The Devil Next Door
7 Capítulo 7
Enquanto fazia logoff da sua área de trabalho, agora sem wallpapers de Gundam Wing que pudessem comprometer sua imagem, Kaoru suspirou pesadamente, apoiando a cabeça na mão espalmada antes de apertar o botão para desligar o computador.
Ele precisava conseguir sua pasta de volta. Urgentemente.
Mordendo o lábio inferior com mais força do que seria normal, o publicitário tentou pensar em um meio que não requisesse contato físico, visual ou qualquer outro tipo com o ruivo; infelizmente, ele não tinha o menor jeito para arrombar apartamentos e procurar coisas aleatoriamente pela casa. Ele era um publicitário, não um assassino treinado.
Mas bem que ele gostaria de ser um assassino. E um daqueles bons, que dominassem várias técnicas de tortura e assassinatos, para praticá-las todas em Daisuke. Claro que uma só tática de assassinato poderia ser experimentada, mas eram os ossos do ofício.
A voz de Toshiya chamou-o para a dura realidade que era ser um simples publicitário e sem o sangue frio e as habilidades de um assassino. Piscando, ele ergueu a cabeça e encontrou o rosto do outro homem com uma expressão estranha.
— Hai?
— Kaoru-kun, você...
O homem de cabelos azuis parou de falar, piscando várias vezes até recomeçar o que ia dizer.
— Kaoru-kun. Você estava listando... Anh, tipos de tortura. Você tem certeza de que está bem?
O publicitário piscou mais vezes e concordou com a cabeça. Seu subconsciente deveria ter verbalizado seus pensamentos, mas não era problema.
— Estou. Bom, eu preciso dormir...
— Aa, okkei. Vamos indo então?
Os dois funcionários se levantaram da mesa e caminharam até os elevadores, Toshiya se adiantando para apertar o botão que tinha uma pequena seta apontada para o chão e assobiando uma música qualquer. Kaoru ainda pensava em como reaver sua preciosa pasta quando uma idéia o acertou em cheio: ligar para Die.
— Totchi.
— Hmmm?
— Você tem o telefone do Die?
— Die? Que Die? Ahhhh, o Die?
— O Die.
— O Die Die?
— Que outro Die existe? — Kaoru perguntou, começando a se sentir estúpido com aquela conversa.
— Não sei. Estava só confirmando. Acho que não... Mas o Kyo talvez tenha! Quer que eu peça o telefone do Die Die, o seu vizinho Die?
— ...Isso. — Kaoru respondeu, arqueando as duas sobrancelhas.
— Muito bem.
Toshiya respondeu alegremente e tirou o telefone celular do seu bolso, ligando rapidamente para o pequeno homem loiro que Kaoru havia visto somente uma vez. Kaoru percebeu com uma satisfação mórbida que o apelido do seu vizinho, quando repetido, soava como "morra, morra", uma vez traduzido do inglês.
— Kyo-kun? Aa, Totchi desu. Ne, eu estou aqui com o Kaoru-kun e ele gostaria do telefone do Die-kun... Você tem? Não, eu não tenho não. — esperando calmamente, Toshiya usou as mãos para sinalizar que Kaoru deveria se aprontar para anotá-lo, e o homem de cabelos roxos sacou o próprio celular — Celular ou casa, Kaoru-kun?
— Anh... Os dois.
— Hai!
Um sorriso brilhante de Toshiya se seguiu antes do ditado dos números, e Kaoru salvou ambos na memória do seu telefone rapidamente. O outro homem desligou o próprio aparelho quando o elevador finalmente chegou, tendo demorado muito para efetuar o percurso do térreo até o andar onde estavam.
— Eu achei que você não gostasse do Die.
— Eu não acho.
— É, eu posso ter me enganado aquele dia... — Toshiya filosofou.
— Não, Totchi. Não é que eu não goste do Die. Eu odeio ele, é diferente.
O elevador magicamente chegou mais rápido ao térreo, e Kaoru saiu do mesmo, indo para fora do prédio com passos resolutos. Toshiya ficou dentro da cabine do elevador, boquiaberto e espantado. Por um minuto, ele pensou que havia entregado o ruivo para a morte nas mãos do seu colega de trabalho, passando o telefone.
No instante seguinte, lembrou-se que Kaoru era vizinho de Die. Bom, pelo menos, se Die viesse a deixar o convívio dos vivos, não seria ele que teria delatado a moradia do ruivo. Ele podia dormir em paz.
Voltando a assobiar a música de antes, Toshiya tomou a direção oposta à de Kaoru e foi para a casa também.
O publicitário mal chegou em casa e retirou o telefone do bolso da frente da sua camisa, sacando o mesmo como se fosse uma arma. E de fato, na cabeça de Kaoru, ele estava se preparando para um duro duelo, que poderia resultar na sua morte.
Ou na sua humilhação.
Suspirando, o homem de cabelos roxos se deixou cair no sofá da sua sala, pegando seu telefone sem fio e ligando do aparelho fixo do seu apartamento. Finalmente o telefone havia sido instalado perfeitamente, e agora ele tinha certeza que sua mãe ligaria todos os dias à noite, religiosamente.
Olhando para a base do aparelho, ele notou que uma luz vermelha piscava sem parar. Bom, talvez sua mãe já tivesse ligado naquele dia.
De repente, a face de Kaoru voltou a exibir um olhar concentrado, o publicitário finalmente discando o número da casa do seu vizinho. Era engraçado como ele podia ouvir o telefone tocando do outro lado da parede. Seria melhor que o ruivo estivesse em casa; assim, ele poderia terminar naquela noite a sua tarefa herculana.
Depois de quatro toques, ele ouviu o telefone ser finalmente atendido e a voz do ruivo encheu a linha:
— Moshi moshi.
— Ando.
— Kao-Kao! Mas que surpresa agradável. É sempre um prazer ouvir sua voz tão doce e gentil...
O que mais perturbou Kaoru com a primeira frase coerente de Die é que ele não sabia se o ruivo falava com cinismo ou não.
— Ando, escute o que eu tenho para dizer.
— Claro, vizinho.
— Eu preciso que você me devolva a pasta.
— Pasta?
— Sim. Deixei uma pasta no seu carro há alguns dias. Você a atirou para o banco de trás educadamente.
— Ah, de fato, de fato. Achei que nunca fosse perguntar por ela!
— Pode devolver?
— Sim. Onde quer recebê-la?
— Pode deixar do lado de fora da porta.
— Mas... E o restaurante?
Kaoru hesitou por um momento.
— Restaurante?
— Bom... Se não faz seu tipo, podemos ir para alguma casa noturna. Teatro. Cinema. Não sei, você escolhe. Ou eu escolho? Só não vale querer fazer hora-extra no trabalho.
— Daisuke. Do que você está falando?
Um suspiro longo e que parecia forçado se seguiu na linha.
— Kao. Você é tão inocente assim ou é só para me conquistar? Eu sei muito bem que você largou sua pasta para trás só para me ver de novo. Baka, achou que eu não ia notar?
O homem de cabelos roxos ficou mudo, sem ação do outro lado do telefone. Piscando várias vezes para ajudar a normalizar a visão que ele achou que fosse ficar vermelha de tanta raiva, o publicitário mudou de posição no sofá, pronto a socar alguma coisa.
— Eu aposto que você está vermelho agora... — Die acrescentou com um tom de voz que indicava que ele estava se divertindo.
— Estou, Daisuke. De raiva. — Kaoru contra-atacou, o jeito com que havia falado deixando claro que ele não estava mentindo — Eu preciso que você devolva isso já. É para o meu trabalho, Ando.
— Hm... Talvez sim, talvez não. É tão grande. E parece entediante.
— Não interessa a sua opinião. É minha e você deve devolver. Não é um favor que você me fará, não percebe?
— Não. Já que você esqueceu e quer que eu devolva, é um favor sim. Aliás, para quê ler regulamentos? Ninguém quer saber como você deve agir se acontecer um terremoto na cidade.
— Pessoas que pensam como você morrem nos terremotos.
Uma risada alta encheu a linha telefônica e Kaoru achou que podia ouvi-la vinda do outro apartamento também.
— Parece que você quer se ver livre de mim, Kao-Kao.
— Muito observador, Daisuke. Dá para devolver a pasta ou não?
— Não. Kaoru. Sabia que agora eu tenho o telefone da sua casa?
O publicitário gelou. Como Die sabia que ele estava ligando do seu apartamento?
— Eu pedi para o zelador me avisar quando você chegasse e ele fez isso. E eu instalei um aparelhinho curioso que grava os números aqui. Agora tenho seu telefone... Posso ligar depois para testar?
— Não.
— Aa, doumo! Sempre tão prestativo... E então, vamos sair?
— Daisuke, eu não quero ter que envolver terceiros para você devolver algo que é meu.
— Muito bem. Eu tenho um plano alternativo, então.
Kaoru achava que o alternativo não seria muito melhor que o principal.
— Venha aqui em casa, já que estou sozinho... E você faz um strip-tease para mim. Entrego a pasta logo depois, o que acha?
O publicitário ficou mudo pela segunda vez na linha, sentindo seu rosto esquentar a partir das suas orelhas. Não. Era. Possível. Die era uma pessoa fora do comum; não podia estar simplesmente pedindo aquilo.
— Quem cala consente?
— Quem cala está pensando em métodos dolorosos e longos de assassinato.
O ruivo riu durante um bom tempo na linha, fazendo Kaoru afastar o aparelho de si para não ouvir tão alto a gargalhada do outro homem. Não adiantou muito porque o publicitário acabou por constatar que ele podia sim, ouvir a voz do outro homem vinda do outro lado da parede.
— Vamos, Kaoru. — somente aí o homem de cabelos roxos reaproximou o telefone da orelha direita — Eu estava... Brincando. Mas não ia ser nada mau se fosse verdade... — receando que Kaoru desligasse ou fizesse qualquer outra coisa, ele emendou — Falando sério agora, o plano era jogarmos alguma coisa. Quem ganhar, fica com a pasta.
Realmente, vindo de Die, parecia ser o melhor acordo que ele ia conseguir. Pensando rapidamente sobre o assunto, o publicitário sentiu um peso enorme no estômago quando ele concordou e desligou o telefone, indo para o apartamento vizinho.
No momento em que Kaoru entrou no apartamento 305, seus olhos foram imediatamente atraídos pela sua preciosa e prateada pasta, deixada sobre uma pequena mesa ao lado do sofá onde Die havia acabado de se jogar. O publicitário sentou-se de frente para o ruivo, fazendo de tudo para ignorar o sorriso que não parecia desgrudar da cara do outro homem e sentindo-se profundamente desconfortável com a situação.
Ele pensou em agarrar a pasta e sair correndo, mas o ruivo havia pensado nessa hipótese antes, movendo-a para um local onde Kaoru não pudesse alcançá-la sem antes ser detido. Além do mais, o dono do objeto em questão tinha certeza de que aquela pasta não estava ali no fatídico dia quando Die cortara sua luz elétrica; ele se lembraria da mesma se estivesse em um local tão visível.
O ruivo estava exibindo um prêmio e isso era claro.
— Quer tomar alguma coisa antes de começarmos?
— Não.
— Não vai estar envenenado.
— Ah, é de soníferos que eu tenho medo.
A resposta atravessada de Kaoru aumentou ainda mais o sorriso do outro homem, esticando-se no sofá que ocupava, seus movimentos lânguidos como os de um gato. O publicitário amaldiçoou o jeito sensual com que o outro conseguia se mover, como se fosse um atributo natural seu.
Um pedaço rebelde da mente de Kaoru acrescentou que talvez, realmente, fosse um atributo natural do ruivo e não algo ensaiado. O publicitário ia ter que lidar com essa facção rebelde do seu cérebro mais tarde.
— Bom, vamos começar. É fluente em inglês, Kaoru?
— Sim.
— Que bom! Vamos jogar em inglês, é mais fácil.
Somente então o outro homem olhou para a mesa de centro entre eles, notando um tabuleiro aberto, com dois suportes de madeira vazios, virados para cada um deles. Um saco preto que parecia cheio de peças estava logo ao lado do tabuleiro, por sua vez cheio de casas, algumas brancas e outras coloridas esparsamente pelo mesmo, mas seguindo um padrão de cores e distância.
— Já jogou Scrabble? Palavras-cruzadas, na verdade.
— Claro que sim, Daisuke.
O ruivo ergueu a cabeça e fez cara de espanto.
— Kami-sama! Você não nasceu assim, um adulto ranzinza? Teve momentos de alegria e inocência e o mais importante: uma infância?
O jeito que os olhos escuros de Kaoru encararam Die indicaram que o tempo de vida do ruivo seria muito curto se ele continuasse daquele jeito.
— Não. Acho que não. — Die balançou a cabeça, como se desapontado — Vamos começar então! Palavras somente em inglês. Tire sete peças, por favor...
Os dois homens sortearam sete letras ao acaso, Kaoru colocando as suas no suporte à sua frente e tomando todo o cuidado do mundo para que Die não conseguisse vê-las. O ruivo repetiu o processo.
— Vê os números no canto dos quadradinhos? As palavras têm seu valor quando você soma os números. Algumas casas como essas... — ele apontou as casas coloridas — Podem dobrar ou triplicar o valor de uma letra ou palavra. Só podem ser usadas uma vez. O que mais? — ele parou para pensar, erguendo o rosto para cima ligeiramente e depois voltando com o mesmo para a posição inicial — Ah, sim. Somente escreva na horizontal ou na vertical; toda vez que colocar uma palavra, ela deve fazer sentido se encostar do lado de outra letra. Acho que só, podemos começar.
Kaoru permitiu-se relaxar contra o sofá. Ele sempre fora bom com idiomas e inglês, especialmente, não era problema para ele. Olhando Die enquanto ele parecia decidir pela sua primeira palavra, o homem de cabelos roxos foi surpreendido por um rápido movimento de cabeça do ruivo, que agora encarava-o com um sorriso nada inocente.
— Ah. Eu esqueci de mencionar... Eu jogo esse jogo com uma adição, e já que você está na minha casa, vai jogar com ela também. A cada palavra que seu oponente marcar, uma peça de roupa será descartada. E não, você não pode ignorar essa regra.
O corpo de Kaoru tensionou-se rapidamente e o dono do apartamento notou o gesto com crescente satisfação.
Continua...
Notas finais
Até o próximo capítulo!
Mari-chan.
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