Dizem que quando algo está ruim, a situação só tende a piorar. Kaoru conhecia a lei de Murphy como poucos desde que havia chegado a Tokyo, e se ele pudesse, mataria de um jeito longo e doloroso o homem que havia criado essa lei, ainda que verdadeira.

Todos esses pensamentos negativos circulavam pela cabeça do publicitário na manhã de terça-feira, ao cair com um solavanco na sua cadeira no escritório. Profundas olheiras marcavam seus olhos, e ele ligou o computador emburrado, não acreditando na virada radical que a sua sorte havia tomado desde a mudança de cidade.

— Kaoru-kun! Bom dia!

— Bom dia.

Toshiya piscou, estranhando o humor do colega de divisória e se debruçando na mesma. O homem de cabelos roxos já havia se acostumado com o gesto; o outro funcionário não deveria passar muito tempo sentado na frente do computador.

— Ne, aconteceu alguma coisa ontem à noite?

— Iya. Tudo corre às mil maravilhas.

O cinismo era palpável na voz de Kaoru, razão pela qual Toshiya decidiu encerrar o assunto e voltar para o seu cubículo. Sentando-se na sua cadeira, ele apenas ergueu o rosto e perguntou:

— Kaoru-kun, você já começou a ler os regulamentos?

A sua única resposta foi o barulho de algo batendo contra uma superfície dura. A julgar pelos gemidos de dor que se seguiram, esse algo deveria ter sido a cabeça de Kaoru.

Na hora do almoço, Shinya estava saindo da sua sala quando notou que havia alguém no piso. Franzindo a testa, ele se aproximou do terminal ainda ocupado e viu que era Kaoru, clicando continuamente no mouse e trabalhando.

— Kaoru-kun?

— Ah, Shinya-san. — o publicitário cumprimentou-o suavemente, apoiando o rosto em uma das mãos.

— Está tudo bem, Kaoru-kun? Por que não foi comer com os outros?

— Estou sem fome, só isso.

O secretário ergueu as duas sobrancelhas mas não fez mais comentários, torcendo as mãos apreensivamente. O outro homem parecia estranho.

— Então tudo bem. Se precisar de qualquer coisa, pode contar comigo. Não esqueça que ainda está se ajustando à empresa, ne?

— Hai. Obrigado, Shinya-san.

— De nada. A propósito, Kaoru-kun... Você começou a ler o que estava naquela pasta que eu entreguei?

O homem de cabelos claros podia jurar que ele viu os ombros do publicitário se contraírem involuntariamente, como se ele acabasse de ter levado um soco ou um golpe nas costas. Isso só fez a preocupação de Shinya se agravar.

— Não, ainda não... Não tive tempo entre ontem à noite e hoje, ne.

— Ah, wakarimashita. Sem problemas, Kaoru-kun. Mas tente fazer isso assim que possível, ne? Quero que Yoshiki-san goste de você!

O secretário abriu um sorriso e se despediu, saindo para almoçar. Se ele tivesse ficado de frente para o publicitário, na certa teria se espantando com a profunda expressão de ódio na cara do outro homem, que clicava tão calmamente com o seu mouse.

Suspirando pesadamente, Kaoru entrou o mais rápido que pôde no seu apartamento. Largando a pasta com fúria no sofá, ele se dirigiu para a cozinha, pegando um copo e enchendo de água do filtro, bebendo da mesma o mais devagar que conseguiu para se acalmar.

Respirando profundamente por algumas outras vezes, se apoiou no balcão da cozinha onde ficavam pia, fogão e espaço para cortar e preparar alimentos. Olhando para o teto escuro, ele decidiu que teria que sair de casa, bater à porta do seu vizinho e pedir a pasta que havia ficado no carro na noite anterior. Era isso que ele tinha que fazer. Simples.

Muito mais simples quando apenas esquematizado na sua cabeça.

Colocou o copo dentro da pia, decidido a lavá-lo mais tarde. Quando passou pela sala para o seu quarto, indo trocar de roupa para a sua pequena visita, ele apertou o interruptor, parando alguns passos depois de perceber que continuara no escuro.

Ótimo. Lâmpadas queimadas, tudo o que ele precisava.

Um suspiro resignado escapou dos seus lábios enquanto ele acendia a luz do seu quarto, para descobrir que esta também havia se recusado a funcionar.

O homem de cabelos roxos parou, colocando uma das mãos na cintura. Não era possível que de repente, as duas lâmpadas tivessem decidido queimar.

Voltando para a sala, ele tentou acender abajures e lustres, sem sucesso. Ligou a televisão, e nada aconteceu. O prédio estava sem luz.

Kaoru rapidamente abriu a porta, e verificou que o elevador continuava no lugar. Confuso, o publicitário entrou no mesmo e apertou qualquer botão, mandando o mesmo para o décimo andar e verificando que o elevador funcionava perfeitamente.

Ele também ouviu barulho de música vindo do apartamento vizinho, e deduziu, sem muita dificuldade, que ele era o único sem energia no prédio.

Murmurando xingamentos, ele desceu as escadas para o térreo, já que havia mandado o elevador para cima, não acreditando no incrível azar que havia se apoderado dele naqueles três dias. Era surreal. Talvez fosse sua mãe, brava por tê-la deixado.

Não, não podia ser. Sua mãe era uma santa, mesmo. Kaoru balançou a cabeça negativamente e tratou de procurar o zelador do prédio, em busca de respostas para o quê estava acontecendo.

Encontrou o zelador depois de alguns minutos de busca. Era um senhor bem idoso, já de cabelos brancos e que freqüentemente era visto com uma vassoura, não para limpar o prédio, mas para se apoiar na mesma. Aliás, a limpeza das áreas comuns deixava a desejar e o papel afixado na parede do elevador informava a pretensão do síndico de contratar um faxineiro.

Aproximando-se do senhor, chamou-lhe pelo nome.

— Koetsu-san!

Nada. O velhinho o ignorou, limpando a mesa onde estava compulsivamente, sem mudar de lugar.

— Koetsu-san? — Kaoru tentou novamente, agora mais perto. Sem resposta, tocou o homem no ombro, suavemente.

Isso surtiu efeito, e o idoso zelador olhou para cima, encarando Kaoru de uma forma suspeita.

— Quem é você?

— Niikura Kaoru. Eu sou o novo morador do 304.

— Não conheço nenhum Niikura.

— Eu sou novo aqui. — o publicitário se explicou.

— Então você mora no 304?

— Isso.

— Mas é você ou o Kaoru que mora lá? — o velhinho perguntou, apertando os olhos e chegando mais perto do rosto do outro homem, que se controlou para não começar a gritar. Não iria adiantar muito.

— Os dois. — Kaoru afirmou rapidamente com um sorriso falso — Senhor Koetsu! Cortaram a força?

— A força?

— Sim, cortaram a força?

— Mas que maldade! Quem fez isso? — o senhor perguntou, parecendo perplexo — Em quantos pedaços?

O homem de cabelos roxos ficou em silêncio por alguns momentos, completamente sem saber o que falar.

— Eu quis dizer a força, a energia elétrica!

— Ah, a força.

— ...Sim.

— Por que não disse logo? — o zelador advertiu Kaoru, mal-humorado agora e voltando a polir a mesa — Não sei se cortaram.

— Não veio ninguém hoje de manhã aqui?

— Ah. — o velhinho olhou de novo para o publicitário — Veio um caminhão que disse que alguém não tinha pago a conta.

Kaoru gemeu.

— E eles cortaram a luz?

— Não, só a força.

— É a mesma coisa.

— Não é! Luz é uma coisa, força é outra.

Um suspiro de derrota se seguiu.

— Força é o que eu tinha quando era mais novo! Meu jovem, naquela época... Quantas garotas não me elogiavam pelos meus títulos...

Enterrando a cara na mão direita espalmada, Kaoru contou até dez, ouvindo os feitos do zelador que aparentemente fora instrutor de karate na sua juventude, décadas atrás.

— Mas então, senhor Koetsu. Eles cortaram a força?

— Sim, de um apartamento que não estava pagando a conta. — o zelador respondeu, sorrindo.

— E qual era esse apartamento?

— Não sei... — o velhinho coçou o queixo — Não tinha certeza, então eu subi no terceiro andar e perguntei para o morador do 305 quem não pagava a conta. Ele disse que era o vizinho.

Os braços de Kaoru caíram ao lado do seu corpo. Die havia cortado a sua luz. Indiretamente.

— O QUÊ?

— Não precisa gritar, meu filho! Eu não sou surdo!

Revirando os olhos, Kaoru subiu de escada novamente até seu piso. Não tinha dúvidas que seu rosto deveria estar da cor do cabelo do seu adorável vizinho. Ele havia acabado de entrar no apartamento; Die era o único que poderia não ter pago a conta.

Sem pensar duas vezes, ele apertou o botão da campainha, só tirando o dedo do mesmo quando a porta se abriu. O publicitário olhou bem no rosto do seu vizinho, preparando-se para gritar.

Sua boca abriu consideravelmente, mas não foi para berrar insultos. E sim ao ver que Die havia aberto a porta envolto em nada mais do que uma toalha estranhamente curta na cintura, que parecia pronta para cair da mesma a qualquer minuto, água escorrendo pelo seu corpo e cabelo.

Quando os olhos de Kaoru voltaram ao rosto do vizinho, ele percebeu na hora o seu erro: jamais deveria ter notado aqueles pequenos detalhes sobre a vestimenta alheia.

O sorriso irritante no rosto de Die confirmava suas suspeitas.

Continua...

Notas finais
Obrigada novamente a todos que comentaram e que continuam lendo a história! As reviews de vocês fazem o meu dia. Beijinhos, Mari-chan.