O peito de Silvia subia e descia ainda buscando fôlego. Banho, Hades dissera. É, com certeza era o que deveria fazer. Tomando o cuidado de tirar sua roupa suja de suor e lama das quedas que levara graças aos empurrões de Hades apenas quando estava dentro do banheiro, a pequena ligou o chuveiro e sentiu a água fresca cair sobre seu corpo.

Novamente achou que o líquido era mágico. Auge do inverno e a água estava fresca? Normalmente, com a mágica do acampamento, ela ficava quente durante o inverno... Parecia até que sabia que a pequena precisava refrescar o corpo naquela hora.

Tinha passado cerca de dez minutos apenas parada debaixo do chuveiro quando ouviu o familiar som dos cascos baterem do lado de fora do quarto.

– Silvia? Está aí?

Será que ele não tinha ouvido o som do chuveiro? Às vezes, Quíron parecia fazer perguntas inúteis, talvez fosse só para puxar assunto, talvez fosse só pra fingir se importar. Silvia considerava a segunda hipótese muito mais provável.

– Estou no banho, Quíron!

– Ah sim... – o centauro pareceu desconcertado, na verdade, amedrontado. Mas que...! Isso não fazia o menor sentido! – Já estamos saindo ok?

– Tá bom! – ela respondeu naturalmente.

E o som dos cascos denunciou que o centauro havia partido. Silvia ficou mais vinte minutos no banho, sentindo como se todas as suas forças estivessem de volta. Ela estava crescendo. Já tomava banho sozinha, não precisava mais da ajuda de uma harpia-ama, ainda tinha certa dificuldade em alcançar a torneira do chuveiro, mas nada que a impedisse. Seus cabelos castanho-escuros estavam bem maiores, chegando ao meio das costas.

Mas o que mudou mesmo foi o aspecto de seus olhos. O par de olhos verde-azulados que exprimiam calmaria, agora lembravam um mar extremamente revoltoso. Era a confusão de seus sentimentos, era a mágoa que sentia de todos à sua volta. Mas, sendo ainda pequena, não notava isso.

Silvia desligou o chuveiro, escorreu a água de seu corpo e se enrolou na toalha. Jogou as roupas sujas no cesto pra lavar, passou a toalha por todo o corpo e, já seca, pegou de volta seu colar de contas. A primeira conta de argila mostrava um desenho feito de uma linha só, no mesmo tom de verde de seus olhos, em formato de bebê, seu nascimento; as outras, ela não sabia o que significavam; mas o mais importante no colar era o anel de prata, já quase sem brilho. O anel que pertencia à sua mãe, a única memória que ela tinha. Quem teria sido Valerie Murray? Quem quer que tenha sido, era uma vítima. Vítima de um deus maluco que a fizera se apaixonar e ter uma filha dele (sim, ela já sabia de onde vinham os bebês e odiou descobrir num livro perdido...) pra depois se arrepender de tal forma que era capaz de escondê-la e nem teve coragem de defender a mãe da morte... A morte!

Silvia colocou o colar no pescoço e saiu a mais de mil por hora de volta para o quarto. Vestiu mais uma de suas roupas surradas e olhou para todos os cantos escuros do quarto. Onde ele estava?

– Hades!

O deus surgiu, tapando os olhos com a mão.

– Só abro quando estiver devidamente vestida.

– Pois pode abrir! – ela tinha o tom de voz enfurecido.

– O que há, pequena?

– Por quê? Por que deixou minha mãe morrer? – Silvia tinha lágrimas de ódio nos olhos.

Hades foi pego totalmente de surpresa pela pergunta, mas assim que notou o tom acusatório que a menina usava, se sentiu ofendido.

– A culpa não foi minha!

– VOCÊ É O DEUS DOS MORTOS! POR QUE A DEIXOU MORRER?

– Eu não deixei! Eu apenas controlo os mortos, mas não a hora em que os vivos devem partir! O ceifador de almas é Tânatos, não eu!

Silvia não parecia entender. Nunca tinha ouvido falar desse tal de Tânatos, mas Hades parecia dizer a verdade. Do mesmo jeito que tinha parecido realmente interessado em ajudá-la antes.

– Você jura que não poderia mesmo fazer nada?

– Juro pelo Rio Estige – o céu ribombou em trovões com o juramento mais poderoso do universo. – Se eu pudesse impedir a morte – o deus adquiriu um olhar sofrido – Ah, como eu queria impedir a morte!

Silvia desabou na cama, confusa, arrependida e aterrada de vergonha.

– Desculpe.

– Esqueça... É normal que tenha raiva – ele se sentou ao lado dela. – Esse anel de prata era dela, certo?

– Sim. É a única coisa que me restou de minha mãe.

Hades estendeu a mão e tocou o anel. Imediatamente o metal recobrou seu brilho natural, fazendo o olhar de Silvia brilhar também, de tão impressionada que ficou.

– Como...

– Sou o deus das pedras preciosas e metais, querida – ele respondeu à pergunta incompleta.

– Isso é muito legal!

Hades riu, sem frieza, sem espertezas. Um riso sincero e realmente divertido.

– É sim. Vamos?

Era hora de treinar de novo. Silvia levantou-se prontamente, seguida pelo deus e, de mãos dadas, os dois partiram pelo mesmo cantinho da madrugada.

...

Mas não foi nos bosques que apareceram e sim na frente do refeitório.

A garota parecia confusa e Hades ainda mantinha certo sorriso em seu rosto jovem que escondia uns bons milhares de anos. Apoiando a mão nas costas da garota, guiou-a até o grande pavilhão, onde doze mesas eram dispostas em duas colunas – de um lado, para os filhos de deuses, do outro lado, para filhos de deusas. Silvia não sabia à qual mesa se sentaria, se é que poderia fazer isso algum dia. Geralmente, no Solstício de Inverno, ela se acomodava à mesa da Casa Grande, a única que lhe era permitida e somente depois que todos tinham saído.

Mas antes de se sentar, ela notou que não havia comida alguma pronta para o café da manhã. Bom, todos os campistas já tinham comido e deixado o Acampamento Meio-Sangue, mas normalmente ainda ficavam algumas panquecas, suco e, às vezes, bacon e ovos disponíveis para que ela se alimentasse. A coisa agora estava ficando insustentável! Nem comida tinha mais!

– Sente-se – Hades tinha um olhar mortífero ao notar o mesmo que ela – Vou providenciar algo pra você.

Silvia se sentou, ainda descrente da situação, e logo seu prato ficou cheio de tudo que ela desejava. As deliciosas panquecas embebidas em mel, ovos e bacons recém fritos, não frios como antes, coca-cola bem gelada e achocolatado. Tudo fresquinho, pela primeira vez.

De imediato, a garota levantou com o prato e se encaminhou para a fogueira. Era algo que ela já estava acostumada a fazer, mas foi a primeira vez que foi feito com vontade. Foi a primeira vez que ela realmente tinha uma oferenda a jogar na fogueira.

– Puxa... obrigado! – Hades, da outra ponta da mesa, falou com tom impressionado.

Silvia olhou assustada para o prato do deus e viu que lá estavam todas as partes de comida que ela tinha jogado na fogueira, agora fumegando. Ela jurava que a comida só queimava!

– Como foi parar no seu prato?

– Ué... por que acha que se chama Fogueira de Oferendas? Elas vão para os deuses que a pessoa desejar. Aliás, muito obrigado. Nunca jogaram nada pra mim.

Silvia ficou sem palavras. Hades era mesmo tão rejeitado quanto ela, nem mesmo uma mesa tinha, ainda que fosse honorária, como as dos outros dois deuses maiores e Hera, por exemplo. Ela ficou feliz de vê-lo também feliz.

Foi se sentar perto do deus. O resto do café da manhã foi tomado em silêncio. Era tão estranho para Hades quanto era para Silvia se sentar com alguém assim tão amigavelmente. Foram vinte minutos de silêncio nos quais eles comeram, descansaram um pouco e se levantaram com suas armas a fim de treinarem. Nenhuma das harpias da limpeza que ocasionalmente passaram por ali pareceu notá-los. Provavelmente Hades os estava ocultando de novo.

Ao fim da refeição, os dois se encaminharam de volta aos bosques. Ainda que toda a arena de treinamento estivesse disponível, Hades achava melhor treinar a garota ali, pelo menos por aqueles primeiros momentos, pelo menos naquele início.

Ao chegarem ao local de treinamento, novamente o deus não contou história e foi logo atacando, mas desta vez, a pequena não foi pega de surpresa. A madrugada e o bom café da manhã sem dúvida fizeram bem à menina, porque ela simplesmente estava se defendendo muito melhor.

Hades estava cada vez mais admirado. Seus passos na direção de sua aluna durante os ataques estavam mais largos e ofensivos, mas Silvia conseguia desviar e se defender quase com destreza perfeita. Todo o caminho que eles fizeram floresta adentro margeava o lago, mas Hades nunca permitia à menina tocar sequer uma gota da água corrente.

– Sem refresco! – ele provocava.

– Sem problemas! – ela rebatia.

Mas o deus não podia deixar aquilo sair do controle. Eram cerca de dez da manhã quando Hades resolveu parar. Ordenando que a garota descansasse e se hidratasse, ele próprio parou para se sentar e admirar o quanto tinham avançado em tão poucas horas. Talvez já fosse o momento... Ela merecia aquela revelação! A revelação... o que será que traria à cabeça dela? Hades não podia revelar o real motivo do abandono que Silvia sofrera ou acabaria por causar uma guerra! Não, o ideal era dar aquela maldita desculpa que todos os deuses são forçados por Zeus a dar aos seus filhos. Injustiça!

– Quíron nunca veio tão longe comigo na floresta – Silvia interrompeu seus pensamentos.

Hades a olhou, soturno.

– Ele teme você.

Silvia quase se afogou com a água de tão absurdo que parecia.

– Por quê?!

– Todos esses que te isolam temem você. Você é poderosa, Silvia. Só não sabe o quanto.

A garota se sentou à beira do lago. Sentia paz ali.

– Quando vou descobrir?

– Pelo visto, logo – houve um silêncio. – Gosta deste lago, não é?

– Sim, muito – ela assumiu um olhar derretido de verdadeira paixão pelo lago.

– Quer fazer um treino diferente?

– Como? – ela perguntou, claramente curiosa.

– Canoagem. Quer?

Os olhos da pequena brilharam. Treino novo! Ela adorava esgrima, mas treinava só isso desde os quatro anos de idade, sempre sentindo uma incômoda inveja dos outros, que faziam outras coisas.

– Lógico que quero!

Hades sorriu, realmente feliz pela menina, mas ao mesmo tempo parecia estar esverdeando de um jeito muito esquisito. Mesmo assim, ele se levantou e puxou um dos caiaques parados à margem do lago. Entrou, ajudou a garota a entrar também e se segurou muito fortemente para não vomitar.

– É com você, capitã – e Silvia guiou o barco como se tivesse nascido fazendo aquilo.

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