The Game

18 Parte 1 - Capítulo 17 - Conversas


Hélcias não sabia o que falar. Em silêncio por alguns minutos, tentava absorver toda a informação que Héber havia descarregado em si. Duo certamente não parecia o tipo de pessoa que teria um desejo como aquele. Contudo, aquele era justamente o tipo de desejo que levaria a pessoa a extremos. Salvar uma pessoa amada. Trazer de volta aquilo de mais precioso, que o tempo se encarregou de tirar. Apertou os lençóis da cama com as mãos. Apesar de não gostar de admitir, ele precisava concordar com Héber: o motivo de Duo era compreensível.

–Mas... Eu ainda acho que ele está errado... – O tom de Hélcias era um quase sussurro. Contudo, ainda assim atraiu a atenção de Héber, que olhou para Hélcias com certa confusão – Héber, você tem razão. O motivo do Duo é compreensível. Mas... Isso não muda nada – Ele acrescentou, com uma expressão séria – Se ele está disposto a sacrificar a vida de outros, nenhum motivo pode tornar isso algo aceitável.

–É, mas...

–Pra ser sincero... – Hélcias continuou, cortando a fala de Héber. Queria falar tudo o que precisava – E não posso dizer que entendo o que o Duo sente. Eu nunca perdi alguém próximo. Além disso, eu sou filho único. Mas... Todas as pessoas que já entraram em coma ao longo desse jogo... Com certeza eram irmãos de alguém, filhos de alguém, amigos de alguém... E tirar a vida dessas pessoas... Para o próprio bem... – Os olhos de Hélcias pareceram se encher de lágrimas por um momento, sendo rapidamente limpadas com as costas de sua mão – Não se pode amenizar sofrimento causando ainda mais sofrimento!

–Hélcias... – Héber ficou e silêncio por alguns segundos, pensando no que Hélcias havia dito. Ao final, deixou um leve sorriso bem humorado surgir em seu rosto – É... Você tem razão... Mas... – Mais uma vez, seu olhar assumiu um ar melancólico – Eu realmente não consigo condená-lo, afinal... Mesmo que sejam os meios errados.

–Uma pessoa é definida por suas ações – Hélcias disse, abaixando a cabeça – Ideais e morais são lindos, mas no final o que conta são as atitudes de cada um. Por mais importantes que possam ser os motivos, os fins não podem, nunca, justificar os meios – Mais uma vez, ele sentiu as mãos se cerrarem nos lençóis da cama.

Héber desviou o olhar. Mais uma vez, deixou-o vagar pela cidade que se estendia além da janela. Imaginou onde Duo estaria agora e o que estaria fazendo. “Eu só... Queria poder ajuda-lo... De alguma forma”, pensou, sem se atrever a dizer. Respirou fundo. E mais uma vez. E uma terceira. Então, colocou um sorriso no rosto. Aquela conversa não levaria a lugar algum e no momento uma discussão era a ultima coisa que Hélcias precisava.

–Ah, mas vamos deixar isso pra lá – Ele comentou, voltando a olhar Hélcias, agora com um sorriso animado – Hey, que tal jogarmos um pouco pra matar o tempo? Er, no mundo real, é claro. A última coisa que queremos é você desmaiando de novo.

Hélcias ficou com uma expressão de bobo por alguns segundos, mas logo deixou um sorriso sincero lhe surgir no rosto. Héber tinha razão, era melhor deixar aquele assunto de lado. Não era como se fossem chegar em um acordo, muito menos como se aquela discussão fosse afetar as ações de Duo. O melhor que Hélcias podia fazer agora era tentar relaxar e se divertir. Se distrair. Sim, eis ai algo que sempre lhe trouxe conforto: deixar de lado os problemas, ânsias e preocupações e se distrair com algo.

–Hum. É uma boa – Ele respondeu, retribuindo o sorriso – Só preciso pegar meu deck. Onde vocês deixaram a minha mala?

–Ah, ficou lá em baixo – Héber respondeu, se levantando da cama – Fica ai um pouco. Eu vou buscar e a gente já joga – Ele disse, conforme corria para a porta, deixando o quarto de forma apressada.

Sentado na cama, Hélcias olhou pela janela um momento. Deixou a mente vagar por um breve momento, relembrando-se do que acontecera no duelo contra Duo. Por um momento, o sorriso lhe deixou o rosto. Uma expressão séria surgindo, e depois uma melancólica. “Daqui pra frente... O que vai acontecer?”

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Hélcias entrou em seu quarto. Já passava das dez da noite quando havia chegado em casa. Passara a tarde toda na casa de Héber e inclusive jantara por lá. Curiosamente, até o momento que saiu de lá os pais de Héber não haviam chegado. Héber lhe explicou, durante o jantar, que era normal e que seus pais costumavam chegar em casa somente após as onze e meia da noite, por conta do trabalho que tinham. Héber não disse qual era o trabalho, mas Hélcias também não perguntou, então não comentaram mais nada a respeito.

Uma vez em casa, Hélcias tomara um banho demorado, deixando que a água do chuveiro lhe lavasse o corpo ainda bastante cansado. Agradecia por ainda estar de férias, pois certamente não sentia que poderia acordar cedo no dia seguinte, ainda que naquele momento em especial não estivesse exatamente com sono. Assim, logo que saiu do banho foi até seu quarto, sentando-se na cama e pondo em seu colo seu notebook. Havia alguns dias que entrava quase diariamente no site que Esídio lhe recomendara, mas ainda não se acostumara com o procedimento, complexo dada a localização do site: a deep web.

Por definição, se incluem na Deep Web os sites que não podem ser encontrados por ferramentas de pesquisa convencionais. O popular dito “se o google não acha, não existe” é completamente posto abaixo por estes sites. Compreendendo a imensa maior parte da própria internet, cerca de 70 a 75% de todo o conteúdo desta, a Deep Web somente pode ser acessada por programas e navegadores específicos. O acesso a ela é imensamente desencorajado, dado os conteúdos existentes. Fora o que poderia ser considerado o “menos pior”, como sites relacionados a estupros ou pornografia infantil, toda uma rede de matadores de aluguéis, hackers profissionais e mesmo canibais se estende por esta parcela da rede virtual de computadores. Para além disso, é um ambiente repleto dos mais variados vírus, muitos deles criados por agentes federais como formas de identificar criminosos. Em suma: um clique errado e você poderia acabar com a polícia batendo à sua porta.

Procurando meios de entrar, o método que Hélcias encontrou era bastante complicado para alguém que não dominava grandes coisas de computação. Primeiramente, precisava instalar uma Máquina Virtual em seu próprio computador. Em seguida, instalar o Windows nesta máquina virtual e, por segurança, ao menos quatro antivírus diferentes, todos atualizados. Restava, então, um programa que pudesse esconder seu endereço de IP, bem como um navegador que fosse capaz de entrar nos sites da Deep Web. O escolhido foi o popular Tor e, uma vez cumpridas todas as etapas, Hélcias acreditava que ganharia acesso a qualquer site na Deep Web de forma mais ou menos segura.

Restava, assim, digitar, mais uma vez, a conhecida URL, um emaranhado confuso de letras e números, que o direcionou ao site desejado. A tela ficou completamente preta e um pequeno retângulo pedia um nome de usuário. Não havia qualquer necessidade de registro e o nome escolhido poderia ser alterado a cada vez que o usuário entrasse, então Hélcias não pensou muito, simplesmente escrevendo a primeira combinação aleatória de letras que lhe veio à mente. A tela, então, mudou novamente, e o que surgiu aparentava ser um simples fórum.

A página inicial do fórum possuía dois tópicos apenas, cada um direcionando para outra área do fórum. O primeiro era nomeado “Card games”. Ao clicar neste, o usuário seria redirecionado a outra área, onde uma nova lista de tópicos se apresentava, cada um dizendo respeito a um card game em específico. Clicando em um destes, o usuário seria levado a uma nova área, esta contendo tópicos sobre notícias recentes, discussões de combos e deck, entre outros assuntos relacionados àquele card game em particular. Já o segundo tópico da página inicial era chamado apenas de “General Discusion” e, uma vez clicado neste, o usuário seria redirecionado a uma área com tópicos dos mais variados. Todos, contudo, com um tema em comum: o Jogo que vinha acontecendo ao redor do mundo.

Alguns dias atrás, quando deixava a Fights após todas as explicações que Héber lhe dera, bem como algumas partidas contra o mesmo, que serviram para testar as cartas novas que comprara, além de aprender a jogar os card games que desconhecia, Esídio pedira para falar com ele. Lhe passando o endereço do site, explicou a natureza daquele fórum. Alojado na deep web, ninguém sabia de fato quem seria o criador daquilo, mas era fato que se tratava de um site de fama internacional voltado para debates que pudessem ajudar os jogadores ao redor do mundo. Dali saíra a maior parte das explicações que Hélcias ouvira, além de muitas mais, bem como teorias ainda não muito aceitas ou comprovadas. Se alguém desejava entender melhor aquela situação toda, aquele fórum seria o melhor lugar para se olhar.

Ao longo dos últimos dias, Hélcias conseguiu achar diversas informações curiosas naquele fórum, embora nada que ele pudesse clamar como novo. Era especialmente divertido ler os tópicos com teorias a respeito da origem das pedras, com sugestões que variavam de seres de outra dimensão a algum experimento científico que deu errado ou, mesmo, extraterrestres. Chegava a ser difícil escolher a mais absurda, ao mesmo que tempo em que, dadas as condições em que estavam, qualquer uma delas poderia ser perfeitamente válida. Contudo, desta vez, um tópico chamou a sua atenção. Parecia ter sido criado há poucas horas e tinha um título bastante estranho, especialmente por estar em português: “Procuro por ajudantes para testes a respeito do Jogo de modo geral”. Hélcias clicou ali e leu a, ainda, única postagem do tópico:

“Olá a todos. Escrevo aqui em Português por um duplo motivo. O primeiro deles é o fato de que esta é a minha língua materna, bem como a que melhor sei falar. O segundo motivo, contudo, é mais de ordem prática. Para o objetivo que tenho em mente, eu preciso ser capaz de me comunicar plenamente com qualquer possível parceiro. Portanto, se você não entende o que está escrito aqui, certamente não é o tipo de pessoa que procuro (embora você também não vá entender isso rsrs).

omo é sabido, já faz em torno de quatro anos que o estranho Jogo em que nos metemos começou. Ainda assim, muito pouco é conhecido. Suas origens e mecânicas específicas, entre outros elementos ainda nos são completamente estranhos. Em parte, isso certamente se deve ao fato de que nenhuma pesquisa científica de fato pode ser conduzida, por motivos óbvios. Mas isto não significa que seja impossível conseguirmos algum conhecimento sobre nossa situação!

Eu planejo realizar uma série de testes, nada invasivo, claro, com o objetivo de entendermos melhor nossa situação. Mas não posso fazer isso sozinho. Preciso de ao menos um parceiro. Se você mora no Brasil e fala português fluente, mande-me um MP para que possamos conversar. Sei que um pedido destes pode parecer no mínimo suspeito, mas eu garanto: meu único interesse é em obter mais conhecimento sobre esta nossa situação.”

Terminando de ler a postagem, Hélcias deu um leve sorriso para si mesmo. Era preciso ser imensamente idiota para cair em algo assim. Na melhor das hipóteses, era alguém tentando enganar iniciantes desesperados a se encontrar com ele, momento no qual o criador do tópico poderia usar para força-los em um jogo. E isso na melhor das hipóteses.

Com a noite já avançada, Hélcias fechou o navegador e desligou o notebook. Pondo-o de lado, sobre o criado mudo, sua mão foi levada até a gaveta deste. Dela, tirou um pequeno frasco. Uma simples ajuda para que conseguisse adormecer. Não poderia arriscar mais sonhos como o que tivera mais cedo. Despejando na mão a quantia prescrita em bula, ele a levou para a boca, engolindo em seco. Deitou-se. Não demoraria a adormecer. Poderia finalmente deixar aquele dia para trás. E, com um pouco de sorte, tudo o que acontecera nele.

–/-/-/-

Duo entrou na cafeteria. Àquela hora da manhã, em um dia de semana, o local estava quase lotado. Olhou em volta, procurando por um local vazio, quando o viu. Nos fundos do estabelecimento, em uma mesa afastada mesmo das janelas, ali estava Judas. Duo olhou seu relógio. Nove em ponto, exatamente o horário que combinara com ele. Estranho. A rapidez com a qual Judas o chamou, dizendo ter as informações que pedira, foi incomum: fazia apenas dois dias desde que pedira a ele que investigasse Hélcias. Mas aparecer antes do horário e espera-lo... Havia algo de estranho ali, sem dúvida.

–Eu sinto lhe informar – Duo disse, conforme se aproximou da mesa, sentando-se na cadeira imediatamente oposta à de Judas – Mas acredito que seu relógio está adiantado. Você chegou na hora.

Duo lançou um olhar para o homem a sua frente. Ao contrário de si próprio, que usava uma bermuda marrom, Judas usava calças jeans azul-escuro. Duo estava com uma camiseta branca simples, enquanto Judas usava uma camiseta social bege, com os dois botões mais acima agora abertos.

–Assim você me ofende Duo. Eu sempre chego na hora – Judas comentou, com um claro sorriso zombeteiro, em tom de mentira forçada – Em todo o caso, não deveríamos perder muito tempo – Ele pegou a maleta que estava em seu colo, colocando-a sobre a mesa – Consegui algumas informações que podem te interessar.

–Fácil assim? Sem piadinhas ou enrolações? – Duo comentou, conforme via Judas espalhar alguns papéis sobre a mesa – O que deu em você?

–Digamos apenas, Duo, que eu sei quando é o momento de ser sério – A expressão de seriedade com a qual ele olhou Duo impediu qualquer comentário jocoso deste. O que quer que ele tivesse descoberto, certamente não era de pouca importância – Aqui – Ele jogou alguns papéis na direção de Duo, que prontamente os pegou – Eu não sei o que você pretende com esse garoto, Duo, mas fica aqui o meu conselho: não faça.

–Isto é... Sério? – Judas meneou um “sim” com a cabeça. Duo releu o título da notícia de jornal que seu interlocutor havia imprimido, incapaz de crer no que lia. Os olhos abertos em uma expressão de surpresa – É... Bem difícil de acreditar. Mas essa foto... Com certeza é o Hélcias, ainda que mais novo...

–Bem, isso já faz uns quatro anos – Uma garçonete apareceu, entregando um café que Judas devia ter pedido antes de Duo chegar. Aproveitando a oportunidade, Duo fez seu pedido, antes de ambos verem a garçonete ir embora – Eu honestamente não me meteria com esse garoto, Duo. Se ele fez isso aos treze anos... Quem sabe o que pode fazer agora.

–Vamos, isso é um exagero – Duo jogou os papéis na mesa – Você mesmo disse, já faz quatro anos. Eu já encontrei com o garoto algumas vezes e posso dizer que é praticamente impossível de acreditar que um chorão como ele tenha feito algo assim, ou ao menos que voltaria a fazer.

–Você pode ter razão. Mesmo na época foi muito difícil de acreditar que ele foi o responsável por isso. Todas as testemunhas chamadas descreviam o garoto com um introvertido que beirava o depressivo, do tipo que faria muito mais mal a si do que a outros – Judas tomou um gole do café, antes de continuar a exposição – A explicação, contudo, foi bastante convincente – Ele tirou mais alguns papéis da pasta – Esta foi a defesa apresentada pelo advogado dele. Eu grifei a parte mais relevante.

–Eu nem vou perguntar como você consegue essas coisas – Duo pegou os papéis e leu as partes grifadas. Imediatamente seus olhos se abriram ainda mais do que antes – A defesa para assassinato foi... Transtorno de Personalidades Múltiplas?!