The Dreamer
1 Susto
Quando me dei conta já estava na Praça Vermelha. Eram 6:00 A.M e a ponta do meu cigarro já estava quase acabando. Poucas pessoas transitavam em frente à Catedral de São Basílio e eu estava me segurando para não ter uma síncope devido aos quase dois dias sem dormir. Graças ao inverno minha asma tinha piorado, e o fato de ser fumante não ajudava muito. Levantei a cabeça e expirei a fumaça. Logo depois, a violenta tosse, e depois, bem, não sei.
Eu falo para ela, todos os dias. Ela simplesmente não liga, não se importa. Acontece que ela sempre foi forte para essas coisas sabe... ouvi minha irmã, Anastasia Volkova, falando. Minha respiração estava tão fácil que nem parecia que eu tinha asma, era uma delícia de prazer...até que fui surpresa com a repentina falta da mesma, que praticamente me fez levantar bruscamente de sabe lá aonde eu estava deitada.
-Olha aí, a asma ataca novamente –Anastasia disse com uma voz despreocupada.
Tateei toda a escrivaninha ao lado, derrubando tudo, procurando pela bombinha.
-É isso que você está procurando? –Anastasia ofereceu a bombinha, ainda com a voz despreocupada. Inalei e logo senti um alívio percorrendo meu corpo. Deixei a bombinha ao lado e assim que me recompus, levei um tapa da minha irmã. Sem aviso prévio e sem perdão.
-Você está ficando maluca?! Quantas vezes eu tenho que dizer para NÃO ficar saindo sem avisar?! Nossa madrinha estaria arrancando os cabelos se soubesse disso!
-Ela não iria estar nem aí –Suspirei –Afinal, como diabos você me achou?
-Como uma boa irmã, eu te liguei. O dr. Ulyanov atendeu a chamada e corri direto para cá, na verdade faz pouco tempo que cheguei.
O dr. Ulyanov era bem jovem para ser médico, aparentemente pouco mais de 25 anos, olhos bem escuros, cabelo prateado e uma cicatriz na mandíbula. E, nossa, irradiava felicidade como uma pessoa que estava à espera numa fila de banco.
-Há quanto tempo você não dorme? –Ele perguntou sem muita importância
-Ah, sei lá, um dia ou dois –Eu disse, retribuindo a falta de importância
-Polina, não me diga que você está desperdiçando suas horas de sono para ir naquele clube estúpido?
Tentei me apoiar com as mãos na cama, fazendo uma força excessiva nos meus antebraços de maneira brusca para poder sentar-me.
-Aquele clube não é estúpido. É o meu trabalho, é de onde eu tiro minha renda, Anastasia. –Tossi mais um pouco
-Tudo bem, tirando essas questões familiares mal resolvidas, responda minha pergunta. Por que você ficou tantas horas sem dormir?
Engoli em seco
-Bem, ah, por causa dos pesadelos –Hesitei em responder
Mal disse e o dr. Ulyanov já estava praticamente me interrompendo
-Só para informar, sua síncope não teve nada a ver com asma ou sobre seu fumo, pouco relacionado com a falta de sono, mas sim por hipotermia aguda, o que é MUITO estranho primeiramente por você estar agasalhada, e por você estar viva. Mas o mais importante agora é saber se você está ou não com pneumonia, o estetoscópio mostrou que não, mas para uma confirmação você irá fazer uma radiografia do tórax.
Assim que eu o fiz, eu e Anastasia fomos levadas ao consultório do dr. Ulyanov para esperar o resultado do exame. Estávamos sentadas em duas poltronas totalmente pretas e macias. Atrás de nós havia uma espécie de corrente d’agua protegida por pedrinhas de calcário. Só havia silêncio a não ser pelo som da água fluindo, como se fosse por detrás dos meus ouvidos, me engolindo e emergindo em seguida. Infelizmente, toda a magia acabou-se quando o dr. Ulyanov chegou de forma barulhenta no consultório, logo pondo as radiografias na lousa de forma nada gentil.
-Você não tem pneumonia –Ele disse, uma frase simples, sem qualquer tipo de emoção ou felicidade –Porém vai ficar em observação por essa noite para o caso de uma possível hipotermia.
Eu concordei com um gesto sutil da cabeça enquanto a minha irmã não deu uma palavra de negação ou afirmação. Juntas, o doutor nos levou ao meu quarto, um cômodo discreto, com uma cama, uma televisão em cima de um armário transparente, uma janela com persianas azuis ao lado da minha cama. Havia um Split em cima da janela, e o banheiro ficava logo perto da porta do quarto.
-É só uma noite, não sei se há necessidade de buscar as coisas dela, o hospital tem um estoque de roupas –Disse o dr. Ulyanov
-Eu não sei. Polina, o que você acha?
-Também não acho necessário
Deixei meus sapatos fora do quarto e calcei um par de tapochki que estavam na entrada do quarto. Eu me deitei, e Anastasia se sentou à beira da cama, prendeu seu cabelo num rabo de cavalo e segurou minha mão.
Tudo aquilo já estava tão normal para mim. Dormir de dia, trabalhar à noite, beber tanto durante o trabalho, fumar tanto até ter crises de asma.
Acho que no fundo eu só queria morrer. E falando em morrer, tudo aquilo parecia se misturar diante de mim como uma névoa, um gás tóxico entrando pelas minhas narinas e, pouco a pouco, fazendo tudo sumir como um sonho ou uma droga.
Se todos nós estamos do jeito que estamos, e se temos consciência de que se iludir não irá melhorar coisa alguma, por que continuamos o fazendo?
Parece que se passaram 7 horas bem lentas. Minha nuca estava doendo e andar era muito difícil quando se tem que concentrar na dor. Eu não estava mais no hospital, na verdade não sabia onde eu estava, só sentia um estado de êxtase em que parecia que eu tinha morrido e ido para o céu. Eu sabia que estava num cômodo muito grande, pois ora não via as paredes, ora não via o teto. As lajotas eram tão brancas que pareciam ser transparentes, e meu coração batia tão forte que eu provavelmente estava tendo taquicardia.
A dor na nuca era insuportável, e um turbilhão de coisas, dentre elas imagens, flashes, frases e sentimentos invadiam a minha cabeça. A sensação era parecida com a de uma furadeira perfurando a sua nuca, não que eu já tenha experimentado essa dor.
Continuo percorrendo aquele cômodo vazio sem fim. Cada vez que eu andava, ele ganhava mais detalhes, mais cores, mais vida. Meu andar começava a fazer barulho, um tec tec tec que parecia ser infinito, ecoando por toda a sala, começava a me irritar. As paredes finalmente surgiram, e nelas estavam grudadas, como resultados de raio-x, flashbacks meus, em um tipo de apresentação de slide. Cerca de uma ou duas horas andando em “lugar nenhum”, me começa a bater um desespero.
-TEM ALGUÉM AÍ? –Gritei com muita vontade para o nada, que saiu ecoando para tão tão distante
No momento em que eu gritei, tudo desabou. Não literalmente, mas tudo aquilo que preenchia o lugar desabou. Quadros, janelas, mesas, tapetes, estátuas, decorações, violino, piano, e uma escrivaninha no fim da sala. Andei com passos apertados até a escrivaninha. Eu tentava alcança-la, mas ela parecia ficar cada vez mais longe. Corri e não a alcancei, e ficava cada vez mais e mais longe, se estreitando como um tubo, até que o chão caiu engolindo tudo, inclusive a mim.
Dei um grito abafado e automaticamente pus a mão na boca. Estava de noite e eu estava deitada na minha cama do hospital, com as mesmas roupas que eu dormi, no mesmo local em que adormeci. Anastasia já não estava mais lá, e as persianas estavam semicerradas. O relógio digital mostrava 3:14 A.M e eu sentia gotas de suor percorrendo meu pescoço e coxas. Palpitações que dava para sentir por todo o meu corpo, principalmente nas pontas dos dedos.
-Água –Eu disse baixinho
Levantei devagar e fui até a frente do espelho, onde havia a escrivaninha com a TV e ao lado da mesma havia uma jarra d’agua para fazer chá. Peguei com as mãos trêmulas um copo descartável e despejei água. Bebi tudo de uma vez, e em seguida voltei para dormir.
8 horas e 15 minutos depois eu acordei. Sem sonhos. Sem pesadelos. Apenas um grande nada na minha cabeça, como se estivesse literalmente oca. Apenas uma coisa me era estranha, a dor na nuca, que deveria ser apenas no sonho e não ter se transformado em algo realmente patológico, como eu estava sentindo no momento.
-Pupilas normais –Disse o dr. Ulyanov depois de apontar uma lanterna para os meus olhos –Alguma coisa anormal aconteceu essa noite?
-Não –menti-Absolutamente nada, doutor
Bem –Ele suspirou enquanto levantava da sua cadeira –Se realmente for só isso, você pode ir para casa sem nenhum problema. E antes que eu me esqueça, evite exposição ao frio por um tempo.
-Quanto tempo? –Perguntou Anastasia
-Difícil saber ao certo... umas semanas a um mês seria suficiente. Se algo acontecer volte aqui e me procure.
Dei um sorriso tímido e acenei com a cabeça fazendo que sim. Enrolei meu casaco nos meus braços e andei lado a lado de Anastasia num silêncio constrangedor. Ela parecia mais calma do que no dia anterior, mas provavelmente ainda deve pensar que eu sou uma idiota. Ao chegar na saída do hospital, entramos no carro e houve uma pausa de 1 minuto.
-Por acaso você é idiota? –Ela me perguntou com aquela voz de sarcasmo típica enquanto mantinha as mãos na cintura, mesmo sendo uma posição um tanto desconfortável para alguém que está no banco do motorista.
-Nem eu sei mais –Respondi enquanto colocava o cinto de segurança –Ainda estás com raiva de mim?
-Não
-Tem certeza?
-Sim...
-Bom, então isso é um alívio –Suspirei
Houve uma pausa de 30 segundos até chegar no semáforo vermelho.
-Eu só acho engraçado que, depois de TUDO que nossos familiares fizeram por nós, por VOCÊ, os retribui assim. E eu aqui? Preocupada feita uma babaca com você, quando na verdade a culpa foi sua. Fique sabendo que se eu tiver um ataque do coração ou coisa parecida, vai ser tarde demais. Porque nossa madrinha não irá fazer nada. Mal ela sabe dirigir! –Anastasia desabafou
-Tá bom, já entendi, a culpa foi minha. Mesmo sabendo da minha condição de saúde eu resolvi fumar. Prometo que vou tentar parar.
Ela olhou para mim com uma cara de “eu vou chorar” e finalmente disse:
-Está bem
Em seguida levamos um susto pois o motorista de trás já estava nos xingando para andar. Ah é, o semáforo já está verde.
Eu estava sentada na cama de Misha enquanto mexia no meu laptop. Sim, Misha é meu namorado. NÃO, eu não o mencionei até agora.
-Deixa eu ver se entendi, você deu uma de frozen ontem? E só agora me dizes que estavas no hospital? –Misha franziu a testa enquanto preparava ovos fritos.
-Sim, eu sinto muito. Não queria te deixar preocupado. Eu só...
-Não, nem vem. E se tivesse acontecido alguma coisa? –Ele se aproximou de mim
Me inclinei um pouco em sua direção, me apoiando com minhas mãos na cama
-Ei, mas não aconteceu nada, ok? –Segurei seu rosto em direção ao meu
-Ok
Comei a beijá-lo vagarosamente, cuidadosamente. Ele pôs a mão direita na minha nuca enquanto sua mão esquerda o apoiava na cama. Deitamos enquanto ele continuava a me beijar, do lábio inferior para o superior, e depois aprofundando mais em minha boca. Ele mordeu suavemente meu lábio inferior e eu comecei a rir.
-Misha, seu idiota! –Dei um tapa de leve nas suas costas e ele se levantou
- Continuamos mais tarde –Ele disse enquanto trocava de camisa –Tenho que ir ao estúdio de gravação. Os idiotas não sabem mexer no mixador.
-Tudo bem então –Bati as mãos na cama –O mundo precisa de Misha Yakovlev!
-Até mais tarde, Polina –Ele beijou minha bochecha –Os ovos fritos estão em cima do fogão. Você vai trabalhar hoje à
-Eu sei, eu vou daqui a pouco. Até mais tarde –Acenei, e em seguida ele saiu.
Levantei da cama, penteei os cabelos e fui me servir. Era por volta de 11:00 a.m e minha cabeça martelava de leve, como se fosse um tipo de ressaca. Apesar do problema de ontem, eu não quis ligar para Misha. Eu não queria que ele soubesse dessa situação e, talvez meu altruísmo seja tanto que eu não queria que ele se preocupasse. Só queria que ele ficasse bem.
“Você está presa” Ouvi uma voz bem longe “Você está presa ao seu próprio passado. ”
Larguei a frigideira bruscamente e virei minha cabeça para o lado, querendo saber quem estava lá
“O passado lhe perseguirá onde quer que esteja” –A voz continuou
Senti um frio na espinha e meu nariz começou a coçar. Quando o toquei, saiu uma gota de sangue.
Tem alguma coisa errada comigo.
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