The Evil Within
23 O peso de uma decisão

Durante a tarde, Jimin conversava animadamente com Jungkook, transbordando empolgação. Ele mal conseguia conter a ansiedade para ver Yoongi. Queria compartilhar tudo o que tinha aprendido com Hoseok, mostrar seus novos livros e contar cada detalhe de seu dia. No entanto, ele não fazia ideia de que, do outro lado, Yoongi enfrentava algo difícil e complexo, carregando um peso que Jimin ainda desconhecia.
Quando a campainha finalmente tocou, Jimin disparou até a porta, abrindo-a com entusiasmo. Do outro lado, Yoongi estava ali, como sempre, com seu doce e familiar sorriso. Mas por trás da expressão tranquila, algo em seu olhar parecia diferente.
— Oi Jimin — Tentou na medida do possível sorrir.
De alguma forma, Jimin percebeu que algo não estava certo com Yoongi. Não sabia dizer exatamente o que era, mas sentiu que algo o incomodava. Sem fazer perguntas, simplesmente seguiu seu instinto e fez o que achou ser mais reconfortante naquele momento: o abraçou. Para Jimin, abraços sempre traziam conforto e segurança, e ele esperava que fosse o mesmo para Yoongi.
Yoongi retribuiu o abraço sem hesitar. Estava com saudades daquele baixinho fofo que falava de si mesmo na terceira pessoa, sempre espalhando uma energia leve ao seu redor. O gesto silencioso dizia mais do que qualquer palavra poderia expressar.
Depois do jantar, Jungkook escolheu um filme para assistirem juntos. Jimin pegou sua coberta favorita e se aconchegou no sofá, deitando a cabeça no ombro de Jungkook. Yoongi observou a cena com um sorriso discreto, achando os dois adoravelmente fofos juntos.
Não demorou muito para Jimin pegar no sono, rendido pelo conforto e pelo calor do momento. Com todo o cuidado do mundo, Jungkook o carregou nos braços e o levou para a cama, ajeitando-o com delicadeza antes de voltar para a sala, onde Yoongi o esperava em silêncio.
— Está tudo bem com você? Aconteceu algo? — Jungkook já tinha percebido o jeito triste do amigo.
Yoongi suspirou, desanimado.
— Kook... eu tô fodido!
— Por que? Como assim?
— Eu nem sei como dizer isso...
— Apenas diga, sou seu amigo, amo você e não vou te julgar. Estou aqui para te ajudar.
— Minha vida está desabando, Kook. Eu não sei o que fazer. Me sinto desamparado — A voz de Yoongi começou a falhar.
Jungkook, em silêncio, pousou sua mão sobre a de Yoongi, iniciando um carinho suave, quase instintivo. Não precisou dizer nada — aquele simples gesto era sua forma de transmitir apoio, de deixar claro que estava ali, pronto para enfrentarem juntos qualquer coisa que viesse.
Yoongi permaneceu em silêncio por um momento, sentindo o calor reconfortante da mão de Jungkook sobre a sua. Talvez não estivesse pronto para falar, talvez as palavras ainda pesassem demais. Mas, naquele instante, soube que não estava sozinho.
— Yoon, seja forte. Seja o que for, estou com você nessa.
— Não tem o que fazer. Eu fiz uma burrada e agora vou ter que aguentar as consequências — Yoongi fez uma pausa, tentando conter a vontade de chorar — Kook... eu... eu estou grávido do Victor.
Jungkook arregalou os olhos, a expressão de surpresa estampada em seu rosto. Instintivamente, levou a mão à boca, incapaz de esconder o choque do momento. Não estava preparado para aquilo, nem sequer havia imaginado essa possibilidade. Seu coração acelerou, enquanto tentava processar o que acabara de ouvir.
— Yoon, como você engravidou dele? Que pergunta idiota. O Victor já sabe? O que ele disse? Afinal de contas você não engravidou sozinho né.
— Não, ele não sabe. E nem vai saber!
— Ele também é o pai, tem que saber e tem que te ajudar no que você precisar.
— Kook... você tem ideia que minha vida tá uma bagunça só por causa de uma noite? Ele não pode saber disso, nunca!
— E quando a barriga começar a crescer? O que você vai fazer?
— Não sei se isso vai acontecer — Yoongi olhou para o chão, seus ombros pareciam ainda mais pesados.
— Como assim?
— Eu pensei muito. Estou com menos de um mês, o feto ainda não se desenvolveu. Estou quase tomando uma decisão sobre isso.
— Qual decisão está pensando em tomar? — Jungkook segurou sua mão.
— Acho que não vou ter esse bebê. Estou seriamente pensando em abortar.
Jungkook respirou fundo, tentando acalmar a própria mente diante da tensão do momento. Mesmo com o turbilhão de pensamentos em sua cabeça, ele se forçou a manter a calma. Então, olhou para Yoongi e, com toda a gentileza do mundo, ofereceu-lhe um sorriso suave, um gesto silencioso de conforto. Não importava o peso da situação, ele queria que Yoongi soubesse que não estava sozinho.
— É uma decisão difícil. Posso não saber pelo que está passando, mas sou seu amigo, me preocupo com você e estou aqui para ajudá-lo. Saiba que a decisão que tomar eu irei apoiá-lo. É o seu corpo, você tem todo o direito de tomar a decisão que quiser. Mas creio que seria justo contar isso ao Victor antes.
— Não, não acho que ele precise saber. Foi uma noite e nada mais, não temos nenhum tipo de relacionamento, não devo nada a ele. Estou esperando um filho de alguém que eu mal conheço, de alguém que mal me conhece. Eu não posso ter esse filho.
— A decisão é sua. Mas saiba que você tem opções, não vai ficar desamparado. Mesmo que não queira contar isso ao Victor, eu cuido de você e do seu bebê. Você pode vir morar com a gente. Pode abandonar o caso e excluir o Victor da sua vida se desejar.
— Não posso ficar dependendo de você. Você tem sua vida. Ainda mais agora que está construindo uma vida com o Jimin. Não quero atrapalhar isso. O fato é que eu mal sei cuidar de mim quem dirá de uma criança.
Jungkook suspirou pesadamente. Vendo o desespero nos olhos do amigo, ele o abraçou.
— Estou com você, Yoon. Se decidir realmente que não terá esse bebe, irei acompanhá-lo na clínica. E você pode ficar aqui em casa. Eu e o Jimin vamos cuidar de você.
Yoongi desabou em lágrimas, chorando de forma desesperada, como se finalmente estivesse permitindo que toda a dor acumulada transbordasse. Seus soluços eram amargos, pesados, e Jungkook, sem pensar duas vezes, apenas o segurou com mais força, abraçando-o como se quisesse protegê-lo do mundo. Ficaram assim por um longo tempo, em silêncio, apenas o som do choro preenchendo o espaço entre eles.
Depois que as lágrimas cessaram um pouco, Jungkook preparou um chá quente e relaxante, ajudando Yoongi a se acalmar. Em seguida, o levou até o quarto de hóspedes, onde o acomodou com cuidado.
Jimin, ao perceber a movimentação, despertou e, sem dizer uma palavra, se deitou ao lado de Yoongi. Com gestos delicados, começou a fazer carinho em sua cabeça, tentando transmitir o máximo de conforto possível. Aos poucos, o próprio Jimin acabou pegando no sono, enquanto Yoongi permanecia ali, perdido em seus próprios pensamentos.
Naquela noite, o descanso foi difícil. O sono de Yoongi era inquieto, interrompido por pesadelos que o faziam acordar assustado. Mesmo envolto pela presença silenciosa de seus amigos, a tempestade dentro dele ainda parecia longe de se dissipar.
...
Na manhã seguinte, antes mesmo do sol se erguer completamente, Yoongi saiu de fininho, quase na ponta dos pés. Ele não queria acordar Jimin e Jungkook, muito menos continuar pesando Jungkook com aquele assunto. Por mais que soubesse que seus amigos estavam dispostos a ajudá-lo, algo dentro dele insistia que precisava lidar com aquilo sozinho.
O ar frio da manhã o envolveu assim que saiu para a rua, mas ele sequer sentiu. Sua mente estava ocupada demais com o turbilhão de pensamentos para se importar com o clima.
Foi então que seu celular vibrou no bolso. Taehyung.
Yoongi hesitou por um momento antes de atender. A voz de “Victor”, carregada de preocupação, veio imediatamente:
— Yoon, onde você está? Tá tudo bem?
Yoongi suspirou, tentando manter a voz leve.
— Tá tudo bem, Tae. Só passei a noite na casa de um amigo. Não se preocupe.
Do outro lado da linha, Taehyung ficou em silêncio por alguns segundos, como se tentasse decidir se acreditava ou não. Yoongi sabia que não o enganaria tão facilmente, mas torcia para que, pelo menos por enquanto, aquilo fosse suficiente. Ele não queria envolver mais ninguém. Pelo menos, era o que tentava convencer a si mesmo.
— Quer que eu te busque?
— Não precisa, obrigado. Preciso passar em um lugar.
— Eu te levo — Taehyung tentava de tudo para se aproximar, sentia que Yoongi estava o evitando naqueles últimos dias.
— Tae, não precisa. É sério.
— Está tudo bem? Você não me parece muito bem. Sua voz está tão fraquinha, quer que eu te leve ao médico?
— Estou bem, Tae. Obrigado pela preocupação, mas preciso resolver algo pessoal.
— Tudo bem, Yoon. Posso ao menos buscá-lo depois que você resolver tudo?
— Ok, ok, tudo bem. Me pegue no terminal às duas da tarde.
— Perfeito. Tenho que assinar alguns papéis na empresa e de lá eu te espero no terminal.
— Combinado.
— E Yoon...
— Sim?
— Você é muito especial pra mim. Eu te amo.
Yoongi ficou sem palavras.
— Tae...eu...
— Não precisa dizer nada, só quero que saiba bem disso. Que sempre pode contar comigo.
— Obrigado, Tae.
Yoongi encerrou a ligação com um suspiro, sentindo uma leve melancolia se instalar em seu peito. Ele sabia que Victor não havia acreditado totalmente em sua desculpa, mas, por ora, isso não importava. Sua decisão já havia sido tomada, e, apesar do nó apertado em sua garganta, ele estava firme quanto a isso.
Com um breve deslizar de dedos, desbloqueou o celular e conferiu o GPS. O pequeno marcador piscava na tela, indicando que ele já havia chegado ao seu destino.
Respirou fundo antes de levantar os olhos.
Lá estava ele, parado diante da clínica.
A fachada discreta, as portas automáticas e a luz fria da manhã iluminando a entrada. Seus pés pareciam colados ao chão. Seu olhar, perdido, confuso.
Ele deveria entrar?
Seu coração martelava no peito, sua mente pesava com incertezas. Mas, ainda assim, ele estava ali.
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