The Evil Within
35 O Adeus ao Senhor Coelho

Jisoo despertou lentamente, os olhos pesados tentando focar no teto branco e desconhecido do quarto. Por um momento, tudo pareceu um sonho estranho. Sentiu o frio do soro correndo pela veia, uma agulha estava fincada no dorso de sua mão. Tentou se erguer, mas uma tontura forte a obrigou a deitar novamente.
— Rosé...? — sussurrou, instintivamente. Seu coração apertava só de pensar na irmãzinha.
A porta se abriu devagar, e Jimin entrou apressado, os olhos marejados.
— Jisoo! Você acordou! — exclamou com alívio, correndo até ela.
Ela tentou se sentar, em vão.
— Eu preciso... preciso buscar minha irmã na escola.
— Calma! — Jimin segurou sua mão com cuidado. — O Kookie já foi buscá-la. Está tudo bem.
Jisoo soltou um suspiro trêmulo, os ombros relaxando.
— O que aconteceu? Eu... não me lembro de nada…
— Você desmaiou — disse Jimin, com a voz embargada. — O Jimin ficou com muito medo. Mas o Kookie te salvou, do mesmo jeito que salvou o Jimin. Ele é tipo... um herói, igual nos filmes.
Jisoo deixou escapar uma risadinha fraca, emocionada.
— Obrigada, Jimin. E me desculpa por ter te assustado assim.
— O importante é que você está bem — respondeu ele, tentando conter as lágrimas que insistiam em cair.
Jisoo apertou sua mão com carinho.
— E estou mesmo... graças a você e ao Jungkook.
Jimin não conseguiu se conter e a abraçou apertado, chorando como uma criança.
— Ei, está tudo bem… — Jisoo murmurou, acariciando com ternura seus cabelos.
— Era o Jimin que devia te consolar… — disse entre soluços.
Jisoo sorriu fraco, emocionada.
— Só de ter amigos como você já me sinto melhor. Obrigada, Jimin.
As lágrimas escorreram ainda mais intensas no rosto do garoto. Ao abraçá-la, ele sentiu como seu corpo estava magro e frágil. Aquilo doeu. Ele mais do que ninguém sabia o que era se sentir assim… pequeno diante do mundo.
— O Jimin vai cuidar de você, Jisoo — prometeu baixinho.
Uma lágrima solitária caiu dos olhos de Jisoo. Ela não gostava de chorar na frente dos outros, mas naquele momento era impossível se segurar.
Uma batida suave na porta os interrompeu. Jungkook entrou com um sorriso caloroso.
— Olha só quem resolveu acordar! Como você está, Jisoo?
— Estou bem, Sr. Jeon. Obrigada… e me desculpe pelo transtorno.
— Primeiro: não me chama de “senhor”, eu ainda sou jovem, tá bom? — brincou Jungkook, arrancando um sorrisinho dela. — Segundo: você não tem que agradecer, é isso que amigos fazem. E terceiro: não foi incômodo nenhum. Ainda bem que você estava lá em casa. Deu tempo de trazê-la pro hospital rapidamente. Agora o pior já passou.
— Mesmo assim… muito obrigada. Os médicos disseram o que aconteceu comigo?
Jungkook ficou um pouco sem jeito. Aquilo não era algo que se explicava facilmente para uma criança, por mais que Jisoo se esforçasse para agir como adulta, ainda era só uma menina. Uma menina que teve a infância arrancada pelas circunstâncias.
— Você deve estar exausta… — disse com um sorriso gentil, tentando contornar o assunto. — Tente descansar mais um pouco, tudo bem?
Jisoo assentiu, embora seus olhos ainda estivessem carregados de preocupação. Jungkook sabia que ela precisava de mais do que apenas descanso, ela estava com desnutrição. Mas aquilo não era algo que ele queria dizer em voz alta naquele momento. O importante era fazê-la se sentir segura.
Nos bastidores, com a ajuda de Namjoon, Jungkook já havia investigado o passado da garota. A mãe de Jisoo havia falecido há alguns anos. O pai, alcoólatra e negligente, havia simplesmente desaparecido, abandonando as filhas à própria sorte. Ninguém sabia onde ele estava e talvez fosse melhor assim.
Jisoo, tão jovem e tão valente, fazia de tudo para cuidar da irmã. Mas o medo de confiar em adultos, de se separar de Rosé, era maior que qualquer cansaço ou fome.
Sabendo disso, Jungkook tomou uma decisão. Conversou com seus pais — uma família influente e generosa — e conseguiu que eles dessem entrada no processo de guarda provisória das duas meninas. Com o apoio de um bom advogado, tudo se encaminharia logo. Mandar as irmãs para um orfanato seria como assinar sua sentença de separação. E Jungkook não permitiria que isso acontecesse.
Agora, ele só precisava garantir a elas um lar. Um lar de verdade.
— Cadê a Rosé? — Jisoo olhou ao redor, ansiosa.
— Eu vim buscar o Jimin para que ela pudesse entrar. O hospital só permite duas visitas por vez... Vamos, Jimin — disse Jungkook, estendendo a mão para o loiro.
— O Jimin já volta, Jisoo — disse Jimin com um sorriso gentil. Jisoo retribuiu com o olhar, grata.
Alguns minutos depois, a porta se abriu devagar e Rosé entrou no quarto com passos hesitantes, os olhos arregalados.
— Jisoo?
— Rosé?
As duas se encararam por um instante, segurando as lágrimas. Em um impulso, Rosé correu para os braços da irmã e a abraçou com força.
— Eu fiquei com tanto medo — murmurou, chorando. — Jisoo, você é tudo o que eu tenho... não me deixa sozinha!
Jisoo a envolveu em seus braços, acariciando seus cabelos com ternura.
— Nunca vou te deixar, Rosé. Somos irmãs, lembra? E esse é o laço mais forte que existe — disse com a voz embargada. — Nada vai nos separar.
Jungkook observava a cena do corredor, sorrindo com o coração aquecido. Ver aquelas duas juntas, seguras, lembrava-o de quando encontrara Jimin inconsciente, sozinho, naquela casa abandonada. Naquela época, ele prometeu para si mesmo que jamais deixaria alguém vulnerável se perder de novo. E agora, sentia que estava cumprindo essa promessa.
Jisoo afastou levemente Rosé, examinando seu rostinho.
— Você não come desde ontem, deve estar faminta. Tem algumas frutinhas aqui, podemos dividir.
— O moço que foi me buscar na escola chegou com um homem loiro e um médico dentro de um carro da polícia! — Rosé disse animada. — Foi muito legal. Acho que agora todo mundo na escola vai ter medo de mim! Devem achar que fui presa! — soltou uma risadinha sapeca.
Jisoo riu, aliviada por vê-la tão leve apesar de tudo.
— E depois eles me levaram numa lanchonete! Me deram um lanche bem gostoso, e ainda veio com brinquedinhos! — Ela abriu a mochila, empolgada, mostrando os brindes para a irmã. — Eles foram muito legais. O moço loiro parecia meio bravo… mas o marido dele é superlegal e me examinou. Ele é médico de crianças!
Jisoo piscou algumas vezes, tentando assimilar toda a enxurrada de informações, mas não conteve o riso.
— Acho que a gente vai precisar sentar com calma pra você me contar tudo isso direitinho depois.
Rosé assentiu com um sorriso, se aninhando ao lado da irmã. Pela primeira vez em muito tempo, Jisoo sentia que talvez tudo fosse mesmo ficar bem.
...
Jungkook, ao lado de Namjoon, sentou-se com Jisoo e explicou tudo com paciência que as duas seriam adotadas legalmente por sua família. Continuariam juntas, teriam um lar de verdade, comida na mesa e ninguém mais as separaria. Jisoo ouviu tudo em silêncio, os olhos marejados. Parte dela queria recusar — o orgulho ainda tentava falar mais alto — mas, ao pensar em Rosé, lembrou-se da noite em que dormiram escondidas no banheiro da estação, e sua decisão se firmou. Faria qualquer coisa para ver a irmã bem e segura.
Dois dias depois, Jisoo teve alta do hospital. Jimin estava animado, ajudou a carregar sua mochila com todo o cuidado do mundo, como se ela fosse feita de vidro. Jungkook entrou no quarto com as chaves do carro balançando na mão, sorridente.
— Vamos conhecer sua nova casa?
Jisoo sorriu, emocionada, contendo o choro que insistia em vir.
— Sim — respondeu baixinho. Ainda não sabia bem o que era ter uma casa, no sentido profundo da palavra. Mas queria descobrir.
A viagem foi silenciosa, mas tranquila. Quando chegaram ao apartamento, Jungkook abriu a porta e Jimin foi o primeiro a entrar, radiante de entusiasmo.
— Venham ver! O quarto de vocês ficou lindo! Eu ajudei a arrumar tudo! — disse com brilho nos olhos.
Mas Jisoo e Rosé pararam no batente. Ficaram ali, imóveis, observando aquele espaço acolhedor com cheiro de lavanda. Era grande, limpo e bonito. Era como uma casa dos sonhos.
— Venham, entrem — convidou Jungkook com gentileza, estendendo a mão.
Jisoo deu um passo hesitante, segurando firme a mão da irmã. Mas Rosé ficou. Seus pezinhos pequenos travaram na soleira da porta, e seu olhar tremia.
— Rosé, o que houve? — Jisoo se abaixou e sussurrou.
— Eu tô com medo… — ela disse quase sem som.
— Medo de quê?
— De tudo isso ser mentira... — Rosé mordeu o lábio, olhando desconfiada para o interior da casa. — Tá tudo tão bonito… parece sonho. E os sonhos acabam.
Jisoo sentiu um nó na garganta. Abraçou Rosé com força.
— Esse sonho não vai acabar, maninha. Eu prometo. A gente finalmente chegou em casa.
Com olhos marejados, Rosé assentiu, e deu o primeiro passo para dentro.
Jimin observou Rosé parada na porta, hesitante, os olhinhos cheios de dúvida e, de repente, foi como olhar para si mesmo anos atrás. Sem dizer uma palavra, correu até o próprio quarto. Vasculhou entre os travesseiros e pegou o Senhor Coelho, seu companheiro de infância, já com as orelhas um pouco gastas de tanto ser abraçado.
Quando voltou à sala, Rosé ainda não havia cruzado a soleira. Jimin se aproximou devagar, com um sorriso gentil e acolhedor no rosto.
— Rosé… esse aqui é o Senhor Coelho — disse, estendendo a pelúcia para ela. — Ele foi o melhor amigo do Jimin por muito tempo. Quando o Jimin estava triste ou com medo, ele ficava com o Jimin. Ele dava esperança. Sabia que ele tem um poder mágico?
Rosé o olhou curiosa, apertando os dedinhos nervosamente.
— Que poder?
— Quando você o abraça bem forte… ele faz o medo ir embora — Jimin respondeu, sussurrando como se dividisse um segredo precioso.
Rosé ficou imóvel por um instante, mas então Jimin segurou suas mãos pequenas e colocou o coelho nelas com delicadeza.
— Agora ele é seu.
— Meu? Mas… ele é seu amigo — ela disse baixinho.
— O Jimin tem muitos amigos agora — ele respondeu, olhando para Jungkook com um sorriso doce que fez o outro corar na hora. — E o Senhor Coelho precisa ajudar outras crianças, como ajudou o Jimin.
Rosé apertou o coelhinho contra o peito, emocionada.
— Mas… e quando o Jimin tiver medo? Quem vai abraçar ele?
Jimin olhou novamente para Jungkook e sorriu com ternura.
— O Jimin não tem mais medo.
Rosé fechou os olhos por um instante, abraçando com força o coelhinho. Quando os abriu, havia um sorriso novo em seu rosto, pequeno, mas cheio de coragem.
— Jimin… você tinha razão. Eu não estou mais com tanto medo.
— O Jimin sempre sabe das coisas — ele disse, fazendo uma pose brincalhona que arrancou uma risadinha dela. Então estendeu as mãos para as duas. — Venham. O Jimin vai mostrar o quarto de vocês.
O apartamento de Jungkook era imenso. Cada uma teria seu próprio quarto, e Jimin havia se divertido nos últimos dias ajudando Jungkook a pintar e decorar os cômodos com todo carinho.
O quarto de Jisoo tinha um estilo mais sóbrio, com tons neutros e decoração minimalista. Sabiam que ela era uma adolescente e talvez não se sentisse confortável com algo muito chamativo. E estavam certos. Havia um notebook novinho sobre a escrivaninha, pronto para ajudá-la nos estudos, além de uma estante vazia, esperando pelos livros que ela fosse conquistar com o tempo.
Já o quarto de Rosé parecia saído de um sonho: tons de rosa e lilás pintavam as paredes e os móveis, bichinhos de pelúcia ocupavam prateleiras e poltronas, e pequenos adesivos brilhantes decoravam os cantos da janela. Jimin fizera questão de separar alguns dos seus livros infantis favoritos para deixá-los ali, empilhados ao lado da cama, esperando por novas leituras.
Enquanto Rosé corria pelo quarto rindo e apontando cada detalhe encantada, Jisoo puxou Jungkook discretamente para o corredor.
— Jungkook... obrigada pela hospitalidade, pelo carinho. Mas... eu não posso aceitar morar aqui de favor. Vou arrumar um emprego, pagar aluguel, e assim que der, encontro um lugar para ficar com a Rosé.
Jungkook suspirou, paciente.
— Jisoo, você não precisa se preocupar com isso. Vocês podem ficar aqui o tempo que quiserem. Não é favor nenhum.
— Mas eu não quero atrapalhar.
— E não está. Na verdade... a presença de vocês tem feito muito bem pro Jimin. Ele e eu adoramos ter vocês aqui.
Jisoo hesitou por um segundo, abaixando o olhar.
— Mesmo assim... eu não me sentiria bem. Eu posso pelo menos ajudar com a limpeza, com a comida...
— Não precisa. De verdade. Apenas estude, descanse... e viva sua vida de adolescente um pouco, tá? — Jungkook sorriu. — Além disso, você já tem um emprego.
Jisoo franziu o cenho, confusa.
— Tenho?
— Claro. Você é a professora particular do Jimin, esqueceu?
Ela riu, um pouco envergonhada por não ter pensado nisso antes.
— É verdade…
— E antes que você pergunte — Jungkook completou, prevendo o que viria —, o Jimin não vai à escola porque... bom, ele passou por muita coisa. Tem alguns traumas que estamos tentando superar. Ele ainda não está pronto pro mundo lá fora. Mas... a presença de vocês aqui, especialmente da Rosé, está fazendo ele se abrir mais.
Jisoo olhou em direção ao quarto, onde Jimin mostrava um livro animadamente para Rosé. Havia um brilho no olhar dele — tímido, mas genuíno — e Jisoo reconheceu aquele olhar. Era o mesmo que via no espelho, dia após dia. Um olhar de quem já sofreu demais, mas ainda tinha força para continuar.
— Jimin é incrível. Ele vai ficar bem. É forte, inteligente, gentil... ele merece o mundo.
— É... — Jungkook sorriu, visivelmente emocionado ao observar Jimin — Amanhã vai ser a primeira sessão de terapia dele com a psicóloga. Acho que vai ajudar muito.
— Vai sim — Jisoo assentiu, com um sorriso tranquilo — E nós vamos estar aqui para apoiar ele.
Juntos, olharam para dentro do quarto e viram Rosé gargalhando com algo que Jimin disse. Pela primeira vez em muito tempo, Jisoo sentiu que estavam exatamente onde deveriam estar.
...
Sair de casa estava se tornando um verdadeiro sacrifício. A cada semana que passava, Yoongi ficava mais exigente, quase paranoico com a própria aparência. Precisaram comprar roupas novas — segundo ele, o gosto de Taehyung era um atentado contra o bom senso.
— Parece que você roubou o guarda-roupa de um idoso — Yoongi resmungava, analisando o marido dos pés à cabeça com a mão no queixo.
Era ali que a diferença entre ele e Victor mais se evidenciava: Victor se vestia com elegância e classe, sempre impecável. Já Taehyung, com suas roupas largas e estampas aleatórias, parecia sempre pronto para uma tarde de cochilos ou no máximo um jogo de xadrez na pracinha.
Depois de muita luta e algumas trocas de roupa quase agressivas, Yoongi finalmente encontrou um conjunto que o fazia se sentir apresentável e mais importante, bonito. Só então permitiu que saíssem de casa.
Era um dia especial, fariam o ultrassom para descobrir o sexo dos bebês. Taehyung estava à beira de um colapso nervoso, e quem tentava mantê-lo sob controle era Namjoon, que parecia mais um terapeuta de emergência do que um amigo naquele momento.
Quando estavam saindo com o carro da garagem, Yoongi desviou o olhar para o lado de fora e congelou. Atrás de uma árvore, quase oculto pelas sombras, havia um rapaz de capuz e máscara observando a casa. O porte físico era inconfundível. Lembrou imediatamente Victor.
Seu coração acelerou. Aquilo era possível? Victor seria louco o bastante para se aproximar com toda a segurança armada em volta da casa?
“É só coisa da minha cabeça”, tentou se convencer. Mas, ao olhar novamente, o rapaz já não estava mais lá.
Yoongi respirou fundo, tentando afastar os pensamentos sombrios.
“Sim... é só imaginação. É isso.”
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