The Dragon and the Phoenix - Livro 1.

2 Quando visitas inesperadas se mostram melhores do que se imagina.


[P.O.V Albus Dumbledore]

Estranhei o horário que a Sr. Bagshot marcou para que eu lhe visitasse – de manhã, depois do café, mas correndo o risco de nos estendermos até o almoço. Não quis tecer comentários, já era de enorme gentileza me receber para dar conselhos a um jovem sonhador.

O vento frio fez com que erguesse a gola da camisa, enquanto atravessava Godric’s Hollow sob o céu cada vez mais nublado. As primeiras gotas já caíam quando soei a campainha. Quem abriu a porta foi Gellert. A surpresa deve ter sido idêntica em nossos rostos. Por sua atitude, adivinhava que estava sozinho em casa e teria de lidar comigo sem saber como. “Olá.” Ergui as sobrancelhas.

[P.O.V Gellert Grindelwald]

Foi mais rápido do que imaginei. Até mais cedo do que esperei. Estava acabando de tomar café e arrumando as coisas depois de Batilda sair quando a campainha tocou. Bocejei e sequei as mãos da louça antes de ir abrir a porta.

Encarei-o com a minha expressão da manhã, ignorando ainda estar de pijama por ser bem fechado e quente. “Oi...” respondi desanimado, abrindo mais a porta para que ele passasse, estalando o pescoço. “Ela não está.” Comuniquei passando a varinha pelo peito para trocar de roupa, o levando até a sala para que se acomodasse. “Disse que precisou dar um pulo no Ministério para buscar alguma coisa. Não deve demorar.”

Peguei água para levar para a mesinha de centro da sala, onde já havia biscoitos, não me preocupando muito em oferecê-los, apenas indicando que poderia ficar a vontade. Sentei-me em um dos sofás, passando a mão no rosto.

“Desculpe por ter agido esquisito. Além de já ser um pouco, cada dia passo por uma surpresa emocional e estou meio louco.” Tentei dizer a verdade da melhor maneira possível. “Então, vai escrever um livro sobre o quê? Um livro seu deve estourar fácil em bilheteria.” Tentei ser legal, bem menos nervoso do que no primeiro encontro, mas ainda um pouco. Realmente possuía aquela opinião.

“Minha relação com os livros é um tanto passiva e acho bastante interessante a pessoa que se atreve a ser autor. Uma exposição de intelecto que exige coragem. Convença-me a lê-lo.” Lhe sorri com mais sinceridade, demonstrando meu real interesse e apenas querendo tentar ter uma conversa agradável daquela vez.

[P.O.V Albus Dumbledore]

Minha mente começou a processar várias coisas ao mesmo tempo, a primeira sendo o fato de que Gellert era um bocado mais alto que eu, uma vez que estávamos tão próximos. Estranhei também que parecesse mais tranqüilo daquela vez, embora estivesse menos preparado para me receber. Por fim, por que Batilda teria saído justo quando tinha marcado comigo em sua casa, sem ter enviado um recado se quer? Era muito lúcida para se ter esquecido, sendo mais provável que a ida ao Ministério fosse uma real emergência ou que quisesse meu contato com seu sobrinho-neto. Repassei tudo isso na mente no espaço de cruzar a porta de entrada e me instalar na poltrona mais próxima, aguardando que Gellert tomasse seu lugar.

“Não há de que se desculpar, nem vejo razões para ser tão cruel nas palavras que usa para si mesmo.” Respondi depois que tornou a falar. O fato de ser tão jovem e usar magia sem pronunciar os feitiços confirmava minha ideia de ser um bruxo de talento. Meu olhar se fixou por um breve momento no medalhão que trazia tão evidente sobre o peito, repousando nas vestes escuras. “E seria a última pessoa a levantar qualquer crítica a alguém que reage diante de constantes... como você disse? ‘Surpresas emocionais’.” Sorri-lhe sem conseguir disfarçar de todo uma nota de tristeza. “Espero que sua estadia aqui traga mais surpresas do tipo agradável.” Desejei com sinceridade.

Ergui uma sobrancelha quando mencionou, sem aparente ironia, que esperava sucesso de um livro meu. Já havia mencionado histórias de minha família; o que sabia – ou achava que sabia – sobre nós? Sobre mim?

“Bom, meus irmãos e eu não éramos muito incentivados a sair, então os livros viraram uma companhia ainda bem cedo. E parece que temos a mesma estória favorita.” Apontei-lhe o pingente do pescoço. “Acho que posso contar o caso dos três irmãos de cor. Várias vezes me questionei se me parecia mais com o irmão mais velho ou com o mais novo. Se acho mais preciosa a varinha das varinhas ou a capa da invisibilidade, já que prefiro agir e fazer... mas quem nunca teve vontade de apenas... sumir?” comentei, hesitando sobre estar falando demais sobre mim mesmo.

“Sobre o livro que quero escrever, vim justamente pedir orientações à Sra. Bagshot para começar. Embora goste de ficção, não me sinto inclinado a escrevê-la. Talvez comentários um dia? Devo começar com algo ligado aos estudos, mas muitas coisas me apaixonaram durante a formação.”

Sem que me desse conta, estava já um tanto mais a frente, na ponta da poltrona, para encarar mais diretamente o rapaz louro à minha frente, e fiz alguns biscoitos virem à minha mão sozinhos para não interromper a explicação.

“Pode ser que eu escreva mais formalmente sobre os usos do sangue de dragão. Sob as orientações de meu professor de poções, já descobri três, e desconfio de, pelo menos, meia dúzia. Não duvido que ainda possa haver mais. Por exemplo, sempre desconfiaram da presença de veneno no sangue do Dente-de-Víbora peruano, mas a dificuldade de colher uma amostra nunca motivou os bruxos a pesquisar mais a fundo. Fui, talvez, o primeiro a conjecturar que no sangue talvez houvesse não veneno, mas o antídoto, que confere à criatura a resistência ao próprio veneno. Com a intervenção de alguns contatos, conseguimos uma amostra e eu estava certo!”

Voltara a ser o estudante apaixonado e orgulhoso, que gostava de discutir com os professores e outros monitores, encantado pelas possibilidades dos estudos e da magia.

“Esse antídoto parece útil a uma série de venenos. Mas ainda não encontrei alguém disposto a levar esse estudo adiante. Espero que o livro atinja alguém disponível, capaz. Porque nossos intelectuais parecem parados, como se estivessem satisfeitos com a magia do jeito que ela está. Nesse ponto, admiro os trouxas com sua ciência, sua incansável vontade de saber mais, mesmo que, às vezes, sejam muito estúpidos e perigosos para saberem como usar o que descobriram. Se tivéssemos a humildade de aprender primeiro com eles, poderíamos aperfeiçoar o que sabem, aplicar à magia e chegar tão mais longe! Depois, poderíamos até ajudá-los de volta com o que fosse seguro.”

Parei um momento para refletir, bebendo um gole d’água e pegando mais alguns biscoitos. “Ou talvez eu escreva algo sobre... como a solução das coisas parece estar tão próximo delas mesmas. Como o antídoto e o veneno. A magia e a ciência. A defesa e as Artes das Trevas.” Aprendi com nossa fênix que é preciso se entregar ao fim e se deixar queimar para poder transcendê-lo.” Fiquei finalmente quieto para ver o que tinha a dizer.

[P.O.V Gellert Grindelwald]

Sem querer peguei-me pensativo quando disse que eu não ser tão cruel comigo mesmo. Eu realmente fazia isso. Não conhecia muito a minha gentileza e paciência para comigo e pensei em continuar aquele assunto, mas não o fiz. Havia aprendido que sentíamos empatia e simpatia por alguém quando queríamos falas sobre nós mesmos e hesitei. O mais velho dos Dumbledore havia vindo para brilhar e não para filosofar sobre a vida comigo.

“Não faz ideia do quanto espero mudanças vindas daqui. Obrigado por desejar... infelizmente há coisas que já estão traçadas para mim e o que me intriga é justamente aquilo que não tem resposta certeira. São nelas que me sinto livre. São tantas ‘surpresas emocionais’...” ri de leve. Já quase chutara o balde naquele momento.

Ouvia-o com sincera atenção, parecendo que meu olhar queria dissecá-lo quando me percebia junto a um espelho. Eu nunca aprendi a disfarçar interesse. Nem ter, nem fingir não ter. Difícil era não ser expressivo demais dotado desses olhos.

Achava intrigante seu olhar de solidão mesmo com família relativamente grande. Olhar este que já estava nele, não sendo apenas conseqüência do ocorrido com seus pais.

Peguei o símbolo das relíquias de meu colar entre os dedos quando o mencionou, soltando um leve suspiro ao olhá-las e um pequeno sorriso quando comentou poder saber de cabeça o conto. “Vai me achar louco. Mas desde criança tenho fascínio por elas e essa pergunta sempre foi feita a nós. Uma curiosidade para saber qual tipo de bruxo cada um de nós poderia ser. Acho interessante seu questionamento, mas sempre pensei em como seria obter as três. Possuo algo mais voraz pela varinha, no entanto. Acredita nelas? Que possam ser reais?”

Gostava de como a conversa progredia e lhe sorri ao voltar ao assunto do livro, tomando para mim a xícara de chá quente que fiz vir da cozinha, atento, apoiando as costas no sofá.

Observava-o enquanto ouvia e já aprendia como o jovem que exaltava sua inteligência com tanta naturalidade. Eu gostava daquilo. Sua forma tranquila de informar fez-me ter ainda mais vontade de escutá-lo e até mesmo pegar um bloquinho para anotar, mas sentindo a volta do olhar penetrante.

Ele faria grandes mudanças.

“Sempre é necessário um líder. Alguém que inicie o questionamento e aguente a pressão de ser seguido e criticado. Pode ser que se torne um que trará movimento. Eu também pretendo iniciar um.” Falei sério, mas calmo para não levantar desconfianças tão cedo. Percebi algo de dominador em suas palavras tão humildes de aprendiz e lhe sorri de canto ao beber mais um gole de chá, apenas ouvindo. Só melhorava.

“Sabe? Achei bastante intrigante o segundo tema. Ideias que todos querem dominar e encontrar algumas respostas. Encontra um bom ponto entre conhecedores e aqueles que ainda desejam saber.Se quer minha opinião, este será o best-seller Dumbledore. O outro é mais acadêmico, bastante interessante e útil, com boas pesquisas e reais descobertas que já mostram poder, vai revolucionar verdadeiramente e movimentar estudiosos. Dois públicos diferentes... e vou querer um de cada autografado se me permitir o abuso.”

Ri-lhe mais uma vez ao almejar verdadeiramente seu sucesso e, daquela vez, agradecendo a Batilda pela oportunidade daquela conversa e pedindo mentalmente que ainda demorasse mais uma pouco.

[P.O.V Albus Dumbledore]

Mesmo entretido com o que estava dizendo e explicando notei a resistência inicial de Gellert contra a minha pessoa se tornar um interesse em que tudo parecia genuíno e sincero em pouco tempo. É claro que parte de mim estava satisfeita em “conquistar” mesmo um público que parecia difícil, mas sentia um gosto verdadeiro de falar para ele, diferente do que vivia até então. Podia ver alguém que recebia minhas palavras estando inteiramente presente e que sua opinião teria importância para mim assim que a expressasse.

“Não posso achá-lo louco sem me colocar a mesma etiqueta. Também acredito na existência desses itens, como acredito na pedra filosofal. Uma varinha ancestral e de poder inigualável, uma capa feita de algo melhor do que pelagem de seminviso... a pedra eu não teria como explicar. Só não posso dizer, com toda a segurança, que eles pertenciam à própria Morte. Mesmo que... acredite nela também.” Confessei olhando para o outro lado, olhando para a janela.

Ouvi-o quando falou dos diferentes aspectos da liderança, o que me fez refletir em pontos que não me ocorreram antes. Provavelmente continuaria pensando quando estivesse em casa. “Por mais que eu goste de examinar soluções a curto e longo prazo para diferentes questões e tome minhas atitudes, não sei se seria um bom líder. Posso ser muito idealista, exigente, mas indeciso. Acho que não quero mandar mais do que o necessário.” Comentei, sem me estender demais, ou acabaria por cair em minhas próprias inseguranças.

“Você deve ter mais chances, se for tão concentrado e decidido quanto parece. Já tem algum plano traçado?” perguntei na expectativa de conhecer um pouco mais daquela pessoa que desafiava minha curiosidade. Apesar de ser tão expressivo, ainda não sabia muito do que o motivava, do que dava vida às suas ações. Eu queria descobrir, mesmo que não soubesse a razão.

Estava feliz de ter uma pessoa interessante e receptiva tão próxima de casa, naquele momento em que todos os meus conhecidos viajavam ou lutavam para se estabelecer em seus próprios empregos. Poderia preencher alguns momentos da semana com conversas úteis... pelo menos enquanto...

Franzi o cenho, com as mãos embaixo do queixo, quando me ofereceu sua opinião sobre meus potenciais livros. Achei que pudesse ter ido longe demais em minhas divagações e fiquei surpreso com seu apoio. Surpreso demais a princípio para expressar direito minha gratidão. “Achei que ninguém fosse levar muito a sério as reflexões de um garoto que... bom... que gosta de dizer que entende das coisas.” Falei com alguma hesitação e bastante humildade que só mostrava a poucas pessoas.

Confiava em Gellert mais rapidamente do que eu mesmo imaginava. “Nem sei, de fato, como transformar isso em livro. Sou muito jovem para alguém levar a sério meus ‘ensaios’ de filosofia.” Dei de leve com os ombros ainda olhando para ele. “Se soa promissor, posso pelo menos prometer manter o projeto até que ele tenha a oportunidade ideal de se concretizar.” Dei-lhe outro sorriso discreto.

“Agradeço por incentivar tanto. Espero que possa corresponder às suas expectativas, se é que ainda haverá alguma novidade no momento em que lê-los. Não será abuso nenhum, será um prazer oferecê-los.”

Veio-me novamente a dúvida e travei um pouco antes de conseguir formular em voz alta. “Pretende permanecer quanto tempo na casa da Sra. Bagshot, se eu puder saber?” tomei um gole d’água tentando parecer bem natural.

[P.O.V Gellert Grindelwald]

Um sorriso surgiu da mesma maneira que se foi quando também considerou-se louco. Mais uma forma de confirmar minha dificuldade com aqueles que fazem questão de viver dentro da caixinha.

Senti uma faísca passar por meus olhos. “Sempre problematizei bruxos céticos. Vejo que mesmo entre as almas escolhidas, a grandeza não está em todos os olhos. Para mim, não acreditar em Flamel é como não acreditar em nossa própria existência. Fico até aliviado por crer também na pedra, não que a minha opinião valha muito, mas para mim a grandeza de um bruxo não está apenas no poder que tem, mas no que pensa poder fazer. Isso é o que move o mundo. A pedra, a meu ver, é obviamente real. Prestando atenção, dá para perceber sua presença no mundo e as nuances que isso causa, mas as relíquias? Essas sim tiram-me da zona de conforto e me põem a querer saber mais.” Foi a primeira vez que ri a ele verdadeiramente, mesmo que de modo contido.

“Você disse que admira os trouxas por nunca cansarem. Não precisa tentar explicar tudo agora, sentir já faz toda a diferença. Sou mais sensível do que gostaria e, para mim, é ainda mais fácil perceber a existência de um objeto traiçoeiro como uma pedra da ressurreição do que um real altruísmo, por exemplo.” Virei-lhe os olhos após me recostar no sofá, falando entre sorrisos que me saiam do rosto.

“Sabe o que faz um bom líder, Alvo? Desculpe. Como devo chamá-lo?” fiz uma pausa aguardando sua resposta. “Um bom homem é um bom líder. Alguém que não confia cem por cento em si, aquele que nunca pensa estar pronto. Você vai ser seguido por isso e deverá tomar cuidado, pois pessoas se sacrificarão por crerem em suas palavras.” Tentei falar-lhe de forma tranquila. “Não fique assustado. Não estou tentando fazê-lo sentir-se melhor. Eu só sei de umas coisas.” Comentei descontraído.

“Eu? Não, não. Sei muito bem o que quero e quem sou para isso. Possuo certezas demais. Quero poder ajudar a modificar certas coisas, mas estou mais para perto de um ditador que de um líder. Não sou bom em negociações que não me fazem nenhuma diferença pessoal. Não é a toa que estou em Londres agora.” Ergui as sobrancelhas sorrindo.

“Que gosta de dizer que entende das coisas?” repeti em uma reflexão divertida. “Em Durmstrang chamamos isso de ‘ser frouxo’.” Brinquei. Ajeitei-me no sofá, debruçando-me em meus joelhos. “Mas falando sério, acabei de dizer que a grandeza não está em todos. E você sabe que ficar parado nos enfraquece. Pensando no mais provável, o mundo está esperando por jovens engajados e com vontade novamente. Quando escrever sobre o sangue, pense no que podemos usufruir com esses resultados. Se o bruxo certo, apenas um, ler, tudo pode melhorar. Pense nisso.” Me aproximei mais um pouco. “Ninguém importante começou velho. Todos percebemos quando começa o brilho, vai ser ótimo.” O motivei.

“Não me conhece ainda, Alvo.” Levei o cabelo para trás com um sorrisinho. “Não me importa se eu souber tudo o que vai dizer, ajudar a arrumar as idéias ou revisar, vou lê-lo como se fosse a primeira vez quando impresso. Porque vai ser uma obra-prima completa, além de que gostaria de fazê-lo para ler o conteúdo e não a pessoa. Fiz isso com Batilda algumas vezes, será interessante sair do vício da família.”

Agradeci com um baixar leve de cabeça e um sorriso quando aceitou autografar-me os livros. Fiquei por um momento com a mente parada, percebendo que ali já havia sido criada uma aliança de correspondência, saindo de meus casulos.

“Minha tia disse que me aceita aqui até eu arranjar um trabalho e ter onde ficar. Tenho algum dinheiro, mas não tanto para me sustentar sem meus pais e, bom, como não nos falamos mais, vou pensar no que fazer. Acabei de chegar e ela não me pressiona. Diz que gosta de ter alguém que ajude. Mas a ideia da exclusão ainda está sendo pesada para mim de digerir. Não sei quem vai me aceitar em alguma vaga, então respondendo sua pergunta, espero que não tanto, mas acabarei ficando alguns anos por aqui. Esperar a poeira baixar antes de decidir qualquer coisa. Se souber de alguém que precisa de secretário mirim ou qualquer coisa assim...” sorri sem jeito.

[P.O.V Albus Dumbledore]

Sua maneira de falar ao mesmo tempo me fascinava, divertia e desafiava. Tamanha autoconfiança era rara em alguém tão jovem, bem como os comentários irônicos, sorrisos ácidos e autoridade nata. Enquanto via a formalidade ser constantemente demolida, tirando-se esse caminho seguro, tive de tomar a decisão de entrar ou não nesse jogo.

“Quando diz ‘acreditar em Flamel’, quer dizer acreditar no que ele diz, certo? Porque ele é tão real quanto nós, amigo de nossa família e sei onde mora. Podemos arranjar uma visita, se tiver paciência. Flamel é tão reservado que até as corujas giram os olhos enquanto combinamos a data real. Sobre a pedra, ele solta pistas e nunca a mostra. Pela cara, eu lhe daria uns duzentos anos. Mas se tiver mesmo mais de quinhentos, eu não derramaria uma gota do meu chá com a surpresa.” Comentei, também erguendo de leve as sobrancelhas, como se comentando algo banal. “O cozido de sua esposa é divino.” Acrescentei.

Àquela altura, já não me surpreendi quando fui chamado pelo primeiro nome, mas não perdi a oportunidade. “Tenho cinco nomes para escolher à vontade, mas desconfio que seu preferido, e o que o fará sentir-se mais a vontade, será Wulfric!” disse-lhe dando um sotaque germânico tão exagerado que dei um pulinho na poltrona.

Seus comentários eram pertinentes e sensatos, mesclados com essas várias certezas que fazia questão de sublinhar. A sensação de ouvi-lo me fez lembrar das vezes em que cruzei com o professor de Adivinhação, e das outras poucas ocasiões em que cruzei com videntes ou possuidores do dom da profecia. Nunca fiz questão de descobrir se estariam certos ou não, notava que poderia ter em relação a eles algum respeito, temor, desdém e despeito. Eram bruxos que sabiam mais do que eu, sem qualquer fonte plausível. Gellert era ao mesmo tempo como eles e diferente de algum modo. Não soava místico ou fazia mistérios.

Mesmo chamado de ‘frouxo’, continuei a ouvi-lo, pois me elogiava e ironizava com a mesma naturalidade. Seu jeito de falar dos bruxos no coletivo e a convicção que mostrava mesmo no tom calmo confirmavam o que eu dizia. Seu poder de persuasão seria perigoso se suas intenções o levassem longe demais, ou se mudasse de ideia e abraçasse seu potencial para ser líder. Parecia melhor vigiá-lo de perto. Mas eu não era estúpido o suficiente de achar que aquele era o único motivo para desejar sua companhia.

Não tive tempo de lhe agradecer de novo a confiança em meu potencial antes que já estivesse falando do meu livro com tanto interesse e desprendimento. Fiquei sem palavras, olhando para ele alguns instantes antes de baixar os olhos para a mesa de centro. Senti um rubor leve colorir meu rosto e agitei o cabelo mais uma vez.

“Se está tão disposto a me ouvir e discutimos tão bem, poderia se reunir conosco, sua tia e eu, quando tiver vontade? Seus conselhos são valiosos. Só espero que entenda se não seguir todos eles à risca. Tenho a mania de fazer as coisas à minha maneira.” Comecei a falar ainda encarando o móvel, entes de reerguer o olhar, conquistando novamente a confiança e terminando com um sorriso leve.

Notei logo a diferença quando começou a falar da própria situação, pela primeira vez exitando levemente, deixando alguma informação vaga para que eu completasse como quisesse. Não tinha intenção de pressioná-lo com perguntas e tomei o cuidado de manter a expressão interessada e neutra enquanto falava.

Para não deixá-lo embaraçado, tentei pensar nas questões práticas. “Você parece bom demais para ficar de secretário. Merece carreira melhor. Não sei todos os procedimentos da formação de Durmstrang, mas, se preciso, podemos providenciar atestados através dos exames de Hogwarts. Você é perfeitamente capaz de fazer os NIEM do sétimo ano. Abrem muitas portas, mesmo que tenham algo de estúpido, como toda prova. Ainda tenho contatos lá que nos dão uma chance de conseguir um teste em situação excepcional.” Foi minha vez de recostar no sofá, cruzar as pernas e olhar para cima, pensativo.

“Claro que se eu souber de algo interessante antes, já lhe comunico.Vou pensar em algumas pessoas que eu possa enviar corujas.” Continuei. De fato já tinha algumas idéias, mesmo que esdrúxulos germinando na mente, mas esperaria que amadurecessem um pouco mais. “O que gosta de fazer? Já tinha alguma certeza poderosa em relação a sua profissão como tem com as outras coisas?” virei o rosto para ele, decidido a fazê-lo falar sobre outras coisas, sobre si mesmo, e não sobre mim ou grandes ideais. Precisava de alguma coisa banal até repensar, sozinho, nas sérias.

[P.O.V Gellert Grindelwald]

“Sim, sim, estava falando sobre acreditar no que ele diz. Mas espere? É conhecido de vocês? Que vida é essa, Merlin? Godric’s Hollow está mandando dizer que só aceita uma galera deste nível? Estou até me sentindo feliz agora por passar um tempo aqui.” Sorri-lhe. “Até aceitaria a visita sim, mas se ele fica fazendo charme e não mostra a pedra, não tenho qualquer pressa.” Ri um tanto quando supôs os quinhentos anos do homem em questão.

“Temos também uma tradição engraçada em nossa família. O quão mais inteligente o membro, mais vive. Já apostamos que Batilda será a responsável por todos os enterros. Ela sempre fica irritada, por isso nunca deixamos de lembrar.” Sorri. “Mas reconhece que é uma forma de dizermos o quanto a admiramos. Tema algum ‘Flamel’ em sua família?”

Os biscoitos vieram e logo foram cuspidos com uma risada mais alta e inesperada de minha parte. Não imaginava que fosse ouvir uma brincadeirinha assim tão cedo da boca de um membro de família conhecida por sua severidade e excelência.

“Prefiro Alvo, é mais bonito.”

Recoloquei minhas atenções em suas palavras quando recomeçou a falar, sentindo um mínimo sorriso terno rasgar minha face ao perceber tê-lo quebrado de uma maneira diferente desta vez. Seu rubor escancarava o que eu já sabia: seu interesse era também sincero à minha pessoa. Com isso, passou-me pela cabeça de que aquela poderia ser uma relação sincera, coisa que eu apenas havia conseguido com Batilda e mais dois amigos de escola.

Sua bela aparência era bastante notável, mas a expressão meiga fora a que conseguiu me encantar. O quão engraçado era começar a perceber as nuances daquele por quem você sabe que irá se apaixonar.

”Ora, imagine, acharei uma grande lástima você fazer o seu livro do seu jeito e não do meu, um completo estranho.” Voltei a brincar, o sorriso ainda mais carinhoso permanecendo. “Será um prazer me juntar a vocês. Não só servir o chá, mas poderei aprender bastante com esses diálogos. Levarei meu bloquinho.”

Agradeci com um baixar leve de cabeça e um pequeno sorriso até um tanto envergonhado quando me elogiou. Não me conhecia tanto assim para ter essa certeza, mas àquela altura da conversa, eu era incapaz de reclamar de palavras movidas por certeza. “Início de vida é meio estranho, principalmente assim, mas obrigado pela credibilidade.” Fui sincero.

Fiquei parado olhando para o chão pensativo. “Você é muito gentil, Alvo. Mas não sei se Hogwarts aceitaria me ajudar, sabendo que fui expulso de minha própria escola.” Uni as mãos em um pequeno suspiro. “Eu... roubei um professor. Um dos melhores. Um livro grosso cheio de rabiscos de pessoas diferentes. Que para muitos não são nada, mas para mim são coordenadas. Me consideraram perigoso demais por conseguir e mais ainda quando não puderam pegar de volta e me mandaram embora.” Contei um tanto travado, mas a vontade de dizer aquilo a ele. Se fosse mesmo tentar me ajudar, merecia saber.

“Hogwarts tem fama de ser a mais honrosa das escolas e não sei se irão me aceitar. E se aceitassem? Também vão tentar pegá-lo? Eu não pretendo devolver.” Falava calmo. “Se realmente conseguir isso, eu nem saberia como te agradecer. Uma formação completa facilita tudo, mas precisa saber que pode não ser simples.” Sorri humilde.

“Gosto bastante de desenhar. Tenho algum amor pelas criaturas que rodeiam este mundo e tento registrar do meu jeito tudo o que eu acho bonito. Batilda gosta até e me disse que pode ser que um dia eu ilustre algum de seus livros. Gosto também de ler pessoas por seus movimentos e modo de se comportar e, estando aqui, descobri que gosto de cozinhar. Gosto de ser o garoto do chá. Menos tempo para ficar confabulando coisas e mais tempo para a ação tem me feito bem. Minha mente descansa e descubro talentos... como meu bolo de laranja.” Sorri. “Modéstia a parte, o meu é o melhor que já provei até hoje.”

“Sabe? Eu estou gostando disso. Sempre fui o que não parou de ler, o que faz questão de se superar a cada momento. Ter alguém que gosta de mim por perto está fazendo já alguma diferença. Batilda vai mudar alguma coisa em mim e poderei encontrar mais gostos para compartilhar. E você? Além de cuidar desse cabelo brilhoso que dá ódio, o que costuma fazer quando não precisa ser responsável?”

[P.O.V Albus Dumbledore]

Correspondi com um sorriso a seu comentário sobre Godric’s Hollow. “Apesar da fama extravagante, este é um lugar que pode ser bastante banal. No máximo, reúne um número curioso de alunos e ex-alunos da Grifinória.” Comentei. “Mas Flamel não mora aqui. Ele tem uma casa interessante, bagunçada e confortável e, Paris.”

Pensei por um momento antes de responder a sua pergunta seguinte. “Acho que somos muito turbulentos para chegarmos tão longe. Não lembro de ninguém excepcional como sua tia promete ser. A esperança repousa na nova direção.” Cruzei as pernas, fazendo um falso ar dramático. “Não estou especialmente otimista.”

Não esperava fazê-lo rir tanto com tão pouco. Talvez nunca tivesse me esforçado muito para ser engraçado. Gostei da sensação que me motivava a tentar de novo. Agradeci o elogio ao meu primeiro nome e decidi que faria algum esforço para chamá-lo de Gellert.

Apreciei a ternura e a gentileza de suas palavras, mesmo que continuassem a um passo do deboche. Era como um jogo, não sem alguma diversão. “Consideramos o que eu e sua tia falamos, traga um outdoor.”

Ouvi-o com mais seriedade no assunto seguinte, voltando a me aproximar da borda da poltrona com as mãos embaixo do queixo. Mesmo para a sua natureza franca, aquele não era o tipo de confissão que se fazia levianamente – pensava em “confissão” porque continuava a ver a sinceridade nas palavras e expressão do jovem à minha frente mesmo quando baixou o olhar e a cabeça. Intuitivamente baixei os olhos outra vez para o pingente que trazia no peito: que outro assunto poderia apaixoná-lo o suficiente para motivar uma ação daquelas e nutrir tão firmemente suas certezas? Claro que era apenas uma hipótese, das mais divertidas e interessantes, mas e se?

“Acho pouco provável que você seja aceito como aluno.” Concordei, sendo igualmente objetivo. “Mesmo que essa honra da qual fala seja um tanto ilusória. Hogwarts foi fundada no desentendimento e é um símbolo do engano. Mas enfim; é mais fácil que consigamos apenas a aplicação dos testes que lhe dariam a certificação como um bruxo não só apto, como talentoso. Bastaria apenas se preparar para eles, o que não deve lhe ser difícil. Nisso, eu posso ajudar.”

Queria pedir-lhe que falasse mais sobre o livro que valia tantas consequências duras, porém, aquele não era o momento adequado. Retornei ao humor como forma de mostrar-lhe que não o culpava, enquanto se mostrasse tão sincero e digno de confiança. “Só prometa que pedirá qualquer livro que lhe interesse. Não tenho nada de misterioso em minha biblioteca, mas sou bastante ciumento com essas coisas.” Estreitei os olhos, brincalhão.

A simplicidade de suas últimas respostas me desarmaram outra vez, de alguma forma foram tão agradáveis quanto os temas profundos e estimulantes de alguns minutos antes. Percebi estar sorrindo depois de escutá-lo por algum tempo.

“Com as fotografias cada vez mais na moda, bons ilustradores tem se tornado cada vez mais raros, mesmo continuando preciosos. É uma carreira simples, mas se trouxer prazer e a liberdade depois de tanto confabular, como diz... também ajuda pesquisadores em herbologia, trato de criaturas mágicas, astronomia ou criadores de artefatos diversos. Quem sabe a próxima vassoura de destaque venha de suas mãos ou até mesmo varinhas!”

Ergui uma sobrancelha. “Quero ser devidamente apresentado a esse bolo de laranja, Gellert. Por favor, providencie um encontro propício para nós três.” Comecei. “Já que perguntou, comer é algo que adoro fazer, principalmente sobremesas. Ah, e obrigado, eu realmente perco tempo com o cabelo.” E gostava de ouvir elogios a respeito. “Já estou em paz com a cor e a ideia de que terei a barba ruiva de um bárbaro.” Completei, sacudindo a cabeça com a ‘tragédia’.

“Acho que sou uma pessoa chata e responsável. Gosto de deixar as coisas arrumadas, de viajar também, mas quem não gosta? Posso me dizer um bom piloto de vassouras. Gosto de fazer compras e às vezes tenho idéias para algumas invenções que não levo muito a sério, mas me divertem. Também me distraio com jogos, exceto aqueles que dependem demais da sorte. Ela nunca me acompanhou em jogos.”

Outra vez me dei conta de que aquele tipo de divertimento seria mais difícil, já sem as noites no dormitório ou na sala comunal, ou mesmo a companhia de Abeforth. Estaria diante de meu novo companheiro para os futuros momentos de lazer? Com alguma surpresa constatei que algo em mim torcia que sim.

“Espero que não esteja muito decepcionado como minha banalidade.” Dei de ombros. “Se chegou há não muito tempo, o que conhece de Londres? Já explorou alguma coisa? Já foi ao Beco Diagonal?”

[P.O.V Gellert Grindelwald]

“Bom, devo dizer que será um prazer tentar manter a tradição de minha tia e aumentar o número de bons bruxos no lugar. Afinal, que graça terá toda a fama ficar apenas com dois nomes? Aqui vocês dão bastante valor a essa coisa de sobrenomes e gerações, não é? Ouvi pouco, mas ainda o suficiente para reparar. Já ouvi falar de vocês, de uns Lestrange e até de outros que não me recordo agora. Posso me acostumar rápido, gostei dessa forma de ver as coisas. Fique otimista, nossa geração nos tem.” Sorri dando uma piscadinha amigável.

Assenti por ser exatamente o que eu queria dizer, os lábios entortados com sinceridade. Prestei ainda mais atenção àquilo que viria a ouvir da escola a seguir. Agradeci por seu esforço em não só ajudar-me a conseguir fazer os exames, como passar neles. Além de não deixar de notar a delicadeza do outro em não perguntar ou julgar minhas ações.

Sorri-lhe com um bufar brincalhão, cruzando as pernas ao recostar-se novamente atrás do sofá. “Não pretendo usar a mesma estratégia com alguém para quem acabei de revelá-la. Não se preocupe. Mas tenho, sim, curiosidade por sua biblioteca. Deve ser intrigante, além de poder saber um pouco mais dos seus gostos. Quando me levaria até ela?” disse testando até onde eu poderia demonstrar interesse sem assustar o jovem.

Achei incrível sua facilidade e verdade em me encorajar em qualquer coisa que eu fosse bom. Nem ao menos havia visto meus desenhos para ter certeza. Estaria apenas sendo educado? Eu não conseguia prever. Mas preferi acreditar.

“Confesso que nunca pensei em desenhar novas varinhas. Mas com sua fala agora, percebo o quanto seria desafiador imaginá-las.” Com um estalar de dedos, pergaminho e pena surgiram à minha frente. Peguei-os e comecei a rabiscar tranquilamente, ainda conversando sem tirar muito os olhos do papel.

“Sobre as vassouras, eu não sei. É algo mais grupal e precisa carregar alguma característica identitária. Lembra do ditadorismo? Prefiro não alimentar minhas idéias grupais e focar no individual mesmo. Vou pensar no assunto de tentar trabalhar com isso, obrigado.”

“Quando eu souber a próxima data que marcarem um encontro, farei o bolo e mais uma ou outra coisa que gosto e estou aprimorando. Temos acesso a certos chocolates diferentes e tenho me interessado em receitas com eles.” Ri um tanto de seu drama teatral. “Mas fica bem bonita a sua combinação de pelagem e cabelo. A natureza fez uma boa escolha. Vai ficar ótima a barba. Se deixar o cabelo crescer, não parecerá um bárbaro, mas um sábio.”

“Gosta de invenções? Não me surpreenderá então ver, além dos livros, os utilitários bruxos que criará. Há alguma ansiedade em mim agora para que o tempo passe e eu possa ver tudo isso concretizado. E não se preocupe com isso, se um dia se cansar de apenas responsabilidade, vem passar uns dias comigo em meu país. Vai gostar. É um bom lugar para mudar conceitos e descansar.”

“O famoso beco? Não. Nunca fui, mas adoraria. Sobrevoar o Big Ben deve ser satisfatório. Sobre os jogos? Não sou desse mundo, mas gostei de algumas noites assim na escola com os colegas. Podemos criar os nossos.” Sorri, virando o papel para ele com duas varinhas rabiscadas em estilo sketch. “A de cima tracei só pensando em como seria uma sua sabendo apenas o que sei. O que acha?”

[P.O.V Albus Dumbledore]

Tive uma sensação difícil de definir quando falou que nossa geração já nos tinha. Percebi que aquilo tinha grandes chances de ser real e significativo e torcei para que fosse algo positivo. Poderíamos criar tanto caos, mesmo com as melhores das intenções...

“Prometo escrever a carta para Hogwarts solicitando sua participação nos exames e te deixo ciente de todas as respostas.” Garanti, erguendo as sobrancelhas por ainda me surpreender com sua franqueza ainda mais marcante que a de sua tia – talvez porque, bem ou mal, fora casada com um inglês por um bom tempo e morava em nosso país há anos –. “A biblioteca não é minha, é de toda a família. São interesses meus, de meus pais e, ao menos um pouco, de meus irmãos. Pouca coisa é realmente exótica. Podemos estudar lá! Achei que gostaria de lugares mais excitantes para os primeiros passeios.” Respondi. Sabia que estava sendo reservado demais, mas não conseguia ignorar minha natureza.

Notei um entusiasmo sincero com a ideia de traçar varinhas – tão sincero que pôs as mãos à obra imediatamente – e fiquei satisfeito com a sugestão. “Acho que nossas varinhas andam muito tradicionais, sempre os mesmos núcleos, poucas madeiras exóticas ou materiais diferentes. Você pode trazer um olhar estrangeiro que falta a elas, a inspiração criativa que merecem. Pode esquecer as vassouras.” Ri, dando de ombros.

“Achei que sua tia ia preveni-lo de minha vinda, mas acho que já entendi como ela toma decisões por conta própria. É bem diferente do excesso de cerimônia da tradição da Inglaterra e tem algo divertido. Ou libertador. Prometo avisar eu mesmo da próxima vez que vier. E isso não é uma exigência para que cozinhe para mim!” acrescentei rápido, divertido, fazendo um gesto com as mãos. “Foi muito gentil e adorei a ideia, só não se sinta pressionado. Prometo comentários elaborados do tamanho que quiser, de uma palavra a um pergaminho.”

Corei inteiramente com o comentário seguinte a respeito de meu cabelo e barba. Murmurei um agradecimento que talvez sequer fosse compreensível e senti-me grato que estivesse dando boa parte de sua atenção ao desenho que traçava. Suas palavras soaram como um flerte. Torcia para que não tivesse o menor traço de legimência, ou meus pensamentos poderiam talvez ofendê-lo se não fosse.

“Eu usava os cabelos mais longos quando garoto e cortei um pouco porque estava cada vez mais fora de moda entre os adultos. No fundo, sinto falta. Meus pais detestariam. Quem sabe um bom uso dessa liberdade?”

Deixei as opiniões de estilo de lado para comentar um pouco mais das invenções. “Aprendia a ‘gravar’ feitiços com runas em objetos, o que é a base para quase toda a invenção mágica. Tenho um objeto para acender e apagar luzes que pretendo aperfeiçoar, e como gosto de relógios, tenho alguns projetos que podem ser divertidos.” Comentei. “Seus desenhos podem ser preciosos, se estiver interessado em se ocupar às vezes, só não posso prometer que avance muito nas idéias, então não posso oferecer um salário digno.”

Agradeci pelos novos convites, nem aceitando nem recusando de imediato, enquanto não soubesse se aquela intimidade toda era um traço de sua personalidade, se tinha idéias para comigo e qual a natureza dessas idéias. “Sim, o novo traz respostas e novas perguntas interessantes.” Refleti em voz alta. “Pode ser que eu demore até poder viajar de novo. Ainda estou aprendendo a lidar com algumas novas obrigações e exigências.” Expliquei, tentando não parecer que me queixava.

“O Parlamento é muito cercado de trouxas, então não aconselharia o voo. Talvez uma visita mais tradicional. Até encontrarmos a Capa da Invisibilidade.” Falei bem-humorado. “O Beco é só para bruxos. Os livros, utensílios, animais, ingredientes, roupas... é um lugar interessante e sempre com algo novo. Se levar adiante a ideia das varinhas, será parada obrigatória. Ah, e gosto de jogos de estratégia e cartas. Podemos descobrir o que fazer.”

Aproximei o corpo e o rosto melhor para ver seu desenho, sorrindo com interesse. “Se esta varinha é baseada em mim, acho que você me vê como uma pessoa rica em detalhes e interessante. Fico encantado. Pendurar algo na varinha é algo que nunca pensei, achei a ideia interessante. Acho que nunca cogitei alterá-la de alguma forma, como se ela fosse sagrada e não devesse ser mexida. Porém, algo assim, por que não? Também gostei das iniciais. Seria muito útil ter uma forma prática de assinar com um nome desse tamanho. Suas idéias são realmente boas.”

Fiz o gesto de tirar algo do pequeno bolso do colete, fazendo aparecer minha varinha. “Ela é mais tradicional do que a sua versão interessante. Mesmo assim não sou tão linear.” Sorri. “E então, quando iremos ao Beco para que eu possa te apresentar algo divertido?”

[P.O.V Gellert Grindelwald]

Assenti calmo com a fala das cartas e sorri de leve olhando para baixo um tanto agradecido de fato. Preferi, mais uma vez, controlar um pouco meus próprios impulsos até perceber que seu momentâneo recolhimento relaxasse. Não era difícil perceber que algo havia lhe incomodado ou o deixado sem jeito. Pois então parei. O único que sabia onde tudo aquilo podia chegar era eu e, infelizmente, precisava ir mais devagar. Pararia de forçar suas reservas.

“Agradeço se realmente for uma companhia agradável. É só o meu jeito. Desculpe se pareço querer te obrigar a conviver comigo. Eu sou empolgado ou totalmente desinteressado e não quero incomodar. Se realmente quiser mostrar seu mundo, estarei lá com certeza, mas sem pressão. A biblioteca de minha tia me encanta, mas gosto de conhecer outras prateleiras. É um dos meus modos de saber um pouco sobre as pessoas. Se você estiver se sentindo exposto, eu mostro a minha primeiro. Só não o livro que roubei, claro.” Dei-lhe uma risadinha fraca.

“Sobre os passeios, fico realmente bem animado ao pensar em tudo o que se pode ser feito nesse país tão cheio de mistérios. Mas, para ser sincero, sair desse vício casa-feira-feira-casa já me faria bastante bem.” Sorri triste.

Gostei do comentário sobre minha possível participação em melhorar a criatividade e até mesmo o poder das varinhas. “Vou considerar. Obrigado. Seria uma profissão ótima, principalmente para alguém que quer se esconder, como eu. Até tentaria fazer alguma para testar minhas idéias se alguém me ensinasse. Tal vez nesse próprio Beco que você fala. Arriscarei.” Falei ainda traçando, mas sem gostar da maioria.

Assenti com os olhos fechados, as sobrancelhas meio erguidas e devagar, mesmo que em tom divertido. “Não vai demorar nada para entender como Batilda expõe suas idéias. A cada dia ela se tornará mais previsível.” Brinquei ainda mais sério. “E não se preocupe, não me sentirei pressionado. Fico animado para que as pessoas experimentem. Mas quando mandar a coruja com a próxima data, eu faço o bolo para o lanche. Só te encherei de comida quando você mesmo se sentir a vontade para isso. Estou aprendendo a fazer biscoitos salgados, inclusive.”

Gostei quando sua composição de idéias mudou completamente quando elogiei, mas depois procurei manter ainda a compostura. Afinal, não havia ficado claro em seus olhos se havia gostado ou se estava horrorizado com minhas palavras.

“Encarar tudo isso com também visão de liberdade vai te fazer muito bem. Ninguém vai implicar justo contigo por visual, isso eu posso garantir. Ia ficar bem sim. Caso se sinta confortável de tentar, apoio.” Procurei mudar rápido de assunto.

“Sinceramente combina com um pesquisador esse tipo de gosto. Uma invenção com luz é bastante útil e não esperava pelos relógios. Interessante... mas também faz sentido.” Ri baixo por não poder ser contratado. “Não é como se eu recebesse alguma coisa pelo que faço nessa casa, Alvo. Deixemos as possibilidades fluírem, se possível.”

“Também não quero sentir isso: não saber quando vou poder fazer algo pela quantidade de coisas que estão nas minhas costas. Espero em breve também poder me tornar alguém útil. Mas aprecio ter algum tempo para minhas leituras, tédio e tranqüilidade. Aparento ser mais doido do que sou. Só comecei a fazer mais do que eu quero há pouco tempo e não sei muito bem como lidar. Só imagino o quão seria legal poder fazer certas coisas. O Parlamento é uma das construções mais clássicas daqui, por isso quero conhecer.”

Fiquei contente quando elogiou as iniciais que criei. “Posso ter facilitado algo em sua vida, olha que ótimo? Uma rubrica é sempre fundamental para nomes tão grandes.” Fiz o papel cortar-se para que a ilustração que fiz pensando nele se separasse dos outros rabiscos e fosse flutuando até ele. “Toma.”

Trouxe a varinha para levitar e girar diante de meus olhos. Não tão linear... isso era bom.

Logo a porta destravou e Batilda apareceu tirando luvas, casaco maior, gorro e echarpe. “Como essa cidade resolve ser fria às vezes! Me desculpe, querido. O fiz esperar muito, não foi? Vamos subir?” Parecia de fato encabulada.

Levantei-me com tranqüilidade, dando a mão a ela em cumprimento antes de ir à cozinha fazer o chá e buscar as coisas para preparar seu escritório para os dois.

[P.O.V Albus Dumbledore]

Não foi difícil notar quando se retraiu ainda mais intensamente do que eu, mostrando-se uma pessoa atenta às reações alheias e muito sensível. Era uma pessoa de extremos, como tinha dito com suas próprias palavras. Um perfil de personalidade que, de alguma forma, eu conhecia bem, e mantive em mente ao continuar.

“Claro que sua companhia é bem vinda. Só estou acostumado a lidar com pessoas com necessidades e exigências especiais e isso me fez péssimo nos improvisos. Vamos ‘trocas bibliotecas’! E não fale mais desse livro, porque está me deixando realmente curioso.” Brinquei atenuando a situação.

Sobre a visita ao Beco e à produção de varinhas, lembrei-me do ciúmes da família Olivaras e fiz uma careta. “A família dos fabricantes de varinhas aqui estão no ramo há séculos sem enfrentar qualquer concorrência real. Pode ser melhor que não comente seu interesse na confecção delas no começo, ou ficarão mais reservados. Se parecer só um curioso interessado ou um fã, falarão bastante do trabalho para encantá-lo. Você é inteligente e vai aprender. Há livros sobre as madeiras usadas e outros criadores na Europa e nas Américas que poderíamos conhecer.” Completei o pensamento, sem me dar conta imediatamente que acabava de aceitar seu convite de explorar as terras próximas de seu país natal.

“Oh, sim, procurarei sempre vir com tempo. Não sou muito apegado à pressa e visitas de poucos minutos não me parecem justas. Principalmente com comida envolvida.” Sorri amigavelmente com algum humor. “Biscoitos e bolos para acompanhar o chá são o melhor legado da Europa para o mundo.”

Meu olhar se desviou para a janela enquanto pensava em algo para responder – se é que havia alguma necessidade de resposta. “Ter sempre algo para fazer, mas não ser obrigado a fazê-las todas deve ser um equilíbrio que todos procuram.” Falei também um pouco para mim mesmo, colocando o cabelo atrás da orelha. “Não se preocupe, logo estará no caminho daquilo que quer.”

Ergui as sobrancelhas quando recebi o desenho de minha varinha simbólica. “Nossa! Obrigado!” contemplei o desenho entre meus dedos, sorrindo. “É assim que sou visto.” Guardei o papel no bolso do colete junto ao peito. “Existe algum motivo para a chave pendurada?” perguntei enquanto acompanhava seu exame de minha varinha.

“Vamos nos encontrar no próximo fim de semana para começarmos as explorações de Londres?” propus. Conseguiria acelerar alguns papeis para o jornal se preciso e lidaria com o resto depois. Merecia aquele dia de lazer. “Posso te buscar aqui para aparatarmos em lugares seguros.” Convidei, no momento em que ouvi a senhora chegar pela porta da frente.

“Por favor, não se preocupe. A manhã está sendo muito agradável.” Levantei-me imediatamente para pegar sua mão. “Espero que não tenha acontecido nada que a preocupe demais. Se o horário não for mais conveniente, posso remarcar.”

Minhas ofertas se mostraram desnecessárias, já que se preparava para subir. Chegou lá em cima infinitamente mais rápido do que eu teria chegado. Inclinei a cabeça para dentro da casa antes de tomar as escadas, falando com Gellert: “Vai se juntar a nós, não vai?”

Instalamo-nos no escritório que eu já conhecia. Dessa vez a conversa girou em torno de meu trabalho – do que eu já fazia e do que gostaria de fazer; surpreendeu-me dizendo que tinha procurado textos meus para ler nos jornais e periódicos para avaliar meu estilo: achou-o elegante, mas não prolixo, cheio de alusões e metáforas interessantes, mas excessivamente didático e carregado de lições de moral. Dessa forma, aconselhava-me realmente os textos acadêmicos, já que teria de fazer o autor em mim nascer de novo se quisesse me arriscar na ficção (exceto, talvez, em fábulas infantis, ela comentou, onde as lições eram bem vindas e tradicionais).

A conversa foi franca com algumas risadas, críticas diretas sem rispidez e que levei a sério, um bocado de auto-avaliação. Com freqüência procurava o olhar de Gellert para ouvir o que tinha a dizer, se concordava ou não com sua tia, se achava qualquer ponto interessante.

Ao final, agradeci enormemente a visita. “Sinto muito de não poder retribuir imediatamente. Minha irmã é muito introvertida e preciso sugerir aos poucos e com insistência sobre as visitas. Mas será um prazer recebê-los em minha casa o mais rápido possível.” Falei ao me despedir.

1899 – Outubro. Casa de nossa família.

Novamente saio daquela casa com várias coisas em mente – mas com uma sensação mais agradável do que na última visita. Percebo que vou aprender muito mais do que aquilo que supunha – e algo de uma natureza totalmente diversa. Fica o sentimento de que a primeira parte de minha manhã fora ainda mais valiosa que a segunda.

Pela primeira vez em muito tempo assumo um compromisso em total liberdade e pensando em meu próprio prazer. Acredito que estivesse confundindo a vida adulta com escravidão. Quando cheguei em casa, fui primeiro mexer em alguns projetos antigos – meus rabiscos, esquemas, idéias soltas que estavam nas gavetas de meu quarto e levei ao escritório. Deve ser minha forma de dizer que vou levá-los a sério, como levo meu trabalho.

Nem toquei no que precisava fazer para o jornal. Tiro o atraso disso amanhã. Talvez em Londres consiga surpreender Gellert de alguma maneira e proporcionar algo de bom em sua rotina. Ele tem um sorriso que quero ver mais vezes.

[P.O.V Gellert Grindelwald]

Já estava na cozinha quando ouvi sua voz. Sorri levemente ao pensar que, de alguma forma, já queria minha companhia, mesmo que aquilo já fosse combinado, meu coração, ainda assim, alegrou-se.

Respondi em uma confirmação breve enquanto arrumava as coisas nas bandejas. Sabia que Batilda não havia se alimentado antes de correr para casa, então caprichei um pouco mais em sua bandeja, também não deixando a de Alvo muito menor para não ser indelicado.

Demorei um pouco mais por conta de esquentar, arrumar e até preparar coisas diferentes para cada um. Agora que eu sabia um pouco mais sobre os gostos de Alvo, peguei uma das bases mais clássicas, mas bonitas que possuíamos na cor cobre. Decorei com florezinhas laranjas por conta de sua vicking performance e sorri ao fazê-lo. Sabia que repararia no detalhe, mesmo que não expressasse.

Atentei-me à sua preferência por doces, pondo um cheesecake de um lado e um sanduíche com potinhos de molho agridoce para que escolhesse. Um bule com água quente e algumas opções de erva para que escolhesse o sabor. Além de um ou outro chocolate.

Para Batilda também preocupei-me em abordar suas preferências até mesmo na flor. Para mim, coisas mais salgadas, água gelada e também um ou outro chocolate perdido pela bandeja.

Quando finalmente subi com as três levitando, percebi que já estavam bastante entrosados no assunto. Cada uma repousou à frente de seu dono na mesinha de centro entre eles e minha tia agradeceu mil vezes a sutileza com a qual eu preparava as coisas, elogiando novamente quando provou o combinado de opções. Fiquei sinceramente feliz, recostando-me em uma poltrona que me possibilitava ver os dois ao mesmo tempo sem esforço, já comendo algo e pegando o bloquinho para traçar algo. Queria registrar aquele momento, aquele dia, do meu jeito.

Não teci quase nenhum comentário, absorvido pelo que eu mesmo estava fazendo, muitas vezes meu olhar trocando-se com o de Alvo nas comuns faíscas. Às vezes apenas baixava os olhos com algum sorriso, voltando a concentrar-me. Estava claramente ansioso para saber o que eu fazia e pensava a respeito e, assim, percebi o quão gostava de despertar sem interesse com tanta facilidade.

Mesmo assim esforcei-me para não parecer uma múmia e corresponder o motivo de ser convidado, traçando algumas idéias complementares para ajudar no desenvolvimento, concordando também com o comentário feito pensando nos textos acadêmicos.

Quando tudo indicou-se para terminar, ajeitei meu material e levei Alvo à porta da casa com minha tia despedindo-se dali mesmo alegando que já era de casa e se pouparia de certos costumes, mas desconfiei que nós dois conhecíamos o motivo real.

Abri a porta e deixei-o passar, apoiando na mesma quando virou-se novamente para se despedir. “É sério... que nos quer lá o mais rápido possível?” perguntei baixo.

Esperei que respondesse antes de agir, pegando o papel dobrado e pondo em seu bolso com um pequeno sorriso doce. “Sábado que vem, cedo aqui, então?”


Godric’s Hollow, 1899.

Fechei aquela porta hoje sentindo que eu havia feito algo certo. Mesmo que ainda pense no que Batilda disse, não quero seguir o plano. Não sobre isso. Quero que possa ser verdadeiro caso venha mesmo a acontecer. Sinto que ele gostou de mim. Já eu sinto que podemos ser mesmo algo a mais. Ele mexe com algo dentro do meu peito e esse será o meu primeiro objetivo daqui por diante.

G.G