The Evil Within
36 O Desenho

Taehyung andava de um lado para o outro na sala de espera, uma pilha de nervos. Nem Namjoon, com toda a paciência do mundo, nem Yoongi, com sua voz calma e firme, conseguiam fazê-lo parar. Ele já estava no quinto giro completo ao redor das cadeiras quando a enfermeira finalmente apareceu.
— Senhor Yoongi? — chamou, consultando a prancheta.
Taehyung praticamente pulou em cima dela.
— Sou o Taehyung! Futuro marido dele e pai dos bebês — anunciou com orgulho, estufando o peito como um pavão.
A enfermeira sorriu, um tanto surpresa.
— Certo… Podem me acompanhar, por favor.
Taehyung correu até Yoongi, pegou sua mão e o ajudou a se levantar com cuidado, como se ele fosse feito de vidro.
Na sala de ultrassom, a ansiedade era grande, especialmente vinda de Taehyung, que mal conseguia ficar parado. Enquanto a médica preparava o gel e ajustava os aparelhos, ele roía as unhas, uma a uma.
— Isso vai demorar muito? — perguntou, praticamente implorando com os olhos.
— Calma, futuro papai ansioso — disse a doutora, rindo com simpatia. — Em alguns minutinhos, vamos descobrir o sexo dos bebês.
Yoongi revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso ao ver o brilho empolgado nos olhos de Taehyung.
Quando Yoongi finalmente estava pronto, a médica ligou o monitor e começou a deslizar o transdutor sobre sua barriga coberta de gel. A imagem em preto e branco surgiu na tela, acompanhada do som ritmado dos batimentos cardíacos. Yoongi olhava curioso, mas tudo o que via eram manchas sem sentido.
— Conseguem ver? — perguntou a médica, apontando para a tela com um leve sorriso.
Taehyung se aproximou, os olhos brilhando. Bastou alguns segundos e ele levou as mãos à boca, chorando sem conseguir conter a emoção.
— O que foi, Tae? O que é? — Yoongi o olhou preocupado.
Taehyung o encarou com os olhos marejados, a voz embargada:
— Yoon… é um menino.
— Um menino? — Yoongi repetiu com surpresa, sentindo o coração acelerar. Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. — Um menino…
— Parabéns, papais! — disse a médica. — Um menino forte e saudável.
Antes que Yoongi pudesse reagir por completo, ela voltou a deslizar o aparelho, procurando o outro bebê.
— Vamos dar uma olhada no segundo… — Ela focou a imagem em outro ponto da tela. — Veja aqui, papai Taehyung.
Taehyung espiou e, de repente, deu um pulo, soltando um grito de felicidade.
— UMA MENINA!
— O quê? — Yoongi se ajeitou, ainda tentando acompanhar. — Uma menina?
— Sim, amor! — Taehyung sorriu entre lágrimas. — Teremos um casal! Um menininho e uma menininha! Yoon, você me deu os maiores presentes do mundo.
Yoongi estendeu a mão, tocando o rosto dele com delicadeza.
— Eu que agradeço por ter você. Por ter essa família.
— Parabéns, papais — disse a médica com um sorriso carinhoso. — Agora começa a parte mais divertida: escolher os nomes!
Eles saíram do consultório com o coração leve e as mãos entrelaçadas, rindo, chorando, fazendo listas de nomes no caminho de volta.
Ao chegarem em casa, encontraram Hye Sung, que os aguardava ansiosa. Quando eles revelaram a novidade, ela soltou um grito de alegria e começou a dançar pela sala.
— UM CASAL! MEUS NETINHOS! — Ela correu direto para o notebook. — Vou comprar roupinhas combinando! Fraldas em dobro! Tudo em dobro! Ah, eu tô tão feliz!
Taehyung e Yoongi riram, abraçados, com a sensação de que, finalmente, tudo estava se encaixando.
...
Era o primeiro dia de terapia de Jimin, e a ansiedade fazia cócegas em seu peito. Ao chegar à clínica, foi recebido por uma moça sorridente na recepção, que verificou seu nome com simpatia.
— Pode se sentar, Jimin. A doutora já vai chamá-lo — disse ela, com gentileza.
Jimin se acomodou em uma das poltronas da sala de espera. Havia uma mesa de centro à sua frente, coberta por revistas coloridas de capas chamativas. As imagens vibrantes pareciam saltar aos seus olhos, mas antes que ele pudesse esticar a mão para folhear uma delas, ouviu seu nome ser chamado.
— Park Jimin?
Ele levantou os olhos e viu uma mulher jovem, de cabelos escuros presos num coque baixo, usando um jaleco branco. Seu sorriso era acolhedor.
— O Jimin... o Jimin está indo — disse ele, um pouco hesitante, levantando-se com cuidado.
— Muito prazer, Jimin. Eu sou a doutora Gen — ela estendeu a mão com doçura.
— O prazer é do Jimin — respondeu ele, apertando a mão dela com cuidado.
Com um aceno de cabeça, ela o convidou a segui-la. Caminharam por um corredor curto até uma porta de madeira clara. Ao entrarem na sala, Jimin sentiu como se tivesse entrado em um outro mundo.
As paredes em tom bege suave deixavam o ambiente calmo e acolhedor. Havia uma mesa de trabalho próxima à porta, com uma cadeira atrás e duas à frente. Ao lado, chamava atenção uma poltrona caramelo aconchegante e um sofá branco de dois lugares, feito de couro macio.
Entre os dois móveis, um tapete felpudo rosa claro cobria parte do chão, convidando a descalçar os sapatos e descansar os pés. Ao lado do sofá, uma mesinha delicada tinha uma jarra de água, dois copos e uma caixinha de lenços. Tudo ali parecia ter sido colocado com cuidado, como se a sala pertencesse a uma casa de bonecas.
— Fique à vontade, Jimin. Sente-se onde quiser — disse a doutora, com a voz calma.
— O Jimin pode sentar no sofá?
— Claro que pode…
Ele se acomodou com cuidado, ajeitando-se no cantinho do sofá e raspando os pés descalços no tapete felpudo. Ainda que um pouco apreensivo, o ambiente aconchegante fazia o medo parecer menor, quase esquecível.
A doutora se sentou na poltrona à frente, cruzou as pernas e o observou com serenidade.
— Então, Jimin… você sabe por que está aqui?
— O Kookie quer que o Jimin fique bem — respondeu, com um sorriso tímido.
— E quem é o Kookie?
— Kookie é o namorado do Jimin — disse, rindo envergonhado.
— E ele quer que você fique bem, certo?
— Certo.
— Alguma coisa ruim aconteceu com o Jimin?
Ele ficou mais sério. Levou a mão ao peito.
— O homem mal machucou o Jimin.
— Ai dentro? — A doutora apontou suavemente para o coração dele — E isso doeu muito?
— Muito. Doeu muito… Jimin ficou triste. E com muito medo também.
— Medo de ele te machucar de novo?
Jimin abaixou o olhar. Os dedos brincavam nervosamente com a barra da blusa. Seus olhos se mexiam inquietos, tentando afastar as lágrimas que ameaçavam cair. Nem percebeu que tinha ficado em silêncio… e que, de repente, a sala também estava em silêncio com ele.
— Você contou para o Kookie que o homem mal te machucou? — a doutora perguntou com delicadeza, sem deixar transparecer nenhuma expressão que pudesse assustá-lo.
— Sim! O Jimin confia no Kookie! — ele respondeu firme, olhando nos olhos dela.
— Isso é muito bom, Jimin — ela sorriu suavemente e se ajeitou na poltrona, cruzando os braços com gentileza — Sabe, o Kookie te trouxe aqui porque ele confia em mim. Ele acredita que eu posso te ajudar. E eu acho que você também quer se cuidar… acertei?
— Jimin quer ficar bom! — disse com convicção.
— Então que tal fazermos um combinado?
— Um combinado?
— É. Eu vou te dar um papel e muitos lápis de cor. Você gosta de desenhar?
— O Jimin ama desenhar! — seus olhos brilharam com entusiasmo.
— Que ótimo! — Ela se levantou e foi até uma gaveta — Mas tem um detalhe… — disse enquanto pegava os materiais — Eu quero que, nesse desenho, você me mostre como é a dor que o homem mal causou em você. Pode ser? Não precisa ser bonito, nem certinho. Só precisa ser sincero.
Jimin olhou para os lápis com atenção, então para ela. Assentiu com a cabeça devagar, o brilho nos olhos agora misturado com algo mais sério. Ele entendeu o que ela estava pedindo.
Ela entregou o material e o deixou à vontade para desenhar onde quisesse. Jimin se jogou no tapete, deitando de barriga para baixo, e logo organizou as folhas e os lápis ao seu redor como se estivesse montando seu pequeno ateliê particular.
A doutora voltou para a poltrona e pegou um bloquinho de anotações. Observava atentamente cada gesto, registrando com discrição o jeito como ele balançava os pés no ar, cantarolava baixinho uma melodia sem ritmo e mergulhava no mundo dos lápis de cor, como se não estivesse mais em uma sala de terapia.
— Jimin está desenhando o que combinamos? — ela perguntou com um sorriso leve.
— Sim! Doutora, tem mais lápis preto? — ele se virou com os olhos atentos.
— Claro — respondeu, se levantando para buscar outra caixinha. — Aqui está.
— Obrigado! — disse, empolgado, voltando ao seu desenho.
Ela observava com cuidado a maneira como ele se concentrava nos traços, a firmeza com que segurava o lápis, a escolha das cores, especialmente o preto, usado com intensidade, e o silêncio repentino entre uma pincelada de imaginação e outra. Ele parecia em paz, mas seu desenho começava a contar uma história que palavras talvez não dessem conta de dizer.
— Doutora?
— Sim, Jimin.
— O Jimin pode fazer um desenho pro Kookie também?
— Claro que pode, Jimin. Tenho certeza que ele vai adorar.
Jimin ficou ainda mais animado. Começou a rabiscar com entusiasmo o desenho para Jungkook, preenchendo a folha com traços coloridos e carinhosos. Só depois de finalizá-lo com um toque satisfeito, voltou ao desenho que havia combinado com a doutora.
Quando terminou, se levantou com cuidado, segurando a folha com as duas mãos como se fosse algo muito precioso, e a entregou à doutora.
— Você quer me explicar o que desenhou, Jimin? — ela perguntou com voz suave, recebendo o papel.
Jimin hesitou por um segundo, o corpo ficou mais rígido, mas seus olhos queriam ser compreendidos. Respirou fundo e apontou para os elementos da folha.
— Aqui… é o homem mal — ele disse, indicando um grande borrão preto, denso e irregular.
— Aqui é o Jimin — apontou para uma pequena bolinha alaranjada, bem menor em comparação.
— E isso aqui... — ele tocou com o dedo outra forma escura — isso é… você sabe... a parte íntima do homem mal — falou quase num sussurro, os olhos baixos. — Ele tá tentando colocar isso no Jimin — concluiu, apontando para a bolinha alaranjada.
Quando terminou, levantou os olhos e olhou para a doutora em silêncio, como se dissesse "é isso". Ela entendeu imediatamente.
— Obrigada por me mostrar, Jimin. Posso ficar com esse desenho?
— Pode — respondeu, baixinho.
— E os outros? Vai me mostrar também? — ela apontou para as outras folhas coloridas sobre o tapete.
— Sim! — disse, animado, sua expressão agora tomada novamente por alegria.
A tensão que havia se instalado no início sumiu por completo. Jimin voltou a ser o menino empolgado de antes, radiante por ter alguém disposto a ver e valorizar cada desenho seu, até os mais difíceis de fazer.
— Esse é o Senhor Coelho. Ele tá velho assim mesmo, mas eu desenhei a orelha certinha, porque ele vive rasgando ela — Jimin explicou com orgulho, mostrando o desenho. — E esse aqui é do Kookie! É um coração, tá vendo? Um coração bem grande, porque o Kookie é grande, então o coração dele tem que ser maior.
— É um coração lindo, Jimin — a doutora comentou, sorrindo enquanto olhava o desenho na folha branca.
Ela consultou o relógio de maneira discreta.
— Já estamos quase no fim da nossa sessão.
— Já? Mas o Jimin nem falou nada!
— Falou sim. Às vezes a gente fala muito mesmo sem perceber. Agora vamos guardar tudo e ir lá pra frente. Alguém vem te buscar?
— O Kookie.
— Perfeito. Vamos ajeitar aqui rapidinho.
Eles guardaram os lápis e papéis juntos, com cuidado. A doutora abriu a porta e os dois caminharam tranquilamente até a recepção, conversando baixinho. Jungkook já estava lá, esperando. Assim que viu Jimin, abriu os braços.
Jimin correu até ele e o abraçou com força, como se aquele abraço fosse seu lugar seguro no mundo.
A doutora, que os observava de perto, fez um sinal discreto com a cabeça para Jungkook, que o entendeu imediatamente. Ele pediu licença a Jimin e foi até onde ela o esperava, no canto do corredor, perto da escada.
— Olá, doutora…?
— Gen. Doutora Gen — ela respondeu com um sorriso profissional, estendendo a mão para cumprimentá-lo. — Podemos conversar um minutinho?
— Claro, sim — Jungkook apertou sua mão e a seguiu até um canto mais reservado.
— Existe a possibilidade de você vir na próxima sessão do Jimin, no mesmo horário?
— Posso organizar isso, sim. Algum motivo específico?
— Ele falou bastante de você durante a sessão de hoje. Acredito que seja importante conversarmos. Pelo que percebi, você é a principal rede de apoio dele… e isso faz toda a diferença no tratamento.
— Ah, entendi… sim, claro. Eu virei. Com certeza.
— Ótimo — ela assentiu com gentileza. — Você pode marcar com a secretária na saída. E qualquer coisa, fique à vontade para me ligar, está bem?
Ela lançou um olhar carinhoso para Jimin, que estava alguns metros adiante, distraído com os desenhos nas mãos.
— Até logo, Jimin! Nos vemos em breve!
— Tchau, doutora! — ele acenou com entusiasmo, com um sorrisinho no rosto.
…
Depois de uma semana da primeira sessão de Jimin, Jungkook voltou ao consultório como havia combinado com a doutora. Identificou-se na recepção e aguardou ser chamado. Estava nervoso, mas sabia que aquilo era importante para o bem-estar de Jimin.
— Senhor Jungkook? — a voz serena da doutora o tirou dos pensamentos.
— Ah, doutora Gen. Que bom revê-la — ele levantou-se imediatamente.
— O prazer é meu. Vamos para a sala?
— Claro.
Caminharam lado a lado até a sala aconchegante. Jungkook olhava discretamente para todos os cantos, notando detalhes que não havia reparado da última vez. A doutora indicou com um gesto gentil o sofá, e ele se acomodou.
— Primeira vez em um consultório psicológico? — ela perguntou, cruzando as pernas com naturalidade.
— Sim. Confesso que imaginei algo bem diferente…
— Deixe adivinhar: tudo branco, paredes frias e uma prancheta com anotações misteriosas?
— Exatamente isso — ele riu.
— É comum. Mas prefiro que meus pacientes e acompanhantes se sintam acolhidos — ela sorriu de leve. — Mas vamos direto ao ponto: Jimin.
— Sim, claro. Ele é o meu foco… há bastante tempo — disse com um sorriso pequeno, que não conseguiu esconder a ternura que sentia ao lembrar do menino.
— Como é o seu relacionamento com Jimin, senhor Jungkook? — a doutora perguntou com suavidade.
— Somos bem próximos… e eu sei que ele confia em mim — respondeu com sinceridade.
— Ele falou bastante de você na última sessão — comentou com um sorriso tranquilo nos lábios.
— Falou? — Jungkook sorriu, com o olhar amolecendo — Jimin é… muito especial para mim.
— E você? — ela inclinou levemente a cabeça — O que acredita ser para ele? Não estou falando como cuidador. O próprio Jimin não te vê assim, e eu também não o vejo nesse papel. Mas… como você se enxerga na vida dele?
Jungkook abaixou o olhar para as próprias mãos, como se buscasse nelas uma resposta. Sentiu o coração bater mais rápido ao lembrar de Jimin, da forma como ele sorria, das vezes em que se aninhava em seus braços como se o mundo lá fora desaparecesse.
— Eu… eu amo o Jimin — confessou, quase num sussurro, mas as palavras escaparam antes que pudesse contê-las. — Quer dizer… é que… eu...
— Está tudo bem, senhor Jungkook — a doutora o interrompeu com gentileza. — É bom conseguir nomear o que se sente. Cada pessoa expressa seus sentimentos de maneira única. Alguns falam com facilidade, outros demonstram em atitudes. E há quem, como o Jimin, transforme sentimentos em desenhos. O mais importante é permitir que esses sentimentos saiam do corpo, da mente e do coração.
— Eu só… — Jungkook respirou fundo — eu só quero proteger ele de todo mal. Ele já sofreu tanto... eu só quero que ele tenha paz.
A doutora assentiu com o olhar calmo e compreensivo, dando a ele o tempo necessário para respirar e organizar os próprios sentimentos.
A doutora se levantou, foi até sua mesa, pegou uma folha com um desenho colorido e retornou à poltrona. Sentou-se com calma antes de continuar.
— Sobre o sofrimento do Jimin… — ela ergueu o desenho diante de Jungkook — Precisaremos trabalhar isso com muito cuidado. Ainda é cedo para conclusões definitivas, mas, com base nesse primeiro contato, posso levantar uma hipótese diagnóstica.
Jungkook a observava com atenção, o coração acelerado.
— Jimin apresenta sinais claros de um quadro avançado de infantilismo — disse com a voz suave, mas firme. — Isso pode estar relacionado a um trauma severo, como um abuso sexual. Reforço que ainda é apenas uma hipótese, preciso de mais sessões, mais dados.
Jungkook assentiu lentamente, engolindo em seco.
— Eu… posso confirmar isso. Jimin foi estuprado — a voz dele saiu embargada — Ele demorou muito para conseguir contar. E agora estamos no meio de uma investigação para encontrar o culpado.
A doutora baixou o desenho sobre o colo e olhou diretamente nos olhos de Jungkook, com firmeza, porém empatia.
— Senhor Jungkook, entendo sua dor, sua sede de justiça. Capturar o agressor é sim necessário, mas — ela fez uma breve pausa — precisamos ter clareza de que nenhuma punição trará de volta o que foi tirado dele. Nosso foco agora deve ser o futuro do Jimin. É isso que vai realmente curá-lo.
Jungkook soltou um longo suspiro, levou a mão aos cabelos e a deslizou pela nuca em frustração.
— Eu só quero que ele fique bem. Que ele volte a sorrir sem medo. Só isso.
A doutora sorriu com ternura.
— Com apoio, tempo e amor, ele vai conseguir. E pelo que vi até agora… ele tem você ao lado. Isso já é um ótimo começo. — disse a doutora com serenidade — Vamos iniciar um tratamento para que isso aconteça. Mas antes, preciso fazer uma pergunta muito importante, senhor Jungkook.
— Sim? — ele respondeu, já um pouco tenso.
— Vocês já tiveram algum tipo de relação sexual?
Jungkook arregalou os olhos, corando imediatamente.
— R-relação sexual...? — engoliu em seco, visivelmente desconfortável.
— Isso mesmo. Já fizeram sexo? — A expressão da doutora continuava neutra, profissional.
— Ah… não. — ele respirou fundo, depois coçou a nuca — Quer dizer, nós já nos beijamos… mas nunca passamos disso. Eu sei o que o Jimin passou, e eu jamais faria algo que o deixasse desconfortável. Se um dia ele quiser… se ele estiver pronto… aí talvez...
— Senhor Jungkook — ela o interrompeu com um leve sorriso — era só dizer “não”.
Jungkook ficou sem graça e se levantou, começou a andar de um lado para o outro, como se tentasse organizar os pensamentos em meio ao turbilhão.
— É que... eu sinto que preciso justificar. — ele parou e olhou para ela com os olhos cheios de emoção — Porque eu o amo! Eu amo o Jimin, doutora. E quero vê-lo feliz, inteiro de novo! Quero poder andar com ele de mãos dadas na rua, levá-lo para sair, chamá-lo de namorado, pedi-lo em casamento… eu quero tudo com ele. Quero fazer amor com ele, quando ele estiver pronto… — sua voz falhou um pouco — Mas tem esse maldito monstro que machucou o MEU Jimin! Esse desgraçado ainda está solto!
A doutora o observava com atenção enquanto ele voltava a se sentar, tremendo de raiva.
— Eu juro, doutora… eu queria a morte dele. Queria que ele sofresse tudo o que fez o Jimin passar!
— E você acredita que isso ajudaria o Jimin? — ela perguntou com calma, sem julgar.
Jungkook abaixou os olhos.
— Jimin é doce… ele nunca deseja o mal de ninguém. Ele é… inocente demais pra isso.
— Então por que você deseja isso? — a voz da doutora era serena, mas firme.
Jungkook passou as mãos no rosto, tentando conter as emoções.
— Porque eu tenho medo… medo que mais alguém o machuque. Eu quero protegê-lo de tudo. Só isso… proteger o Jimin de todo o mal do mundo.
A doutora respirou fundo, depois falou com empatia.
— Seu desejo de protegê-lo é compreensível. Mas o verdadeiro cuidado vem com calma, paciência e presença constante. Vamos canalizar essa sua força e amor no tratamento. Ele vai precisar muito de você, mas precisa de alguém que o acompanhe, não de alguém que se perca na dor também.
Jungkook assentiu, respirando fundo.
— Eu vou ser essa pessoa. Por ele, eu vou.
A doutora se ajeitou na cadeira, repousando o desenho de Jimin cuidadosamente ao lado.
— Jimin é mais forte do que você imagina, senhor Jungkook — disse com convicção. — Acredito que podemos trabalhar o desenvolvimento da autonomia dele, além de estimular áreas cognitivas que ficaram adormecidas. Com tempo e cuidado, podemos restaurar parte desse desenvolvimento.
Ela fez uma breve pausa, o olhar firme, mas gentil.
— Mas é essencial que o senhor compreenda que a vontade de Jimin precisa vir antes da sua. Não tome decisões por ele, nem suponha o que ele quer. Ele tem direito e capacidade de definir os próprios desejos.
Jungkook abaixou um pouco o olhar e assentiu.
— Eu… preciso aprender a separar o que é meu e o que é dele — murmurou.
— Exatamente. E isso será fundamental durante o tratamento — ela respondeu com um leve sorriso. — Mas eu acredito que será um bom trabalho em conjunto. A conexão entre vocês é muito forte.
— Eu espero mesmo conseguir ajudar, doutora. De verdade. — Jeon respirou fundo, demonstrando a sinceridade em sua fala.
— Seu papel é essencial — ela afirmou. — Para Jimin, você é mais do que um amigo. Ele se apoia em você como um exemplo, um referencial. É por isso que o diálogo entre vocês precisa ser contínuo. As vontades dele e as suas precisam estar bem delimitadas e claras. Respeitar os limites dele é uma das formas mais genuínas de amar.
Jungkook a olhou com mais firmeza agora, como quem finalmente compreendia algo maior.
— Entendi, doutora. Obrigado por confiar em mim.
— Estarei aguardando ansiosamente o Jimin na próxima sessão. E quero que saiba: se ele perguntar, direi que você esteve aqui. Mas o que ele e eu conversamos, isso permanece entre nós. Meu compromisso é com o meu paciente — disse a doutora Gen com gentileza.
— Eu compreendo perfeitamente, doutora — Jungkook assentiu com respeito. — Vai haver sessões em que estaremos juntos?
— Se Jimin solicitar, ou se eu perceber que é necessário para o tratamento, sim — respondeu com firmeza.
Jungkook soltou um suspiro profundo, como quem havia acabado de deixar um fardo no consultório.
— Espero que o senhor também se cuide, senhor Jungkook — disse a doutora com um sorriso sincero.
— Obrigado, doutora. O mesmo desejo à senhora.
— Posso acompanhá-lo até a saída — ela se levantou.
— Não se incomode... acho que preciso de um tempo pra mim. Um momento sozinho pra colocar as ideias em ordem. Vai me fazer bem.
— Como desejar — ela assentiu, compreensiva.
— Obrigado, doutora Gen. Avisarei ao Jimin que vocês se encontrarão na próxima semana. Ele vai ficar muito feliz.
— Diga a ele que estou ansiosa também. Vai ser um prazer revê-lo.
— Direi sim. Até mais, doutora.
— Até logo, senhor Jungkook.
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