ela deveria ficar com medo dele, mas estranhamente não ficava. Mesmo com aquela escuridão profunda no olhar e seu modo gélido de encará-la, Hades passava uma segurança para Silvia que ela não sentia nem mesmo em Quíron.
– Não deveria estar no Olimpo? A excursão de inverno não será amanhã?
Hades riu, sem humor, e deu de ombros.
– Nenhum deus faz questão de minha presença lá. Assim como não fazem questão da sua presença lá. E assim como nem o centauro faz questão de se unir a você. Estou certo?
Um gosto amargo passou pela boca da garota. Se antes ela não tinha amigos, agora, com o possível abandono de Quíron, ela não tinha mais ninguém. E Hades tornou oficial. Nem Quíron queria ficar perto dela. Mesmo que já soubesse disso, foi terrivelmente aterrador ter isso jogado na cara com tanta força.
– É, você está certo. Mas como pode saber disso?
– Eu te observo das sombras – ele respondeu tão naturalmente que fez até parecer que isso era a coisa mais normal do mundo, o que fez Silvia se segurar pra não tremer de medo. – Te observo aprender as coisas por conta própria, sozinha. Eu não costumo simpatizar com as pessoas, mas acho que gostei de você desde sempre. Não me pergunte ainda o porquê, mas estou muito enfurecido com o modo com que lhe tratam.
Silvia notou especialmente a palavra ainda quando ele pediu para não fazer perguntas.
– Sabe quem é meu pai, não sabe, Lorde Hades? – ela foi direta.
– Sei.
– Me conte.
– Não.
– Por que?
– Porque não quero.
– Como pode dizer que gosta de mim e me esconder isso?
– Quem disse que gosto de você?
A menina o olhou com sua maior “poker face” possível.
– Ok, eu gosto. E quem disse que vou esconder? Eu disse que não vou lhe contar, mas isso não quer dizer que não saberá. Descobrirá sozinha.
– Como?! Eu nem sequer saio da Casa Grande!
– Sairá agora. Comigo. A partir de hoje, seu treinamento está de volta e sob a minha regência. Se, é claro, aceitar.
A resposta veio antes mesmo que Silvia pudesse pensar. Treinar de novo, sentir-se viva de novo ainda que por poucas horas e longe de todos...
– Claro! Claro que aceito!
– Então venha comigo. E nunca hesite – ele deu uma piscadela amedrontadora.
Hades agarrou a mão da menina e sumiu com ela através das sombras de um dos cantos do quarto, fazendo-a ter certeza que daria de cara na parede. Quando a luz pôde ser vista de novo, os dois estavam à sombra de uma das tantas frondosas árvores dos bosques do acampamento. Ok... aquilo tinha sido esquisito e muito, tipo, MUITO legal! Silvia jamais imaginaria ser possível viajar pelas sombras! Observando o local onde tinham parado, sentindo as sensações daquele local mágico, a pequena percebeu que a noite estava gelada, as harpias já haviam se recolhido e nem mesmo as dríades vagueavam pelo local. Uma fina camada de neve caía sobre as folhas e a grama, deixando-a úmida e um pouco escorregadia. Silvia amava aquele local, pois significava liberdade. Amava olhar os detalhes, captar cada centímetro de tudo ali e guardar na memória, não sabia quando poderia sair do quartinho de novo.
E foi então que o deus dos mortos atacou do nada e Silvia mal teve a chance de se defender da espada de metal negro estígio do sombrio Hades e caiu.
– Levante-se! Não treino fracos e desatentos! – o deus falou com o tom de voz mais sombrio que poderia existir.
Ela se pôs de pé imediatamente. Não deveria levar aquele treino tão confiantemente como fazia com Quíron. O quadro agora era outro. Nunca hesite, ela lembrou do conselho. O que quer que acontecesse, aquele cara se importava, ela não podia ter raiva dele como tinha de seu pai; droga... ela não queria que ele fosse seu pai.
Partiu para o ataque. A espada pequena era muito mais leve do que deveria ser, mas mesmo assim lhe conferia destreza. Silvia se movimentava como uma semideusa que claramente era aplicada nos treinos, demonstrava ter ânsia por novos movimentos, por novos golpes. Hades, que riu debochadamente no início, agora tinha as feições sérias e sinceramente admiradas com aquela menina de apenas seis anos. Ele estava orgulhoso, mas JAMAIS mostraria isso.
Mal viram a primeira meia-hora passar. O deus notou que Silvia começava a chegar em estado de exaustão e decidiu pausar um pouco. Era realmente impressionante que tivessem ficado todo aquele tempo lutando quase que de igual pra igual.
– É... você não é tão ruim como imaginei. Beba um pouco de água, vai lhe fazer bem. Agora!
Calada e realmente exausta, a menina apenas seguiu a ordem e se encaminhou ao lago, como sempre fazia nas pausas com Quíron, a diferença é que dessa vez o instrutor não viria com ela. Ele não precisava se hidratar para repor as energias. Era um deus!
Assim que deu os primeiros goles na límpida e fresca água, Silvia sentiu-se revigorada. Sempre admirara esse poder que a água tinha para os seres vivos. Era como um líquido mágico. Mesmo assim, ela não quis beber muito. Sabia que o estômago cheio poderia deixá-la mais lenta e Hades não parecia ser do tipo que se importava com as condições físicas de seus oponentes.
Pondo o pé no círculo de luz lunar da clareira em que antes se encontravam, já recebeu um novo ataque. Sem conversas, sem perder tempo. Hades parecia atacar de modo cada vez mais forte, cada vez mais impiedoso. Agia como se Silvia fosse já uma mulher adulta com toda a experiência de batalha que um semideus poderia ter. Treinava-lhe as melhores habilidades ao mesmo tempo em que a atacava em suas piores fraquezas.
Silvia não se cansava fácil, tinha fome e sede por se tornar a melhor guerreira do Acampamento Meio-Sangue. Queria mostrar aos campistas, a Quíron, e, principalmente, aos deuses quem ela era. Por que havia sido escondida? Antes de saber a resposta, ela queria ficar forte. Forte para dizer “não adiantou, eu sou mais poderosa do que vocês pensaram”.
Hades percebia cada desejo íntimo no coração da garota. Ele próprio tinha os seus desejos. Aquele maldito sorteio... Sorteio? Teria sido realmente uma justa disputa de sorte? Quem sabe Zeus tivesse até mesmo manipulado aquilo... Faria sentido. Zeus era o rei do Olimpo, mas por quê? Se fosse pra seguir uma ordem, não deveria ser Poseidon, o filho mais velho? Não, Zeus era o rei. Zeus o fizera deus dos mortos, o rejeitado, aquele de quem todos querem distância e não fazem a menor questão de ter por perto. É... ele e Silvia tinham muito a ver um com o outro.
As horas passavam e poucas pausas foram feitas. Silvia não bebia muita água, Hades não parava de admirá-la. Sentia-se tentado a contar a verdade, a dizer-lhe quem era seu pai. Tinha certeza que a fúria que ela sentiria por ser abandonada e por pensar que seu pai tinha um falso e tão fútil motivo a faria a melhor guerreira do mundo. Hades não era o deus da guerra, mas sabia que a raiva e o desprezo que Silvia vinha nutrindo em seu peito por seu pai indefinido era o motivo de tamanha destreza. Quando ela descobrisse tudo, era capaz de se tornar uma... como é aquele negócio que os jovens assistiam hoje em dia... ah, uma Super Saia Jeans, ou algo assim...
Os primeiros raios de Sol começavam a dar o ar de sua graça, aquecendo muito pouco o acampamento gelado pelo inverno, agora tomado pela neve tão branca. Em algum lugar ao oriente, o Maserati de Apolo corria loucamente fazendo o grande astro anunciar o dia. Hades e Silvia interromperam seu treinamento, a garota arfante e o deus com apenas algumas gotas de suor no rosto. Ele estava realmente impressionado com a menina.
À chegada do dia, os campistas sairiam de seus chalés, prontos para a excursão do Solstício de Inverno, Silvia e Hades não deveriam ser vistos. Assim, o deus conduziu a menina novamente pelas sombras, agora de volta ao quarto.
– Darei uma passada no Mundo Inferior e voltarei aqui depois. Tome um banho e aja normalmente se Quíron vier lhe dizer qualquer coisa. Eu voltarei logo.
Ele já estava prestes a deixar o quarto quando a pequena o interrompeu:
– Lorde Hades...?
– Sim?
– Os deuses não vão... descobrir esses treinos? Não lhe castigarão?
Hades deu um sorriso esperto.
– Estivemos ocultados magicamente a noite toda. Nem mesmo os deuses poderiam nos ver. Até logo.
– Lorde Hades! – ela chamou outra vez.
– O quê, criança?
Silvia sorriu.
– Obrigada.
– Tá, tá, não se acostuma... Volto logo – ele disse, rolando os olhos, e saiu.
Silvia mal podia acreditar. Danem-se Quíron e o resto do Olimpo, ela estava sendo treinada por um deus! O deus dos mortos, era verdade, mas ele não era tão aterrorizante como diziam. Bem, talvez fosse com os outros, ele dissera ter simpatizado com ela, vai saber... O fato é que ele era seu novo treinador. Mais que isso, seu aliado. Talvez até mais... Era o mais próximo de amigo que ela chegara a ter.
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