The Glue
1 Capítulo 1 – The arrival of the new Greenie
Notas iniciais

The Glue
Capítulo 1 – The arrival of the new Greenie
A primeira coisa que senti quando acordei foi um vazio.
Não um vazio ao meu redor. Mas o vazio que senti, foi em minha mente. Tentei puxar alguma coisa, alguma memória ou qualquer outra coisa. Alguma resposta ou lembrança de como fui parar ali. Mas nada vinha. Depois de um segundo, percebi que estava num elevador de metal em movimento e estava cercada por caixotes. Acordar de repente com um solavanco em uma espécie de elevador era assustador. Talvez nada vir à mente quando tentava puxar uma lembrança fosse mais assustador. Eu tinha a noção básica de que estava num elevador em movimento vertical, de que estava cercada por caixas e que estava sozinha, mas eu não sabia como adquiri esse conhecimento prévio. Memória nenhuma vinha à minha mente e isso me aterrorizava. Nada que respondesse básicas como quando, com quem, porque e como.
Um nome veio à minha mente.
Frankie.
De algum modo eu sabia que aquele era meu nome.
Mas nada mais vinha à mente. Meu sobrenome? Minha idade? O nome dos meus pais? Nada.
Um solavanco no elevador me trouxe de volta à realidade e meu corpo foi pra frente. Bati em algumas caixas, mas, de algum jeito, meu rosto atingiu uma das paredes do elevador. Uma dor agonizante surgiu na minha bochecha e eu senti um gosto metálico de sangue em minha boca. Apoiei-me na parede onde caí, sentindo o arame de metal nos dedos. Olhei ao meu redor, tentando enxergar mais do que conseguia. A escuridão me impedia. O barulho de correntes enchia meus ouvidos e me irritava. O movimento constante me deixava inquieta e não saber aonde estava me deixava desconcertada. Olhei para o alto, vendo uma escuridão sem fim acima de mim. O fim ainda estava longe.
Queria gritar por ajuda, mas eu sabia que de nada adiantaria. Olhei para as caixas; uma ideia se formando em minha mente. Observei-as de fora e percebi que todas, sem exceção, vinham com as siglas CRUEL na lateral. Deixei isso de lado e revistei-as, encontrando, em sua maior parte, suprimentos. Não tinha ideia do porque havia suprimentos numa caixa em um elevador, mas eu não me importaria com aquilo agora. Revistei mais algumas e encontrei um facão em uma delas. Sorri marotamente, pegando-o e fechando a caixa novamente. Sentei-me no chão, colocando o facão entre duas caixas, mas ainda assim ao alcance das minhas mãos. Não sabia quem ou o que me esperava ao fim da viagem no elevador, e eu não queria descobrir. Eu já estava confusa o suficiente.
Suspirei, encolhendo-me entre as caixas, e esperei.
Esperei.
Esperei.
Não sei por quanto tempo – se foram horas ou apenas minutos –, mas pareceu-me uma eternidade. Além do esfolado na bochecha esquerda, ganhei ainda um corte superficial no antebraço. De repente, algo naquele cenário mudou. Um rangido me assustou e um tranco repentino me levou ao chão. Caí sobre meu ombro, que lançou uma eletricidade de dor por meu braço e tronco. O elevador se balançou cada vez menos até que parou, e eu consegui voltar à posição inicial, com a mão próxima ao facão. O elevador parou e o silêncio se tornou incômodo depois de tanto tempo com o barulho de metal contra metal.
Contei mentalmente. Cinco minutos e ninguém havia aparecido ainda. Não sabia porque eu esperava por alguém, mas eu simplesmente esperava. Estava curiosa por saber porque eu tinha a sensação de que alguém também esperava por mim. O medo me invadiu e quis gritar para que me ajudassem, mas eu sabia que não adiantaria de nada, eu não precisava que minha garganta arranhasse até que eu perdesse a voz. Um rangido estridente vindo do alto me chamou a atenção e meu corpo enrijeceu, esperando por qualquer ameaça. Meus dedos roçaram o cabo do facão quando o rangido revelou-se ter vindo de portas duplas de correr sendo abertas à força. A claridade invadiu meus olhos e eu fechei-os rapidamente enquanto me encolhia mais entre as caixas. Tive a vantagem de ser pequena a meu favor.
E então, vozes.
- Cadê o novato?
- Lá, o trolho está escondido!
- Sem bilhete de volta, Fedelho!
- É pequeno! Companhia para Chuck?
Algumas palavras me eram desconhecidas e algumas vozes me pareciam familiares. Estavam todas juntas e misturadas e eu mal consegui identificar algumas poucas frases. Entreabri meus dedos e enxerguei por entre eles, sem destampar o rosto. Primeiramente eu vi apenas vultos e formas, mas depois eles começaram a entrar em foco e notei que, acima das portas abertas do elevador, haviam garotos. Vários deles e mais de uma dezena. Olhavam em minha direção com olhares curiosos e apontavam com desdém. Não sabia quantos eram, e pareciam tão diferentes um do outro quanto eu era deles, mas todos tinham algo em comum: roupas sujas e amassadas, como se tivessem interrompido algum trabalho pesado para me recepcionar.
Sentimentos variados me inundaram de uma vez, sobretudo ao perceber que não havia qualquer garota por ali. Não sabia do que eram capazes e eu não confiava naqueles garotos. O medo me apossou e eu senti meu corpo estremecendo enquanto me encolhia ainda mais atrás de uma das caixas maiores. Mais alguns burburinhos vindos dos garotos e o chão do elevador próximo a mim estremeceu com um baque de um corpo. Arregalei os olhos, um pouco assustada. Por cima do caixote, observei um garoto se aproximando. Magro, incrivelmente alto e, devo dizer, bonito. Cabelos loiros e olhos de um castanho escuro profundo. Meu coração falhou uma batida quando olhei diretamente em seus olhos. Abaixei-me mais atrás da caixa, tentando parecer invisível. No momento em que o garoto afastou a caixa, o facão em minha mão apontava para seu peito.
- É uma garota! – ele exclamou num sotaque estranho, os olhos arregalados, parecendo mais surpreso por eu ser uma garota do que por ter um facão apontado para seu peito.
E então, os murmurinhos se tornaram mais altos e irritantes.
- Garota?!
- Como isso é possível?
- Gostosa?
- Pequena. E bonitinha.
Franzi o cenho, irritada.
- Quem são vocês?! – perguntei e, apesar de minha mão tremer levemente, minha voz estava firme. Foi um pouco estranho ouvi-la, mas agradeci às horas ou minutos de silêncio. Impediram que minha garganta doesse quando usasse minhas cordas vocais.
- Nós quem perguntamos! – exclamou o garoto à minha frente.
- Responda de uma vez! – insisti, finalmente segurando o facão sem tremer.
- Ih, a Fedelha é marrentinha! – ouvi o comentário vindo de um dos garotos acima de nós e minha expressão se fechou, enquanto lançava um olhar feroz em direção a eles.
- Não. Me chame. Assim. – eu rosnei para eles.
- Calma, calma. – disse o garoto loiro e bonitinho, sem arredar um centímetro de onde estava. – Não vamos te machucar, novata, prometo.
Semicerrei os olhos para ele, desconfiada, mas algo em sua expressão calma me fez acreditar nele. O brilho em seus olhos escuros me passou uma segurança que não tive até então, e eu acreditei que ele não faria qualquer coisa contra mim.
Realmente acreditei.
Mas não acreditava nos outros.
Olhei de soslaio para os outros, ainda desconfiada deles. Não gostara nem um pouco dos comentários que fizeram sobre mim e eu não me importava nem um pouco em lançar o facão em minha mão em direção a eles. O garoto loiro pareceu perceber isso.
- Hey, seu bando de trolhos! – ele gritou para os garotos. – Deem o fora daqui!
Percebi imediatamente que ele tinha bastante autoridade com os garotos quando a multidão foi se esvaindo aos poucos. Até que restou apenas um garoto moreno, olhando para nós com um ar sereno e superioridade. De certa forma, eu não tive uma boa primeira impressão, apesar de que não me veio a sensação familiar de quando vi o loiro. Eu não confiava no moreno como confiava no loiro.
- Alby, por favor. – pediu o loiro.
O moreno, porém, não se afastou. – Não confio nela, Newt.
- E nem ela em você, se não percebeu, seu cara de mértila! – retrucou o loiro, Newt.
- Se a Fedelha fugir como os outros, terá de jogá-la no Amansador. – disse o tal Alby, antes de sair dali também.
Olhei novamente para Newt, que agora olhava diretamente para mim. Não abaixei o facão e ele não parecia fazer menção a isso. Suspirou, e eu quase podia ver as engrenagens rodando em sua mente enquanto me observava atentamente. Observei-o também. Seu corpo alto e magro, mas não desprovido de músculos. Tinha algum armamento preso às suas costas e me perguntei se não era um facão como o que eu tinha em minha mão. Newt sentou-se em frente a mim, encostado na parede lateral. Não abaixei meu facão e fiquei curiosa. Ele não pediria que eu abaixasse?
Ele ficou em silêncio e eu também.
Não sei por quanto tempo ficamos assim, apenas um encarando o outro. Talvez a mesma quantidade de tempo que ficara presa no elevador a caminho daqui, eu não saberia dizer. Mas então, quando eu pensei que a eternidade se passara, Newt se pronunciou.
- Do que se lembra? – ele perguntou, a voz parecendo tranquilizadora.
Um nó se formou em minha garganta e eu senti vontade de chorar.
- So-somente o meu nome. – eu sussurrei em resposta.
Newt engoliu em seco e olhou para o lado, e pensei que talvez ele não estivesse acostumado com garotas chorando em sua frente. Fiz o possível para não ser.
- Posso? – ele perguntou cautelosamente, aproximando-se de mim. Ele se referia ao facão. Torci o nariz, mas não entreguei a ele. Ao invés disso, apenas abaixei e o mantive próximo a mim. – Eu sou Newt. – ele disse, sentando logo à minha frente, mas em uma distância segura.
- Frankie. – respondi baixinho.
- É um bonito nome, Fedelha. – Newt disse, sorrindo.
Franzi o cenho. – Por quê vocês ficam me chamando assim?
- É como chamamos os novatos. – ele deu de ombros.
Mais alguns poucos minutos sem qualquer palavra trocada, até que eu resolvesse finalmente tirar dúvidas.
- Onde estamos? Por quê estamos aqui? Por quê não me lembro de nada?
- Epa, calma, Novata, são muitas perguntas. – Newt comentou, rindo, e eu senti meu coração batendo mais rápido, como se eu devesse conhecer essa risada.
Corei levemente e balancei a cabeça, fazendo meus cabelos caindo ao redor do rosto como cortinas.
- Respondo amanhã, tudo bem? – ele sugeriu. – Deve estar cansada e talvez seja melhor deixar o Passeio de Alby para amanhã.
Suspirei, mas pelo tom de voz dele eu percebi que não adiantaria retrucar.
- Pronta para subir? A Caixa não pode ficar aqui para sempre. – Newt perguntou, e eu olhei receosamente para a abertura do elevador. Newt riu ao perceber. – Relaxe, Frankie, eu prometi que não os deixaria te atacar, não prometi?
Respirei fundo, tentando agrupar o máximo de coragem possível. Por fim, eu assenti. Newt sorriu com a resposta e se levantou. Foi até uma das pontas o elevador e começou a gritar com alguém. Minho, pelo que entendi de suas palavras. Então apareceu um garoto moreno e asiático. Bonito também, mas não tanto quanto Newt. Corei com meus pensamentos, mas me recuperei quando uma corda foi jogada à minha frente com a extremidade amarrada por um laço. Olhei confusa para Newt.
- Para subir. – ele respondeu simplesmente.
Dei de ombros, colocando o facão no cinto que prendia minha calça, e enfiei o pé no laço. Não muito depois as mãos do asiático me seguraram pela cintura e me puxaram para cima. Gemi quando o machucado em meu antebraço fez atrito com a parede do elevador.
- Você está bem? – perguntou o asiático, franzindo o cenho e eu apenas assenti.
Não tive receio dele quanto tive dos outros. Algo na minha mente se acendeu ao ver os olhos puxados, mas quando tentei puxar a memória sorrateiramente, ela acabou escapando. Logo ele mandou a corda de volta para o elevador e logo depois Newt apareceu. Ajudei quem supus ser Minho a puxá-lo para cima. E, enquanto ele se recompunha, aproveitei a oportunidade para olhar em volta. Um pátio vasto até onde conseguia ver, ou até onde as quatro paredes de pedra cinzenta e coberta por hera espessa em manchas desiguais. Eram muros altos, incrivelmente altos, e eu chutaria que teriam uma média de cem metros. Formavam um quadrado perfeito ao redor do pátio e eram exatamente divididas ao meio por aberturas tão altas quanto os muros e, à minha vista, levavam a corredores.
Arregalei os olhos e olhei com mais atenção aos detalhes.
Enormes blocos de pedra, alguns rachados com grama e erva daninha, de um lado. Uma estranha construção de madeira de aparentes três ou quatro andares, cercada por árvores e parecia prestes a cair. Em outro canto, plantações de vários tipos. Eu podia ver currais com animais como ovelhas, porcos e vacas em outro canto e, no último deles, um bosque amplo ocupava o espaço. O céu não tinha nuvens e, mesmo assim, mesmo sem o sinal claro do sol, a claridade era evidente.
Virei-me para Newt e para o asiático.
- O que diabos é esse lugar? E o que diabos faço aqui?! – indaguei.
O asiático riu. – Calma, garota, são muitos diabos pra poucos trolhos.
Revirei os olhos, assim como Newt.
- Calado, garoto asiático. – resmunguei.
Newt gargalhou, enquanto o garoto fazia uma careta.
- Gostei de seu novo apelido, Minho.
- Será que podem me responder? – perguntei novamente.
Newt suspirou. – Descanso primeiro, perguntas depois. Vamos arranjar uma rede para você.
Arregalei os olhos ao pensar na possibilidade de dormir próxima àqueles garotos.
- Arranjaremos um lugar mais afastado para você, Fedelha. – garantiu Minho.
Respirei fundo, antes de segui-los.
Eu sabia que podia confiar neles.
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