The Game

17 Parte 1 - Capítulo 16 - Lembranças


–Onde eu... Estou?

Hélcias caminhava pela escuridão. Um silêncio aterrador em um espaço negro infinito. Nada se destoando em qualquer direção. Caminhando a passos lentos, ele se encolhia mais e mais em si, como alguém tomado pelo frio. O corpo inteiro arrepiado. Todos os seus pelos eriçados. Uma clara sensação de que algo horrível estava prestes a acontecer. E, então, ele o viu. Um objeto que se destacava na completa escuridão. Aproximando-se, pode ver um espelho simples, sem detalhes, preso a uma moldura de madeira. Não possuía qualquer suporte e parecia flutuar poucos centímetros acima do chão.

Hélcias caminhou com cuidado na direção do objeto. Conforme se aproximava, foi perdendo a posição encolhida que tinha. Voltando a andar ereto, deixando os braços que até então se esfregavam cair ao lado do corpo, ele olhou-se no espelho. A princípio, não viu nada. Mas logo seu reflexo se mostrou. O mesmo corpo de adolescente ao qual se habituara a ver no espelho de sua casa. As mesmas roupas que se lembrara de colocar naquela manhã. O único problema se encontrava no rosto. No reflexo do espelho, pode notar um sorriso em seus lábios. Contudo, Hélcias, estava certo de uma coisa: ele não estava sorrindo agora.

Antes que pudesse dar se quer um passo para trás, seu corpo no espelho pareceu mover-se por conta própria. Deixando o que parecia um pedaço sólido de vidro, o braço de seu reflexo estendeu-se velozmente, rapidamente deixando o espelho e indo de encontro ao seu pescoço. Antes que se desse conta, seu próprio reflexo, agora já metade fora do espelho, o erguia pelo pescoço. Os pés se balançando, as mãos tentando soltar o aperto que seu reflexo lhe fazia.

Com os olhos entreabertos, o corpo tomado pelo pânico da falta de ar, Hélcias pode ver na figura que saia do espelho um olhar diferente do seu próprio. Era um olhar assassino, um olhar de uma besta que observa sua presa. Um olhar preenchido de raiva e ódio. E, ainda assim, aquele sorriso era o que mais parecia assustar a Hélcias. Um sorriso maníaco, sádico, de alguém que parecia se divertir vendo a inútil luta dele para se livrar daquele quase enforcamento.

–Há quanto tempo, amiguinho – O reflexo finalmente falou. Era um quase sussurro, mas que ainda assim chegava aos ouvidos de Hélcias em alto e bom tom – Muito obrigado por me libertar – Ele completou, soltando logo em seguida uma risada maníaca.

–N-Não... – Hélcias ainda tentava se soltar. Sua voz mal saindo, suplantada pela risada que preenchia aquele espaço negro – Não... Não... – O corpo ia ficando pesado. A consciência desfalecia. Os olhos se fechavam – N... Nã... O... – Finalmente, seus braços caíram ao lado de seu corpo. Adormecera.

Os olhos de Hélcias se abriram de repente. Acordara assustado. A respiração estava ofegante e o coração acelerado. Seu primeiro movimento foi o de levar as mãos ao pescoço, buscando sentir uma mão que já não estava mais ali. Respirou aliviado, lentamente compreendendo que acordara de algum tipo de pesadelo. As imagens que vira em seu sonho agora flutuavam em sua mente em um estado entre a memória clara e um vago pensamento. Ia se acalmando. Estabilizando a respiração e soltando ao próprio pescoço. E, com isso, começava a olhar o ambiente ao seu redor.

A primeira coisa que viu com clareza foi o teto de cor pastel. Abaixo de si, pode sentir que estava deitado em uma cama. O lençol azul estava revirado e naquele momento só lhe cobria da cintura para baixo. Levantando-se com certa dificuldade, sentindo uma imensa fadiga, ele olhou em volta. A cama de solteiro ficava no centro do quarto. A sua direita ele pode ver o que parecia ser um armário ao lado de uma estante preenchida com os mais variados papéis e objetos, ambos os móveis feitos de madeira compensada e coloridos de um tom vinho. À esquerda se via uma janela da qual se podia ver a cidade. Onde quer que estivesse, era certamente no mínimo o segundo andar da estrutura. Ao lado da cama, um criado mudo suportava um modesto notebook, àquele momento fechado. Finalmente, à sua frente se via a porta branca, que se destacava em meio às paredes da mesma cor do teto.

Hélcias olhava para aquela cena com enorme confusão, sem entender onde estava ou como chegara até ali. Estava prestes a se levantar daquela cama, quando a maçaneta da porta foi virada. Entrando despreocupadamente, por os pés no assoalho de madeira do quarto uma mulher. Pela aparência devia ter pouco mais de vinte anos. Tinha o corpo bem desenvolvido em praticamente todos os aspectos. A tez era morena e os cabelos negros longos faziam um cacheado que lhe descia pelo ombro. Usava uma camiseta branca justa e uma calça jeans. Nas mãos, carregava uma pequena bandeja com o que parecia ser alguns pães de queijo, que ela quase deixou cair quando viu que Hélcias estava sentado na cama, olhando para ela com uma expressão de espanto quase idêntica.

–Ah... Que bom! – Em poucos instantes, a expressão de surpresa se converteu em um sorriso de alívio. Correndo para dentro do quarto, ela colocou a bandeja sobre o notebook e sentou-se na cama, ao lado de Hélcias – É bom ver que você acordou. Como está se sentido?

–Hum... E-eu... B-bem... – Hélcias respondeu, sem conseguir compreender o que acontecia ali – D-desculpe, mas... Onde eu estou? E... Quem é você? – Ele perguntou, temendo que não se lembrasse de algo que deveria – E como eu... Cheguei aqui?

–Você está na minha casa – Surgindo pela porta, uma outra figura humana entrou no quarto. Tinha uma idade próxima à de Hélcias. A tez morena tal como a da mulher, com o cabelo igualmente negro. Usava uma camiseta azul e uma bermuda preta folgada. E, no rosto, seu habitual sorriso brincalhão – Você está bem mesmo, Hélcias?

–Héber... – Hélcias sussurrou, lembrando-se da pessoa com quem se encontrara alguns dias antes. Em resposta à pergunta, meneou um sim com a cabeça – Sim, sim, eu estou bem. Só... Um pouco exausto, eu acho...

–Aqui, como um pouco – A mulher pegou a bandeja, oferecendo-a a Hélcias, que terminou por aceitar um dos pães de queijo – Meu nome é Léa – Ela acrescentou, procurando responder a segunda pergunta de Hélcias – Eu sou a irmã do Héber, e fui eu quem trouxe você pra cá.

–Foi um baita golpe de sorte – Héber disse, aproximando-se da cama, agora com uma expressão mais séria – Eu tinha ido com a Léa até a galeria, pra aproveitar e ver umas cartas por lá. Quando eu tava saindo da loja eu vejo você e o Duo lá em baixo. Eu tentei correr, mas só consegui chegar lá pouco depois de você desmaiar – Héber sentou-se na cama ao lado da irmã, pegando da bandeja um pão de queijo e o levando à boca – Olha, foi um baita susto. O que aconteceu lá?

–A-ah... – Hélcias ficou um pouco desconfortável com a pergunta. Olhou a irmã de Héber pelo canto dos olhos. Tinha certeza que ela não era uma jogadora, então não sabia o quanto de informação os dois podiam trocar sem parecer estranho – B-bem n-não foi nada de mais. E-eu só... Só devo ter desmaiado um pouco com o calor do dia – Ele disse, acrescentando um riso forçado ao final do comentário.

–Calor? – Héber pareceu um pouco confuso com o comentário, mas logo que notou a forma com que Hélcias olhava sua irmã ele compreendeu o desconforto que Hélcias sentia – Ah, entendi – Comentou, dando um leve sorriso – Tudo bem, Hélcias, não precisa ficar assim. A Léa já sabe a respeito do Jogo.

–Ah e-entendo... – Os olhos de Hélcias se arregalaram por um momento. Por um segundo, pensou em perguntar como Héber havia convencido sua irmã da veracidade de uma história que qualquer pessoa racional descartaria como um delírio psicótico, mas preferiu deixar a pergunta para outro momento – Bom, mas se é assim... A verdade é que tudo começou quando eu estava indo para a galeria e senti a presença de outro jogador...

–O Duo, eu imagino... – Héber interrompeu, sério.

–Hum – Hélcias meneou um sim com a cabeça, com uma expressão igualmente séria – No começo ele praticamente me ignorou. A gente trombou um no outro, mas ele foi embora como se não fosse nada. O problema foi quando eu notei que ele estava entrando na galeria – Por um segundo, os punhos de Hélcias se fecharam, apertando firme os lençóis da cama – Eu fiquei assustado... Imaginando que talvez ele acabasse encontrando alguém com apenas uma pedra e...

–E pusesse essa pessoa em um coma – Héber completou, vendo que Hélcias parecia ter ainda um pouco de receio em dizer aquelas palavras. Sem resposta verbal, Hélcias apenas assentiu com um menear da cabeça – E por isso você desafiou ele?

–Não – Hélcias respondeu, de forma quase apressada – No começou eu pensei em falar com ele... Mas ele só ficou me provocando até... Até que eu não aguentei mais. Eu levantei o rosto e deixei ele me desafiar – Hélcias deu um leve sorrisinho nervoso ao lembrar-se da cena, mas que se desfaleceu logo – Foi um desastre. Ele acabou comigo em um turno e me tomou duas pedras. Então eu tentei revidar e logo que saímos do Campo eu desafiei ele, desta vez para um jogo que eu achei que ele não teria um deck. Eu venci por W.O., mas isso só fez deixar ele ainda mais irritado. Ele me desafiou de novo e...

–Ok, ok, ok, pera... Você está me dizendo que entrou em três campos... Seguidos? – Hélcias meneou um sim com a cabeça, aparentemente confuso com a pergunta repentina – Bom, isso explica a sua situação... Hélcias, mesmo entre os veteranos a gente sempre espera pelo menos uma meia hora antes de entrar em outro Campo.

–Mas você disse que três campos era seguro...

–Ao dia! Três campos ao dia! – Corrigiu Héber, mostrando o número 3 com os dedos – E isso para os veteranos. Deus, você tem é sorte de ter ficado só quatro horas desmaiado – Acrescentou, deixando escapar um leve sorrisinho de espanto.

–Quatro horas?! – Hélcias praticamente gritou ao ouvir aquelas palavras. Não havia um relógio no quarto, então ele não fazia ideia do tempo que ficara desmaiado. Bom, ao menos isso explicava o quão receptivo estava aos pães de queijo – Bom, em todo caso... – Deixando o assunto de lado, Hélcias deu um leve suspiro, buscando retomar a conversa anterior – Como eu dizia, o Duo me desafiou de novo. Eu... Consegui vencer... E daí eu devo ter desmaiado...

–Deve? – Héber não pode deixar de soltar outro sorrisinho leve ao ouvir aquelas palavras – Você caiu no chão feito uma fruta madura, isso sim. Tem sorte de não ter quebrado nada, e mais ainda de não ter sofrido traumatismo craniano ao bater a cabeça no chão.

–Ok, ok, já chega Héber – Foi Léa quem cortou a conversa, conforme se levantava da cama – Vamos lá, assustar o seu amigo não vai ajudar de nada – Ela se dirigia até a porta do quarto enquanto falava, dando as costas aos dois garotos – Bem, eu vou ficar lá em baixo que eu tenho algumas coisas pra fazer ainda. Se precisarem de algo é só chamar.

Os dois garotos acenaram um “sim” com a cabeça e viram a mulher deixar o quarto. Uma vez que ficaram sozinhos ali, um rápido silêncio se instaurou. Não um silêncio desconfortável, mas daquele tipo que antecede o iniciar de uma nova conversa, quando o assunto anterior chegou ao fim, mas ninguém pensou exatamente ainda em qual seria o próximo. Hélcias pegou outro dos pães de queijo. Suspirava de leve, mais por cansaço do que por qualquer outro motivo, conforme comia.

–Você tem uma boa irmã... – Hélcias disse, dando uma mordida no pão de queijo.

–Ela já tem namorado, se quer saber – O comentário de Héber quase fez Hélcias engasgar com o pão de queijo. Ele estava prestes a falar que Héber o tinha entendido mal, quando este começou a rir – Tudo bem, tudo bem, eu sei que você não quis dizer isso – Ele comentou, em meio às risadas – Só achei que valia a brincadeira – Acrescentou, com um sorriso zombeteiro.

–Você... – Hélcias comentou, meio incomodado e meio sorrindo – Depois dessa eu também não converso mais... – Desta vez foi a vez de Hélcias dar um leve sorriso brincalhão quando notou que Héber estava prestes a se desculpar – Mas enfim... Onde eu to, afinal? Você falou que é a sua casa, mas não me disse em que parte da cidade estamos...

–Ah, é verdade. Acho que podia ser mais claro – Héber comentou, coçando de leve a cabeça, mantendo no rosto um sorriso amigável – Na verdade, estamos a duas quadras da Fighters. A loja fica subindo a rua.

Hélcias ficou claramente surpreso com isso. Enquanto a galeria ficava próxima ao centro da cidade, a Fighters ficava bem mais a oeste. Chutando, deveriam ter levado no mínimo meia hora de carro para irem do centro até aquela casa.

–Mas... Se é assim, o que estava fazendo lá no centro? Se queria alguma carta, não era melhor só ir na fighters mesmo?

–Eu te disse, eu fui acompanhar a minha irmã – Conforme falava, Héber mantinha sempre um sorriso bem humorado – Ela queria ver alguns acessórios na loja de bijuterias no primeiro andar. Então, já que ela ia pra lá de qualquer forma, resolvi aproveitar pra ir junto e ver a loja de cartas. As vezes é bom ir em lugares diferentes, só isso.

–Entendo... – Hélcias meneou um leve aceno com a cabeça ao ouvir as ultimas palavras de Héber – Bom, em todo caso, eu realmente estou devendo uma pra você. Seria complicado explicar o meu desmaio para um médico...

–É verdade... Bom, se bem que você já teve sorte de sair dessa só com um desmaio. O Duo é um bom jogador... – Ao dizer isso, o tom de Héber se tornou levemente melancólico. Apesar de manter o sorriso no rosto, era clara certa tristeza neste – Eu mesmo vivia perdendo pra ele... – Acrescentou, abaixando de leve os olhos para os lençóis da cama.

–Hum... – Hélcias não sabia bem como responder àquela situação, deixando um silêncio se instaurar mais uma vez, desta vez sim um silêncio desconfortável – Você... Conhece bem o Duo? – Ele perguntou, inseguro de se Héber iria querer seguir naquele assunto ou não.

–Eu achava que sim... – Héber comentou, soltando um suspiro melancólico – Eu conheci o Duo na Fighters. Foi o Esídio quem o trouxe. Isso deve fazer mais ou menos um ano. Na época, ele tinha acabado de ter a sua Primeira Transição. Acho que foi uma ou duas semanas antes. Em todo o caso, ele ainda estava aprendendo todas as normas e regras daquele mundo. Era um cara legal. Se dava com todos e era divertido de conversar com – Héber deixou os olhos vagarem pelo quarto, pousando-os na janela à sua frente – Realmente, era difícil imaginar que ele viraria o que virou...

–O que aconteceu? – Hélcias perguntou, ainda receoso de estar forçando demais uma conversa que nem deveria ter começado.

–Tudo foi bem por alguns meses, até que ele começou a ficar com muitas pedras – Héber começou, agora sem tirar os olhos da janela – Não tem tantos jogadores assim na Fighters e a maioria tem entre três e cinco pedras. Quando Duo atingiu a marca de seis pedras, as regras da loja começaram a ser um problema. Como eu expliquei, se após o jogo você fizer o seu oponente ficar com três ou menos pedras, você deve devolvê-las para ele. Isso mantém a segurança do jogo, mas torna muito mais difícil de se juntar as treze pedras necessárias. Duo teve uma briga com o Esídio, falando que aquele método era covarde e só estava impedindo os outros de conquistarem seus desejos. Depois disso ele não veio mais à loja. Já deve fazer mais ou menos uns seis meses que isso aconteceu.

–Entendo... – Hélcias abaixou a cabeça. Aquela história certamente explicava o ódio que Esídio parecia ter para com Duo. Enquanto aquele queria manter um cenário seguro para todos, Duo parecia preocupado apenas com seu próprio desejo. Hélcias sentiu as mãos se fecharem em um punho, agarrando os lençóis da cama – É... Uma posição bastante egoísta... Colocando os desejos próprios acima do bem estar de outros...

–Pois é, não é? – Disse Héber, ainda naquele tom melancólico – Mas... Eu não digo que posso culpa-lo. Ainda mais considerando o desejo dele...

–Qual é? – Héber olhou para Hélcias com uma expressão de confusão, como se não tivesse se dado conta de que efetivamente falara em voz alta a sua ultima frase – O desejo do Duo. Você parece saber qual é. Ele é assim tão importante ao ponto de ser compreensível que ele esteja disposto a sacrificar a vida de outros?

–É... Uma boa pergunta... – Héber ficou em silêncio por alguns segundos, como que considerando que tipo de resposta poderia dar – Me diz, Hélcias. Você já ouviu falar das Fazendas Spero?

–Fazendas Spero? – Hélcias procurou puxar da memória alguma informação a respeito. De quando em vez os jornais anunciavam algo a respeito dessas fazendas, na verdade um enorme conglomerado de propriedades espalhadas pelo país e que produziam de tudo, desde carnes e ovos a frutas e verduras – Acho que já vi alguns produtos deles no mercado. Mas o que isso tem a ver com a minha pergunta?

–O nome completo do Duo é Duo Spero. Foi o avô dele quem começou essas fazendas, com o pai transformando no empório que é hoje – Héber fez uma pausa breve, a fim de deixar que as próximas palavras melhor se fixassem – E, atualmente, Duo é o único membro vivo da família Spero.

–O... Que? – Hélcias conseguiu perguntar, após alguns segundos de silêncio.

–Tudo começou com a mãe de Duo. Ela faleceu devido a complicações do parto dele. O pai de Duo morreu três anos depois, em um acidente de carro, deixando o Duo e a irmã mais velha dele sob os cuidados do avo paterno – Héber falava com calma, deixando que a informação fosse se assentando – Duo tinha apenas cinco anos quando o avo também morreu, este de causas naturais, com já mais de noventa anos. Na época, a irmã dele tinha dezenove e assumiu não apenas os negócios da família, mas também a guarda do irmão mais novo.

–E ela também... – Hélcias não se atrevia a terminar a frase.

–Hum – Héber balançou a cabeça de leve. Em sinal afirmativo – Há três anos, o avião onde ela estava caiu na região da floresta amazônica. Não houve sobreviventes – Nova pausa, agora mais prolongada do que as anteriores – O Duo foi praticamente criado pela irmã, Hélcias. E o desejo dele... É poder ressuscitar a irmã. Bom, ou ao menos foi o que ele disse uma vez, depois de eu irritar ele bastante pra me contar qual era o seu desejo – Héber deu um rápido sorrisinho melancólico, lembrando-se de um passado que já considerava perdido – Sabe, Hélcias, eu não posso condenar o Duo... Meus pais trabalham bastante. Eu mesmo convivo muito mais com a minha irmã do que com meus pais... Se algo acontecesse com ela, eu... Tenho certeza de que iria querer fazer tudo o que estivesse ao meu alcance.

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Sentado em sua cadeira de couro, o homem de tez morena observava o computador na mesa a sua frente. Estendendo a mão, pegou a xícara de café e sorveu um gole rápido. Estava em seu quarto, onde gostava de trabalhar. Olhou pela janela por um segundo, que ficava acima da cama de solteiro, na parede à sua esquerda. A paisagem da cidade claramente visível do 33º andar daquele prédio de apartamentos.

Judas gostava de momentos assim, em que deixava a mente espairecer por alguns segundos, antes de voltar ao trabalho. Engolindo o café, seguiu com suas pesquisas. Algumas horas mais cedo naquele dia Duo lhe havia pedido para investigar uma pessoa. Ele imaginou que deveria ser o próximo alvo do jovem, mas fazer perguntas não era de seu feitio.

Agora, contudo, uma série de perguntas ia lhe surgindo na mente, conforme avançava com a pesquisa. Precisaria ainda ligar para alguns contatos, procurar informações que não se acha apenas com o mover de um mouse. Levaria tempo, sem dúvida. Mas já tinha certeza de uma coisa: se aquele era o próximo alvo de Duo, seu cliente havia feito uma péssima escolha.