The Great War

1 Porto de Hamburgo


Porto de Hamburgo


O porto de Hamburgo operava sob a queda gradativa de temperatura do outono de 1934.

O vapor das caldeiras do RMS Olympic subia aos céus em colunas densas, misturando-se à fuligem das três chaminés pretas e ao cheiro forte de óleo queimado e carvão. Acima da estação marítima, bandeiras vermelhas com a suástica recém-adotada pelo governo alemão ondulavam ao vento frio.

Alguns oficiais da polícia portuária observavam o embarque com atenção excessiva, conferindo documentos com um rigor que poucos anos antes pareceria exagerado.

O transatlântico erguia-se com seus cerca de 269 metros de comprimento e dez conveses de altura; o mais elevado era onde ficavam os botes de salvamento, todos destinados aos passageiros.

Na primeira classe, dispunham de um ginásio com aparelhagem moderna que dava acesso ao salão onde a orquestra tocava regularmente. No mesmo convés, estava um suntuoso salão de leitura decorado com mobílias de mogno, vitrais, uma lareira e quadros a óleo. Havia também um restaurante à la carte e uma pista de dança. Enquanto isso, a classe inferior tinha acesso apenas às cabines equipadas com beliches, sendo comum um quarto ser ocupado por até oito pessoas, além de partilharem duas áreas comuns: uma sala de fumar e uma sala de jantar própria.

No cais, havia uma divisão nítida: de um lado, havia um reluzente Rolls-Royce Phantom II preto, passageiros desembarcavam envoltos em casacos de pele e alta-costura; do outro, uma multidão cinzenta de operários e imigrantes caminhava em direção aos deques inferiores, empurrada pela recessão econômica que ainda castigava o continente europeu.

Na fila intermediária, carregando uma mala gasta cheia de livros de cartografia, estava Armin Arlert, que permaneceu alguns segundos parado diante da imensidão azul que se estendia além do cais. Ele havia visto o oceano apenas em livros, mapas e desenhos feitos à mão. Mas nenhuma página conseguia transmitir aquela sensação de infinito.

De estatura mediana, Armin escondia sob o paletó verde-musgo um corpo que revelava uma rigidez física e um ganho muscular nítido, com os ombros visivelmente mais largos e a postura ereta. Exibia um corte de cabelo moderno para a época, curto nas laterais e rente à nuca, enquanto os fios do topo tinham comprimentos diferentes e caíam de forma desordenada sobre a testa. Seu rosto era angulado, com o maxilar marcado e uma seriedade melancólica que se concentrava nos olhos azuis, que carregavam olheiras leves de insônia crônica.

O homem sofria de uma ansiedade severa que se traduzia em uma queimação física constante no centro do peito. O avô insistia que tudo não passava de nervosismo herdado da mãe. Os médicos falavam em exaustão dos nervos. Armin apenas aprendera a conviver com a dor silenciosa instalada no peito.

— Olhe para o tamanho desse navio, Armin — disse Eren Jaeger, parando ao seu lado com as mãos nos bolsos do paletó de tweed marrom gasto, encarando o transatlântico com uma admiração quase agressiva.

Eren ostentava uma presença física difícil de ignorar. Havia uma estrutura de ombros largos e uma magreza rígida, marcada por músculos tensos e nervos salientes. Os cabelos castanho-escuros eram ligeiramente mais compridos do que ditava a moda masculina dos anos trinta, caindo de forma rebelde sobre a gola da camisa de colarinho puído. Tinha opinião forte sobre tudo e encarava o mundo como se ele lhe devesse respostas.

— Dá até raiva pensar que as pessoas se dividem entre quem pode pagar pelo luxo e quem vai lá embaixo, perto dos motores. — Franziu levemente as sobrancelhas e manteve o maxilar travado num estado de vigília.

Armin percebeu que alguns passageiros abaixavam a voz ao passar pelos oficiais. Não tinha medo do navio. Era medo das pessoas que estavam paradas no cais.

Mikasa Ackerman caminhava alguns passos atrás de Eren e Armin, como se a discrição fosse uma escolha consciente. Vestia um casaco de lã cinza-escuro de corte simples, fechado até o pescoço, sobre uma saia reta preta que lhe permitia movimentos firmes e seguros.

O cachecol vermelho envolvia-lhe o pescoço em voltas cuidadosas, destoando do restante das roupas sóbrias como a única concessão que fazia à cor.

Os cabelos negros, cortados pouco abaixo do queixo segundo a moda mais prática da década, emolduravam um rosto de linhas delicadas e expressão quase sempre impenetrável. Os olhos escuros percorriam o porto com atenção constante, não por curiosidade, mas pelo hábito de avaliar discretamente tudo o que acontecia ao redor.

Armin não respondeu. Ele apenas colocou a mão no bolso do paletó e apertou a concha nassarius branca do mar que trazia ali. Sentir os relevos ásperos do objeto ajudava sua mente a voltar para o presente quando a ansiedade tentava dominá-lo. Ele havia encontrado aquela concha anos antes na praia. Era pequena demais para representar o oceano inteiro, mas talvez fosse justamente por isso que gostava dela.

Mikasa observava os dois amigos de infância. Era um costume antigo, adquirido tão cedo que já não percebia fazê-lo. Certificava-se, quase sem pensar, de que ambos estavam ali, ao alcance do seu olhar, antes de permitir que os próprios olhos se voltassem para qualquer outra coisa.

Entre os passageiros da primeira classe, Annie Leonhart mantinha a gola de seu sobretudo branco levantada. Seus olhos azuis-acinzentados estavam fixos na linha do chão.

Annie sustentava um rosto cuja beleza jamais parecera lhe pertencer. Os cabelos loiros estavam soltos, com algumas mechas caindo desordenadamente pelas laterais do rosto e a franja característica cobrindo parcialmente o lado esquerdo da face. Seu rosto estava mais pálido do que o normal, com traços finos e um nariz proeminente que lhe dava um perfil marcante.

Ela tinha o hábito de girar um anel de prata no dedo médio, um objeto sem valor comprado por impulso, mas que lhe trazia uma sensação instintiva de segurança. Nunca soube quando adquirira aquele hábito. Apenas percebia que, sempre que a ansiedade lhe roubava o ar, seus dedos procuravam automaticamente o metal frio.

Seus pesadelos eram recorrentes: ela tinha a sensação sufocante de estar presa na escuridão profunda de um subsolo, claustrofóbica dentro de um cristal rígido, gritando sem que nenhuma alma pudesse ouvi-la.

(...)



À noite, o Grande Salão de Jantar da primeira classe do Olympic transbordava opulência. O recinto tinha as paredes revestidas de painéis de madeiras polidas que brilhavam sob as luzes embutidas, refletindo-se nas colunas de metal cromado e nos imensos espelhos eduardianos. O som dos talheres de prata legítima tocando a porcelana fina misturava-se ao murmúrio polido da elite.

Na mesa da comitiva oficial, a jovem princesa sueca, Historia Reiss e o diplomata Jean Kirschtein conversavam formalmente, enquanto Reiner Braun, capitão das forças de infantaria, observava o salão com os braços cruzados e uma expressão séria.

Jean ajeitou a manga quando um oficial passou pelo salão. Até os homens ricos escolhiam cuidadosamente o que diziam.

Duas classes abaixo, o jantar consistia em um ensopado sem sabor com cor de terra. Foi o tédio que fez Eren apoiar a ideia de Armin de explorar os deques superiores. Mikasa os seguiu em silêncio. Eles esgueiraram-se até a galeria superior, que funcionava como uma varanda interna com vista para o salão principal da primeira classe.

O contraste era violento, mas a atenção deles foi capturada por uma confusão perto do buffet.

Sasha Blouse, que trabalhava na cozinha da terceira classe, mas tinha uma habilidade incomum para sumir de seu posto, avançou discretamente até uma das mesas. Vestia um avental branco grosso de algodão cru, desbotado e manchado pelo trabalho na cozinha dos deques inferiores. Os cabelos castanhos estavam presos em um coque apressado e desalinhado na nuca, do qual várias mechas soltas emolduravam um rosto jovem, de bochechas coradas e olhar vivaz.



Com os olhos arregalados, Sasha nem se deu ao trabalho de procurar um garfo. Pegou uma porção inteira de Canard à l'Orange diretamente da travessa de prata com os próprios dedos.

— Mas o que significa isso?! — um grito grave ecoou.

Nicolo, o orgulhoso Chef francês trazido especialmente para a viagem, surgiu da porta do vaivém. Seu dólmã branco estava impecável, e seu rosto estava vermelho de indignação.

— Você estragou a apresentação do prato, sua bárbara!

Sasha, com a boca ainda cheia e o molho escorrendo pelo queixo, não se intimidou. Ela engoliu o pedaço com os olhos marejados de prazer genuíno, olhou direto nos olhos do Chef e disse, com a voz embargada:

— Monsieur...este pato é a melhor coisa que já comi na vida!

Nicolo parou no meio do caminho, o braço estendido no ar. O insulto que estava na ponta de sua língua desmoronou diante daquela apreciação tão crua e honesta. Ele piscou, desarmado, o rosto mudando de fúria para uma surpresa.

Perto dali, Connie Springer usava o uniforme surrado de estivador, com as mangas da camisa desbotada dobradas até os cotovelos, revelando braços finos, porém calejados pelo peso das caixas e bagagens do porto. De estatura mais baixa e ombros redondos, ostentava o cabelo cortado raso, quase rente ao couro cabeludo, o que destacava seu rosto expressivo e os olhos abertos em uma curiosidade constante.

Trazia nos movimentos a agilidade de quem passara a vida trabalhando com o corpo. Enquanto recolhia os pratos sujos de uma mesa lateral, não conseguiu se conter. Largou a bandeja de metal sobre o aparador e soltou uma risada alta, escandalosa, quebrando por completo a etiqueta silenciosa do salão.

Na varanda superior, o impacto daquela risada bateu em Armin como uma pancada física. Seus pulmões travaram. A queimação em seu peito subia como fogo vivo; ele sentiu uma tontura avassaladora e apoiou-se na parede de madeira escura.

Por um segundo, ele deixou de ver o navio. Viu fumaça negra, uniformes rasgados e homens cobertos de fuligem. Sentiu, com uma certeza impossível de explicar, que aquelas pessoas diante dele já haviam vivido, lutado e rido juntas em outro tempo.

— Armin! O que foi? — Eren o segurou pelo ombro, os olhos arregalados, olhando ao redor para os cantos escuros da galeria.

Antes que Arlert pudesse responder, passos pesados ecoaram pelo tapete.

Jean Kirschtein cruzava o salão com a postura impecável de quem pertencia àquele ambiente por direito, ou de quem se esforçava para parecer que sim. De estatura alta e ombros largos, vestia uma casaca preta sob medida, cujos botões de metal brilhavam sob a luz dos lustres eduardianos. O cabelo castanho-claro, penteado para trás com um discreto toque de pomada, deixava em evidência o rosto anguloso, de linhas marcadas e perfil altivo. Havia um quê de ironia elegante em sua expressão habitualmente refinada quando se aproximou do grupo com o cenho franzido.

— Senhores, esta galeria é reservada aos convidados da primeira classe. Receio que tenham se perdido — alertou-os com sorriso gentil. — Vocês não deveriam estar…

Pela primeira vez naquela noite, toda a elegância cuidadosamente ensaiada pareceu insuficiente quando seus olhos encontraram os de Mikasa.

Ela mantinha a postura ereta, o cachecol vermelho no pescoço contrastando com os cabelos escuros em um corte chanel longo. Havia uma dignidade severa nela que nenhuma daquelas mulheres cobertas de joias possuía.

Ele engoliu em seco, de repente parecendo um garoto sem graça.

— O que você disse, seu engomadinho? — Eren deu um passo à frente, fechando os punhos, o temperamento estourado ao ver Jean encarando Mikasa. — Repete se tiver coragem!

Enquanto os dois começavam a bater boca em sussurros raivosos e Mikasa se colocava entre eles para evitar uma briga, Armin afastou-se de fininho. Ele precisava de ar. Caminhou até a extremidade da amurada da varanda, onde a luz era mais fraca, e olhou para baixo, tentando focar em pessoas reais para afastar as visões.

Seus olhos azuis vagaram pelas mesas de jantar da elite até que seu olhar parou.

Na mesa mais isolada, perto da janela que dava para o oceano, estava sentada a mulher loira. Ela olhava fixamente para o reflexo da própria taça de água, alheia ao Chopin que era tocado por uma orquestra e à confusão de Sasha no salão.

No segundo em que Armin fixou os olhos nela, a queimação em seu peito cessou instantaneamente. Como se sentisse o peso daquela observação, os olhos dela ergueram-se e encontraram os dele. Perturbada pelo impacto daquele olhar distante, Annie empurrou a cadeira, deixou o salão e buscou o deque de passeio do RMS Olympic.

O vento gelado do Atlântico a atingiu no rosto, desfazendo algumas mechas de seu cabelo claro. Ela caminhou até a amurada de metal, apoiando as duas mãos no corrimão frio. Suas costelas subiam e desciam em um ritmo curto, frenético. Ela tentou puxar o ar puro da noite, mas seus pulmões simplesmente recusaram a expansão.

A alguns metros dali, saindo da penumbra da varanda superior, Arlert a observava.

Ele não sabia explicar o que o levou a cruzar a linha invisível que dividia as classes naquelas escadas de serviço; movido além da mera curiosidade, como se uma força magnética o arrastasse. Ele aproximou-se devagar, com passos suaves sobre as tábuas de teca do deque.

Ao ver os ombros dela tremerem sob a brisa marinha, Armin estendeu a mão direita. Seus dedos hesitaram por um segundo antes de pousarem, com uma leveza terna e firme, no centro das costas da mulher, exatamente entre as escápulas.

— Vai ficar tudo bem... — a voz dele saiu baixa, um sussurro projetado contra o som das ondas cortadas pelo casco. — Respire devagar. Siga o ritmo do meu peito.

A mulher não se esquivou. Apenas inclinou a cabeça milimetricamente para trás, sentindo o calor da palma dele atravessar o tecido do vestido.

Armin enfiou a mão livre no bolso do paletó verde-musgo e retirou a concha espiralada e de estrias profundas.

— Pegue — ele murmurou, estendendo o objeto leitoso. — É importante para mim. Quando sinto que a ansiedade vai me dominar, eu aperto os relevos dela. Ajuda a lembrar onde os meus pés estão pisando.

Os dedos pálidos de Annie viraram-se devagar. Quando as pontas dos seus dedos tocaram a superfície mineral da concha e, inevitavelmente, a pele áspera da mão de Armin, um estalo invisível ecoou na mente de ambos. O contato físico não foi um toque comum. Foi um gatilho violento.

Uma descarga de imagens em tons de cinza e vermelho invadiu a consciência do loiro. Armin cambaleou para trás, a mão travada na dela, os olhos arregalados fixos no nada. Ele não ouvia mais o motor do navio. Em sua mente, o som de explosões ensurdecedoras misturava-se a um vapor escaldante. Viu um titã de proporções divinas surgir por trás de uma muralha e, logo em seguida, a imagem daquela mesma mulher, só que mais jovem, vestindo um uniforme militar marrom, com os olhos transbordando raiva e a mais pura exaustão.

As imagens aceleraram.

O chão parecia tremer com o peso de passos gigantescos de pedra. “Eu pareço uma pessoa tão boa assim para você?”, a versão mais jovem de Annie dissera em sua mente, com os ombros caídos, desistindo de tudo.

“Eu não gosto muito desse termo...porque parece que as pessoas só chamam alguém de pessoa boa quando ela é conveniente para elas”, dissera Armin mais jovem. Havia uma suavidade infantil nele, acentuada pelo corte arredondado de seus cabelos loiro-claros que caíam em uma linha precisa logo acima das sobrancelhas.

Na mente da Leonhart, o impacto foi igualmente avassalador. Suas pupilas retraíram-se. Suas pernas fraquejaram, e ela teria caído se a mão dele não a segurasse com tanta força. As falas que ela guardou no subconsciente ganharam som, nítidas, cortantes: “Por quê? Você estava falando com uma inimiga como eu porque é uma pessoa boa, certo?”

E a voz do homem à sua frente respondeu em sua memória: “E como eu disse antes, eu ainda odeio o termo pessoa boa.”

Eles puxaram as mãos de volta simultaneamente, como se tivessem tocado em ferro em brasa. Ambos deram dois passos para trás, os peitos arfando, os corações batendo descompassadamente contra as costelas com uma força que parecia rasgar a carne. Suas mãos tremiam tanto que Arlert mal conseguia fechar os punhos.

— Você... — Armin começou, a voz falhando, os olhos azuis fixos na palidez dela. — Você teve a mesma sensação que a minha? Como se… Como se já tivéssemos nos conhecido?

Antes que ela pudesse articular uma resposta, o som de passos firmes na madeira do deque interrompeu o isolamento deles.

— Armin! Onde você se meteu? — a voz de Eren Jaeger ecoou da escuridão. Ele se aproximou com as mãos nos bolsos do paletó de tweed, o cenho franzido. — O jantar lá embaixo está uma porcaria. Vamos voltar.

Logo atrás dele, Mikasa Ackerman deu um passo à frente. Seus olhos moveram-se de Armin para a mulher. Ela olhou para os dedos ainda trêmulos do amigo de infância e para a postura defensiva da mulher loira, percebendo o ar rarefeito e a intimidade elétrica que restara do toque de mãos que ocorrera um segundo antes. A Ackerman piscou, engolindo em seco, e deu um meio passo para trás, visivelmente constrangida, ajustando o cachecol vermelho para esconder o próprio desconforto diante daquela cena silenciosa.

— Vamos, Armin — repetiu Eren, virando-se de costas.

Arlert olhou para Annie uma última vez, um pedido mudo de desculpas, antes de seguir os amigos.

A Leonhart permaneceu estática junto à amurada. Seus olhos azuis fixaram-se nas costas de Eren e no cachecol vermelho no pescoço de Mikasa. Uma sensação estranha percorreu por sua espinha. Ela não sabia quem eram aqueles dois, mas seu corpo inteiro reconhecia a proximidade daquelas duas figuras, como se fizessem parte de um nó que ela passara a vida tentando desatar.