The Great War
2 A ilusão da certeza
A ilusão da certeza
Na manhã seguinte, a luz pálida da manhã atravessava o vidro espesso da vigia redonda, projetando um oval dourado que cortava o assoalho de madeira polida.
Annie permanecia estática na beira do colchão.
O tecido do vestido azul-marinho, o mesmo que vestiu no dia anterior, parecia incômodo, moldava-se às suas costas eretas, apenas sem o sobretudo que a protegia do vento gelado do convés. Seus dedos continuavam entrelaçados sobre o colo, com os nós das articulações embranquecidos pela força excessiva do aperto. Abaixo do joelho, o sapato de couro preto repousava virado de lado sobre o tapete.
Pela terceira vez naquela manhã, sua mão direita ensaiou o movimento de se curvar, de alcançar a alça e calçá-lo, mas os músculos simplesmente não responderam; a ordem entre cérebro e corpo perdia-se no meio do caminho. Ela desistiu antes mesmo de tocar a fivela, recolhendo o braço como se até aquele pequeno gesto exigisse uma energia que não possuía.
As pálpebras pesadas se fecharam.
O ar entrou devagar, frio pela garganta até expandir os pulmões. O corpo recuou por instinto.
Saiu num sopro morno e trêmulo pelos lábios entreabertos.
Inspirou. Expirou.
O ritual mecânico de controle não encontrou eco. O vácuo continuava cravado exatamente no centro do seu estômago. Havia uma estranha desconexão corporal, uma assimetria física perturbadora: o peito parecia subitamente esvaziado de densidade, como se órgãos vitais tivessem sido arrancados sem anestesia, ao mesmo tempo em que uma pressão invisível e esmagadora a empurrava para baixo, afundando-a no colchão.
Então, o silêncio do camarote evaporou.
A escuridão atrás de suas pálpebras não era mais negra; tingiu-se de um tom escarlate vivo e violento. Fios de lã desfiaram-se no ar, ondulando com uma fúria desordenada sob um céu cinzento e tempestuoso.
O som abafado de um choro infantil ecoou na sua mente, um soluço rasgado, desesperado, de uma menina de cachos negros. Antes que pudesse afastar a imagem, o gosto denso, ferroso e morno de sangue inundou sua língua, impregnando o céu da boca com o sabor inconfundível de uma tragédia que nunca vivenciou.
Annie abriu os olhos num baque seco, o corpo dando um salto sob o colchão como se tivesse despencado de uma grande altura.
Sua mão voou para a base do pescoço, o tecido do vestido subindo e descendo freneticamente sob a palma. Abaixo da pele fria, a caixa torácica vibrava; o coração desferiu golpes tão violentos contra as costelas que ela podia sentir a dor pontuda do impacto interno a cada batida desgovernada.
— Não... — A palavra saiu arranhada, quase sem ar, um mero sopro que se perdeu entre as paredes de madeira da cabine. — Isso não aconteceu...
Os olhos azuis-acinzentados giraram pelo quarto em busca de qualquer âncora no presente: o lavatório de porcelana, a mala de couro no canto, a curva perfeitamente real da vigia. Tudo ali dizia que ela era Annie Leonhart, uma passageira viajando rumo ao novo mundo. No entanto, o gosto de sangue na boca continuava real. O eco daquele choro estranho continuava vibrando em seus dentes.
(...)
O convés inferior da terceira classe operava como um relógio de engrenagens imperfeitas. Ali, o ar era denso, impregnado pelo aroma característico de repolho cozido, tabaco barato de cachimbo, vapor de carvão e o cheiro acre de sabão de soda usado para lavar os deques de teca.
Um homem, irritado pela interrupção do seu transe alcoólico, deu um chute seco no brinquedo e tropeçou pesadamente contra a mesa de canto.
A garrafa de gim barato que repousava no tampo virou num baque, encharcando o baralho gasto de Connie e empurrando um pedaço de pão de centeio duro direto para o chão gorduroso.
— Cuidado por onde anda, caipira! — rosnou o sujeito, o hálito pesado de destilado azedo atingindo o rosto do rapaz enquanto o segurava pelo colar do uniforme de estivador.
— Ei! O senhor derrubou a minha comida! — protestou Sasha, surgindo de trás de uma coluna com um garfo de latão apontado em riste, os olhos fixos na côdea de pão. — Esse pão ainda tinha pelo menos dois dias de utilidade!
Eren, que observava a cena encostado nas vigias com as mãos cerradas em punhos, desencostou num estalo. A fúria habitual acendeu em seus olhos verdes, a mandíbula travada no tom de rigidez que Mikasa conhecia bem demais. Ele deu dois passos rápidos, o corpo projetado para a frente.
— Solta ele! — ordenou Jaeger, a voz grave e perigosamente calma. — Ou eu mesmo faço você soltar.
— Eren, não... — pediu Mikasa, posicionando-se a meio passo de distância, a mão buscando o cotovelo dele para segurá-lo antes que a segurança do navio fosse acionada.
O bêbado soltou uma risada debochada, empurrando Connie contra a parede de ferro.
— Um pirralho miserável querendo me dar ordens? Vocês deviam estar limpando os deques!
Eren não esperou. Ele avançou, mas antes que o soco atingisse o queixo do homem, uma voz de autoridade cortou o ar :
— Senhores, por favor.
Erwin Smith avançou pelo corredor. Vestia um sobretudo escuro de corte impecável, a postura ereta e a presença tão marcante que até mesmo os passageiros mais exaltados se aprumaram. Os cabelos loiros cuidadosamente penteados e os olhos azuis serenos transmitiam uma calma quase desconcertante. Ao seu lado, duas crianças de uma família de imigrantes o reconheceram e correram para cumprimentá-lo; Erwin ofereceu um aceno cortês e um sorriso contido.
— Senhor Smith... — murmurou o homem bêbado, a voz vacilando ao reconhecer o diplomata. — Estes sujeitos da classe inferior não têm modos…
— O que falta em modos aqui, sobra em sujeira nas suas mãos — cortou uma segunda voz, baixa, afiada e fria.
Saindo da sombra projetada por Erwin, Levi Ackerman deu um passo à frente. Usava um lenço branco impecável dobrado no colarinho e luvas de couro escuro finas. Seus olhos caíram sobre a poça de gim e o pão no chão, revelando um desgosto quase físico. Caminhou devagar, retirou um lenço do bolso do paletó e passou a ponta do tecido sobre a borda da mesa encharcada de gim. Observou a mancha escura impregnada no tecido, como se aquilo fosse uma prova física da decadência diante dele.
— Patético! — murmurou Levi, encarando o homem alto com um desprezo tão fulminante que o sujeito deu um passo involuntário para trás. — Um homem feito, cheirando a bebida barata… Você é uma vergonha para esta embarcação. Saia da minha frente antes que eu faça você engolir esse broche.
O passageiro, humilhado, baixou a cabeça e se retirou tropeçando nas próprias pernas.
Levi suspirou, voltando seus olhos afiados para Eren e Connie.
— E vocês dois... — Ackerman apontou o dedo indicador na direção dos dois. — Já que estão com tanta energia sobrando para bancar os valentões, vão canalizar isso. Os banheiros do setor C da terceira classe estão intragáveis.
— O quê?! — Eren protestou. — A gente não fez nada! Foi aquele…
— Se reclamar mais uma palavra, limpa os da segunda classe com uma escova de dentes — interrompeu Levi, sem piscar.
Connie engoliu em seco, puxando Eren pelo braço enquanto o amigo resmungou entre dentes.
Abaixo do burburinho que voltava a se instalar, Armin permanecia um pouco mais afastado, encostado em um pilar de sustentação emaranhado em cabos de aço. Ele havia acompanhado a confusão em silêncio, mas seus olhos não registravam a briga.
Seu dedo polegar repousava no fundo do bolso do casaco girando a concha entre os dedos da mão esquerda. A respiração dele continuava curta, e o olhar azul-profundo parecia fixado na escadaria de ferro que subia em caracol rumo aos deques da primeira classe.
— Armin.
A voz de Mikasa não veio como um susto, mas como uma âncora. Ela se aproximou devagar, os passos firmes sobre o assoalho de madeira. O cachecol vermelho cobria-lhe a parte inferior do rosto contra o vento frio que se infiltrava pelas escotilhas.
— Você não ouviu uma palavra do que esse baixinho cheio de marra disse, não é? — perguntou ela, mantendo a voz em um tom baixo, reservado apenas para os dois.
Armin piscou devagar, despertando do transe e ajustando a gola do seu casaco branco, num gesto defensivo para esconder o tremor das mãos.
— Desculpe, Mikasa... Eu estava olhando para a estrutura. A forma como os cabos tensionam o casco quando a onda bate…
— Você não estava olhando para os cabos, Armin — cortou Ackerman, suave, mas irredutível. Seus olhos desceram para a mão dele que apertava o bolso. — Você sempre gira a concha quando a queimação no peito volta.
Armin travou. Ele olhou para a amiga de infância, percebendo mais uma vez como Mikasa lia seus gestos com uma precisão quase dolorosa.
— Você está pensando na mulher loira — disse Mikasa. Não era uma pergunta; era uma confirmação. Ela relembrou a cena do convés superior e também o abraço que ambos trocaram na biblioteca. — Eu vi como você olhava para ela, Armin. E vi como ela olhou para você. Parecia que vocês dois estavam dividindo um segredo.
Armin soltou um suspiro pesado, o vapor da sua respiração misturando-se ao ar frio do oceano. Ele se encostou mais forte contra o pilar de ferro.
— Não é um segredo, Mikasa. Esse é o problema — murmurou ele, a voz carregada de uma gravidade que não pertencia a um homem de vinte e dois anos. — Quando os meus dedos tocaram a mão dela... eu não vi o navio. Eu vi o estrondo, mais de oitenta por cento da população dizimada, Titãs, iguais aos descritos na mitologia grega. E, ela… Ela estava lá comigo, mas senti uma dor tão profunda que parecia que meu próprio peito ia rasgar. Isso é estranho. Eu nunca a vi antes do navio. Como pode isso…?
Mikasa permaneceu em silêncio por um longo momento. Ela ajustou as voltas do cachecol vermelho ao redor do pescoço.
— Você acha que está ficando louco? — perguntou ela, a voz velada de preocupação materna.
— Eu achava que sim — respondeu Armin, encarando as próprias palmas das mãos, que ainda guardavam a lembrança do calor da pele de Annie. — Mas quando olhei nos olhos dela... eu soube. Ela viu a mesma coisa. Ela sentiu o mesmo peso. É como se este navio, todas essas pessoas, essa viagem para a América... fossem só um cenário, como se estivéssemos repetindo papéis que já havíamos vivido.
Mikasa piscou, a expressão franzindo em um misto de espanto e severidade. Ela deu um passo à frente, segurando o braço dele com mais firmeza, olhando ao redor para garantir que ninguém ouvia a conversa.
— O quê? — a voz dela saiu baixa, cortante. — Armin, você está se ouvindo? Ficou louco ou agora deu para acreditar nessas bobagens de reencarnação e vidas passadas que os franceses adoram discutir?
— Mikasa, não é doutrina ou livro… Eu senti e vi.
— Armin, tudo isso é a sua ansiedade — ela o interrompeu, puxando o cachecol para cobrir o queixo enquanto observava a escadaria da primeira classe. — Essa gente rica lê esses autores de Paris, acham que têm tempo de sobra para inventar mistérios. Nós não temos. Esqueça essa mulher. Nem tudo o que a sua mente fantasia precisa ser verdade.
Ela deu um leve toque no ombro dele, antes de se virar para acompanhar Eren e garantir que ele não arrumasse outra briga enquanto limpava os banheiros.
O loiro continuou parado. Seus olhos voltaram para o topo da escadaria. Não convencido das palavras de sua amiga de infância, ele decidiu subir os degraus de ferro que ligavam o ventre ruidoso da Terceira Classe à opulência da Primeira.
À medida que subia, o cheiro de tabaco de charuto importado e perfumes florais caros tomavam conta do ambiente.
Armin ocultou-se atrás de uma das colunas entalhadas da galeria superior do Grande Salão. Seu olhar azul percorria desesperadamente cada mesa, cada rosto banhado pela luz amarelada dos lustres de cristal.
Cadê ela?, o pensamento martelava em sua mente. Ele procurava pelo brilho dos cabelos loiros soltos, pelo perfil sério de Annie. Mas tudo o que via eram desconhecidos vestidos em seda e veludo.
Annie não estava ali.
Em vez dela, sua atenção foi capturada pela mesa central. No meio de ornamentos de porcelana de Sèvres, a jovem Historia Reiss mantinha a postura irretocável de quem fora treinada desde criança para representar uma família de prestígio. Seu vestido de seda azul-claro, com corte reto e mangas delicadas, harmonizava com o tom pálido de sua pele e a cascata de cabelos loiro-dourados cuidadosamente dispostos sobre os ombros. O colar de pérolas legítimas ao redor do pescoço trazia uma sobriedade aristocrática. Ao seu lado, o diplomata Jean Kirschtein, vestindo um fraque rigorosamente ajustado, gesticulava com moderação ao conversar em tom baixo.
Armin aguçou os ouvidos. O murmurinho da orquestra ao fundo não cobria totalmente as frases soltas que flutuavam até a galeria:
— A política econômica do governo Hitler está tornando a Alemanha cada vez mais fechada ao exterior — sussurrava Jean, girando o líquido dourado na taça. — O controle sobre moeda, comércio e fronteiras está tornando impossível prever o que virá depois.
— Minha família não pode retornar a Varsóvia. Não enquanto esses documentos existirem e certas pessoas souberem nossos nomes. A situação na Alemanha está mudando rápido demais, e não sabemos até onde isso vai chegar. — respondeu Historia, a voz suave, mas carregada de uma gravidade firme. — A diplomacia falhou. O navio não é um passeio, Jean é uma rota de fuga. Se não cruzarmos o Atlântico com esses documentos, não haverá país neutro que nos proteja.
Armin apertou o corrimão de madeira polida. O contraste era esmagador e violento: enquanto lá embaixo homens lutavam por migalhas de pão mofado e temiam a fome do dia seguinte, ali em cima, famílias influentes arquitetavam fugas diplomáticas para salvar suas vidas à sombra dos regimes totalitários que endureciam suas fronteiras e sufocavam qualquer possibilidade de fuga.
Foi nesse momento de tensão que um movimento brusco na mesa ao lado chamou sua atenção.
Um garçom de uniforme impecável, ao inclinar-se para servir champanhe numa mesa, esbarrou sutilmente o cotovelo na borda de uma cadeira de veludo. A cadeira balançou, fazendo com que Gabi — uma garotinha que carregava a energia inquieta e altiva da família Braun, destoando da rigidez do salão, vestida em um traje plissado de alta-costura em tom marfim com rendas delicadas na gola que pareciam sufocá-la — soltasse o garfo de prata com um tinido estridente.
Falco Grice, sentado ao seu lado, mantinha uma postura contida e zelosa. O terno infantil de lã fria, perfeitamente ajustado aos ombros pequenos, e os cabelos loiros alinhados davam-lhe a aparência de um jovem cavalheiro; porém, seus olhos claros revelavam a hesitação de quem temia cometer qualquer deslize.
Porco, irritado, deixou cair um pingo de molho escuro sobre a manga da sua casaca sob medida. Os cabelos castanho-claros impecavelmente penteados para trás com pomada brilhante destacavam um rosto de traços duros e maxilar proeminente. Ele rosnou uma praga em alemão, o que fez Bertholdt Hoover destoar da altivez dos outros pela sua presença quase invisível, apesar da estatura impressionantemente alta. Magro e ligeiramente curvado para frente, como se tentasse diminuir o próprio tamanho, vestia um smoking escuro de corte sóbrio. Rosto alongado, olhos incertos e expressivos, suas mãos longas e inquietas ajustavam compulsivamente o nó da gravata borboleta.
Pieck Finger, reclinada elegantemente na poltrona com uma piteira entre os dedos delgados, soltou uma risada baixa e aveludada diante do caos da mesa. A expressão divertida não escondia a atenção que ela mantinha sobre a conversa.
— O capitão Braun garantiu que a escolta no porto de Hamburgo foi a última barreira — interveio da mesa ao lado, num tom preguiçoso, mas cirúrgico. — Mas até o porto de Nova York, somos apenas refugiados.
Armin deu um passo para trás na penumbra da varanda. Ele não encontrara Annie, mas a atmosfera daquele salão confirmava o que seu peito já previa: aquele transatlântico não transportava apenas passageiros. Transportava aqueles que tentavam fugir antes que o mundo desabasse.
Enquanto isso, a travessia pelo labirinto de ferro do transatlântico parecia interminável. Armin cortou metade da extensão da embarcação, os passos apressados ecoando contra os diferentes assoalhos e carpetes que dividiam os mundos dentro do navio.
(...)
No salão de leitura, as lâmpadas de iluminação quente projetavam sombras longas sobre os painéis de madeira de nogueira entalhada, onde passageiros reclinavam em poltronas de couro profundo, ocultos atrás de jornais dobrados e volumes encadernados. Armin observou o recinto, o peito subindo e descendo num ritmo desordenado.
Dali, seguiu para a biblioteca. As estantes altas de mogno pareciam engolir o som, mas a figura esbelta e o silêncio característico que ele procurava não estavam entre as mesas de mogno polido. A necessidade de ar o empurrou para o convés superior.
Ao cruzar as pesadas portas de carvalho, o ar congelante o atingiu como um golpe físico, trazendo consigo a fuligem fina das chaminés gigantescas e a névoa salgada que batia na madeira do deque. Passageiros envolvidos em casacos pesados e mantas de lã caminhavam em duplas, os hálitos condensando-se em nuvens brancas antes de serem dissolvidos pela ventania.
A cada poucos metros, a ilusão o enganava. O contorno de um coque loiro preso sob um chapéu escuro, a inclinação rígida de um par de ombros junto à amurada.
O coração de Armin dava um salto violento contra as costelas, o sangue gelando nas têmporas, apenas para despencar no instante em que a mulher se virou, revelando um rosto estranho, um olhar curioso ou um sorriso cortês direcionado ao jovem de olhos arregalados.
Não era ela. Nunca era ela.
Ele desceu as escadarias ornamentadas em direção aos salões do restaurante, onde o tilintar frenético de talheres de prata contra a porcelana fina e o burburinho de dezenas de conversas sobrepostas criavam um ruído ensurdecedor. Garçons de luvas brancas equilibravam bandejas pesadas entre as mesas postas, enquanto o cheiro de assados e temperos encorpados impregnava o ar aquecido pelos aquecedores a vapor.
Armin desfilou entre as mesas como um fantasma deslocado, recebendo olhares desconfiados dos garçons por sua presença inquieta.
Nada. Nem um sinal da silhueta esguia de Annie.
Enquanto seus sapatos marchavam sem rumo pelos corredores de teto baixo da classe intermediária, a mão direita de Armin permanecia afundada no bolso do casaco. Seus dedos, úmidos de suor frio, giravam e curvavam as bordas espirais da pequena concha.
Só que, pela primeira vez na vida, o amuleto falhou.
A superfície da concha parecia áspera, quente, quase urticante sob a ponta de seus polegares. O tique-taque mental não diminuía de ritmo; pelo contrário, a cada curva que fazia pelos corredores estreitos, a sensação de urgência se transformava em uma dor física no centro do peito.
A madeira rangente do RMS Olympic, o zumbido distante e grave das turbinas nos porões e o cheiro inevitável do oceano pareciam conspirar para sufocá-lo, transformando a busca por uma passageira em uma corrida desesperada contra um invisível relógio de areia.
O vento do Atlântico atingia o convés aberto com fúria constante, uivando entre os cabos de aço e fazendo as grandes pontes de madeira rangerem suavemente. Quando Armin finalmente a avistou, parada junto à amurada de ferro, um peso esmagador pareceu se dissipar de seu peito, apenas para dar lugar a um tipo diferente de tensão, mais denso e silencioso.
Ele não gritou seu nome. Não apressou o passo para abordá-la de forma brusca. Em vez disso, reduziu a marcha até emparelhar ao lado dela.
Annie não se virou quando percebeu a aproximação, mas a linha rígida de seus ombros enrijeceu imperceptivelmente por baixo do tecido do casaco.
Eles começaram a andar.
Não havia pressa, nem destino traçado na rota sobre o deque polido. Caminhavam paralelos, separados por exatos um metro de distância.
O vento forte puxava e fazia balançar as abas do casaco de Armin, projetando o pano claro para trás como uma asa solta. Ao seu lado, a mão de Annie subiu em um movimento rápido e gracioso para segurar a copa de seu chapéu escuro, impedindo que a ventania marítima o arrancasse de sua cabeça.
Nenhum dos dois pronunciava uma única palavra.
O único som que preenchia o espaço entre eles era o barulho da máquina: o choque rítmico do casco cortando as ondas escuras, a névoa salgada borrifando no ar e o sibilo constante da brisa gelada. As sombras dos dois se estendiam pelo chão de madeira, lado a lado, dançando no ritmo lento de seus passos.
A cada metro percorrido, o ar parecia carregar uma eletricidade quase insustentável. Armin mantinha os olhos fixos na linha do horizonte, sentindo o calor discreto da presença dela a uma distância de um braço.
Passaram-se quase dois longos minutos de caminhada mútua.
Finalmente, sem desacelerar os passos, o loiro quebrou a barreira do silêncio. Sua voz saiu baixa, quase engolida pelo barulho das ondas, mas carregada de uma observação atenta e sem julgamentos:
— Você sempre foge quando fica assustada?
Annie não virou o rosto.
Seus olhos azuis e frios permaneceram cravados na imensidão cinzenta e sem fim do Atlântico. Por um segundo, parecia que ela ignoraria a pergunta, então, o canto de seus lábios se curvou para cima de forma quase imperceptível, um pequeno sorriso defensivo que não chegou a alcançar seus olhos.
— Só quando tenho medo de ficar.
Os passos de ambos desaceleraram gradualmente até pararem junto à amurada. O vento voltou a soprar com fúria, levantando pequenas partículas de água salgada que pousaram suavemente como orvalho sobre as mangas do casaco de Armin.
Nenhum dos dois falou.
Ao longe, uma gaivota solitária cruzou o céu nublado em um rasante gracioso antes de desaparecer atrás da fumaça escura que saía das chaminés gigantescas do RMS Olympic.
A loira apoiou os cotovelos na madeira da amurada, inclinando o peso do corpo para a frente. Pela primeira vez desde o dia anterior, os músculos de suas costas relaxaram e sua respiração desacelerou, encontrando um ritmo calmo. Estar ao lado dele ainda era estranho, uma presença que desestabilizava suas certezas, mas já não era insuportável.
Enquanto Armin mantinha o olhar fixo na imensidão, Annie permaneceu em silêncio. Seus olhos percorreram lentamente os contornos do rosto dele: a curva tímida do sorriso que teimava em aparecer nos cantos da boca, o rubor discreto que subia pelas bochechas devido ao frio e a maneira quase infantil como ele evitava sustentar o olhar por muito tempo quando percebia que estava sendo observado.
Havia algo naquela sinceridade desajeitada que a incomodava. Não porque fosse falsa, mas porque parecia familiar demais.
Apoiado ao lado dela, Armin enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um pequeno pedaço de pão bengala com gergelim por cima que havia guardado do café da manhã. Ele o ergueu cuidadosamente entre os dedos, estendendo o braço para fora da amurada na intenção de chamar a atenção da gaivota que sobrevoava o convés.
A ave desceu num rasante veloz e preciso. Mas, em vez de pegar apenas o farelo que Armin oferecia, cravou o bico no pedaço inteiro, arrancando-o de sua mão com uma voracidade que fez o loiro dar um salto para trás, soltando um pequeno grito de surpresa.
Armin piscou várias vezes, encarando a própria mão agora vazia. Soltou um suspiro calmo, balançando a cabeça devagar enquanto um sorriso sereno se desenhava em seus lábios.
— Acho que ela precisava mais do que eu — comentou baixo.
Um riso escapou da garganta de Annie.
Armin engoliu em seco.
Ele virou o rosto para encará-la, o peito paralisado. Aquele som...aquela risada solta e rara parecia profundamente familiar, um eco acolhedor vindo de um tempo distante, embora ele soubesse que nunca a tinha ouvido rir antes.
Subitamente consciente do olhar fixo dele, Annie colocou uma mecha atrás da orelha e tentou dar um passo para trás para disfarçar o embaraço. O movimento foi rápido demais; o salto do seu sapato preto de fivela delicada enganchou na saliência de uma das tábuas do assoalho do convés.Seu corpo pendeu de lado, perdendo o equilíbrio.
— Cuidado! — Armin reagiu por instinto. Suas mãos projetaram-se para a frente, segurando-a firme pelos antebraços antes que ela atingisse o chão.
A força do impacto fez com que o corpo dela se chocasse levemente contra o dele.
Por um instante, a distância entre eles foi dissipada: o cheiro de sal e do tecido úmido do casaco dele envolveu os sentidos de Annie, enquanto Armin podia sentir o calor vivo da respiração dela contra o seu pescoço.
Arregalaram os olhos pela surpresa. Quando o susto passou, Armin soltou uma risada baixa, e Annie não conseguiu conter a própria.
— Fazia tempo que eu não ria assim — desabafou ela, para logo em seguida pressionar a palma da mão contra a própria boca, os olhos arregalando-se em sobressalto, sua postura se enrijeceu imediatamente. O queixo ergueu-se, o olhar tornou-se frio e uma sombra de pura irritação cruzou suas feições.
Percebendo a retração imediata e para aliviar o peso da situação, Armin deu um passo para o lado e fez um gesto suave em direção à amurada.
— Mas afinal...você gosta do mar? — perguntou ele.
A boca de Annie abriu e fechou. Ela engoliu seco, sentindo o nó na garganta, e desviou os olhos para a imensidão escura lá embaixo. Respirou fundo antes de confirmar:
— Gosto porque ele nunca promete nada.
Um canto da boca do Arlert se ergueu, atento à frieza da resposta.
— Isso foi específico.
Ela deu de ombros, um movimento sutil sob o tecido do vestido, ajustando a posição dos cotovelos na madeira.
— Pessoas fazem promessas. O mar só existe.
Armin limpou a garganta suavemente, olhando para os próprios sapatos antes de revelar:
— Eu queria ser professor.
Annie virou a cabeça na direção dele, estudando cada detalhe de sua expressão.
— Achei que fosse dizer marinheiro.
Ele soltou um riso pequeno, baixo e tímido, as maçãs do rosto corando levemente.
— Tenho medo do mar.
— Mesmo assim embarcou — pontuou ela.
— Algumas coisas valem a pena ser enfrentadas. — Armin virou o rosto para encará-la diretamente, a intensidade azul dos seus olhos deixando a frase suspensa no ar.
Annie piscou, desestabilizada pela franqueza daquele olhar. Ela desviou o rosto, ajustando a barra do vestido.
— Posso fazer uma pergunta? — pediu ela, a voz quase sumindo na brisa.
Arlert assentiu em silêncio.
Os dedos compridos e pálidos começaram a tamborilar num ritmo incerto contra a madeira da amurada. O vento forte soprava contra a aba do seu chapéu, fazendo a fita escura balançar. Por três vezes ela abriu a boca para desistir, para selar os lábios e fingir que nada tinha acontecido.
Mas a dúvida que a corroía por dentro falava mais alto.
— Você também sente... saudade? — perguntou, a voz num fio.
Armin franziu a testa, genuinamente confuso pela escolha das palavras.
— De quê?
Annie abaixou os olhos, encarando as próprias mãos apoiadas na madeira.
— É isso — sussurrou ela, com uma melancolia que parecia carregar a profundidade do oceano. — Eu também não sei.
Caminharam mais alguns passos até um banco de madeira fixado ao deque, quase deserto.
Sentaram-se lado a lado. Em silêncio.
Armin curvou o corpo para a frente, desamarrou os cadarços dos sapatos de couro e os tirou, deixando-os no chão junto com as meias. Ele encolheu as pernas e as projetou para fora da borda inferior da estrutura, deixando os pés descalços balançando no ar, expostos à brisa marítima.
Annie virou a cabeça devagar, encarando a cena com a testa levemente franzida.
Percebendo o olhar fixo e intrigado dela sobre seus pés, Armin ficou visivelmente sem graça, o rubor subindo rapidamente pelas orelhas.
— O quê? — perguntou ele, a voz encabulada.
Leonhart manteve os olhos nele por mais um segundo antes de voltar a encarar o horizonte.
— Nada.
A ausência de palavras voltou a ocupar o espaço entre os dois. Abaixo deles, a imensidão escura da água rugia contra o ferro. As ondas quebravam em espumas brancas que evaporavam na névoa.
O mar continuava lá, gigante e indiferente. E os dois apenas observavam.
Quando finalmente se levantaram para voltar aos corredores internos do navio, Annie fez uma pausa imperceptível. Sem pronunciar uma palavra e sem encontrar o olhar dele, sua mão estendeu-se num gesto rápido e discreto, e os dedos pálidos limparam um pequeno farelo de pão que ficara preso no tecido grosso da manga do sobretudo de Arlert.
E, pela primeira vez em muito tempo, Annie não teve vontade de afastar alguém.
Ela recolheu a mão em seguida, ajustou o próprio casaco e continuou andando pelo deque, deixando-o um passo para trás.
Fale com o autor