The Greek Norse Girl I - O Enigma dos Sete Mares
5 A Descoberta
Os remos pareciam se ajustar às pequenas mãos da garota de apenas seis anos. Silvia mal acreditava na velocidade que o caiaque tomava, mal conseguia notar que Hades parecia cada vez mais enjoado ainda que lhe sorrisse.
O barco disparava pelo lago do acampamento, fazendo os longos cabelos castanhos escuros da menina voarem com graça de criança. Hades a olhava com uma chama quente crescendo em seu coração. Havia muitos anos que ele não tinha oportunidade de se afeiçoar por uma criança. As últimas foram na época da Segunda Guerra Mundial, as quais ele teve que prender no Hotel e Cassino Lótus para que eles não morressem.
– Está tudo bem, Lorde Hades?
– Hã? Ah, sim... estou bem, querida. Contnue. Você está indo muito b...
Ele foi interrompido quando o caiaque bateu com força em alguma coisa abaixo da superfície da água. Silvia, que estava de costas para o que quer que os tenha interceptado, caiu de cara no assoalho do barco, ficando com uma marca avermelhada na testa instantaneamente.
Tonta, ela se levantou devagar, mantendo a espada em punho mais como uma forma de apoio do que uma preparação para batalha. O olhar de Hades estava firme e tenso em algo atrás de Silvia e a garota tinha muito medo de virar e não gostar do que o deus estava vendo. Mas virou...
... E viu um semelhante a dragão aquático (se é que isso existe) atacar seu barco. Em completo pânico, Silvia passou para a outra ponta, ficando diante do deus, a espada tremendo, demonstrando seu nervosismo. Hades, como se já não estivesse bastante estranho, agora claramente se segurava para não colocar todo o café da manhã e todas as refeições do dia anterior pra fora. Essa incompatibilidade com água o estava irritando!
Silvia percebeu que estava só. Ou ela derrotava o monstro, ou o monstro os derrotaria. Hades não tinha condições de travar uma batalha, mas por acaso ela tinha? Quem era ela? Uma garota de seis anos que amava treinar esgrima, com grandes cabelos revoltos e olhos verdes malévolos como os das aves de rapina. Ok. Qual era sua experiência numa batalha real? Nenhuma. E lá estava ela diante de um dragão aquático que ela jamais pensaria que existia.
Com um esforço sobrenatural, ela saltou pra fora do caiaque, sentindo os joelhos dobrarem ao chegar ao leito, de tanto medo.
– O que pensa que está fazendo, maluca? – Hades parecia mais atônito ainda.
– Salvando a gente, ué!
– Volte pro barco, eu vou... – ele foi cortado por uma pancada do monstro no casco do barco, o que o derrubou.
Silvia nunca pensou que fosse ver a cena que se mostrava diante de seus olhos, mas viu. Hades ofegava em claro pânico, ainda que a água atingisse apenas seus joelhos. A criatura parecia ter sido enviada de um mundo especial feito pela raiva dos deuses, porque os dentes que tinha eram extremamente afiados! O olhar da criatura apontava ódio e desprezo, queria devorar Silvia mas não ousava olhar para Hades. Como os tinha encontrado? Já não estavam ocultos? Talvez não para os monstros.
Hades finalmente se levantou. Silvia percebeu que o deus não era nem um pouquinho compatível com água, mas que estava se esforçando para que ficassem bem.
– Fique em terra firme! Me ajude de lá!
O deus não podia ficar mais feliz em ouvir uma frase. Correu para a margem do lago e finalmente pôde se sentir seguro e ajudar de alguma forma. E que forma! Hades criou um campo de sombras em volta do monstro, confundindo-o.
– Silvia! É com você! Esse monstro deve ser derrotado por você! – ele gritou.
– Mas... Mas como vou fazer isso? – ela estava em pânico.
– Apenas sinta! Faça o que sentir que deve fazer. Deixe o sangue correr em suas veias e apenas tenha certeza que você é capaz!
Silvia achou que ele tinha lido aquela frase de incentivo em algum livro de auto-ajuda (se fosse hoje, pensaria em um dos quadros da casa de Augustus Waters), porque achar que era capaz de derrotar sozinha um monstro daquele tamanho seria o cúmulo do otimismo! Parecia completamente impossível para uma garota de seu tamanho, mas se Hades dissera que ela conseguiria, ela acreditava.
A espada já estava em punho, o sangue corria velozmente em suas veias e a pequena sentia um calor irradiar de seu corpo como nunca antes sentira. Não era um treinamento contra Quíron, nem mesmo contra o deus controlador dos mortos, mas com um monstro de verdade – o que quer que aquilo fosse.
Silvia correu ao encontro da criatura envolta nas sombras e atacou com muita sede... O monstro conseguiu enxergá-la e virou as costas da mão em sua lateral direita, fazendo-a descrever um arco enquanto voava sobre a água. De olhos bem fechados, já se preparando para a dor que sentiria com o impacto contra a água, nem viu a mesma formar algo como uma cama borbulhante sob seu corpo, como se a segurasse e cuidasse para que a pequena não sofresse qualquer machucado.
Seres de pele meio esverdeada, cabelos e olhos bem azuis e orelhas élficas olhavam a cena assustadas demais para emitir qualquer som. Quando Silvia abriu os olhos, notou as náiades encarando-a e deu um grito tão apavorado que assustou o próprio monstro que chapinhava suas grandes patas na água do lago de canoagem a caminho da menina.
Ao notar que – milagrosamente – não havia nada quebrado em seu corpo, Silvia se levantou (e quase teve um ataque histérico ao perceber que estava de pé sobre a água em movimento, o que a deixou ao mesmo nível de altura da criatura, pasme!). Sentindo-se mais corajosa do que qualquer Jasão que já tenha pisado nessa Terra, Silvia seguiu o conselho de Hades e simplesmente sentiu o que devia fazer: saltou heroicamente com a espada a postos na direção da careta feiosa do lagartão. No momento perfeito, e com um vibrante Por Haaaadeeeeeeeesssss!!!!, enterrou a arma entre os olhos do bicho e o viu se desfazer num pó amarelo fedorento e pegajoso, que grudou em seu corpo enquanto era sugado para baixo por alguma força sobrenatural. A água tornou a pegar Silvia no ar, como se fosse um quinto membro do corpo da garotinha, e ela correu para a margem, onde encontrou um Hades totalmente dividido entre admiração e pesar pela constatação que viria a seguir.
– Água... É ele... não é? – ela perguntou, sem saber se tinha medo ou orgulho do que acabara de fazer.
Hades baixou a cabeça e se ajoelhou diante da pequena.
– Sim, querida. Ele é seu pai.
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