The Fall of Dead Minds
4 Capítulo III
Notas iniciais
Ver Steve. Para Natasha, essa era a parte mais complicada. Depois de tanto tempo, temia que parecessem estranhos um para o outro, mesmo com a presença cada vez mais constante dele em seus pensamentos mais promíscuos. Não sabia se ele tinha encontrado alguém; mesmo que algum tempo atrás, ela mesma tenha o convencido a sair com algumas mulheres de sua convivência — o que não deu muito certo, porque transar no primeiro encontro não era algo do século dele.
Ela estacionou na frente do endereço que lhe falaram e esperou até a hora que também lhe falaram. Logo ele apareceu, acompanhado de Sam. Ambos vestiam trajes leves e tênis de corrida e pela maneira que a camiseta de Sam estava molhada e o jeito que Steve agia, parecendo zombar do amigo, estavam correndo.
Despediram-se e o negro entrou no carro estacionado na frente do prédio. Steve esperou até que o carro dobrasse a esquina para entrar. “É hora de ir”, Natasha pensou.
Saiu do carro e atravessou a rua, com passos ligeiros. Entrou e passou pelo porteiro, que apenas a cumprimentou, sem se preocupar em perguntar seu nome ou qualquer coisa ao seu respeito. Subiu pelas escadas até o quarto andar. O apartamento era o 425, do lado esquerdo do corredor.
A porta estava entreaberta. Ele havia aprendido alguma coisa afinal.
Empurrou a porta com suavidade e entrou. O apartamento estava bagunçado, o que era muito estranho vindo do Capitão América. Mas por baixo de várias roupas, livros e papéis, o apartamento parecia um pouco mais novo e bonito que o anterior (não que ela tivesse visitado o antigo). Reparou nos detalhes. Na TV, passava a animação Megamente, o que era quase cômico. Na mesinha de centro, tinha livros com aparência escolar, várias folhas e canetas. Largou a pasta que trazia sobre a mesa de jantar.
— Na cozinha! — ele respondeu, sem nenhuma pergunta ter sido feita.
Ela seguiu até lá, a passos lentos e silenciosos. Era uma cozinha clara, pequena, mas prática. Steve estava passando café e parecia ainda maior naquele pequeno espaço. Ainda usava as mesmas roupas esportivas de antes.
— Nat — ele a olhou pelo canto do olho, segurando a xícara e a enchendo com o líquido escuro.
— Steve — ela disse, cruzando os braços. Sentiu o estomago se revirar e respirou fundo para evitar agir como uma adolescente, encantada com o corpo do homem. Já deveria ter se acostumado com quão gostoso e bonito era o Capitão América — mas sempre que o via, ainda mais dessa maneira tão descontraída, era impossível não olhar.
— Como vai? — ele perguntou, logo após de servir duas xícaras amarelas de café. Veio na direção dela e a entregou uma. — Espero que goste de café; não tenho vodka em casa. — brincou, parando na frente dela.
— Seu senso de humor é tão agradável, Stark ficaria orgulhoso — ela respondeu com uma carranca.
Ele riu e a beijou na bochecha. Seu rosto ficou um pouco vermelho e ele foi ligeiro para a sala de estar. Natasha gostava do jeito de Steve. Ele a fazia rir.
Ela o seguiu, vendo-o tentando arrumar um pouco lugar. Tomou um gole do café. Doce, do jeito que ela mais detestava. Tomou mais um gole.
— Desculpe a bagunça. Não venho tendo muito tempo ultimamente.
Enquanto ele arrumava parcialmente a sala, jogando as coisas dentro de armários e arrumando papéis em pilhas desajeitadas, Natasha dava uma olhada no lugar. Na mesa, havia mais livros e desenhos. Os livros eram escolares, de História, alguns especificamente sobre a Segunda Guerra Mundial e ela não pode deixar de sorrir. Quando olhou os desenhos, ficou surpresa. Ela sabia que Steve gostava de desenhar e fazia isso bem, mas não sabia que ele era tão bom assim. Eram desenhos realistas, quase como fotografias. Alguns com cores e outros não. E ficou ainda mais surpresa em saber que estava em um monte deles, como Viúva Negra e também como Natasha. Conseguia reconhecer algumas cenas da última vez que os Vingadores se reuniram e de quando os dois formaram uma dupla. Até Tony aparecia nos desenhos segurando um copo de uísque, de armadura, mas sem máscara e sentado no Trono de Ferro — “alguém anda assistindo Game Of Thrones demais”, pensou.
Soltou uma risadinha, chamando a atenção do homem.
— O que você está fazendo aí, pequena russa? — o tom dele era mais brincalhão do que acusatório.
— Nada demais... — disse risonha.
— Ah é? — ele perguntou, terminando de colocar as almofadas no sofá no lugar. — Imagino o seu “nada demais”.
Ele se acomodou no sofá, voltando à atenção ao desenho. Levou a xícara à boca, tomando um longo gole. Ela andou até lá e sentou a uma almofada de distância.
— Eu adoro esse filme — confessou, sem desviar os olhos da tela. Natasha o olhou e ele tinha um pequeno sorriso dirigido à tela.
— Estou vendo.
Ele virou o rosto para ela e sorriu de lado. Por dentro, ela quase desfaleceu, mas jamais se permitiria demonstrar tamanho sentimentalismo por alguém, ainda mais dessa maneira; era tão errado. Então, contou até dez, respirou fundo, tomou café e fingiu que ele nunca tinha dado aquele sorriso.
Ela sentou mais na ponta do sofá, esticando o braço para pegar uma folha solta em cima da mesinha de centro, perdida entre os livros e lápis de cor.
— É apenas um desenho bobo — Steve retrucou, tentando tirar o papel de suas mãos, mas ela apenas se esquivou e ele nada fez para evitar.
Era um desenho quase pronto, faltando apenas alguns detalhes do fundo. Era escuro, sombrio e repleto de tonalidades avermelhadas. Era um desenho do Capitão América sendo fuzilado em frente a uma escadaria de marfim. O corpo estava inclinado, começando a cair e na direção dele, mais tiros vinham. O sangue manchava o ar e o chão e quase podia notar rostos em choque ao fundo.
— Isso é... — ela murmurou.
— Um desenho bobo, eu já disse — arrancou o papel das mãos da mulher. Ele levantou e caminhou até a mesa de jantar onde tinham mais desenhos. — São sonhos e lembranças que tenho, sejam boas ou ruins. É um modo que encontrei para não ficar maluco — explicou, juntando os desenhos que encontrou numa pilha e levou até o sofá, entregando para a ruiva. Ela olhava com atenção e dava risadinhas discretas. Ele tinha um talento admirável.
— Falta uma parte — mostrou um desenho do Gavião Arqueiro, onde faltava colorir um de seus braços.
— Eu não lembrava quantas tiras tem no braço — ele coçou a nuca, explicando.
— São quatro — disse, com um pequeno sorriso. Ele tirou o papel da mão dela, sorrindo, e buscou um lápis sobre a mesa, desenhando o antebraço e as tiras que faltavam. — Não sabia que desenhava tão bem.
— Nem eu sabia — brincou.
Enquanto ele desenhava, ela seguiu olhando os desenhos e o Hulk no papel parecia tão apavorante quanto na realidade. Parecia que ele saltaria do papel para esmagá-la quando ela menos esperasse. Deixou a pilha na mesinha e encostou as costas no sofá, olhando para o teto. Ouvia com atenção os barulhos constantes do lápis riscando a folha. Pegou a xícara novamente e a balançou, vendo o líquido rodopiar dentro do recipiente.
— E... Bucky?
Steve a olhou, mordendo a borracha na ponta do lápis. Havia um jeito decepcionado e abatida na maneira como ela a olhou.
— Sam e eu o procuramos por toda a Europa e é como se ele tivesse evaporado. Acabamos... — suspirou — desistindo.
Natasha se permitiu e tocou na mão dele sobre o papel, com compaixão e pena. Ambos se olharam e ela logo retirou a mão. Esperava que ele nada dissesse sobre aquele gesto.
— Hã, porque tantos livros de História? Virou professor? — tentou mudar o assunto.
— Bom... Sim.
Ela o olhou, com uma careta.
— Especializado em Segunda Guerra Mundial — confessou, rindo envergonhado.
— Você só pode estar brincando.
— O que é? Ser professor é tão empolgante quanto ser o Capitão América. Talvez até mais. Os adolescentes de hoje em dia não são fáceis de lidar.
— Se você está dizendo...
— É até mais assustador do que ser herói.
Ela levantou, aproveitando a deixa, e pegou a pasta na cadeira, jogando-a no sofá.
— Acho que vão precisar de um professor substituto para você.
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