Estava difícil de subir a alavanca, mas empurrei com toda a força que me restava. Ouvi um rangido, como se fosse uma porta com dobradiças antigas se abrindo. Então olhei para o lado e vi o que aquela alavanca abria. Era uma saída para o esgoto da cidade. Agora descobri que aquele cheiro horrível não pertencia somente aos corpos em decomposição.

Era um tubo e nós teríamos que escorregar para cair lá o mais rápido possível. Olhei para ela e esta suspirou e tentou subir em minhas costas. Sentei no inicio do tubo, ela enlaçou suas pernas em minha cintura e colocou seus braços ao redor do meu pescoço. Quando ela encostou sua cabeça em meu ombro e suspirou perto de meu ouvido, estremeci e senti um arrepio subir.

Pegamos velocidade enquanto escorregávamos e quase caímos dentro daquela água suja. Eu me levantei e ia começar a andar, mas percebi que ela estava sentada ainda, obviamente com nojo do que estava vendo.

-Você vem ou não? –disse me virando pra ela e estendendo a mão.

-Vou, eu acho

Deu-me a mão e pulou do tubo onde estava sentada. Caminhamos por alguns metros e achamos uma escada. Não sabia muito bem onde iríamos parar, mas resolvi subir. Fui primeiro para abrir a tampa. Era muito pesada, mas felizmente consegui movê-la. Ela estava olhando pra baixo ainda, devia estar com nojo dos ratos, baratas e outros animais que estavam passando abaixo de nós. Coloquei a cabeça para fora da tampa, senti aquele delicioso ar fresco. Sairíamos no meio de uma estrada, que não parecia ser muito movimentada pelo jeito.

Subi e depois a puxei para cima, junto a mim. Levantei e arrastei a tampa de volta a seu devido lugar. Ela me abraçou e começou a chorar, passei a mão levemente em suas costas, acalmando-a. Puxei-a e coloquei meu braço envolta de sua cintura, pois não estava conseguindo se levantar sozinha. Andamos bem devagar pela estrada com pouca iluminação. Eu estava andando por nós dois, pois estava praticamente a arrastando pelo caminho.

Avistei o que parecia ser um bar a certa distância e decidi ir até lá. Acelerei a caminhada e chegando lá perto, vi que era uma espécie de lanchonete. Lembrei de um detalhe, não tínhamos dinheiro nenhum e não teríamos como pagar a conta, mas precisamos muito comer. Ela olhou pra mim e tirou alguma coisa de dentro de seu bolso. Era uma corrente de ouro com um pingente de cruz. Com isso daria para pagar a conta, eu acho.

Entramos na lanchonete. Uma senhora que estava sentada perto do balcão se espantou ao nos ver, devíamos estar horríveis. Ela levantou e chamou seu marido, que veio depressa e me ajudou a sentar a garota em um sofá vermelho com o estofado velho. Colocou sua cabeça em uma almofada que era toda bordada e a mulher mais velha foi em sua direção, analisando cada milímetro da garota. A maior correu depressa e pegou um kit de primeiros socorros e enfaixou o braço direito dela, que estava muito machucado devido aos vários chutes que levava todo dia naquele maldito cativeiro.

Eu não agüentava mais ficar em pé, então desabei no chão ao lado do sofá que ela estava deitada. O homem me ajudou a levantar e carregou-me até um banco próximo ao balcão.

A senhora terminou de cuidar da garota e foi até o balcão pegar alguma coisa para nós comermos. Me deu uma garrafa de água e levou outra para ela, enquanto o homem preparava algo na cozinha. Toda a água da garrafa já havia sido tomada um minuto depois que ela tinha me entregado, de tanta sede que eu estava sentindo. Olhei para ela e percebi que não conseguia beber a água sozinha, resolvi ajudá-la.

Ela me olhava de um jeito como se dissesse “obrigada”. A senhora trouxe um hambúrguer para nós e comemos muito rápido, deixando-a espantada. Deitei a garota novamente na almofada e me caminhei em direção a senhora que estava nos olhando por detrás do balcão.

- Obrigado por tudo — disse entregando-lhe a corrente de ouro para a senhora, que parou a minha mão e não aceitou

- Não precisa me pagar, fiz isso para ajudá-los. Mas quero em uma coisa em troca.

- Pode pedir o que quiser – embora eu já soubesse o que ela iria pedir, esperei por sua resposta – O que quer?