The Glue
2 Capítulo 2 – Welcome to the Glade, Frankie.
Notas iniciais

Capítulo 2 – Welcome to the Glade, Frankie.
A garota, em seus três anos de idade, tremia em seu corpo pequeno. Olhava em volta assustada; para a sala branca onde estava, para os equipamentos tecnológicos que a cercavam, para as outras crianças à sua direita e à sua esquerda – tão assustadas quanto ela –, e para as pessoas de jaleco. Não bastasse ter sido arrancada dos braços da mãe, ainda era obrigada a servir de cobaia para um bando de cientistas que se empenhavam em descobrir uma cura para a doença do Fulgor – mesmo que ela não soubesse ainda o que aquilo queria dizer.
Uma mulher se destacou do grupo de cientistas dando um passo à frente. Era alta e loira, a expressão cansada deixando claro o trabalho árduo que vinha fazendo.
– De agora em diante, a vida de vocês não será mais a mesma. – disse ela, a voz firme e fria sendo propagada pelo cômodo. – Terão novos nomes e novos objetivos, tudo visando a busca pela cura.
Enquanto isso, um homem de jaleco passava pelas crianças, sussurrando algo a elas e depois anotando numa prancheta em mãos. Quando chegou em frente à garota, sentia o coração acelerado.
– Seu nome será Rosalind Franklin, em homenagem à biofísica crucial para o conhecimento do DNA. – anotou algo na prancheta logo depois e seguiu adiante, enquanto a garotinha continuava paralisada de terror.
Quando todos foram novamente nomeados, a mulher loira voltou a falar.
– Agora tudo vai mudar. – ela disse. – Mas lembrem-se sempre: o CRUEL é bom.
A garota segurou instintivamente a mão do garoto à sua direita. Quando se deu conta, ficou envergonhada e pensou em soltar, mas o garoto não permitiu. Olhou para ele – os cabelos loiros caindo na testa e os olhos castanhos a encarando – e lembrou do nome que foi sussurrado a ele e ela fora capaz de ouvir: Isaac Newton.
~*~
– Hey, Caçarola! – gritou Newt ao se aproximar do que, pela aparência e cheiro, presumi que fosse a cozinha deles.
Era pequena, mas parecia ter o necessário para fazer uma boa refeição. Um grande fogão, um micro-ondas, uma lava-louças, duas mesas. Parecia velha e gasta, mas limpa. Um garoto meio rechonchudo e com um avental de couro apareceu sorrindo.
– E aí, Newt! – cumprimentou o garoto. – Minho!
– Tem algum grude aí para a Novata? – perguntou Newt, indicando-me com a cabeça.
Eu corei e mordi meu lábio inferior.
– Ah, sim, a Fedelha encrenqueira! – exclamou Caçarola e, apesar da rudez das palavras, notei um sorriso simpático em seus lábios.
– Não sou encrenqueira. – resmunguei, franzindo o cenho.
– Ah, claro, porque você nem está com a mão no facão como se fosse arrancar o braço de quem quer que ousasse tocar em você! – comentou Minho sarcasticamente, com uma sobrancelha arqueada.
Abaixei meu olhar e percebi que ele tinha razão. Afastei minha mão rapidamente do cabo, como se tivesse me dado choque. Os garotos riram.
– Bem, eu só cozinho para esse bando de plongs, mas devo ter algo aqui para você, Fedelha. – disse Caçarola, afastando-se.
– O que é plong? – perguntei, confusa, para Newt e Minho.
Minho fez uma careta. – Acredite, não vai querer saber, Fedelha!
Revirei os olhos, enquanto Newt ria de mim.
– Aqui, Novata! – exclamou Caçarola, aproximando-se novamente, com um prato em mãos e um sorriso no rosto.
– Não me chame assim, eu tenho nome. – resmunguei, pegando o prato que me oferecia.
Minho e Caçarola arquearam uma sobrancelha, se me desafiassem a dizer meu nome.
– Frankie. – eu disse, e eles franziram o cenho. – Meu nome: Frankie.
Eles abriram um sorriso, todos eles, e Newt apoiou a mão em meu ombro, o que lançou correntes elétricas por todo o meu corpo.
– Bem-vinda à Clareira, Frankie.
~*~
– Por quê não disse antes que estava doendo? – perguntou Newt mais uma vez, com o cenho franzido e o brilho preocupado nos olhos castanhos.
Mordi o lábio quando o Socorrista que cuidava do meu braço puxou o curativo firmemente em meu antebraço.
– Porque não tinha importância. – respondi, desviando os olhos de seu olhar intenso. O Socorrista terminou seu trabalho e sorri levemente em agradecimento. – Obrigada... Jeff, não é? – arrisquei, e ganhei um sorriso em confirmação.
– Isso mesmo, Fedelha. – ele disse, e eu me segurei para não revirar os olhos, mas Newt não segurou a risada. – Não irá infeccionar nem nada, então não precisa se preocupar.
Sorri novamente, levantando-me da cadeira no meio da Sede. – Obrigada de novo, Jeff.
– De nada, Fedelha!
– Não vão parar nunca de me chamar assim? – resmunguei, enquanto saía da Sede com Newt ao meu lado.
A Sede nada mais era do que madeira. A porta era uma substituição louca e até criativa de uma lousa de madeira sombria e desgastada pelo sol. Escada torta, degraus e corrimões retorcidos em todas as direções, e as paredes eram cobertas por um papel escuro, mas já se desgastando em alguns pontos. Nada na Sede parecia convidativo – parecia mal-assombrado, se quer saber a verdade –, mas eu tinha de admitir que, apesar de tudo, aqueles garotos fizeram um bom trabalho.
– Talvez no mês que vem, quando um novo trolho azarado chegar pela Caixa. – Newt disse, apontando para o elevador de onde vim. Ou onde ele estaria se a Caixa não tivesse descido novamente. – Ou não... Você sempre será a primeira Fedelha aqui dentro, Frankie.
Por algum motivo, eu sorri.
– Gosto quando me chama de Frankie. – soltei, e senti minhas bochechas corando imediatamente.
– Mas prefiro te chamar de Fedelha. – ele disse, sorrindo marotamente.
Arregalei os olhos, boquiaberta.
– Ultraje! – exclamei, brincando, e dei-lhe um soco fraco no braço.
Newt riu, abraçando-me pelos ombros. Sorri melancolicamente, sentindo a familiaridade, a confiança e a segurança que ele me transmitia atingindo-me em cheio no peito.
– Por quê sinto que te conheço? – ele perguntou, parando de repente e colocando-se à minha frente.
Eu tinha a impressão de que meus olhos pareciam maiores do que realmente eram. Eu estava surpresa e assustada. Pensara que o sentimento de familiaridade havia vindo apenas de mim. Mas não! Newt estava ali, bem na minha frente, dizendo que também sentia que me conhecia.
Abri a boca ao menos duas vezes antes de lhe dar alguma resposta concreta.
– E se eu dissesse que sinto a mesma coisa? – comentei, sorrindo de lado e com a cabeça um pouco abaixada de vergonha.
Logo senti os dedos de Newt sob meu queixo, levantando meu rosto para que eu o olhasse nos olhos. Olhos castanhos tão profundos e intensos que eu me sentia impossibilitada de desviar meu olhar. Seu olhar prendia um o meu como ímã e, quando me dei conta, ele se aproximava lentamente de mim. Eu poderia ter fugido, mas algo que percebi quando seu nariz roçou o meu foi de que eu não queria fugir. Percebi que, desde o momento que colocara meus olhos em Newt ainda na Caixa, fugir jamais se tornaria uma opção para mim. Eu sorri ao sentir nossas respirações se fundindo e nossos lábios tiveram o primeiro contato, mesmo que apenas um roçar. Senti as mãos de Newt migrando para minha cintura e apertei a camisa por cima de seus ombros.
Ultrapassei o centímetro que nos separava no momento em que um estrondo alto se propagou pela Clareira, seguido pelo som áspero e arrastado. Afastei-me de Newt rapidamente, confusa e assustada, até que localizei a fonte do barulho. Notei que os muros se fechavam, realmente se fechavam. Estávamos próximos de uma das aberturas, que parecia ter uns seis metros de largura. No lado esquerdo, buracos profundos de vários centímetros de diâmetro o espaço daria quase 30 centímetros e eram esculpidas na pedra, começando no chão e continuava até em cima. No lado direito, barras de 30 centímetros de largura saíam da borda da parede, também de vários centímetros de diâmetro, no mesmo padrão dos buracos no outro lado.
E, naquele momento, elas fariam seu papel.
A enorme parede de pedra deslizava pela terra, espalhando faíscas e poeira, enquanto batiam pedra com pedra. A parede da direita chegava ao final de seu caminho, suas barras encontrando a sua marca e entrar sem impedimentos, o eco de uma explosão ecoava na clareira quando as quatro aberturas foram fechadas a noite.
– Newt. – resmunguei, puxando-lhe a manga da camisa. Ele ainda não olhava para mim, mantinha seu olhar fixo na abertura que acabara de se fechar, mas levou sua outra mão à minha, apertando-a levemente. – O que foi aquilo? – perguntei, receosa de que iria conseguir uma resposta ou não.
– Eram as Portas de fechando, como toda noite. – respondeu Newt, abaixando a cabeça ligeiramente antes de voltar a mim com um sorriso reconfortante que, mesmo assim, eu não sentia ser real. – Melhor irmos arranjar uma barraca para você. Deve estar cansada e é muito plong para assimilar.
Mesmo que eu não sentisse o cansaço me abatendo, eu sabia que, mais cedo ou mais, Newt estaria certo. Então apenas concordei em simplesmente irmos. Não demoramos a encontrar um garotinho baixo e rechonchudo, que parecia ser o mais novo de todos ali. Parecia brincalhão e isso me agradou nele quase imediatamente, como em Newt. Talvez o mais retardado, mas com certeza o mais inteligente. Os cachos caíam sobre seu rosto, e toda vez que tentava afastá-lo, eu insistia que estava fofo. E, inclusive, estava.
– Hey, Chuck! – exclamou Newt, sorrindo para o menor. – Pode conseguir um saco de dormir para a Frankie? – Chuck apenas ouviu e já saiu à procura de um.
Sorri novamente ao ouvir meu nome nos lábios de Newt.
– Aqui está, Newt. – respondeu o garoto, ofegante, Chuck. – Olá, Novata.
– Olá, Chuck. – eu disse, sorrindo amigavelmente. Eu sabia que teria que me acostumar a eles me chamando por nomes depreciativos. E eu começava a não me importar com isso.
– Onde quer dormir? – perguntou Newt.
– Pode me fazer companhia, não é como eu tivesse muitos amigos por aqui. – sugeriu Chuck, tristonho.
Olhei em volta, vendo que a maioria dos garotos escolhiam dormir numa relva próxima aos jardins. Mordi o lábio anterior, repassando minhas opções. Até que alguns garotos próximos acenaram pervertidamente e eu não tinha ideia de como aguentaria aquilo até durante a noite. Preferi recusar a oferta do Chuck.
– Longe, por favor. – pedi num sussurro, e Newt pareceu perceber o que eu sabia, e era apenas questão de tempo para que os outros garotos mexessem comigo. Garotos eram estranhos. – Mas prometo que depois dormirei com você. – garanti a Chuck logo antes de sairmos.
Newt foi andando comigo até a orla do bosque que tinha ali, e eu me abriguei na copa de uma árvore. Eu esperava que nada inusitado como uma chuva acontecesse.
– Não se preocupe, Frankie. – Newt disse, sorrindo levemente e com a mão em meu ombro. – Eu queria que você fosse para a Sede, mas lá é apenas para os Encarregados e não há espaço suficiente para todos. Mas tentarei conversar com Alby e ver se surge a oportunidade de você ir para lá.
Eu sorri em agradecimento, e ele estava prestes a virar para ir até a Sede quando eu lhe segurei o pulso. Newt me olha intrigado, e eu respirei fundo.
– Obrigada, Newt. – eu sussurrei, verdadeiramente agradecida.
Newt sorriu, aquele sorriso que me derretia e me fazia ter vontade de sorrir junto. Ele se aproximou de mim e depositou um beijo em minha bochecha, incrivelmente próximo à minha boca.
– De nada, Frankie.
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