The Dreamer
2 Descoberta
Notas iniciais
Ora pois tudo que eu queria era ser discreta, apesar de haver uma chama acesa dentro de mim querendo expandir meus horizontes, tudo aquilo não passava de simples névoa, que aos poucos ganhava outras tonalidades deixando meu mundo mais vivo, e gradualmente eu me sentia menos morta, foi para isso que eu escolhi um emprego “diferente” do normal, alguma coisa que transpassasse essa minha vontade de ser discreta. Queria, de alguma forma, mostrar o meu brilho pelo som da música, criando e inovando. Anastasia nunca concordou com o fato de eu ser uma DJ em casa noturna. Sim, eu sei que aparentemente não há tanto prestígio social em ter um emprego como este, mas para quem não teve influência materna/paterna, eu sinceramente achava minha decisão politicamente correta.
Abotoei minha jaqueta, trancei meu cabelo e passei spray nas mechas superiores e 5 minutos para as 10:00 p.m eu segui para o clube, e ao chegar lá, me deparo com uma figura alta, cabelos grisalhos, parado na frente do clube como que quem esperasse alguém. De repente ele virou para o lado e me viu.
–Polina! -Ele disse e finalmente eu o reconheci, era Dmitri, meu colega de trabalho e amigo.
Olhei para ele e meus olhos imediatamente se arregalaram. Ele não aparecia no clube fazia 3 meses, então obviamente fiquei surpresa com a sua repentina aparição.
–Nossa, você... Parece mais alto, eu acho
–Você que está encolhendo -Ele zombou -Vamos entrar que daqui a 1 hora você é a estrela da festa
Ele pôs a mão no meu ombro esquerdo e me levou para dentro do clube, cumprimentando sarcasticamente os seguranças.
–Quem é a estrela do momento? -Perguntei
–John Watson, americano.
Fomos de elevador até o terceiro andar, onde havia uma sala VIP na qual tinha uma boa visão semi panorâmica do salão.
–Já veio aqui, Polina?
–Não -Respondi admirada
Ele se sentou num sofá azul um tanto chamativo enquanto de servia uma taça de champanhe, em seguida olhou para mim.
–Servida?
–Acho que essa noite posso dizer que sim
Peguei a taça de champanhe e me sentei ao lado de Dmitri no sofá. Todo o público estava animado, agitado e maravilhado com a proeza de Watson no mixador.
–Ele é bom -Comentei
–Qual é -Ele franziu a testa -Você pode fazer melhor que isso. Acho que tenho uma coisa para você que pode te ajudar.
Ele foi até o freezer, perto da TV e tirou de lá uma garrafa de vodka.
–Sério isso? -Perguntei -Acha que vai me animar com alguns drinques de vodka?
–Vamos lá -Ele insistiu -Não seja mal-educada a recusar vodka deste pobre coitado.
Revirei os olhos e aceitei hesitante a vodka que Dmitri me oferecera. Bebi alguns copos, devagar, porém gradualmente aumentando a velocidade até minhas bochechas ficarem vermelhas. E enfim Watson tinha terminado seu show, e claro, o pessoal gritando o seu nome como um deus.
E agora era minha vez de ser a "estrela".
–É com você agora -Dmitri me deu tapinhas nas costas.
Nada respondi, só caí na gargalhada.
Desci de elevador até o piso onde todos estavam me esperando. As pessoas foram separadas em dois grupos para eu poder passar e finalmente chegar ao mixador. Minha visão estava um pouco turva e por um momento eu achei que fosse cair, o que graças aos deuses, não aconteceu.
Havia pessoas de todos os tipos na minha frente. Pessoas com cabelos coloridos, piercings, tatuagens nos olhos, algumas pareciam aberrações com abstinência de boa música. Engoli em seco e olhei um pouco para cima onde, lá no final, Dmitri me observava com uma garrafa de vodka na mão. Comecei a música com batidas pesadas e fumaça colorida começou a sair das duas laterais do palco, deixando todos ainda mais eufóricos. Coloquei meus headphones e adicionei ritmo às batidas, e de repente, comecei a ver todas as imagens triplicadas, e então caiu a minha ficha de que eu estava tão bêbada quanto os cachaceiros da esquina.
De repente, vi em câmera lenta uma luz branca vindo do Dmitri em minha direção, aumentando rapidamente e então explodindo o vidro em bilhões de pedaços, voando em cima de todas as pessoas e a luz continuando em minha direção, até formar um clarão, meus olhos se arregalaram e eu, sem mais nem menos, comecei a gritar o mais alto e forte que podia enquanto a luz me engolia.
Então, do nada, o tempo se retrógrada e a luz vai voltando ao seu local de origem, os estilhaços de vidro voltando calculosamente aos seus respectivos lugares e todos voltaram às suas expressões normais, dessa vez respondendo meu grito, como se que o que eu fizera tivesse sido voluntário.
Tudo voltou ao normal, inclusive eu parecia sóbria. Apesar de ter sido extremamente estranho o que sabe Deus tenha acontecido, manti a calma e voltei à me concentrar em fazer a melhor música para o meu público. Olhei para Dmitri e ele estava sorrindo, como que orgulhoso, e minha música estava chegando ao coração das pessoas, deixando-as bêbadas de música.
Depois de 1 hora e meia de show, me vi deitada no chão da sala VIP de Dmitri, com todas as luzes apagadas.
–O que está fazendo aí no escuro? -Disse Dmitri enquanto clicava no interruptor.
–Não, desliga isso -Eu disse enquanto tentava de algum forma impedir a claridade de chegar na minha retina
–Está bem. Mas acho que alguém deve estar uma fera agora. -em seguida Dmitri saiu da sala e fechou a porta
Franziu a testa e finalmente fui olhar meu celular que estava ao meu lado. 15 chamadas perdidas de Misha, sendo 4 caixas de mensagem.
"Polina, onde você está? Já são 11 p.m, já cheguei do trabalho mas você não está aqui."
"Polina... São 3:00 a.m, você já deveria estar aqui em casa, não acha?"
"Polina, sério, cadê você? "
"Ok, estou ficando preocupado."
Me virei de barriga pra cima. Eram 4:15 a.m. Selecionei o número de Misha para ligar, mas alguma coisa aconteceu. Não consegui segurar o celular e, de repente, eu estava correndo naquele local desconhecido de novo.
Me deparei com aquela mesma escrivaninha, no mesmo local, só que desta vez eu parecia mais experiente, como se eu conhecesse aquele lugar, como se fizesse parte de mim.
Você não pode fugir do seu passado
Aquela voz me disse de novo, dessa vez de forma bem mais familiar e compreensiva.
Parecia que ela sabia pelo que eu estava passando
–Sério, por favor, quem está aí? -Perguntei miseravelmente, mas ninguém me respondeu.
Andei em passos lentos até a escrivaninha, aonde finalmente, de forma calma, consegui abrir a gaveta. Havia a foto de um senhor de mais ou menos 60 anos, cabelos totalmente brancos, e a foto era antiga, tanto que a qualidade estava amarelada e as bordas estavam comidas, com o que parecia ser por dente de rato.
Engoli em seco.
–Você sabe quem ele é? -A voz perguntou
–Não -Fiz uma pausa -Não sei.
Virei para trás e vi uma jovem, de mais ou menos 21 anos, vestida de um certo uniforme, cabelos presos e sem maquiagem. Seus olhos pareciam desgastados para uma jovem.
–Era você quem estava falando comigo esse tempo todo?
–Sim. E eu sempre estive na sua frente, mas você não quis enxergar.
Franzi a testa
–Sempre quis saber quem você era. Eu era quem mais queria enxergar.
Ela suspirou com um tom desgastado
–Você finalmente deixou sua mente se abrir. Agora você pode me ver.
Pensei um pouco. Aquilo era real demais para não ser verdade. E se na verdade fosse?
–Então -Disse -Não vai me dizer quem é esse senhor?
–Polina -Ela se aproximou -Este senhor é seu avô.
Me distanciei alguns centímetros. Simplesmente não podia imaginar que existisse algum vestígio da minha árvore biológica por aí, muito menos numa espécie de universo paralelo como esse.
–Como você pode saber disso? Como você pode saber de alguma coisa sobre a minha família que nem eu sei?
–Você não iria entender. É mais complexo do que você imagina.
Ela se virou e foi andando embora
–Espera! -Gritei -Pode ao menos me dizer seu nome?
Ela parou no meio do caminho e virou parcialmente o rosto
–Pavlichenko. Lyudmila Pavlichenko.
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