The Glue

3 Capítulo 3 – Welcome to family, shorty.


Notas iniciais
E aí, o que estão achando? Bem, eu quero lembrar que é apenas uma short-fic simples e sem aquela emoção toda que as long fics exigem. Capítulos grandes, mas serão poucos. Eu quero só apresentar meu ponto de vista de como Newt ficou com a Frankie tanto antes da Clareira quanto depois. E eles não se lembram do passado, eu que estou apresentando pra vocês, por isso é em terceira pessoa. Espero MESMO que gostem, porque The Glue acabou virando meu xodozinho :3

Capítulo 3 – Welcome to family, shorty.

A garota andava de um lado ao outro, de um corredor ao outro. Ela não queria participar novamente daqueles desafios estúpidos. Estava exausta deles e, apesar de agora ela entender os objetivos da CRUEL depois de cinco anos ali, ela não concordava. Não era justo que agora dezenas e centenas de crianças tivessem de sofrer por um erro incorrigível do egoísmo do governo. Não era justo, ainda mais que ela conseguira acesso à informação confidencial de que eles seriam expostos ao vírus do Fulgor em algum momento da Fase 2 dos futuros experimentos. E ela conhecia alguém que não era Imune.

Então, sempre que podia, fugia de seus desafios com as outras garotas e ia sorrateiramente até a ala de dormitórios dos garotos. Procurou pela porta com a placa GA1-10, do quarto pertencente aos indivíduos do Grupo A, de 1 ao 10. Seu amigo não-Imune estaria ali, como sempre nesse horário em qualquer outro dia. Queria passar todo o tempo possível com ele.

Bateu à porta e esperou trinta segundos, como o combinado. Ouviu o trinco girando juntamente com a maçaneta e, segundos depois, a porta se abriu revelando um garoto, instantaneamente reconhecido pela garota. Moreno e os olhos puxados, Minho abraçou a garota e guiou-a para dentro depois de checar se algum agente da CRUEL a seguia.

– Não devia vir todos os dias, Frankie, é perigoso! – resmungou Minho, dizendo o que sempre diz à garota quando ela ia vê-los.

– Deixe de ser estraga-prazeres, garoto asiático. – disse uma voz atrás deles, com o forte sotaque britânico que sempre acalmava a garota.

– Newt! – exclamou a garota, com um sorriso de orelha a orelha para esconder as lágrimas que ameaçavam fluir.

– E aí, baixinha! – o garoto loiro de dez anos cumprimentou-a, mas não esperava que a garota se jogasse em seus braços magros, abraçando-o fortemente.

– Não vão nunca deixar de me chamar de garoto asiático? – reclamou Minho, mas ele ria.

A garota se afastou do loiro, rindo também.

– Admita que foi o melhor apelido que eu arranjei depois de “Newt”. – comentou ela.

Minho revirou os olhos. – Frankie é um apelido melhor!

– Mas esse fui eu que inventei! – reivindicou Newt, e a garota riu.

– Onde estão os outros garotos? – perguntou ela, olhando ao redor e vendo as camas desarrumadas e vazias.

Newt deu de ombros. – Foram comer.

– Bando de idiotas esfomeados. – resmungou Minho.

– Perfeito, tenho mais tempo com vocês. – disse a garota, sorrindo e jogando-se na cama que sabia ser de Minho.

Os dois garotos se jogaram ao seu lado, conversando e brincando. A garota sabia que momentos como esse não durariam para sempre. Então ela prometeu a si mesma que aproveitaria enquanto desse.

~*~

Abri os olhos um pouco sonolenta, apenas para descobrir que a Clareira não era apenas fruto da minha imaginação ou um pesadelo do qual bastava eu acordar para descobrir que nada era real. E agora, mais do que ontem, eu tive vontade de saber de onde eu vim. Será que eu acordava sozinha ou minha mãe me chamava? Ou eu tinha uma irmã e dividia o quarto com ela? E meu pai? Eu o encontrava sentado à mesa e lendo um jornal todas as vezes que eu descia para tomar café-da-manhã ou ele saía mais cedo para o trabalho para que pudesse voltar mais cedo e passar mais tempo comigo?

Soltei um suspiro, sentindo uma tristeza e melancolia me atingindo em cheio ao perceber que talvez eu nunca saiba a resposta para essas perguntas. Desvencilhei-me do saco de dormir, já sentindo os raios solares fracos atingindo minha pele, mesmo que eu não conseguisse ver o sol no céu acima da Clareira. Senti um gosto amargo na boca e meu estômago roncando. Eu sabia que Newt dormia com os Encarregados na Sede, talvez eu pudesse ir até lá e perguntar se poderia pegar alguma coisa na cozinha. Mas era bem possível que eu tivesse que esperar o café-da-manhã de Caçarola. Ajeitava meus cabelos com os dedos enquanto caminhava pela grama em direção à Sede, prometendo a mim mesma que também imploraria por uma pasta de dente.

Porém não cheguei à Sede.

Vi um movimento em frente a uma construção que eu não havia notado ainda. Há alguns metros ao Sul havia um edifício atarracado, aparentemente feito de blocos grosseiros de concreto, tendo apenas uma porta de aço como única entrada. E não parecia ter janelas. Na porta, uma grande maçaneta redonda que parecia a roda de um leme. Aquela porta parecia ser a entrada para um submarino ou um cofre – e eu não tinha ideia do porque essa comparação surgiu na minha mente. Na frente da construção, vi Minho e um garoto que, se não me engano, se chamava Ben conversando um pouco apressados. Ambos tinham uma mochila nos ombros e facas no cinto da calça.

Olhei em direção à Sede, perguntando-me se Newt já estaria acordado. Dei de ombros – poderia encontrá-lo depois –, ajeitei meu próprio facão no cinto e segui até Minho e Ben. A curiosidade falava mais alto que minha vontade de ver Newt.

– Bom dia, garotos. – eu cumprimentei timidamente, mas ainda sorria.

– Oi, Fedelha! – eles disseram animadamente, e eu revirei os olhos.

– Onde vão com essas mochilas? – perguntei, fazendo-me de inocente.

Eles se entreolharam antes de Minho me responder.

– Para lá. – disse simplesmente, apontando para o que Newt chamara de Portas, ainda fechadas, mas eu tinha a impressão de que poderiam se abrir a qualquer instante.

Franzi o cenho. – E por quê?

Ben mordeu o lábio inferior e Minho coçou a nuca, como se quisessem me contar, mas não sabiam como e nem se podiam.

– Não podemos falar muito a um Novato antes do Passeio. – disse Minho. – Mas todos aqui temos um trabalho. Alby vai te explicar isso direito, mas o nosso trabalho é ir lá.

Observei-o, procurando alguma coisa em sua expressão que indicava uma mentira, mas não achei nada. Então resolvi lhe dar um voto de confiança.

– Não vou perguntar muito, vou esperar esse tal de Passeio. – eu disse, sorrindo levemente.

– Bom isso. – disse Ben, sorrindo para mim.

Minho olhou no relógio digital que tinha em seu pulso, a animosidade o tomando por completo.

– Já vai dar a hora, não é? – perguntei, abrindo um sorriso triste.

– Já, as Portas já vão abrir. – respondeu Ben. – Os outros já estão prontos nas outras Portas.

Mordi o lábio inferior; a ideia surgindo repentinamente em minha cabeça.

– Eu acompanho vocês. – eu disse, e Minho arregalou os olhos, prestes a contestar. – Relaxa, só até as Portas.

Minho entortou a boca, mas por fim assentiu e nós três seguimos até a Porta Sul, entre a floresta e os cercados de animais. Os muros projetavam toda sua imensidão sobre nós e de repete senti uma sensação sufocante de claustrofobia. Esperava sinceramente que minha respiração irregular não estivesse tão aparente. Paramos em frente à Porta, e eu evitei ao máximo olhar para cima e me deparar com a altura impossível dos muros. Era assustador e intimidador. O mesmo ruído da noite anterior foi ouvido, o áspero e arrastado de rocha deslizando contra rocha. Faíscas saíam e poeira era levantadas, transformando aquilo num filme de terror. Resisti ao impulso de tapar meus ouvidos para impedir o barulho alto. E então, tão impossível e anormalmente quanto na noite anterior, as Portas começaram a se mover, todas as quatros da direita, dando abertura para um longo corredor adiante. Na Porta mais próxima, eu consegui ver dois garotos correndo para um corredor antes mesmo que a Porta fosse totalmente aberta. Minho e Ben esperaram, talvez para que eu me recuperasse antes de irem.

– Temos que ir, Frankie. – disse Minho.

Abri-lhe um pequeno sorriso. – Estarei esperando vocês voltarem. – prometi.

Minho sorriu para mim, depositando um beijo em minha testa. Se fosse qualquer outro, eu teria me sentido desconfortável, mas com Minho eu apenas senti novamente a mesma familiaridade que havia sentido antes, como um formigamento num canto da minha mente. Ben apenas acenou para mim, e eles saíram deixando apenas uma frase no ar.

– Até mais tarde, Fedelha.

Ainda fiquei um tempo parada lá, apenas observando o final do imenso corredor por onde Minho e Ben desapareceram à direita. A luz não parecia chegar ao chão e a hera nos muros parecia mais espessa, o que deixava aquele lugar com um ar frio, misterioso e assustador. Eu me sentia dividida entre o receio de entrar e a curiosidade de explorar.

– O que faz aqui a essa hora? – perguntou uma voz atrás de mim.

Saí do transe que me encontrava e virei-me, dando de cara com Newt e seu cabelo loiro desarrumado, como se tivesse vindo me ver assim que acordou. Quase sorri ao pensar nisso, mas reprimi o riso antes que fosse tarde.

– Bom dia para você também, Newt, dormiu bem? – perguntei sarcasticamente e ele riu.

– Bom dia, Frankie. – ele disse, abrindo um sorriso tão lindo e tão espontâneo que poderia iluminar o dia de qualquer pessoa.

E sorri automaticamente e respondi sua pergunta.

– Vim acompanhar Minho e Ben até aqui.

Newt arregalou os olhos. – Minho falou para onde ia?!

– Não ele, só disse que o trabalho dele era sair e que Alby me explicaria no tal Passeio. – eu disse, fazendo uma careta ao pensar que passaria algum tempo com o garoto que não pareceu gostar muito de mim.

Newt suspirou.

– Então vamos começar logo com isso. – disse ele e eu franzi o cenho, confusa. – Alby não confia muito em você porque é a primeira garota a aparecer aqui, então como sou o segundo no comando, você ficou sobre minha responsabilidade.

Arregalei os olhos. – Sua responsabilidade? Segundo no comando?

Newt soltou uma risada.

– De tudo o que eu disse sobre Alby não confiar em você, tudo o que você ouviu foi que eu era o segundo no comando? – ele perguntou, meio brincando e meio surpreso.

– Bem, eu não posso dizer que fiquei surpresa ou magoada, eu já esperava. Até porque eu não confio muito nele. – eu disse, dando de ombros como se isso fosse uma informação desnecessária.

Newt revirou os olhos e eu ri.

– Podemos começar? – perguntou ele.

– Vou finalmente ter minhas respostas? – respondi com outra pergunta, e ele assentiu. – Então podemos.

Newt guiou-me pelo gramado em direção ao centro da Clareira. Não entendia muito bem o que ele pretendia, até ver portas duplas de metal jazendo ao nível do chão, cobertas por uma pintura branca, desgastada e rachada.

– Esta é a Caixa, Frankie, e uma vez por mês um Fedelho novo chega para nós. – Newt começou. – Toda semana ela sobe com mais suprimentos, roupas, alimentos. Não é muito, já que a maioria produzimos nós mesmo na Clareira.

Lembrei-me dos campos com milho e o som de animais em outro canto na Clareira.

– O que sabem sobre a Caixa? – minha língua coçou e eu não consegui segurar as perguntas.

– Quase nada. – ele admitiu, entortando a boca. – Quem quer que tenha nos mandado para cá não nos disse nada. Aqueles trolhos Criadores nos vigiam dia e noite por um besouro mecânico que parece estar por toda a parte. O bom disso é que podemos pedir algumas coisas convenientes. – ele disse, dando uma piscadinha.

Eu ri.

– E a eletricidade, de onde vem? – perguntei.

Newt deu de ombros. – Não sabemos, só a usamos.

Malditos trolhos que nos colocaram aqui, pensei irritadamente.

– A Clareira é dividida em quatro partes. Jardins – Newt continuou, apontando para o canto noroeste, onde ficavam os campos e as árvores frutíferas. –, onde plantamos a maior parte do que comemos. O Sangradouro – apontou para o sudeste, onde tinha as cachoeiras e os cercados de animais –, de onde vem a água, que é bombeada por canos no chão. Nunca faltou, o que é estranho já que não chove nunca. Também criamos e abatemos os animais lá. Sede você já conhece.

Assenti, tentando absorver o máximo possível de informações, mesmo que isso resultasse em mais e mais dúvidas.

– Chamamos ali de Campo-santo – apontou para o canto sudoeste, onde tinha a floresta marcada pela presença de várias árvores mortas e doentes. – O cemitério fica lá pro meio. Não tem muita coisa, mas pode ir lá descansar quando quiser. Pelas próximas duas semanas, você vai trabalhar um dia com cada Encarregado para saber onde se encaixar e onde irá trabalhar.

Newt então se virou para o sul, apontando para a Porta que ficava entre o Campo-santo e o Sangradouro.

– Vê a Porta e o corredor diante dela, Fedelha? – ele perguntou, e eu assenti. – Para lá fica o Labirinto.

Arregalei os olhos, embasbacada com a nova informação.

– La-labirinto? – perguntei.

– Isso. – Newt confirmou, a expressão séria. – Os mais antigos vivos aqui estão há dois anos, e toda a nossa vida gira em torno do Labirinto, encontrar uma saída desse lugar e poder voltar para casa.

Pensei um segundo nessa palavra casa. O que, afinal, seria nossa casa? Um amontoado de tijolos juntos que formavam uma construção menos precária que a Sede? Ou um mundo do qual não conhecemos mais pela falta de memória?

– Um dos trabalhos que temos aqui – continuou Newt, arrancando-me da minha linha de pensamentos – que está vedada a qualquer Novato são os Corredores.

– Que é o que Minho é. – comentei, deduzindo por mim mesma as novas informações.

– Exatamente. Eles correm o Labirinto todos os dias, mapeando cada centímetro e cada caminho...

– E por quê não acharam o caminho ainda? – interrompi-o.

Newt abriu um sorriso leve e divertido. – Estava chegando lá. Bem, é difícil mapear para achar uma saída, porque o Labirinto muda toda noite, as paredes se movem. Literalmente.

Eu ainda estava espantada. E com receio que meu cérebro fosse explodir.

– Além disso, existem os Verdugos. – disse Newt, e eu franzi o cenho. – São seres que saem toda noite no Labirinto, e se os Corredores ficarem presos lá, não voltam. – ele dizia com uma emoção diferente à voz. Eu sabia que ele tinha alguma proximidade pessoal com o Labirinto. – Ninguém nunca sobreviveu a uma noite lá. Eu até te mostraria como são por uma janela, mas não quero te submeter a isso.

– E foi assim que você machucou a perna? – perguntei, apontando para sua perna manca, antes mesmo que eu pudesse me dar conta do que fazia.

O rosto de Newt se transformou numa máscara sombria. – Não quero falar sobre isso, tudo bem?

Eu apenas assenti, mesmo que algo no fundo da minha mente me dizia que eu estava certa, mas que os Verdugos não tinham nada a ver com aquilo.

– Agora vamos às regras básicas. E únicas. – ele continuou, a expressão séria. – Primeira regra: todos aqui devem fazer o seu trabalho, sem preguiça. – assenti para mostrar que havia entendido. – Segunda regra: todos nós nos respeitamos, então nada de machucar um Clareano, apesar de achar que você não consegue matar nem uma mosca. – ele riu, e eu revirei os olhos, mas o acompanhei. – E última regra e a mais importante: nunca, jamais, ultrapasse os muros para o Labirinto. Somente Corredores têm essa permissão.

Eu assenti mais uma vez antes, sentindo um turbilhão de perguntas embaçando minha mente, mas me calei, percebendo que talvez Newt não estaria disposto a responder a todas elas.

– Agora, Frankie, eu preciso ir ajudar a fazer a fogueira para sua festa de boas-vindas, mas você já irá começar com os trabalhos. – ele disse, e então abriu um sorriso maroto. – O que acha de começar com os Retalhadores?

~*~

– Fedelha! – ouvi a voz conhecida de Minho e me levantei num pulo.

Estive esperando durante alguns minutos em frente à Porta Sul, de onde me despedi de Minho há quase dez horas. Trabalhei o dia todo com Winston e os outros Retalhadores, mas havia pedido a ele que me avisasse quando era mais ou menos o horário dos Corredores retornarem. Então, quando deu alguns minutos antes, apenas lavei minhas mãos sujas de sangue e corri para esperar Minho.

– Minho! – gritei, verdadeiramente feliz em vê-lo, e apenas esperei que ele ultrapassasse a divisa da Porta para pular em seus braços e abraçá-lo forte.

E não nos importamos que eu estivesse cheirando a porco de abate e ele estivesse soando como um.

– Não achei que estaria realmente aqui. – ele comentou, sorrindo e me soltando.

– Eu disse que viria, cara de mértila. – brinquei, piscando.

Ele torceu o nariz ao ver meu estado. – Retalhadores?

Revirei os olhos.

– É. – confirmei. – Espero que amanhã seja algum trabalho melhor. Estou me sentindo um monte de plong.

– Onde está Newt? – perguntou ele, e eu apontei para o canto dos Jardins, onde Newt ajudava os Construtores a preparar o que ele chamou de “minha festa de boas-vindas”. A compreensão inundou o rosto de Minho. – Ah, então eu mesmo te levo no banheiro para tomar um banho. Ben!

Só então eu percebi que o loiro vinha não muito longe.

– Olá, Novata. – ele cumprimentou-me, e eu acenei para ele, sorrindo.

– Pode cuidar dos mapas enquanto levo ela na Sede? – Minho perguntou a ele.

Ben assentiu, e Minho me guiou em direção à Sede.

– Enquanto você toma banho, eu vou tentar arranjar algumas roupas para você e tentar impedir que os outros garotos entrem. – Minho se ofereceu, e eu aceitei, sorrindo.

Passamos pela porta e seguimos em direção ao banheiro, mas não antes de sermos barrados por um garoto moreno e de expressões sérias. Alby.

– Fedelha. – ele disse, e eu fiz uma careta. Havia alguma coisa no modo como ele me chamava de Fedelha que não se parecia em nada como Newt e Minho me chamavam. Alby usava um tom depreciativo na voz toda vez que se dirigia a mim. – O facão.

Franzi o cenho, irritada, e coloquei a mão sobre o cabo do facão em meu cinto para protegê-lo.

– Por quê? – perguntei.

– Somente Corredores têm permissão de portar armas, para o caso de verem algum Verdugo. – ele disse, indicando Minho ao meu lado com o queixo.

– Ma-mas... – tentei argumentar, tentando impedir que minha irritação emanasse por meus poros.

– Mas, como você é uma garota, permitirei então que permaneça armada. – disse Alby, como se estivesse fazendo um grande favor ou um enorme sacrifício.

E o ódio me tomou por inteira. Quer dizer então que o líder daqueles garotos tinha que ser alguém machista e preconceituoso? De repente senti nojo de ter aquele facão em mãos, como se isso fosse a prova necessária para que eu era, e sempre seria, mais fraca do que ele. Desembainhei rapidamente o facão, apressada, e o joguei aos pés de Alby.

– Não preciso disso para conseguir derrotar algum de vocês. – eu disse, enojada, e fui diretamente ao banheiro.

~*~

Com a faca que Minho me entregara em mãos, eu estava parada em frente a um dos muros da Clareira, procurando por um único nome entalhado na pedra. Meus olhos passaram por vários – conhecidos, desconhecidos, riscados –, mas o que eu procurava, parecia não estar ali apenas para me ver me humilhando. Mas então eu o achei, escondido logo abaixo do meu nariz e do nome de Alby e Chuck. Por sorte ao lado dele tinha espaço suficiente para entalhar meu nome. Com certa dificuldade, apoiei a ponta da faca ao lado do nome de Newt e comecei o trabalho de “oficializar”, como Minho chamara. Normalmente quem fazia isso era Alby, mas ele me odiava e Newt, como segundo no comando, devia estar ali. Mas desde que a comemoração começara que eu não o via em parte alguma, então Minho tomou o lugar deles.

– Pronto. – eu disse, quando terminei de entalhar meu nome e meus dedos já estavam doloridos, e estendi a faca para Minho.

Ele me olhou sorrindo, o que deixava seus olhos ainda menores do que eram.

– Bem vinda à família, Frankie.

Eu sorri com ele, aproveitando toda a sensação de pertencimento preenchendo meu peito.

– Mas por quê você fez questão de colocar seu nome ao lado do de Newt? – ele perguntou, e o balão de sentimento murchou.

Corei instantaneamente. – Ah, não era nada.

– Vocês têm alguma coisa, não é? – Minho perguntou com um sorriso maroto nos lábios.

– O-o quê?! Não! – eu disse rapidamente, minha voz subindo uma oitava e se tornando mais fina, deixando bem clara a minha mentira.

Minho levantou as mãos em rendição, mas eu sabia que não me deixaria em paz tão cedo.

De repente, um recipiente parecido com um copo e com um conteúdo impossível de se identificar surgiu à minha frente. Girei meu tronco, e dei de cara com Newt olhando-me com um sorriso divertido nos lábios.

– Newt! – exclamei, mais alegremente do que eu pretendia.

Minho riu ao perceber meu deslize e saiu dali em direção aos outros Corredores.

– O que está achando? – perguntou.

Olhei em volta, para os garotos que bebiam, que conversavam, gritavam e lutavam ao redor da fogueira. Não havia qualquer garota e eu me sentia deslocada. Mas não que eu diria isso a Newt quando ele tivera trabalho para organizar aquilo para mim.

– Estou gostando. – eu disse, sorrindo, e fiquei surpresa ao perceber que meus sorrisos sempre sairiam mais naturalmente quando eu estivesse com Newt.

– E o trabalho com os Retalhadores, acha que fica lá? – perguntou ele, rindo. Provavelmente já sabia a resposta e a história de que quase vomitei num porco que seria abatido.

Abri um sorriso cínico. – Acho que serei vegetariana.

Newt riu e me estendeu o recipiente.

– Prove isso, é receita caseira do Gally. – ele disse, e apontou com o queixo para um garoto loiro, alto e de queixo quadrado que estava no meio de uma roda, lutando com algum outro Clareano.

Dei de ombros e peguei a bebida. Assim que ela tocou minha língua, virei o rosto e cuspi tudo para fora.

– Que droga é essa?! – perguntei, exasperada.

– Ninguém além dele sabe, e é uma tradição beber isso na comemoração. – Newt disse e, se fosse possível, seu sorriso se abrira ainda mais. – Bem vinda à família, baixinha.