Não dava para ler as emoções daquela criança. Hades quis ficar com ela até que se acalmasse, mas não teve jeito – Silvia queria ficar só!

Precisava pensar, ou parar de pensar. Precisava organizar as ideias e processar o que aquele bendito treino de canoagem trouxera para sua vida. Ok, o pai dela agora tinha nome. Nome, endereço, poderes ultra-maneiros e um cargo no mundo divino tão importante quanto o de vice-presidente. O irmão mais velho dos Três Grandes, o “maldito barbas de craca”, como o Sr. D chamava. Céus, graças aos deuses não era filha do Sr. D. Tá certo que seria bem fácil odiá-lo, mas ser filha dele seria humilhante!

Ok, chalé. O chalé III não era ocupado. Aliás, as únicas almas que passavam por aquele lugar eram as harpias da limpeza. Finalmente sairia do quartinho escondido da Casa Grande! Começou a arrumar suas poucas coisas numa mochila surrada à um canto, deixando de lado por alguns minutos o objeto de ódio que agora tinha nome. Suava em bicas. O nervosismo, a irritação, a adrenalina, tudo fazia Silvia praticamente desidratar, embora aquilo não fosse, em realidade, possível para ela.

Molhou o rosto na pia do banheiro, respirou fundo, molhou o rosto de novo, ainda não podia acreditar! O que faria dali em diante? Como contaria a Quíron que havia descoberto? Ora, ele não precisa saber! Me largou como todos os outros mesmo! Ou... precisa, mas não precisa saber como! Depois de um longo tempo discutindo consigo mesma, olhou para fora através da janela e notou que estava perto do pôr-do-Sol. Os campistas deviam chegar em breve e ela precisava de algo para comer.

Desceu as escadarias da Casa Grande e rumou até o pavilhão do refeitório, de onde um delicioso cheiro de comida já começava a surgir. Decidida e nem um pouco parecida com a garotinha tímida que jamais ia àquele lugar desacompanhada, Silvia caminhou até o balcão onde alguns quitutes já estavam a postos. Panquecas com mel, bacons fritos com ovos, refrigerantes, coxinhas e brigadeiros. Pegou um pouco de cada e foi para a fogueira. Despejou parte da comida para Hades novamente.

– Desculpe se fui rude... Minha cabeça está uma confusão. Mas mesmo assim, obrigada por tudo... tio.

E foi se sentar, torcendo para que o deus do Mundo Inferior tivesse ouvido a prece e recebido a comida. Silvia já estava a meio caminho da mesa dos diretores quando se lembrou que sua mesa agora era a III. Sorriu por finalmente ter um lugar. Um lugar isolado e sem ninguém, pra variar, mas um lugar. Sentou-se e se sentiu à vontade. Sentiu que aquela sim era a mesa onde devia sentar, a vista que deveria ter do pavilhão, como se tivesse sido preparada para ela. Mas nem começou a comer e ouviu algo como um rugido. Ergueu o olhar na direção do som e deu de cara com um gorducho de cara vermelha, camisa com estampa de leopardo e uma coca diet na mão, o que causou o rugido, ou, mais realisticamente, o arroto. Dioniso.

– Eu sabia! Sabia que você ficava testando as mesas quando estamos fora! Eu sabia!

Silvia ignorou e tornou a prestar atenção em seu prato. O Sr. D ficou irado. Silvia morria de medo dele e ele se orgulhava disso! Como ela teve a audácia de simplesmente ignorá-lo? Silvia não sabia que estava flertando com o perigo ao ficar dez minutos ininterruptos ignorando o vermelhão. Sentia que por ser filha de quem era, podia fazer qualquer coisa contra qualquer um, menos os Três Grandes, loucura de criança.

– Olhe para mim, moleca insolente!

Silvia manteve o olhar fixo no prato.

– Eu juro que matarei você se não... – ao longe, a buzina da van de Argos, o motorista e chefe da segurança do acampamento, soou, anunciando a chegada dos campistas.

Silvia terminara de comer naquele exato instante. Levou seu prato para o balcão e jogou a lata de coca vazia na lixeira. Ao passar por Dioniso, apenas deu um sorriso petulante e disse:

– Feliz Natal, Sr. D.

E saiu com as mãos nos bolsos, rumo à Casa Grande. Pelo menos foi o que pareceu.

• • •

Setenta e duas horas se passaram desde o pôr-do-Sol daquele 21 de dezembro e Silvia estava desaparecida. Os únicos campistas ainda vivos desde a época em que a menina chegara ao Acampamento Meio-Sangue, os irmãos Alexander Liebermann e Nate Murdock, do chalé de Apolo, Paul W. Singer e Aertia Johnson, de Ares, e Ludwig Van Der Bacchen, Nora Daniels e James Alberts, de Hermes, ajudavam a procurá-la, pois eram os únicos além dos diretores que sabiam da existência de Silvia. Todos os que viram a chegada da pequena juraram pelo Estige jamais contar sobre ela. Não a encontraram.

Era véspera de Natal e o acampamento estava à mil por hora. Os campistas veriam os fogos da praia e depois pegariam carona para passar as festas com suas famílias mortais, quem quisesse. Argos quase nunca precisava dar carona, já que o pessoal preferia ficar no Acampamento Meio-Sangue. Quíron não podia estar se preocupando com uma garota perdida de seis anos à uma hora daquelas, mas estava. Simplesmente porque aquela garota era perigosa demais para ficar à solta.

...

– Você é uma princesa! – Hades admirava sua sobrinha – Feliz Natal, querida.

Aquele era o primeiro abraço realmente carinhoso que Silvia recebia. Estavam em outra ponta da praia, já fora dos limites do acampamento, mas de onde podiam ver os fogos com perfeição.

– Feliz Natal, tio. Realmente é um feliz Natal!

A chama de calor no coração do frio deus parecia aumentar sempre que estava com a pequena. Se por um lado ele agradecia aos céus por não ser a vítima do ódio da garota, por outro desejava loucamente ter o prazer de ser o pai dela. Estivera presente durante a infindável corrida de Valerie Murray pela colina naquela tempestuosa noite de agosto, afastara os monstros que Zeus não parava de mandar, sabia que não podia aparecer para a mulher ou complicaria mais ainda a situação, mas, das sombras, fez tudo o que podia para ajudar.

Na praia, os reflexos da briga direta entre Poseidon e Zeus. Raios pesados carregando o ar de ozônio enquanto ondas gigantes pareciam tentar escalar o céu. Hades conseguira fazer a mulher entrar. A magia combinada dele e de Poseidon funcionara para permitir a entrada da única pessoa não-mágica que já passou pelos limites do acampamento. Só podia torcer. Torcer para que os curandeiros soubessem o que estavam fazendo. Torcer para que a mulher e a filha pudessem ser salvas. Mas somente Silvia foi e, com um pesar terrível, ele precisou prender o bilhete à roupa da falecida mulher.

Zeus estava enfurecido por não ter impedido o nascimento da garota. Poseidon estava feliz porque sua filha estava viva, mas triste porque jamais poderia criá-la como pai, ou como pais olimpianos podem cuidar de seus filhos... As Parcas teceram uma perigosa malha para a vida de Silvia. Nem mesmo Apolo, já acostumado com visões terríveis, agiu normalmente quando o espírito de Delfos mostrou a mensagem.

Horas depois daquele parto, o pai da menina apareceu como prometido, com Hades a seu lado.

– Sei a quem deve sua lealdade, centauro. Sei que eu também deveria ser leal. Mas ela é minha filha e eu jamais poderia deixá-la morrer.

– Eu entendo.

– Cuide dela. Não deixe que ela sinta minha falta, ou que precise de mim. Não quero que ela precise de mim, entende o que digo? Crie-a. Transforme-a na guerreira que ela deve ser. Aparecerei a ela quando for necessário. Mas por ora, faça-a sentir que não precisa de mim para ser a heroína que foi destinada a ser.

– Sim, senhor.

– E, se Hades quiser, ele deverá ter todo o acesso necessário à menina.

– Como quiser – Quíron mentiu, jamais permitiria que Hades se aproximasse de Silvia. Zeus já havia antecipado essa ideia e o proibira.

Os deuses deixaram o acampamento com apertos no peito. Saíram a vagar pela praia até chegar ao ponto onde o deus do Mundo Inferior se encontrava com sua sobrinha agora, relembrando tudo isso, seis anos e meio depois.

Os dois estavam deitados sobre a areia fofa, abraçados, olhando as constelações, que pareciam dançar no céu noturno de quase meia-noite. Ártemis devia estar de bom humor. Comeram algumas frutas, Hades contou histórias míticas e tirou algumas dúvidas da pequena. Falaram sobre tudo, menos sobre o pai dela. Ela não queria tocar no assunto, não quando, mesmo depois de descobrir, não foi feito nenhum contato paterno. Nem mesmo um cartão de Natal. Nada.

No acampamento, Quíron passava sua habitual tranquilidade, escondendo o pânico que sentia pelo sumiço de Silvia. Depois de horas de busca sem resultado algum, ele chegou a torcer para que o próprio Zeus tivesse tido a ideia de se dar um presente de Natal. Repreendeu-se no mesmo instante por tal pensamento.

– Cinco, quatro, três, dois, um, FELIZ NATAL!!!

O acampamento explodiu em festa, abraços e desejos de felicidades. Ao longe, Silvia girava erguida pelos braços de Hades, que sorria feito bobo para sua sobrinha. Pode ser que não seja minha filha de verdade, mas farei de tudo para ser o pai que você merece, o deus pensava sozinho enquanto fazia um lindo sorriso aparecer no rostinho da pequena.

O deus providenciou os comes e bebes fresquinhos para a ceia dos dois e continuaram a se divertir um com o outro. Silvia perguntava tudo sobre o reino de seu tio, queria visitar o local, saber como era, quem vivia lá e porquê. Hades permanecia dizendo que era uma viagem muito perigosa.

– Sabia que nem mesmo adultos tem essa coragem que você tem? Normalmente evitam o Mundo Inferior e fazem bem. É um lugar cheio de armadilhas, monstros e tudo que há de perigoso.

– Mas eu quero conhecer. Quero ver seu palácio, pelo menos. Deixaaaaa!!

– Não sei não... Você é pequena demais ainda. Conhece a história de Orfeu?

– Não muda de assunto, tio!

– Mas eu não estou mudando! Olha só, Orfeu foi um cara corajoso que desceu ao Mundo Inferior para salvar sua esposa. Só que eu disse a eles, antes de saírem, que não olhassem para trás, ou seriam transformados em estátuas como forma de castigo pela audácia que tiveram antes – caso não tenha notado, sim, Hades escondeu as piores partes da história. – Orfeu foi corajoso e somente correu para fora, desviando com dificuldades das infinitas armadilhas, segurando a mão de sua esposa. Mas ela olhou para trás, quis rir de mim e se achar poderosa por ter escapado do Mundo Inferior. Hoje ela é uma das peças mais valiosas do Empório de Estátuas e Anões de Jardim da Tia Eme. Nunca, JAMAIS, vá àquele lugar.

– Entendi. Mas... se eu for com você, o rei do Mundo Inferior, não estaria protegida? – ela insistiu indiretamente.

Hades se jogou para trás na areai fofa e riu.

– Ok, quando você fizer... nove anos! Pode ser?

– Ah, tá booom! – já era melhor do que nada.

Eram quase duas e meia da manhã quando Hades acompanhou Silvia de volta para o acampamento. Quíron havia mandando todos para suas camas havia cerca de 10 minutos.

– Foi muito legal acampar e treinar com você na praia esses três dias, pequena. Você me deixa orgulhoso – ele disse, quando a levou para o chaé III, local de onde haviam saído furtivamente na noite de 21 de junho.

– Obrigada, tio. Você vem amanhã? Quer dizer, hoje, só que mais tarde?

– Não sei... Natal geralmente é uma data com muitos acidentes. As pessoas fazem coisas perigosas. Mas se der, eu venho sim – ele caminhou até a porta e chegou a abri-la, mas se deteve e voltou-se de frente para Silvia outra vez – Princesa, desde que eu recobrei o brilho do anel de sua mãe, alguma vez você o pôs no dedo?

– Não... Ele vai ficar folgado. Por isso o uso no pescoço.

– Tire-o do pescoço e o coloque no dedo pra mim, por favor.

Ela olhou curiosa, mas imediatamente obedeceu, mesmo sem fazer ideia do que Hades tinha em mente. Tirou o anel do colar de contas, pôs o colar de volta no pescoço e então colocou o anel no dedo, surpreendendo-se ao ver que ele estava perfeito, como se tivesse sido feito sob medida.

– Como...?

Hades sorriu.

– Há uma palavra escrita nele. Leia em voz alta.

Ela olhou a inscrição: τσουνάμι. Maremoto.

– Tsounámi! – ela leu naturalmente.

E uma espada reluzente de bronze celestial surgiu na mão dela. Silvia ficou em êxtase. Uma espada! Uma espada do tamanho certo, perfeitamente balanceada, com cabo recoberto por couro e cravejado com esmeraldas que possuíam tridentes gravados na superfície. Maremoto era seu nome.

– Tio...

– Não agradeça a mim. Meu presente foi mostrar a você o que o anel faz. Silvia, esse anel foi dado à Valerie de presente para que ela repassasse a você apenas quando tivesse doze anos. Esse anel foi feito para você desde o início, sua mãe era a guardiã dele. Eu preciso ir agora. Você sabe o que fazer com a espada. Feliz Natal, princesa. Você é o verde que faltava nas luzes dessa festa.

Hades deixou o acampamento pelas sombras. Silvia olhou a espada e se surpreendeu com seu reflexo nela. Havia uma aura verde ao seu redor e um tridente reluzente sobre sua cabeça. A menina arqueou assustada e precisou de alguns segundos para entender que estava acontecendo com ela aquilo que já havia assistido acontecer com vários outros quando eram reconhecidos por seus pais olimpianos.

– O deus dos mares. Senhor dos terremotos. Pai dos cavalos. Patrono dos navegantes – a voz de Quíron ecoou no chalé III, seu rosto tinha uma expressão dura ao falar as palavras que jamais desejou proferir. – Parabéns, Silvia Murray, filha de Poseidon.

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.