The Game

16 Parte 1 - Capítulo 15 - Hélcias vs. Duo IV


Hélcias puxou sua carta. Mais um monstro. Já fazia alguns turnos que tudo o que seu deck lhe dava eram monstros inúteis cuja única função possível era a de serem setados, apenas para morrerem para o próximo ataque do monstro de Duo. Felizmente, Duo parecia não conseguir tirar qualquer novo monstro, mas a quantia de cartas setadas em sua back roll aumentava a cada turno. Parecia obvio que ele falara sério: tomara largas medidas para que a proteção de seu monstro fosse garantida.

–Hey Hélcias – Duo chamou, olhando ao oponente com um olhar zombeteiro, logo após mais um dos monstros defensivos de Hélcias ser esmagado pelo raio luminoso de Eltanin – Por quanto tempo você acha que isso vai seguir, em? Eu me pergunto... O que será que vai acontecer quando acabarem os seus monstros? Você devia logo poupar o nosso tempo e se render de uma vez. Está mais do que na cara que nada nesse seu deck pode me vencer.

–Você está errado! – Hélcias gritou, como que tentando afirmar o que ele no fundo sabia ser uma inverdade – Eu tenho certeza... De que existe alguma saída!

–Pura e simples estupidez – Respondeu Duo – Com as cartas que tenho setadas pode ter certeza de que por efeito o meu monstro não sai de campo. E ainda que por algum milagre você consiga invocar algo que ultrapasse cinco mil pontos de ataque, tenha certeza de que eu tenho também cartas para me proteger disso. Aceite logo de uma vez, Hélcias: você não pode vencer!

–Cala a boca! – Hélcias gritou. Mais uma vez, Duo podia notar o desespero crescendo no garoto. Contudo, desta vez não se deixaria levar. Se ele estava finalmente se entregando ou se era apenas um estágio passageiro ele teria de esperar para ver – É o meu turno, draw! – Olhando a carta que puxou, sua careta de desgosto apenas aumentou – Eu seto um monstro e encerro!

–Isso é além de burrice! – Duo já estava ficando irritado com a insistência do jovem. Um novo ataque e mais um monstro era destruído. Quantos já foram com isso? Seis? Sete? Já nem sabia mais. Exceto uma só vez em que Hélcias precisara invocar ao Blaster do cemitério, dada a falta de monstros em sua mão, o jogo se mantinha o mesmo desde que Eltanin entrara em campo – O que você acha que vai acontecer? Todas as suas jogadas estão seladas, todas as possibilidades eliminadas e seu deck já prova isso, te dando nada além de paredes que caem uma a uma. Aceite: você perdeu!

Hélcias já não queria ouvir mais nada daquilo. Sem responder, simplesmente colocou as mãos nos ouvidos. Não aguentava mais. Não podia aguentar. Ter tanto em jogo. Tanto a perder. Podia quase sentir sua vida se esvaindo, podia quase ver seu corpo definhando numa cama de hospital. Podia imaginar que nos primeiros dias todos os seus amigos e familiares viriam vê-lo, mas isso não duraria. As pessoas são ocupadas, tem suas vidas a tocar e desejos a perseguir. E logo ele ficaria sozinho. Talvez, depois de alguns anos, tirassem dele as máquinas que o alimentam, em fim lhe deixando morrer por inanição. Sentiria alguma coisa? Notaria algo? E o que aconteceria depois disso?

Quanto mais ele pensava, mais ele gritava. Não em voz alta, mas para si mesmo. “Eu não quero isso!” ele pensava, vendo as cenas imaginárias do que seria sua vida passando diante de si. “Já chega! Eu não quero! Eu não aguento!” Cerrando os olhos com força, apertando as mãos aos ouvidos, queria se isolar do mundo. Não veja. Não escute. Não sinta. Se fechar os olhos e fingir que não está lá, um dia isso vai acabar. Sim. Já se sentira assim antes. Já agira assim antes. Lágrimas brotaram de seus olhos, escorrendo por seu rosto. Os soluços do choro contido aumentando.

“Será que eu... Não posso viver em paz?”

– ... Você vai se entregar?

“Não é como se eu tivesse escolha... Eu não quero, mas...”

–Você tem escolha. E você sabe qual é...

“Mas... Mas...”

– ... Então é isso? Prefere acabar em coma?

“Não! Mas... Eu... Não posso, não posso!”

–O que você não pode é vencer, não nesse estado. Então se é para chorar, ao menos saia do caminho e me deixe te ajudar!

“Como da ultima vez?! Como ainda pode me pedir isso?! Droga, por que você não some?!”

–Porque você é fraco. Só por isso.

“...”

–Responda de uma vez: você vai desistir, Hélcias?!

Duo olhava ao oponente com impaciência. Já tinha dado o próprio turno por encerrado, mas Hélcias nem havia comprado sua próxima carta. Não que fosse fazer qualquer diferença, era quase certo que seria apenas mais um monstro. Mas, ainda assim, ele gostaria que aquela partida andasse mais rápido. Ou, ao menos, que Hélcias admitisse logo a derrota. Contudo, quando Hélcias finalmente abaixou as mãos e ergueu o rosto Duo foi fulminado com seu olhar. Qualquer possível traço de medo ou angustia havia desaparecido. Em seu lugar, tudo o que restara era um olhar assassino, frio, que fez a própria alma de Duo se arrepiar.

–Meu turno – Hélcias disse. O tom era neutro, completamente desprovido de qualquer emoção – Draw – Ao comprar a carta, contudo, um leve sorriso lhe surgiu no rosto, embora desaparecendo tão rápido veio – Da minha mão eu seto quatro cartas. E encerro.

–Hunf... Ainda querendo continuar, não é? – Recuperando-se do olhar de Hélcias, Duo retomara as provocações – É inútil. Não pense que um bando de blefes vai me parar. Hélcias, esse jogo já acabou, admita logo isso – Ele zombava, sorrindo.

–Faça a sua jogada ou eu peço tempo – Hélcias respondeu, frio. Os olhos se estreitaram, dando a eles uma aparência ainda mais intensa – Eu já estou cansado de ouvir tanto bla bla bla de alguém cuja existência é assim tão patética, então faça a nós dois um favor e cale esse esgoto que você chama de boca.

–Sabe Hélcias, se a sua intenção é me ofender, você definitivamente precisa melhorar – Duo respondeu – Mas me diga, Hélcias, o que aconteceu? Você parecia estar prestes a cair de joelhos e agora está tão confiante... O que, encontrou a Iluminação ou algo assim?

Mais uma vez, Duo via Hélcias passar de uma situação de completo desespero para uma calma quase mecânica. Desta vez, contudo, ele não subestimaria esse estado. Queria saber o que acontecera. Saber o que poderia passar pela mente de alguém para causar tamanha mudança comportamental. E, uma vez que soubesse o que dava tanta segurança a Hélcias, poderia jogar com aquilo. Brincar com aquilo. Eliminar aquilo. Qualquer jogo é, antes de tudo, um jogo mental. E a maior arma que se pode usar é a psicológica. Jogadores perturbados emocionalmente cometem erros. Erros fatais que lhes custam a partida. Hélcias, contudo, manteve-se em silêncio por alguns instantes após a pergunta.

–Hum... Tempo! – A única fala de Hélcias, seca, carregada de ódio, fez surgir à frente de Duo o mesmo relógio que antes aparecera para Hélcias – Por favor, continue tagarelando. Eu realmente agradeço a vitória fácil.

–Hunf, que seja. Draw – O saque de Duo fez desaparecer o relógio – Eu não sei o que você está planejando, Hélcias, mas essa partida acaba aqui. Eltanin, ataque! – Mais uma vez, a imensa boca central da criatura metálica se abriu, o raio de luz partindo na direção de Hélcias – Esse duelo acabou...

–Não exatamente – Respondeu Hélcias, mantendo ainda o tom seco – Eu ativo agora a minhca carta armadilha: Survival Instinct. Com ela, eu posso banir quantos monstros do tipo dinossauro eu quiser do meu cemitério, ganhando assim 400 pontos de vida para cada um banido por este efeito.

–Como se eu fosse deixar essa merda de jogo continuar! – Gritou Duo – Em resposta á sua armadilha, eu ativo a minha: Dark Bribe! Repetindo: este duelo acabou!

–Repetindo, não exatamente – Hélcias respondeu, deixando agora transparecer um rápido sorriso zombeteiro – Em resposta a esta sua carta, eu ativo a minha: Dark Bribe! – Os olhos de Duo se arregalaram em espanto. Ao final, Hélcias realmente ainda tinha mais uma jogada preparada – Com isso, eu agora irei banir 8 dinossauros do meu cemitério, recebendo um total extra de 3200 pontos de vida!

Com a adição de 3200 pontos de vida aos já existentes 2100, o ataque de cinco mil do monstro de Duo não pôs um fim ao jogo. Ainda assim, após as ondulações na parede invisível se dispersarem por completo, só restava a Hélcias meros 300 pontos de vida. Sem mão e com apenas duas cartas setadas, sua situação continuava, no mínimo, desesperadora. Ainda assim, tudo o que Duo podia ver naqueles olhos era uma raiva e ódio intensos.

–Hunf... Eu seto uma carta e encerro – Olhando para Hélcias, retribuindo o olhar de ódio, Duo já começava a ficar irritado. Por mais que o jogo se mantivesse a seu favor, a insistência do oponente em prosseguir já o estava perturbando – Sinceramente, eu não entendo. Este jogo já está perdido. Querer continuar numa situação assim, sem qualquer chance de vitória... Hélcias, você não passa de um idiota ingênuo...

–Ingenuidade, Duo, não é seguir em frente quando tudo parece perdido – Disse Hélcias, comprando sua carta – Mas sim aceitar a derrota e se deixar cair só porque é mais confortável. – Olhando a carta em sua mão, Hélcias logo se virou para encarar Duo – Não pense que eu vou fugir ou desistir, pois enquanto eu estiver de pé eu ainda posso te arrebentar a cara! Eu ativo a minha carta armadilha: Evo Singularity!

–Ta bom, tanto faz, é inútil discutir com você – Duo respondeu, claramente cansado daquelas trocas de gentilezas – Em resposta, eu ativo minha outra Dark Bribe. Eu não sei o que você tem em mente, mas eu vou garantir que você não tenha nenhum meio de alcançar o que quer. Lute a vontade, se debata como um peixe foda d’água. E, como ele, morra!

–Eu sinto, mas isso não está nos meus planos – Um leve sorriso surgiu no rosto de Hélcias – Mas eu preciso agradecer a você por ter gasto sua Dark Bribe. Uma carta que pudesse negar minhas magias ou armadilhas certamente seria incômoda agora – Os olhos de Duo se cerraram de leve com este comentário, claramente imaginando que significado isso teria – Da minha mão, eu agora invoco meu monstro em modo de ataque. Apareça, Tyranno Infinity!

Só de ouvir seu nome os olhos de Duo se arregalaram. Do pilar de invocação de Hélcias, o que surgira fora um imenso tiranossauro. De seu crânio, contudo, partiam dois enormes chifres que se curvavam para a frente. Para além disso, todo o corpo da criatura parecia envolto em algum tipo de energia, cujos veios multicoloridos dançavam ao redor do monstro. O que assustava, contudo, não era sua aparência, mas seu efeito: para cada dinossauro banido, este monstro ganhava mil pontos de ataque. Ao longo do jogo, entre os efeitos do Blaster e a recente Survival Instinct, Hélcias havia banido nada menos do que dez dinossauros, totalizando assim um aterrador ataque de dez mil. Tudo isso direcionado ao monstro de Duo tão logo o de Hélcias pisou na arena.

–É uma boa tentativa... Mas ainda assim fracassada – Duo comentou, quando viu a imensa criatura vindo em sua direção – Eu já disse que estava preparado para isso. Eu ativo minha ultima carta invertida: Mirror Force!

No momento em que tentou pisar no lado de Duo, a imensa criatura atingiu o que pareceu ser algum tipo de barreira invisível. Esta, contudo, diferentemente daquelas que protegia aos jogadores, brilhou de forma intensa no local onde foi atingida. Uma luz dourada que se condensou mais e mais, até finalmente partir da parede como um raio intenso, que atravessou o estranho dinossauro. Estava destruído. O jogo estava acabado, Duo tinha certeza. Porém, ainda assim, Hélcias não parecia afetado. Seu rosto não mudara. O olhar assassino em nada fraquejou. E, quando ele falou, Duo entendeu o porquê.

–E eu ativo a minha ultima... Call of The Haunted. Ressurja agora, meu Tyranno Infinit, e ponha um fim definitivo nesse jogo! – Mais uma vez o pilar surgiu. E mais uma vez a enorme criatura saltou deste, indo em direção ao monstro de Duo. Contudo, agora ele estava definitivamente desprotegido – Duo... Morra seu pedaço de bosta!

Destruição. Uma explosão seguindo a forte mordida que o monstro de Hélcias dera no de Duo. Incapaz de tirar os olhos da cena que encerrara o duelo, Duo se quer viu seus pontos de vida caindo à zero. E, finalmente, mais rápido do que o piscar dos olhos, todo aquele espaço se desfez. Como uma cena mal cortada em um filme de baixo orçamento, antes que pudessem se dar conta já estavam ambos de volta ao átrio de entrada da galeria onde tudo aquilo começara. Pessoas iam e vinham, na rua carros passavam sem se importar com o mundo ao redor. No pescoço de Hélcias, seu colar agora exibia quatro pedras.

–Seu... – Duo deu um passo à frente, mas se conteve. Podia sentir o corpo se desgastando. Mesmo para um veterano como ele, entrar em três campos seguidos já estava começando a se mostrar um fardo para seu corpo. Insistir em mais uma luta seria arriscado. E, ainda que chegasse a pensar em partir para a violência pura, havia muitas pessoas ao redor para isso ser seguro. Ele inspirou fundo, deixando o corpo relaxar – Ok. Tudo bem. Você venceu. Eu estou indo embora.

Ele não disse mais nada. Nenhuma ameaça, nenhum comentário, apenas um leve empurrão com o ombro quando passava perto de Hélcias. Este, por outro lado, permanecera parado em pé ali na entrada da galeria. “Eu... sou mesmo patético” ele murmurou para si mesmo em sua mente. Uma lágrima rolou pelo seu rosto. E, então, tudo ficou escuro. Nem se quer sentira o impacto com o chão, muito menos ouvira as vozes assustadas que gritavam sobre o garoto que acabara de desmaiar na entrada da galeria.

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Do outro lado da rua, as duas garotas ainda olhavam da janela do café. Dali, puderam ver que um dos dois jovens que ainda há pouco pareciam estar discutindo simplesmente deixou a galeria, aparentemente após trocar brevíssimas palavras com o outro garoto. O que restou, por sua vez, parecia bem a princípio, mas tão logo o outro deixou a galeria ele desabou, caindo com força no chão, aparentemente desmaiado. Algumas pessoas apontaram, aparentemente assustadas com o ocorrido, e tão logo ele caiu já começava a se formar um círculo humano ao seu redor. Já era o suficiente.

–Já vai embora? – A pergunta de Jewel foi calma, acompanhada de um sorriso gentil.

–Hum – A morena meneou a cabeça de leve conforme se levantava da cadeira, rapidamente dando as costas para a colega de mesa – Eu já vi o que precisava – Ela deu um passo e, então, parou – Sabe... Pode ser que, afinal, um vencedor realmente surja logo...

–Gostou do garoto, não? – Jewel colocou um sorriso zombeteiro no rosto, ainda que a morena não o pudesse ver – Mas bem, não é como se eu não entendesse, em parte... Ele realmente tem potencial, aparentemente... Ainda assim, potencial não é tudo. O que viu nele que a fez mudar de ideia assim tão rápido?

–Uma enorme resolução – A morena respondeu, após alguns segundos de silêncio, para então se dirigir à porta de saída.

–Hey – Jewel chamou, fazendo a morena parar a meio caminho da porta do estabelecimento – Que tal me dizer seu nome na próxima vez, em?

Não houve resposta. Em silêncio, a morena deixou o recinto.

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–Alo? – Falando ao celular, Duo agora atravessava a rua – Oi Judas. Não, não tem a ver com aquele incidente, é uma outra coisa – Fez uma pausa, deixando o outro falar alguma coisa – É uma investigação. Quero informações sobre uma pessoa. Infelizmente eu não sei o nome completo. Mas o primeiro nome não é nada comum, deve ser fácil para você – Mais algumas palavras vindas do outro lado da linha – Hélcias. O nome dele é Hélcias. Certo, eu aguardo então. Obrigado – E desligou o telefone.