The Exorcism

1 Father, son and holy spirit.


Notas iniciais
Boa leitura...

"Salvai-os, arrebatando-os do fogo. Quanto a outros, sede também compassivos em temor, detestando até a roupa contaminada pela carne." Irmã Wanda Merrin ditou, carregando seu terço em mãos, fitando quaisquer cousa no horizonte. Seu olhar estava distante, bastante distante.


"Apocalipse de João, irmã." Walter Merrin soltou. As palavras se suspenderam no ar, fazendo a jovem freira sorrir.


O corpo de uma jovem de 22 anos estava coberta pelas vestimentas de uma freira, coberta do pescoço aos pés. O pescoço ornado por colares com crucifixos de madeira. Os brincos prateados também exibiam crucifixos, longos e de metal. Os cabelos curtos estavam a mostra devido ao tremendo calor.


A jovem Merrin era uma mulher bonita. De lábios carnudos bem desenhados, bochechas coradas e maçãs do rosto bem acentuadas. Os olhos eram a coisa mais linda e delicada de seu rosto, eram perfeitos de cor, um intenso verde acastanhado. Mas neles não existia brilho. Eles demonstravam cansaço, dor.


"Isso mesmo, irmão. Fico contente em saber que tens melhorado teus conhecimentos bíblicos." Ela olhou para a bíblia que carregava junto ao colo, encapada por couro preto. Completamente escrita em latim. Ela a tomou em uma das mãos e a encaixou debaixo do braço.


"Ela também é nossa única arma." Walter riu cínico, olhando a bíblia da irmã. Diferente da irmã, ele era evangélico. A irmã era católica, freira e devota. Mas, ele sabia que eles precisariam lutar juntos contra as entidades que atormentavam a terra.


Walter era um homem sério. Demonólogo, mais experiente que a irmã freira. Um dos protetores do Malleus Maleficarum, fluente em latim, uma língua morta. Sempre visto com ternos e chapéus, com o mesmo colar. O colar de crucifixo amadeirado, com Cristo se retorcendo em dor na cruz.

Os olhos eram como os olhos da irmã. Sem brilho e sem vida. Os lábios eram finos, o maxilar quadrado.


"Ela é uma arma poderosa, irmão. E será nossa única ajuda nesta batalha." Wanda Merrin parou no corredor que atravessava com o irmão. Seus olhos continuavam a fitar o nada, talvez as janelas que haviam no fim do corredor.


"Eu sei, irmã." Walter concordou, com as mãos frias nos bolsos. Sempre odiou a temperatura gélida daquela catedral, jamais gostou daquele lugar.


"A bíblia será tua arma. A tua cruz será a tua impiedosa espada. A tua fé, será teu escudo." A jovem ditou em um belíssimo tom calmo, arrastando a ponta do polegar na testa do irmão, desenhando o sinal da cruz. "In nomine patris, et filii, et spiritus sancti."


"Amen." E então Walter foi abandonado no corredor gélido da Catedral, sabendo o que a irmã estava indo fazer. Estremeceu com o frio e fechou seu paletó. Ele suspirou.


Walter sabia qual caminho seguir para ver o homem com quem queria falar. Deu meia volta no corredor e voltou-se para as escadas. Desceu dois andares e suspirou fundo.


Abriu com força as portas da capela, avistando o pobre homem ajoelhado com as mãos entrelaçadas por seus dedos.


Padre Silas não tinha e nunca teve nada que se assemelhasse a imagem dos frágeis e beatíficos homens idosos que milhares de fiéis acreditam, de modo errôneo, circular pelos arredores das santíssimas catedrais. Apenas um rosário, meio desarrumado, se destacava em seu pescoço. Não usava uma daquelas túnicas pesadas ou coisa assim. Estava vestido com uma batina preta simples que ampliava a solidez de sua substancial constituição física. Deveria estar com quase quarenta anos, trinta e cinco ou trinta e seis. Um mero bebê para os padrões de idade da maior casa de Cristo.


Padre Silas possuía um rosto surpreendentemente esbelto, com um traçado suave e delicado, um rosto desenhado pacientemente por Deus e emoldurado por anjos. Era belo possuidor de bastos cabelos acastanhados revoltos e olhos azuis quase radiantes que brilhavam como se fossem acesos e movidos pelos mistérios do universo. Mas de perto, infelizmente, podia-se perceber naqueles olhos uma profunda exaustão, seguida de, talvez, dor.


Sua voz era despretensiosa e amável, com apenas um ligeiro e adorável sotaque italiano, que sempre se acentuava, por mais curta a frase. Seu sotaque era como uma iguaria agridoce, suavemente adocicado e traiçoeiro, com um incrível gosto de almejo mais.


"Com a graça de Deus, Padre." O irmão Merrin ajoelhou-se junto ao padre.


"Grátia plena."


Por um bom tempo de oração, os dois permaneceram calados. Os olhos de Cristo pareciam repousar sobre o corpo de Merrin.


"Arrependeu-se de seus pecados, irmão?" Padre Silas perguntou, com sua voz calma. Ele era como um anjo, enviado do Senhor. Suas palavras quase socaram o rosto de Walter.


"Não ando pecando o suficiente para ir ao Inferno, padre." Walter manteu o rosto abaixado, colado nos dedos entrelaçados, como se anda estivesse a orar. "Acredito que ainda não me encontro em momento para me confessar."


"Não é questão de céu ou inferno, irmão." O padre disse, encostando a mão no ombro de Merrin. Apertou-o com leve força.


"Eu já vivo no inferno, Padre. E costumo ver frequentemente todos os demônios que lá habitam."


Silas calou-se por um tempo. Fez uma breve oração para o irmão ao seu lado e logo levantou seu rosto, iluminado pelas luzes da capela.


"Irmão... Já soube do caso de Josephine Lauren, de Elm Street?" O Padre levantou, fazendo o sinal da cruz. Sua calma era algo que qualquer um desejaria ter.


"Irmã Wanda já foi pegar os artefatos católicos. Foi benzer a água e os crucifixos. Soube que ela não foi possuída rapidamente. Os pais devem ter pensando que foram hormônios." Walter levantou junto ao Padre, olhando a imagem de Jesus na cruz, com as lágrimas lhe fugindo dos olhos na belíssima imagem.


"Pobre menina... Deus a ilumine." Silas deu um suspiro longo. " Ela tem apenas 12 anos, muito nova para sofrer tanto... O demônio que habita seu pobre corpo está tentando enlouquecer a família Lauren."


"Muito nova, Padre. Mas eu e irmã Wanda iremos tirar os males daquele pobre corpo." Walter fez o sinal da cruz, sem tirar os olhos da imagem de Jesus Cristo.


"Que Deus os guie nessa jornada." O Padre deslizou o polegar na testa do Irmão Merrin, desenhando o sinal da cruz. "In nomine patris, et filii, et spiritus sancti."
"Amen, Pater sanctissime."

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Notas finais
E durmam bem, minhas crianças.