The Great War

3 Águas Profundas


Águas Profundas

O vento acompanha o balanço leve do navio no convés principal, onde a comitiva e os representantes diplomáticos aguardavam a atracagem. Historia Reiss mantinha a postura impecável na linha de frente, acompanhada por Reiner e pela guarda de honra.

À esquerda de Historia, destacando-se de longe, estava Hitch Dreyse. Ela ajeitava com dedos cuidadosos os cachos volumosos do cabelo castanho-claro que o vento teimava em desarrumar, garantindo que a gola de seu uniforme ficasse perfeitamente alinhada. Com o queixo empinado e uma postura estudada de pura autoconfiança, Hitch mantinha nos lábios aquele sorriso entreaberto e debochado que lhe era tão natural.

Ao avistar a silhueta de Annie se aproximar a passos lentos, trajando vestido amarelo pastel de corte reto, o sorriso de Hitch se alargou em triunfo. Ela deu dois passos à frente, cruzando os braços com ar de superioridade.

— Olha só quem resolveu aparecer vestida para um chá da tarde... — começou, a voz carregada de ironia provocativa enquanto passava os olhos pelo vestido de Annie. — Onde deixou o uniforme, Leonhart?

Annie nem sequer desacelerou o passo. Seus olhos azuis, frios e impassíveis, passaram por Hitch Dreyse como se ela fosse uma poeira incômoda flutuando no ar. Sem piscar ou mudar a expressão, desviou ligeiramente o trajeto, contornou a garota e parou diretamente diante de Historia Reiss, inclinando a cabeça num cumprimento formal e estritamente profissional.

— Historia, os relatórios do setor oeste estão prontos para revisão quando desejar.

Dreyse parou no meio do gesto, a boca levemente aberta, congelada no lugar. O sorriso convencido desmoronou instantaneamente numa careta.

— Ela... ela me ignorou?! — murmurou para si mesma, pisando fundo na madeira do chão enquanto o rosto queimando de raiva acompanhava a loira. — Ei! Eu estou falando com você, sua pálida insuportável!

Annie continuou de costas, ouvindo a resposta tranquila de Historia Reiss sobre os documentos.

Hitch bufou, fazendo as mechas de cabelo na testa balançarem. Ela cruzou os braços com tanta força que os botões do uniforme estalaram, e se virou abruptamente para o homem mais próximo em busca de qualquer gota de solidariedade:

— Você viu isso, Reiner?! Que tipo de pessoa passa direto por alguém sem dar um pingo de educação?!

O loiro soltou um suspiro pesado, ajeitando a postura e dando um tapinha de consolo na própria testa ao ver o espetáculo.

— É o jeito dela, Hitch... Sempre foi assim, desde a época da Academia Militar — respondeu ele com a voz cansada de quem já conhecia a peça há anos. — Você deveria saber disso.

— Eu vou dar uns tabefes nela isso sim — esbravejou entre dentes, os punhos fechados ao lado do corpo enquanto via Annie se despedir com um aceno curto de Historia Reiss e caminhar a passos calmos em direção às portas internas do navio.

(...)

A ponte de comando do RMS Olympic, restrita aos oficiais da marinha, exalava o cheiro de tabaco inglês.

Erwin Smith, o Almirante responsável pela segurança estratégica da comitiva, mantinha as duas mãos espalmadas sobre a mesa de navegação. Seus olhos azuis analisavam os relatórios meteorológicos e os mapas de correntes marítimas com uma calma calculada.

— A pressão barométrica está caindo mais rápido do que o previsto para esta rota — apontou Hange Zoe, a chefe dos maquinários, debruçando-se sobre a mesa. Seus óculos refletiam a luz fraca do ambiente e seus dedos gesticulavam com uma energia quase obsessiva enquanto ela batia no papel. — Além disso, os relatórios de rádio apontam anomalias magnéticas estranhas nesta latitude. É fascinante! É como se as bússolas estivessem tentando apontar para algo que não está no mapa.

— Mantenha o tom de voz baixo, Quatro Olhos — murmurou o Capitão Ackerman. Ele segurava uma xícara de chá pela borda superior com as pontas dos dedos, os olhos fixos na névoa densa lá fora. — Suas teorias não vão limpar o convés se essa banheira de luxo colidir com alguma coisa. O clima na primeira classe está estranho. A jovem Historia Reiss mal sai do camarote, e o capitão Braun parece uma estátua de gesso vigiando os salões. Todos parecem estar esperando um estopim.

Erwin ergueu o rosto, a expressão imutável.

— Não estamos aqui para especular sobre o comportamento dos passageiros, Levi. Nosso dever é garantir que este navio chegue ao destino. Mantenham os postos em alerta duplo.

(...)

Dois conveses abaixo, o silêncio era absoluto na biblioteca da classe intermediária. Armin Arlert estava sentado em uma mesa isolada ao fundo, iluminada apenas por uma luminária de mesa de luz amarelada.

Ele tentava, sem sucesso, traçar linhas de cartografia em seu caderno de anotações, mas seus dedos falharam.

O som distante das ondas contra o casco chegava abafado pelas paredes grossas do navio. Armin percebeu que, pela primeira vez em horas, estava ouvindo o oceano ao invés dos próprios pensamentos.

Naquela noite, estava lendo um artigo sobre a reação de fusão nuclear, criado pelo químico Ernest Rutherford. Ao lado do papel, a pequena concha esbranquiçada descansava ao seu lado.

Cansado, ele resolveu voltar às pesquisas sobre reencarnação; leu Léon Denis e Allan Kardec. Estava em um estado de quase delírio, depois, ele espalhou dezenas de livros de história universal, enciclopédias geográficas e atlas náuticos. Seus dedos folheavam as páginas de forma obsessiva, procurando por respostas.

— Isso é impossível… — Fechou um dos livros com força e passou a mão pelo rosto já irritado.

‘’Não é possível que aquilo seja real…’’

Porque aceitar aquilo significava admitir algo que sua razão rejeitava: que suas lembranças não pertenciam apenas a ele.

Um som quase imperceptível de passos na madeira o fez erguer os olhos.

Annie Leonhart surgiu da penumbra entre os corredores de livros. Ela parou a dois metros da mesa, mantendo as mãos escondidas nos bolsos do vestido. Hesitou por um instante, o olhar vacilando entre Armin e o chão de madeira, antes de dar alguns passos lentos e se apoiar contra uma das estantes.

O silêncio que se instalou entre eles não era desconfortável, mas carregava o peso das perguntas que ansiavam por respostas.

Então, Annie resolveu quebrar o silêncio:

— Você não deveria estar aqui — disse, com a voz baixa, quase um sutil sussurro defensivo para mascarar a própria vulnerabilidade. — Este deque é restrito.

— Eu precisava de um lugar silencioso — respondeu Armin, fechando o caderno devagar. Seus olhos azuis fixaram-se nos dela. — E acho que você também estava procurando um.

A loira desviou o olhar para a concha sobre a mesa. Ela deu um passo hesitante à frente, aproximando-se da borda da cadeira dele. Apertou os dedos contra o tecido da própria saia. Era uma reação rara demonstrar hesitação.

Armin percebeu, por ser bom em ler pessoas.

— O que aconteceu naquela noite no convés... o que foi aquilo? — ela perguntou, a rigidez na postura vacilando por um instante, passando a mão na testa. — Aquelas vozes na minha cabeça. Você me olhou... “Eu pareço uma pessoa tão boa assim para você, Armin?” — ela soltou a frase, de repente, as palavras escapando de sua boca antes que pudesse processá-las, o cenho franzido em pura confusão. — Por que eu diria isso?

Arlert sentiu o coração falhar uma batida ao ouvir o próprio nome sair da boca dela, embora nenhum deles tivesse se apresentado oficialmente. Ele se levantou devagar, diminuindo o espaço que os separava. Ele deu mais um passo, ficando tão perto que podia sentir o perfume sutil dela. O homem estendeu a mão, deixando seus dedos flutuarem milímetros aos dela.

— Desde o dia que eu vi você naquele salão...— o loiro desviou o olhar por um instante, procurando uma explicação lógica que não existia. — Eu tentei pensar em qualquer outra possibilidade. Que era uma coincidência, e minha mente estava procurando padrões onde não existiam.

Ele respirou fundo.

— Mas eu não senti curiosidade. — Seus olhos voltaram para os dela. — Eu senti sua falta.

— Você nem me conhece. — Ela engoliu em seco, lentamente, permitiu que sua mão saísse do bolso.

— Talvez não conheça a pessoa que você é agora. — Armin aproximou a mão, mas não tocou nela. — Mas existe alguma parte de mim que reconhece você.

Annie encarou a mão dele por alguns segundos.

Durante anos, ela havia aprendido a desconfiar de qualquer gesto de aproximação. Mas Armin não parecia esperar nada. Ele apenas estava ali.

Ela observou a mão dele suspensa entre os dois. Não havia insistência naquele gesto, apenas uma pergunta silenciosa.

Por um instante, a vontade de recuar surgiu como um reflexo antigo. Era mais fácil manter distância. Era mais seguro não permitir que ninguém enxergasse as partes dela que nem ela própria compreendia. Mas então veio aquela sensação, a mesma que sentira no convés. Como se uma parte esquecida de si reconhecesse aquele momento antes mesmo de sua mente conseguir aceitar.

— E se você estiver procurando por outra pessoa? — ela perguntou em voz baixa.

Armin franziu levemente o cenho.

— Outra pessoa?

Leonhart respirou fundo, lutando contra a própria dificuldade de colocar sentimentos em palavras.

— A outra Annie.

O silêncio entre eles pareceu aumentar.

— A garota que você lembra. A pessoa que existiu antes. — Olhos dela permaneceram baixos. — E se eu não for ela?

Armin demorou alguns segundos para responder. Não porque não soubesse o que dizer, mas porque queria ter certeza de que suas palavras pertenciam àquele momento, e não apenas às memórias que carregava.

— Eu não conheço aquela Annie.

Ela ergueu os olhos lentamente.

— Eu conheço você.

Ao ouvir a confissão direta, Annie travou. O rubor em suas bochechas intensificou-se visivelmente e seus olhos se arregalaram em puro espanto. Devagar, ela aproximou os dedos dos dele. Desta vez, o toque não foi um choque agressivo, mas um encaixe perfeito.

Armin segurou a mão dela com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse fazê-la desaparecer. Naturalmente a envolveu em um abraço, sentindo a tensão abandonar lentamente o corpo dela.

O rosto de Annie ficou apoiado contra o peito dele, ouvindo o ritmo constante do coração que, de alguma forma impossível, parecia familiar.

Contudo, conforme a intimidade se aprofundava e o calor do peito dele encontrava o dela, novos fragmentos de memórias começaram a vazar pelo toque: eles não viram o navio; viram um subsolo escuro e a silhueta de Armin sentado no chão com a mesma concha nas mãos, conversando com uma colossal parede de cristal onde ela repousava congelada no tempo.

Depois, as memórias foram para um navio, onde eles estavam sentados no deque. Armin parecia ferido e Annie, visivelmente cansada.

“Eu ainda não tive a chance de te agradecer. Obrigado por ter falado comigo todos esses anos. Eu estava tão solitária que sentia que ia enlouquecer. As únicas coisas pelas quais eu ansiava eram as conversas com você”, ela confessou, a voz mansa, mas carregada de uma confusão genuína que a fazia franzir o cenho. Ela ergueu os olhos para encará-lo diretamente. “Mas por quê? Por que você continuou vindo falar com alguém que estava congelado, que nem sequer conseguia te responder uma única palavra? Deveria haver muitas outras garotas... pessoas muito mais alegres e divertidas com quem você preferiria passar o seu tempo.”

“Não, você está errada”, a versão mais jovem de Armin respondera na visão, deixando a guarda cair por completo. “Eu senti a sua falta, Annie.”

No presente, os dedos dela apertaram levemente o tecido do casaco de Armin.

O som distante do oceano contra o casco do navio.

Annie abriu os olhos devagar.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Então ela murmurou:

— Eu realmente era assim?

Armin sorriu de leve.

— Sim.

Ela ficou em silêncio.

— E você ainda falava comigo?

Ele olhou para a concha sobre a mesa e depois voltou os olhos para ela.

— Falaria de novo.

Dessa vez, Annie não respondeu, mas também não se afastou.

Do lado de fora da biblioteca, uma sombra parou entre as estantes próximas à entrada. Mikasa havia seguido os passos de Armin pelo corredor silencioso. Ela não chamou seu nome, apenas observou pela fresta da porta entreaberta, viu os dois próximos à mesa.

Armin estava diferente, não era algo que pudesse ser explicado facilmente.

A postura ainda era a mesma. Os mesmos ombros levemente inclinados quando pensava demais. O mesmo olhar atento, como se estivesse tentando compreender algo que ninguém mais conseguia ver.

Mas havia algo ausente: a tensão.

Mikasa lembrava de como ele segurava aquela pequena concha de um lado para o outro. Agora, a concha estava esquecida sobre a mesa.

Os olhos da Ackerman moveram-se para Annie, mas desviou o olhar o suficiente para perceber que Jaeger havia chegado atrás dela.

— Mikasa. — Virou o rosto na direção do amigo.

— Você também resolveu desaparecer? Estamos tentando descobrir o que está acontecendo com esse navio — Eren falou impaciente.

Ela olhou novamente para dentro da biblioteca. Armin havia dito alguma coisa que ela não conseguiu ouvir, mas viu Annie responder com leve sorriso no rosto.

Quando olhou novamente, a expressão de Annie já estava neutra.

— Mikasa? — O moreno a chamou outra vez.

Ela voltou-se para ele.

— Vamos.

Eren começou a andar pelo corredor, ainda reclamando sobre os marinheiros e a falta de informações. Mikasa o acompanhou em silêncio.

O som abrupto da porta da biblioteca se abrindo estraçalhou a bolha em que os dois estavam imersos. Eles se afastaram rapidamente, os peitos arfando.

Bertholdt Hoover cruzou o batente da porta. Ele vestia um terno cinza alinhado. E manteve os olhos fixos em Leonhart, ignorando a presença de Arlert em um primeiro momento.

— Annie... — a voz de Bertholdt soou mansa, mas carregada de uma urgência contida. — A senhorita Historia e Reiner estão te procurando no convés superior. É melhor se apressar.

A loira piscou, recuperando a postura fria e mecânica quase que instantaneamente. Ela olhou para Armin uma última vez, um olhar confuso, dividido, antes de caminhar em direção à saída.

Antes de seguir a loira, Bertholdt parou no meio do corredor.

Ele não parecia ameaçador. Por um instante, seus olhos encontraram os do rapaz a frente. E naquele contato, algo dentro de Armin se partiu.

Ele viu um campo destruído. O que despertou a sensação de impotência de alguém que sabia que não poderia escapar. E então compreendeu que aquele homem diante dele carregava uma memória que também era uma ferida.

Quando a visão terminou, o ar sumiu por completo dos pulmões de Armin. Ele apoiou as duas mãos trêmulas no chão da biblioteca, as lágrimas descendo descontroladamente e molhando o tapete enquanto o eco dos passos de Bertholdt e Annie sumia no corredor.

— Eu sinto muito por tudo que você carregou... por tudo que eu não consegui entender naquela época. — A voz de Armin saiu quase inaudível.

(...)

Annie caminhava a passos rápidos pelo corredor atapetado do deque inferior, o peito ainda subindo e descendo em um ritmo descompassado. O ar rarefeito daquele subsolo cheirava a cera de madeira e perfume barato de passageiros. Mas, em sua pele, o único toque que parecia real eram os dedos de Armin. Uma queimação elétrica e suave persistia na palma de sua mão direita. As imagens fragmentadas, os sons abafados de um cristal inexistente e a sensação absurda e assustadora de reconhecer um desconhecido... tudo se misturava em sua mente.

Ela fechou os olhos por um milésimo de segundo, apoiando os nós dos dedos contra a parede de mogno polido para recuperar o equilíbrio. Precisava apenas chegar ao camarote. Trancar a porta. Ficar sozinha no escuro.

Foi então que um grito agudo ecoou pelo corredor.

— Socorro! Alguém, por favor!

Annie reconheceu a voz instantaneamente: o tom de pânico, de Historia Reiss.

Sem calcular a decisão, o instinto de combate respondeu antes da razão. A Leonhart girou sobre os calcanhares e avançou em direção às escadas de serviço, subindo os degraus de dois em dois, as solas de seus sapatos de couro estalando com violência contra a madeira.

Ao empurrar a pesada porta de acesso ao convés de navegação, a brisa do Atlântico a atingiu como um soco.

O ar da noite era cortante, saturado com o cheiro de maresia e fuligem do carvão queimado nas grandes chaminés do Olympic.

O oceano abaixo estava agitado formando espuma branca que rugia contra o casco de aço.

Perto da amurada, Historia Reiss estava com o rosto pálido e os olhos azuis arregalados de pavor, cravava os saltos nas tábuas molhadas do convés, segurando com as duas mãos a barra da jaqueta de Hitch Dreyse.

— Hitch! Volta agora! Você vai cair!

A garota estava praticamente dobrada sobre a balaustrada de ferro, mais da metade do corpo projetada sobre o mar. Uma das pernas balançava no ar. Com o braço esquerdo, ela se agarrava desesperadamente ao trilho superior; com o direito, esticava-se até o limite das articulações, tentando alcançar algo engatado entre as roldanas externas de içamento de carga.

— Eu quase consigo! Só mais um pouquinho! — gritava, a voz embargada pelo vento, os cachos do cabelo castanho completamente desgrenhados e colados ao rosto pelo suor e pelos respingos do mar.

— Você não sabe nem nadar! — esbravejou Historia, as mãos escorregando pela lã vermelha da jaqueta enquanto o balanço de uma onda fazia o navio inclinar levemente. — Pelo amor de Deus!

Hitch esticou os dedos até o limite, a sola da bota derrapando na borda metálica.

— É o medalhão do Marlo! — O grito saiu como um ganido doloroso de sua garganta, os olhos estalados de desespero fixos lá embaixo. — Se ele cair... eu nunca mais vou encontrar!

A Leonhart acompanhou a linha do olhar dela. Pendurada em um elo de ferro retorcido junto ao casco, uma pequena corrente de prata balançava perigosamente a poucos metros do turbilhão de água salgada. O metal refletia debilmente a iluminação amarelada dos lampiões do convés.

Aquele metal gasto e sem valor comercial era a única prova palpável de que Marlo existiu.

A mente de Annie processou os movimentos em uma fração de segundo. E no instante seguinte, o som metálico e seco ecoou no ar: o estalo da fivela do cinto de Hitch cedendo.

— Ah! — Historia soltou um grito de horror quando o tecido escapou de suas mãos.

O corpo de Dreyse deslizou para fora da amurada.

Annie reagiu por puro reflexo atlético. Cruzou a distância entre elas em dois passos largos e disparou o braço direito através do espaço vazio. Seus dedos pálidos e firmes fecharam-se ao redor do pulso de Hitch, travando a queda da garota no exato milésimo em que o peito dela raspou a borda externa. O impacto do tranco reverberou pelo ombro de Annie, fazendo seus próprios pés deslizarem alguns centímetros sobre o convés ensopado.

Sem soltar a garota, a loira inclinou o torso superior inteiramente sobre o abismo.

O ar gélido do oceano subiu em uma rajada violenta, trazendo respingos salgados que queimaram seus olhos. Por um breve segundo, suspenso no ar, o medalhão oscilou entre a estrutura do navio e a escuridão do mar.

Annie esticou a mão esquerda. A ponta dos seus dedos roçou o metal gelado. Ela fechou a palma ao redor da corrente. Porém, a física do movimento cobrou seu preço. Ao usar toda a força do tronco para alavancar e arremessar o corpo de Hitch de volta para a segurança do convés, a distribuição de peso mudou drasticamente.

A massa de Dreyse caiu sobre as tábuas de madeira, mas o impulso de reação, somado a uma vaga pesada que atingiu a proa do navio, projetou o centro de gravidade de Leonhart além do limite da amurada.

— Annie! — o grito de Historia ecoou pelo convés.

A gravidade venceu. A silhueta do vestido amarelo pastel cortou o ar escuro da noite. O impacto arrancou todo o ar de seus pulmões em uma única explosão de bolhas.

A temperatura do mar atravessou sua pele até os ossos. Imediatamente, o peso do vestido pesado de corte reto, ensopado de sal, transformou-se em uma âncora, puxando-a para a penumbra sufocante das profundezas.

Apitos de emergência soaram agudos e estridentes. Passos pesados de botas militares retumbaram pelas tábuas. Passageiros assustados começaram a se aglomerar nas saídas dos corredores, com rostos brancos de espanto sob a luz dos lampiões.

— Uma passageira caiu no setor oeste!

Bertholdt Hoover foi um dos primeiros a cruzar as portas do convés de navegação. Ao enxergar Reiss de joelhos junto à borda e a mancha amarela desbotada lutando contra as ondas lá embaixo, a cor sumiu completamente de seu rosto. Seu coração falhou uma batida.

— Annie! — o urro de desespero rasgou sua garganta.

Pieck Finger, movendo-se com uma agilidade calculada, já estava junto à parede estrutural. Com um golpe rápido, arrancou a pesada boia salva-vidas e a arremessou por cima da balaustrada na direção da mancha na água.

— Mais para a esquerda! O vento está arrastando ela! — gritou Pieck, a voz mantendo a calma apesar da tensão evidente nos olhos.

Dois marinheiros desenrolavam vertiginosamente uma grossa corda embebida em piche, enquanto Bertholdt agarrava a extremidade reforçada com as duas mãos, os nós dos dedos ficando brancos pela pressão.

— Annie! Segure! — ele berrou, lançando a trança de corda com toda a força do torso.

A boia bateu na superfície da água com um estrondo, espalhando espuma a dois metros da loira.

Sob a água, o frio já começava a entorpecer os músculos de Annie. Suas pernas pareciam de chumbo, travadas pelo tecido pesado encharcado. Mordendo o lábio inferior até sentir o gosto metálico de seu próprio sangue, bateu os braços com fúria contra a correnteza. Seus dedos congelados tatearam a superfície salgada até engancharem no aro rígido da boia. Ela passou o braço esquerdo pelo centro e travou a mão direita na corda rugosa.

— Puxem! Agora! — ordenou Pieck.

Quatro homens, liderados pela força desesperada de Hoover, fincaram os pés no convés e começaram a recolher a corda. Centímetro por centímetro.

O frito do cânhamo queimava as palmas das mãos. O corpo de Annie cortava as ondas escuras, sendo içado pela lateral do casco de aço até alcançar novamente a altura da balaustrada. Braços fortes a agarraram pelos braços e a puxaram para o lado de dentro.

A loira caiu pesadamente de joelhos sobre as tábuas molhadas do tombadilho.

O ar frio voltou a entrar rasgando em seus pulmões. Ela tossiu violentamente, expelindo água salgada contra a madeira, o peito arfando em espasmos involuntários. O vestido amarelo colara-se completamente ao seu corpo, pingando poças escuras sem parar. A franja loira, ensopada e pesada, cobria-lhe metade do rosto, escondendo sua expressão.

Bertholdt ajoelhou-se imediatamente no chão molhado ao lado dela.

— Annie! — a voz dele tremia sem controle ao tocar no ombro direito da Leonhart. — Você bateu a cabeça?! Consegue me ouvir?!

Ela inspirou fundo, o ar queimando a garganta, antes de soltar a resposta em um fôlego:

— Não.

— Está machucada? Quebrou algum osso?

— Não.

— Você consegue ficar de pé?

Annie não respondeu com palavras. Apenas assentiu uma vez. Apoiou a palma da mão molhada sobre o convés rígido e, fazendo uma força sobre-humana contra o tremor de hipotermia que ameaçava dominar seu corpo, colocou-se de pé sozinha. A ereta postura de sempre voltou, embora as gotas de água do mar descessem por seu queixo e pelo nariz.

Do outro lado da amurada, Hitch Dreyse permanecia ajoelhada na madeira. Estava imóvel, encolhida, tremendo da cabeça aos pés.

Entre suas mãos entrelaçadas sobre o peito, a corrente do medalhão de prata sobressaía. Seus olhos arregalados e úmidos alternavam-se, em absoluto choque, entre o objeto de prata e a figura ensopada de Annie.

A loira deu dois passos pesados na direção da garota, o som de seus sapatos encharcados ecoando sob a luz fraca dos lampiões. Ela parou bem à frente de Hitch. A mão de Annie, ainda trêmula pelo choque térmico, abriu-se, revelando a fivela do medalhão que ela segurava com tanto atrito.

— Acho que isso é seu — disse.

Hitch demorou longos segundos para reagir. Seus dedos tremeram ao alcançar o metal na mão da Leonhart, como se o pequeno objeto subitamente pesasse uma tonelada. Ela o apertou contra o centro do peito, a garganta dando um nó doloroso.

— Eu... — a voz de Hitch falhou, rouca pelo vento e pelo choro contido.

O vento forte do oceano levou parte de suas palavras, mas o silêncio que se seguiu entre as duas foi absoluto.

Annie observou o medalhão preso na mão Dreyse por uma fração de segundo. O olhar azul manteve-se imperscrutável, frio como o gelo do oceano de onde acabou de sair.

Depois, subiu os olhos para o rosto manchado da jovem à frente.

— Da próxima vez, cuide melhor das suas coisas — disse com sinceridade.

Ela deu meia-volta, inclinando o corpo para encarar o corredor interno.

— Annie — chamou Hitch novamente.

A loira parou no meio do passo, mas não olhou para trás. As gotas de água marinha continuavam a pingar da barra de seu vestido, acumulando-se no chão.

— Obrigada — murmurou Hitch, desta vez num sussurro verdadeiro, despido de qualquer orgulho.

Annie permaneceu imóvel por dois segundos longos. Não disse nada, mas também não acelerou o passo. Retomou a caminhada em direção às escadas dos camarotes, deixando para trás um rastro de pegadas úmidas e poças de água salgada pelo convés.

Historia Reiss permaneceu parada perto da porta, observando a silhueta amarela e encharcada da Leonhart desaparecer na penumbra do corredor. Só então a jovem virou-se devagar para olhar para Dreyse.

A jovem continuava no chão, abraçada ao medalhão de Marlo com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos, quase sem circulação.

— Você está bem, Hitch? — perguntou, aproximando-se com cuidado e pousando uma mão suave sobre o ombro da amiga.

Hitch soltou um fôlego longo e trêmulo, o olhar ainda fixo no rastro de água salgada deixado no chão por onde Annie caminhara.

— Não... — respondeu Hitch, soltando um riso fraco, incrédulo e entrecortado, onde a culpa se misturava à mais pura perplexidade. — Como é que eu vou continuar brigando com essa mulher agora?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.