[P.O.V Gellert Grindelwald]

Durmstrang, 1897.

Tive aquele sonho novamente. Por isso resolvi anotar. Pode ser importante. Existirá um homem em minha vida. No primeiro sonho, travamos uma longa batalha após uma relação conturbada e nos tornamos inimigos. No de hoje... tudo muda. Nos tornamos um casal, ele, de alguma forma, consegue mudar o rumo de meus planos, mas me senti feliz.
Tenho esses sonhos bem frequentemente e parece que vai acontecer em pouco tempo, já que o intervalo entre os dois foi bem pequeno. O que mais me angustia é saber o nome. Alvo Dumbledore. Já ouvi falar da grandeza da família e até que possuem a fênix os protegendo. Não sei até que ponto é verdade.
Acho que esses dois sonhos mostram diferentes caminhos que podemos tomar, mas o claro é que acontecerá. É angustiante saber que vou conhecer alguém que pode mudar tudo. Há como evitar?
Preciso lembrar deste nome para que possa evita-lo. Se houver como.

G.G


Godric’s Hollow, 1899.

Aconteceram coisas demais e não compreendi perfeitamente. Esperaram o último ano chegar para me expulsarem da escola e minha família, cheia de gente “incrível”, ficou revoltada com minha indisciplina, decidindo que eu precisava tomar um rumo. Expulsando-me. Fez sentido.
Bati record de expulsão por semana na história da magia. Passei duas semanas vivendo de favor em um quarto na casa de um colega de escola... tempo o suficiente para a minha história rodar a ponto de irritar minha tia-avó, Batilda.
Aparatou no quarto onde eu estava repentinamente, de forma raivosa , mandando-me juntar as coisas pois eu, a partir de agora, moraria com ela. Estando idosa, precisava de alguém que a ajudasse e achava loucura uma família como a nossa considerar-se digno de condenar alguém.
Fiz as malas pulando da cama, deixando um bilhete com um presente ao amigo agradecendo pela ajuda. Agora moro com ela em Londres e algo me diz que minha vida começará a mudar.

G.G

Acordei no susto, batendo a cabeça na lâmpada, a testa suada entre os livros do último ano da escola e alguns específicos de minha tia. Rasguei algumas folhas, descendo para tomar um banho.

“Gellert...” ela chamou batendo na porta, preocupada e com voz tranquila. Ela me tratava bem de uma maneira geral. Era uma companhia agradável. “O que houve? Outro sonho?”

“Não paro de vê-los. Todos os dias. Estou sempre angustiado, está um pouco mais difícil de lidar nos últimos dias, tia.” Respondi tentando parecer calmo.

“Aqueles sonhos com os trouxas?” respondi que sim em silêncio. “Acha que precisamos fazer algo sobre?”

“Alguma hora precisaremos. Vai acontecer uma guerra das grandes e não vai parar por aí.” Um momento de silêncio se fez atrás da porta de onde eu estava.

“Eu preciso te dizer uma coisa.” Por seu tom, a massagem que eu recebia da água quente nas costas deixou de ser sentida, fechando os olhos um tanto apreensiva para escutar.

“Hoje de manhã chegou uma coruja jovem em minha janela trazendo a carta de um jovem que deseja me entrevistar para um trabalho. Se quiser, posso recusar ou encontrá-lo em outro lugar.”

“É ele... não é? Aquele Dumbledore.” Mais um momento de silêncio. Era a resposta que eu precisava. “Não vou conseguir evitá-lo para sempre. Isso vai acontecer.” Falei um tanto tenso. “Não há prova maior que ele vir aqui.”

“Coma alguma coisa, querido. Há chocolate no armário.” Disse tranquila e pude ouvir suas passadas se distanciarem. Respirei fundo.

Continuei quase não conseguindo dormir mesmo diante dos mais monótonos textos presentes nos livros da estante de minha senhora tia. Como era impossível parar de pensar, afundei-me nos afazeres domésticos e nos estudos próprios, quase me dopando dos mais variados chás para tentar não sonhar toda noite e até que chegou a funcionar, permitindo-me descansar. O dia marcado demorou a chegar, mas quando menos me dei conta, já era hora.

Pela manhã fui à feira trouxa que acontecia em nossa rua perto dos comércios locais para buscar as frutas que ela tanto gostava e bruxos não possuíam muito hábito de consumir. Particularmente, eu não gostava de ir. Como eram barulhentos e gostavam de conflito por nenhum motivo. Ainda precisava ficar carregando um carrinho para não chamar atenção.

Ela permitia que eu escolhesse algumas coisas de meu interesse nesta feira e devo confessar que isso me proporcionou conhecer coisas como kiwi quando traziam alimentos mais tropicais e uma tal de manga.

Alguns eram bastante simpáticos comigo por já me esperarem mais ou menos no mesmo horário às quintas. Conseguia sorrir-lhes e ser agradável de volta na maioria das vezes, mesmo que nunca deixasse de ter o sentimento que nossa vida seria bem mais fácil sem eles. Alguns, no fim, eram realmente de bom coração.

Havia um senhor chamado Will que vendia peixes e me achava muito bonito e educado, dizendo sempre que queria apresentar-me sua filha. Meu maior medo era chegar em sua barraca um dia e encontrar a menina tão constrangida quanto eu a mando do pai, mas isso nunca acontecera.

Demorei mais um pouco daquela vez ao experimentar coisas novas para fazer um lanche legal para minha tia que andava meio abatida e para a visita. Enfim fui andando pelas ruas com meu carrinho barulhento até em casa, ainda parando para cumprimentar um ou outro que também costumava vender-me coisas certeiras para algumas receitas. Era um lugar pequeno.

Finalmente chegando perto da porta de casa, percebi a luz acesa de um quarto do segundo andar que quase nunca estava. O escritório de Batilda. Por ela, pude ver uma silhueta que não conhecia, alguém de perfil com aparência compenetrada. Os cabelos jogados de lado me impediam de ver o rosto. Respirei fundo e entrei pela porta silenciosamente para tentar não ser notado.

Fui direto para a cozinha pôr as compras em seus devidos lugares, no máximo conseguindo escutar uns cochichos. Prometi a mim mesmo não me aproximar da porta por curiosidade e consegui manter-me entretido sem tanta ansiedade até:

“Gellert, querido, pode nos trazer um chá?” ela disse em um tom um tanto mais alto, apenas o suficiente para que eu escutasse. Tentei agir naturalmente, pegando os bules pequenos com xícaras para preparar o favorito de Batilda e um mais genérico, mas gostoso, para o Sr. Dumbledore. Aproveitei e fervi um tanto a mais de água para me fazer um calmante de camomila.

Pus nos pratinhos um pedaço de bolo de amora que havia na geladeira e alguns biscoitos, tudo subindo comigo em uma bandeja flutuante à minha frente, mais firme do que eu conseguiria segurar e subir aquelas escadas apertadinhas.

Ao passar pela porta, direcionei um sorriso educado à visita sem olhar muito diretamente ao seu rosto, dando-lhe a xícara em mãos e servindo o chá, pondo o bule em um apoio na mesa entre eles logo em seguida, servindo-a logo depois. A bandeja apoiando-se delicadamente na superfície de madeira. Ela, séria mesmo que doce, pôs-se a falar:

“Irrito-me com bules enfeitiçados, você não? Ficam querendo encher a xícara a todo tempo. Prefiro a moda trouxa. Ah, obrigada, querido.” Disse segurando sua própria xícara quando servida. “Este é meu sobrinho, Gellert Grindelwald. Está morando comigo e me ajuda em bastante coisa. Gellert, este é Alvo. O jovem da família famosa o qual te falei.” Nos cumprimentamos com um baixar de cabeça e um pequeno sorriso tímido novamente. “Ele pediu uma foto para expor em seu trabalho. Pode tira-la?”

Assenti tranqüilo, indo para trás da câmera que ela possuía posicionada para o melhor ângulo de seu escritório. Era comum que me pedisse isso para que a pessoa não precisasse levar uma. Tirei duas, uma para ele – entreguei-lhe – e uma para que ela pudesse guardar, já que gostava de registrar cada pequeno sucesso que seu trabalho proporcionava.

“Espero que apreciem o chá. Com licença.” Sorri e saí da sala para deixar a entrevista continuar, fechando a porta. Dessa vez mantendo-me um pouco atrás dela.

“Ele é tímido. Pensa que me incomoda em horário de trabalho, como se isso fosse possível. Por favor, não se chateie com seu silêncio constante.” Sabia que ela falava sorrindo. Fui logo depois disso para o meu quarto matar o tempo e não tentar-me a escutar tudo, mas sempre imaginando o que a pena encantada do visitante estaria anotando naquele momento. Até que ela chamou mais uma vez. Pulei da cama.

“Querido, é hora do meu remédio. Preciso descer. Pode fazer-lhe um pouco de companhia?” Pediu-me levantando se sua poltrona e saindo pela porta com um sorriso meigo, indicando ao outro que apenas demoraria um minuto.

Isso era MESMO sério? Por que não me pedia para trazer o remédio? Assenti disfarçando, sentando-me ao lado do jovem ruivo, mesmo que um tanto afastado. “Então... você é um Dumbledore?” disse quase em uma pequena risada. “Sempre quis saber se as lendas são reais ou apenas historinha para aumentar a grandeza da família. É verdade essa coisa da fênix?”

Acabei rindo um pouco com ele antes de responder atentando-me pela primeira vez ao seu rosto. Notei precisar urgentemente fugir dali, pois aqueles olhos claríssimos eram de qualquer coisa, menos de um grande inimigo. Precisava que não virássemos amigos ou o meu destino, tudo o que sacrifiquei e me dediquei estaria fadado.

Mas o quanto eu realmente poderia controlar meu destino? Ou apenas estaria adiando o inevitável? Ele possuía, claramente, olhos de amor e empatia, além de bastante poder. Seria, sim, um grande bruxo. Nosso olhar parecia conectar-se com uma certa freqüência e vez ou outra eu desviava o rosto para evitar. O ouvia com real interesse, percebendo nada temer. O chá tranquilizante havia feito seu efeito.

Disse que poderia trazer mais do que pudesse ter gostado quando a moça reapareceu. Graças a Merlin! Aqueles poucos minutos pareciam ter durado uma eternidade. Mas dessa vez, com alguma insistência da mesma, permaneci ali escutando o resto da entrevista sentado ao seu lado. Evitava olhá-lo demais, mas sempre que acontecia, aquela faísca de conexão retornava.

Até que finalmente encontrei uma deixa para juntar as coisas na bandeja e me retirar enquanto trocavam agradecimentos, autógrafo e ele pensava em comprar um de seus livros. Desci rápido para a cozinha e lá fiquei.

[P.O.V Albus Dumbledore]

Aquele seria meu primeiro trabalho depois de formado, a primeira coisa a ocupar minha mente que não dissesse respeito à família depois de tudo que acontecera. Ainda me lembrava da sensação estranha de ter acompanhado meu irmão a estação King’s Cross onde brigamos e o obriguei a embarcar pela última vez em 1º de Setembro, um dia depois de meu aniversário de dezoito anos: a locomotiva partindo para Hogwarts sem mim. Senti que lamentava.

Era natural começar trabalhando nas publicações de periódicos de magia; já estava familiarizado com algumas equipes editoriais, com a produção de textos no formato solicitado. A vida acadêmica me deslumbrava, e era um bom ambiente para estabelecer um bom círculo de contatos.

Fui aceito como contribuinte independente em vários editoriais tão logo solicitei. Mas todos respeitaram um período de dispensa (sem que eu assim solicitasse), enquanto administrava os assuntos de família e procedimentos necessários após o ocorrido.

Aguardavam meu contato. Quando enviei minha coruja, disseram que ainda era um evento recente e que não havia pressa; insisti, e deram-me uma ocupação bem simples, que não me exigisse esforço criativo ou acadêmico e não precisaria nem mesmo me deslocar muito por aparatação: entrevistaria Batilda Bagshot, que se destacava como historiadora da magia, tinha dois livros de sucesso crescente e apresentara a ambição de fazer o maior compêndio da história mágica até então. Alguns consideravam-na como possível futura professora de História da Magia em Hogwarts, considerando a avançada idade do titular da disciplina.

Para além de tudo isso, era uma antiga conhecida da família, residindo no mesmo bairro que nós a algumas ruas de distância, algo que os diretores, sem dúvida, não ignoravam. Quiseram, efetivamente, facilitar as coisas.

A resposta da senhora Bagshot confirmando nosso encontro não tardou, ficando data e hora oportunas. No dia marcado, arrumei-me com esmero para meu primeiro trabalho nesta nova etapa da vida, peguei bom pergaminho e minha melhor pena, tranquilizei Ariana de que não demoraria e dei instruções claras à governanta visando a segurança de minha irmã caçula. Finalmente saí para o ar fresco que já se carregara de Outono. Segui a pé.

No caminho, repassei as perguntas que pretendia fazer. O trajeto, ainda um tanto familiar, passou rápido e logo me vi diante da porta da frente. Toquei a campainha e a jovem senhora não me fez esperar muito, saudando-me com alguma familiaridade e até carinho. Notei que achou engraçado meu excesso de formalidade, mas logo “me acompanhou”, corrigindo suas ações. Convidou-me a seu escritório, onde poderíamos começar a entrevista.

Aos poucos fui ficando mais à vontade. Algumas perguntas geravam respostas longas e inesperadas, revelando um lado divertido e irreverente da senhora Bagshot que não esperava. Notei que falava sempre a verdade, pois tinha facilidade de detectar a mentira na fala e no olhar dos outros mesmo sem legimência. Sua transparência facilitava ainda mais meu trabalho e minha pena trabalhou incansavelmente. Mais de uma vez me vi rindo de seus comentários irônicos, de grande sagacidade.

Em certo momento, senti que era observado, ficando em alerta mesmo sem desviar a atenção de minha anfitriã. Alguém entrou na casa sem causar nela qualquer reação. Estava surpreso, pois até onde sabia, morava sozinha.

Avisou-me rapidamente que me serviria algo para beber e nem tive tempo de dizer-lhe que não seria necessário. Em pouco tempo, um jovem simpático, mas que me transmitia grande nervosismo me revelou a identidade do recém-chegado. Agradeci-lhe quando me entregou a xícara, e, novamente, quando me serviu o chá.

“Sim, minha mãe era da mesma opinião. Preferia qualquer coisa à que se fizesse sozinha.” Comentei em resposta à senhora. Correspondi o gesto de Gellert com a cabeça, o que me obrigou a colocar novamente o cabelo atrás da orelha. Notei seus olhos intrigantes pela primeira vez. Provei o chá, sorrindo: era o mesmo que oferecíamos às nossas visitas, e que também apreciava.

Ergui-me para a foto, desamassando o colete e tomando meu lugar junto a Batilda Bagshot. As fotos ficaram ótimas. Senti o alívio do sobrinho-neto quando pôde se afastar e segui-o com os olhos até que fechasse a porta, um tanto intrigado.

Continuei a entrevista por vontade própria, tendo já perguntado todo o básico necessário a respeito de seu trabalho, seus projetos passados e futuros. Perguntei-lhe sobre as possibilidades de um futuro em Hogwarts, sem conseguir arrancar nenhum segredo a respeito de seu livro grandioso da História da Magia.

Com o decorrer dos minutos, estávamos apenas conversando informalmente. Provei os doces que eram servidos com prazer. Em certo momento confessei: “Gosto de conversar com autores. Os livros me encantam. Tenho a intenção de escrevê-los talvez levando adiante alguma das minhas pesquisas de estudante.”

Surpreendeu-me com o convite de ir novamente em sua casa, quando estivesse resolvido a escrever meus livros para que me desse sugestões e orientações. Agradeci grandemente. Ouviu com atenção e interesse os projetos que me envolveram nos últimos anos, mas tentei ser breve: não era meu momento de falar demais.

Quando viu que não me estenderia, pretextou que precisava de seu remédio, chamando o sobrinho-neto para me fazer companhia. O jovem loiro não questionara e tomou seu lugar no outro extremo do sofá. Não sei se consegui disfarçar o quanto achava aquilo cômico.

A franqueza de sua pergunta liberou o riso leve que vinha tentando segurar. “Sim, sou ‘um Dumbledore’. Somos uma espécie que está entrando em extinção. Não sei quais estórias tem ouvido a nossa respeito e é provável que sejam verdades fantasiadas para o Carnaval. Exceto pela fênix. Ela é real e posso apresentá-los assim que ela voltar. Tem o hábito de partir por alguns dias ou semanas e retornar quando bem entende.”

Como nunca o havia visto em Hogwarts, tinha nome típico de leste europeu e detectava o sotaque em seu inglês, perguntei se era ou fora estudante de Durmstrang, minha primeira hipótese. Apenas concordou com a cabeça, sem prolongar o assunto e não insisti, apesar de minha curiosidade crescente a respeito de sua pessoa. Era impossível não notar que mesmo os olhares furtivos se encontravam e que a presença de seu potencial mágico era notável.

O retorno de Batilda Bagshot foi um alívio para os momentos em que a conversa não avançava. Fiz ainda algumas perguntas a respeito de seus autores favoritos e inspirações para escrever, confirmei que era de Durmstrang e que viera à Inglaterra por conta de ser casamento. Indaguei onde me aconselhava a comprar seus livros e disse-me que tinha alguns. Comprei um sobre a Defesa contra as Artes das Trevas e a autora fez questão de fazer-me uma gentil dedicatória.Enquanto lhe agradecia por tantas gentilezas, Gellert falou-nos rapidamente e escapuliu.

Despedi-me rápido enquanto a noite caía, pois logo precisaria dar atenção à Ariana. Depois de descer as escadas, sem saber onde Gellert estaria, disse em voz alta para dentro da casa: “Muito obrigado pelo chá e pelo lanche!” Notei que Batilda me sorriu. À porta, reiterou que adorou minha visita, que esperava ler nossa entrevista o mais rápido possível e que aguardava meu retorno. Sorri sem saber como corresponder.

Algumas esquinas depois, ainda tinha muitas coisas na mente: como organizar aquele trabalho para enviar o texto pronto, quando leria meu livro novo, algumas respostas surpreendentes da Sra. Bagshot e o rosto harmonioso de Gellert, ou seus olhos inquietos. Gostaria de tê-lo conhecido em Hogwarts, onde era mais fácil conversar e ter informações das pessoas.

Em casa, confirmei que o jantar de Ariana seria servido em breve e pedi que o meu fosse servido um pouco mais tarde, no escritório, pois estaria ocupado. Somente quando entrei no ambiente, percebi que era a primeira vez que aquele espaço de trabalho tornava-se exclusivamente meu. Mesmo após o falecimento de meu pai, nunca fiquei ali por tanto tempo, preferindo a escrivaninha de meu quarto. Apropriei-me do lugar com naturalidade, pelo menos até que meu irmão se formasse. Quando sentei na grande cadeira... senti uma emoção forte e indescritível. Um peso infinito.

Senti falta de Hogwarts, onde tinha colegas queridos e professores gentis que me admiravam, com quem conversava longamente. Até meu irmão, com quem tinha uma relação difícil, era, naquele momento, uma ausência.

Precisava desesperadamente de amigos. Pessoas com quem falar do uso do sangue de dragão e de meias com a mesma naturalidade. Que o meu mundo crescesse novamente para além das páginas dos livros. Lembrei-me então da gentileza que me tratou Batilda e da figura misteriosa e interessante que era Gellert Grindelwald. Sem me dar conta, já havia decidido retornar.

1899 – Outubro. Casa de nossa família.

Há muito tempo não escrevo aqui e ainda não sei se estou pronto para recomeçar os registros – ou reviver os antigos. De qualquer forma, hoje é o dia em que tomei algumas decisões e farei algumas tentativas. Quero um presente e um futuro melhores do que meu passado. Posso construir algo hoje.

[P.O.V Gellert Grindelwald]

Assim que aquela porta fechou, larguei a louça que estava lavando quase quebrando um dos bules. Saí rápido da cozinha, a vendo ainda parada ao alto da escada e olhei para cima raivoso.

“Por que está fazendo isso? Ele vai voltar. Ele vai MESMO voltar? Perdeu a noção ou não se importa comigo como diz que se importa?”

“Gellert, não está enxergando a situação com clareza.”

“Ah, não? Então, por favor, me esclareça.” Cruzei os braços quase tremendo e ela desceu da escada me chamando para sentar no sofá da sala. Que vontade que eu tinha de exaltar a voz, mas não me sentia no direito.

“Não se esqueça que meu sangue também é Grindelwald, Gellert. Eu não faço nada sem um motivo. Toma aqui para me ouvir claramente sem todo esse nervoso.” Disse calma, estendendo-me um frasquinho no ar. Tomei rápido, devolvendo o frasco. Minha mente deu uma girada, mas de fato todos os meus nervos pareceram relaxar de uma vez. Esfreguei os olhos.

“Ainda estou com ódio, mas estou ouvindo.”

“Disse-me que se tornarão inimigos ou um casal. Ele tentará impedi-lo quase de qualquer forma sabendo disso ou não, certo?” assenti e ela continuou. “Não disse que ele irá te vencer. Então pense comigo.”

“Isso é praticamente dizer que ele vai me vencer, tia.” Respondi.

“Vamos esperar os outros sonhos, não há como saber.” Respirei fundo querendo protestar a frase que acabara de ouvir. “Acompanhe-me. Entenda onde quero chegar. Se não conhecê-lo, não se afeiçoarem... a coisa mais fácil será vir para impedi-lo. Se gostar de você, isso o fará balançar.”

“Tia, lógico que não. Se confiar em mim, não vai perdoar tal traição de sua confiança. Não tem como eu mentir tanto. Ele vai perceber.”

“Eu conheço os Dumbledore, Gellert. Alvo não é de agir... é bastante ponderado. Vai evitar conflito a todo custo.”

“Fala como se o conhecesse.”

“Eu vi esse menino nascer, Gellert.” Escorreguei o corpo pelo sofá, apoiando a cabeça no encosto, fechando os olhos com um suspiro. Senti seu corpo vindo para perto e sua mão recostando em minha perna. “Ele se tornará pacifista.”

“Não tem como você ter certeza disso.” Falei abrindo os olhos, mas sem direcioná-los a ela.

“A família é cheia de problemas. Cada um é uma bomba-relógio e Alvo, por ser agora o mais velho, está certamente fazendo de tudo para não seguir a tendência. O menino sempre foi na dele e está em um momento super sensível. Vai ser fácil se aproximar dele, deve estar precisando muito de alguém agora.”

“Este é o seu plano. Enganá-lo me fazendo de amigo até poder manipulá-lo como quero, sendo que sempre que um Dumbledore sai na mídia, nunca é pouca tragédia ou feito. É suicídio.”

“Você se subestima demais!”

“Não. Você é quem está o subestimando, tia. Achando que vai ser fácil.”

“Ele vai começar a frequentar essa casa com alguma freqüência. Vou dar umas dicas para ajudá-lo a publicar seu primeiro livro. Vão ter tempo.”

“Seu sortilégio me assusta às vezes. Qual o seu real interesse nisso?” perguntei.

“Além de ser meu trabalho e sentir certo apresso pela família?” eu acreditava nesta parte. “Pretendo um dia escrever um livro sobre a família que tanto gera interesse e lendas escolhendo um deles para ser a capa... e mesmo que possa demorar para coletar informações o suficiente por estar se formando como pessoa, acho que Alvo é o rosto que preciso.”

“Você é louca, tia.” Disse baixo sem querer continuar aquele diálogo maquiavélico, além de precisar refletir.

“Ainda vai me agradecer, Gellert, e não vai demorar.”