The Devil Next Door
6 Capítulo 6
Uma semana inteira havia se completado. Era aniversário de sete dias da sua chegada a Tokyo, que até então, só havia se traduzido em problemas, dores de cabeça e muita confusão. Kaoru notou que havia esquecido inclusive de telefonar diariamente para a sua mãe como havia prometido a ela, sem contar que várias caixas ainda povoavam seu apartamento, a lembrança de uma mudança ainda inacabada. O aniversário não passou desapercebido. À noite, Kaoru ouviu barulho do lado de fora de casa, e, olhando pelo olho mágico, viu nada mais nada menos do que o cabelo flamejante do seu vizinho, tampando completamente a sua visão; depois de alguns minutos, Die entrou de volta para o seu apartamento e trancou a porta, fazendo o publicitário esperar mais meia hora até achar ser seguro sair para ver o que o ruivo havia aprontado.
Quando destrancou a porta da sua casa, o homem de cabelos roxos se deparou com um pequeno bolo, com uma velinha em forma de número um acesa, a chama laranja tremulando fracamente. Abaixando-se para pegar o bolo, a vela se apagou sozinha, fazendo Kaoru arquear uma sobrancelha. Dando de ombros, ele recolheu o bolo para dentro da sua casa, colocando-o em cima da mesa da cozinha. Felizmente a luz já havia voltado; Die havia cumprido a sua palavra e ligado para a companhia elétrica assim que pôde, e Kaoru não queria saber o quê havia acontecido com a luz no apartamento 305. Provavelmente havia acabado, e isso seria muito bem feito, afinal, Die era o culpado por tudo mesmo. O publicitário sentou-se de frente para o bolo na mesa, encarando o pequeno doce por alguns minutos. Ele parecia inofensivo, uma massa marrom do quê Kaoru supunha ser chocolate exposta ao vento frio da sua cozinha, esperando ser comida ou congelada para mais tarde. O homem de cabelos roxos suspirou, estendendo um braço e retirando a velinha branca apagada do topo do mesmo, deixando-a sobre a toalha xadrez da mesa. Será que era comestível? A dúvida cruel circulava na mente do publicitário, dando voltas e mais voltas sem parar, quase deixando o pobre homem tonto. Por fim, Kaoru puxou o prato do bolo para mais perto, cheirando-o com vontade, feliz por aspirar somente o aroma do chocolate. Mas veneno tinha cheiro? Franzindo a testa quando se lembrou desse detalhe, o homem de cabelos roxos cruzou os braços e olhou para a comida, como se tivesse a esperança de que o chocolate fosse lhe contar se estava envenenado ou não. Isso não aconteceu, frustrando o publicitário que acabou se jogando para trás na cadeira com um solavanco e que quase foi parar no chão desconfortável da cozinha. Sentando-se civilizadamente na cadeira de novo, Kaoru olhou para o bolo durante alguns minutos, antes de decidir tirar uma faca da gaveta mais próxima e cortar um pedaço. Uma fatia pequena, mas suficiente para provar o gosto do mesmo, ao mesmo tempo não grande o bastante para morrer intoxicado. Devorada a fatia em questão, Kaoru comeu outras muito maiores. Suspirando, ele se jogou na cama, sem nem mesmo trocar de roupa. Seu vizinho era a criatura mais estranha da face da terra, sendo cruel com ele e depois deixando bolos na porta. Ou talvez perdesse apenas para um dos seus primos em terceiro grau, que aos vinte e três anos de idade, ainda gostava de comer terra. Pensando bem... Seu primo era estranho; Daisuke conseguia era confundir a sua cabeça com os pensamentos mais improváveis. Como a idéia de que o seu vizinho era particularmente gentil. Isso não podia ser tolerado, e lutando contra a idéia absurda de que seu vizinho alto, ruivo e bonito era além de tudo gentil, Kaoru adormeceu. Sem nem perceber que os adjetivos alto, ruivo e principalmente bonito haviam sido acrescentados à palavra "vizinho". O publicitário acordou assustado, seu sonho envolvendo alguém na mesma cama com ele. Isso não era algo particularmente comum, ainda mais quando esse alguém era ruivo de uma maneira quase irreal, e havia torturado-o deliciosamente até ele pedir por clemência. Bocejando, Kaoru teria caído para trás duro como pedra se já não estivesse deitado. Sobre ele, na sua própria cama, se encontrava o seu vizinho. Os corpos não estavam muito colados, mas perto o suficiente para que o homem de cabelos roxos sentisse o perfume e o aroma peculiar que o shampoo de Die possuía. — Kaoru. Boa noite, aniversariante. O ridículo da situação despencou na cabeça de Kaoru como uma bigorna, seus braços rapidamente tentando livrar seu corpo da presença nada bem-vinda de Die no seu quarto. No entanto, a força surpreendente que ele havia mostrado em ocasiões anteriores estava completamente enterrada e inacessível. O publicitário supôs que era culpa do seu sono. — Como diabos você entrou aqui, Daisuke? A voz que chegou aos ouvidos de Die era estranha, ligeiramente enrolada e nada ameaçadora. Kaoru pareceu notar isso também, arqueando as duas sobrancelhas mas desistindo do gesto logo depois. Ele se sentia tão cansado. Cansado não; sonolento... Mas o sorriso predatório do seu vizinho foi devidamente notado. — Você não atendia à porta, Kao... — o ruivo começou a se explicar, deitando-se por cima do outro homem e falando perto da sua orelha, a respiração quente fazendo cócegas no seu corpo — Então eu peguei a chave de emergência com o Koetsu-san...
O homem de cabelos roxos piscou lentamente. Ele nem sabia que "chaves de emergência" existiam no prédio. Queria dizer que Die tinha acesso ao seu apartamento se ele usasse qualquer desculpa idiota? Isso definitivamente era um problema. — E realmente, você não acordava. Só agora despertou... Estava ficando preocupado. Com uma lambida ousada no lóbulo da sua orelha, Die terminou seu discurso, levantando a cabeça e encarando Kaoru. O pobre publicitário não conseguia entender direito o que estava acontecendo, muito menos o motivo que o havia levado a se sentir tão cansado e sonolento. — Por um momento, achei que havia exagerado na dose. O jeito como o morador do 305 havia falado, colocando o dedo indicador no queixo e erguendo de leve a cabeça irritou Kaoru. Piscando, sua voz saiu pastosa como tinha acontecido antes, mas o aborrecimento nela era facilmente identificável. — Que dose? — Sonífero. Então era isso. Havia sonífero no seu bolo. Ele tentou erguer os braços para estrangular o ruivo, não acreditando no que havia acontecido e não entendendo onde Die queria chegar com tudo aquilo. No entanto, seu corpo parecia mole, como se fosse de borracha, e seus braços acabaram por enlaçar o homem de cabelo vermelho brilhante pelo pescoço. O peso dos mesmos trouxe a cara do outro homem para baixo, os dois se beijando por um acidente por parte de Kaoru. Acidente que Die não iria deixar passar em branco, aproveitando o estado estranho do outro homem e prendendo-o na cama, abrindo seus lábios a força com a sua língua. Kaoru, mesmo no estado de torpor que se encontrava, tentou protestar, mas seus socos nas costas do ruivo não foram suficientes para afastá-lo de si, assim como o som que ele fez com a boca pareceu mais um gemido de prazer do que um protesto. Satisfeito, Die deixou o outro homem em paz, um sorriso predatório nos seu rosto enquanto ele lambia os lábios, como se tentasse conseguir sentir o gosto de Kaoru neles. — Feliz aniversário de uma semana em Tokyo, Kao. Surpreendentemente, o ruivo se retirou do quarto do publicitário, saindo do apartamento e trancando a porta atrás de si, como Kaoru bem ouviu do quarto. Sentia o mundo rodar ao seu redor, nada fazendo sentido, muito menos o seu vizinho. Se Die havia feito tudo aquilo pelo aniversário de uma semana, ele não queria ver a comemoração de um mês ou um ano em Tokyo. O publicitário chegou atrasado no emprego na manhã de segunda-feira, ainda sob efeitos leves do sonífero. Esfregando os olhos, ele se largou na sua cadeira, atraindo atenção de todos os outros presentes. Toshiya, claro, veio se apoiar na divisória e observar o seu colega. — Kaoru-kun, bom dia... Você parece estar com muito sono. — Você nem imagina. O bonito funcionário de cabelos azuis sentiu o ligeiro sarcasmo na resposta de Kaoru e decidiu se calar, enquanto o outro homem respirava o alívio do silêncio proporcionado por Toshiya. Kaoru não desgostava do outro funcionário, ele apenas não era fã da falta de senso de oportunidade do homem de cabelos azuis. Mas isso realmente não era culpa do seu colega de divisória, o que motivou o recém-transferido publicitário a murmurar um pedido de desculpas. — Nah, não tem problema. — Toshiya concordou com a cabeça — Mas... Se quiser conversar sobre o que aconteceu, pode falar comigo. — Arigatou, Toshiya. — Pode chamar de Totchi. — Certo, Totchi. — Kaoru sorriu um pouco, iniciando seu computador e logando na área de trabalho. Dando uma rápida olhada nos seus e-mails, descobriu que havia uma mensagem de... — Yoshiki? — Onde? — Toshiya exclamou, olhando para os lados e afundando na sua cadeira, fingindo trabalhar. — Na minha caixa de e-mail. — Kaoru riu, olhando para cima e encontrando o rosto atraente do seu colega fechado, um olhar falso de raiva estampando na sua cara. — Baka. Eu achei que era de verdade. — Bom, não era. Por que Yoshiki me mandaria um e-mail? — Abre que a gente descobre? — "A gente"? — Ah. — Toshiya corou furiosamente, desviando os olhos da tela — Você descobre. O recém-transferido publicitário riu de novo, repentinamente feliz por dividir a mesa com Toshiya. Ele na certa acrescentava alguma graça ao seu dia. Dias geralmente atribulados e confusos com a presença constante do seu vizinho. Abrindo o e-mail, ele decidiu ler o mesmo em voz alta para o outro funcionário: — "Niikura-san, espero que esteja se adaptando bem à empresa. Gostaria de marcar a sua prova para a próxima quarta-feira, no horário do almoço, se estiver tudo bem. Shinya aparecerá na sua mesa na segunda-feira para conversar melhor sobre o assunto. Tudo deverá correr bem, não se preocupe. Sinceramente, Hayashi Yoshiki." Kaoru ficou mudo durante vários minutos, olhando para a tela. — Prova? — Sim. — Toshiya falou, sorrindo — Não se preocupe, Yoshiki-san não é muito rígido. — Totchi. Que prova é essa? O homem de cabelos roxos olhou para cima, procurando o rosto de Toshiya e alguma pista no mesmo que pudesse dizer que aquilo era uma brincadeira feita com os novos funcionários. No entanto, o jeito que a testa do seu colega de divisória se franziu evidenciava confusão. — Como assim que prova? Não fez a prova na sua unidade original? — Não. — Kaoru respondeu, sua voz quase parecendo diferente por causa do súbito pânico que sentia — A última prova que eu fiz foi na faculdade. — Ah... — fez o outro homem, calando-se por um segundo. Em seguida, ele esfregou as mãos e apoiou o rosto numa delas — Yoshiki-san faz provas orais sobre o regimento interno da empresa. Aquela pasta que ele entregou, sabe? Ele quer ter certeza de que todos sabem direitinho as normas. Ganhamos prêmios por isso. — afirmou o outro homem com um olhar que tinha uma pontinha de orgulho. As novas informações não ajudaram Kaoru a recuperar a fala. Era por isso que todos estavam perguntando sobre a pasta, e se ele já havia lido a mesma? — Kaoru? Você está preocupado com a prova? O publicitário balançou a cabeça afirmativamente. — Você pode remarcá-la! Yoshiki-san provavelmente daria mais tempo para você! O sorriso confiante do outro funcionário deixou-o mais calmo. Respirando fundo e fechando a sua página de e-mails no computador, ele olhou para o seu relógio, já achando que os ponteiros andavam mais rápido do que de costume. E ele nem tinha a tal pasta em casa. — Quanto mais tempo? — Ah, ele pode fazer a prova no fim do expediente ao invés de fazer no almoço! O publicitário sentiu seu estômago afundar, como se fosse um elevador despencando sem controle. Sem aviso, ele levou a mão ao bolso, retirando um maço de cigarros do mesmo. O maço roubado de Die. — Aonde vai? — perguntou Toshiya do seu posto, vendo Kaoru se levantar da cadeira. — Fumar. — Estranho. Não sabia que você fumava... — Eu voltei a fumar. Com passos resolutos, Kaoru saiu do lugar onde estava e foi para o lado de fora do andar, ficando em uma das varandas. Ignorou o olhar perplexo que Toshiya havia lhe dado quando respondera que havia voltado com o vício. Jogando o cigarro no chão, ele imaginou que o mesmo fosse o pescoço de Die, pisando com força em cima do mesmo, tentando destruí-lo ao máximo. Quando o seu assassinato do cigarro estava completo, ele voltou para a sua mesa. — Kaoru-kun? — Hn. — foi a resposta nada amigável do mesmo. — Você já matou alguém? O olhar que o publicitário mandou para o homem de cabelos azuis poderia ser perfeitamente traduzido em "estou prestes a fazer isso se você não calar a boca". O resto do dia transcorreu em silêncio, graças ao instinto de auto-preservação de Toshiya.Continua...
Notas finais
De volta com a história! Espero que esteja agradando e, mais uma vez, eu não tenho palavras para agradecer a resposta tão positiva e encorajadora de vocês!
Obrigada pelo apoio!
Mari-chan.
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