The Devil Next Door
3 Capítulo 3
A primeira parte do dia e o almoço haviam transcorrido sem maiores problemas. A maior dor de cabeça de Kaoru foi descobrir a senha do antigo dono do seu computador; aparentemente, o funcionário que ele havia substituído convenientemente esquecera de deixar sua senha para o futuro dono do computador, não exatamente feliz com a sua demissão ou transferência. Tudo que ele não precisava depois do almoço, numa tarde relativamente quente, era um problema de lógica. Apoiando o queixo na mão esquerda espalmada, o publicitário continuava encarando o cursor que piscava no campo onde a palavra \\\"password\\\" estava escrita logo em cima. Minutos depois, Toshiya havia puxado uma cadeira e sentado ao seu lado, também tentando descobrir a palavra.
— Que filho da mãe... — o seu vizinho de cubículo passou a mão pelos cabelos azuis escuros rapidamente, mordendo o lábio inferior. — Sem dúvida. Vou tentar de novo. Kaoru digitou outra palavra aleatória que poderia ser ligada à dica de senha que eles tinham, que era o número \\\"03\\\", recebendo o aviso de que a tentativa havia sido mal sucedida. — Isso explode depois de um número exato de tentativas? — perguntou o funcionário mais antigo — Eu espero que ele dê aquelas mensagens de \\\"este computador se auto-destruirá em 10 segundos...\\\" — Espero que ele não dê mensagem nenhuma. — Kaoru suspirou — Exceto a de boas-vindas à área de trabalho. Quem ficava aqui? — Nossa. Esqueci o nome dele... — Toshiya franziu o cenho, tentando se lembrar de algo — Desencana, não lembro do nome dele. Ele era mais ou menos da minha altura, tinha uma paixão sem limites por Gundam Wing... — Gundam Wing? Mesmo? — Kaoru virou a cabeça rapidamente para ele, os olhos brilhando com um interesse súbito — O quê você sabe sobre isso? Toshiya recuou o corpo na cadeira, estranhando o empenho do outro homem. — Não muito, detetive Kaoru... Ele adorava aquele personagem que tinha uma franja em cima do olho, sabe? Bem comprida? — Trowa? — Não sei. — Toshiya deu de ombros — Ele tinha vários bonequinhos dispostos em fileira e por ordem de aparição na série aqui, juro! E comentava comigo sobre os episódios de vez em quando. De vez em sempre. — o homem de cabelos azuis acrescentou em uma voz mais baixa. — Isso que é paixão sem limites. Eu não sou tão fanático assim... — Kaoru comentou, digitando \\\"Trowa\\\" no campo designado para o password e conseguindo acesso à área de trabalho, dando um soco no ar enquanto comemorava — Consegui! — Aaah, parabéns! Fã de Gundam? — Toshiya perguntou com um sorriso que claramente evidenciava uma preocupação com um novo colega viciado no mesmo anime. Kaoru riu alto, atraindo a atenção de alguns dos outros funcionários do escritório. — Fã, sim. Mas obsessivo só quando perto de outros malucos como eu. Não se preocupe, não vou forçá-lo a ouvir o quão fantástico o Duo é quando lutando com o seu Gundam, ou como eu acho horríveis as roupas do Quatre. — Nem precisa... Ele já me instruiu nessa área. Assim que a área de trabalho carregou, um imenso wallpaper de Heero e Duo se beijando apareceu, provavelmente uma ilustração não oficial do manga original, e sim de algum fã. Os dois arregalaram os olhos e quase pularam de susto nas suas respectivas cadeiras quando alguém limpou a garganta atrás deles. Dando um giro de 180º com as cadeiras giratórias que usavam, o par se encontrou cara a cara com um alto homem de óculos escuros e cabelo loiro cortado curto. Os lábios estavam pressionados em uma linha fina, e mesmo que eles não pudessem ver as suas íris, sabiam que estavam focadas neles. Vestido de maneira elegante, Kaoru notou que ele não usava um terno, apenas uma calça social e camisa. Se bem que por causa do calor que resolvera fazer aquela tarde, ele mesmo não estava vestindo mais o seu casaco, e tinha afrouxado sua gravata. Atrás do homem de óculos escuros, Shinya apareceu carregando uma pasta, gesticulando para que Toshiya se movesse e saísse de onde ele estava, voltando para o seu lugar. O homem de cabelos azuis rapidamente seguiu o conselho do secretário. Foi então que caiu a ficha de que aquele homem era, muito provavelmente, seu chefe. — Boa tarde, Niikura-san. Eu sou Hayashi Yoshiki, o chefe deste andar. — ele finalmente retirou os óculos, e Kaoru constatou com alívio que havia um ligeiro ar de zombaria neles, ao invés da fúria que ele estava esperando do outro homem. — Muito prazer em conhecê-lo, Hayashi-sama. — ele levantou-se da cadeira e fez uma pequena reverência — Peço que desculpe isso, nós... Estávamos tentando destravar a área de trabalho. — Verdade! — ajuntou Toshiya, apoiando-se na divisória como havia feito horas antes — O cretino não deixou a senha, e tivemos que descobri-la! — Eu estou vendo que não; não precisa se exaltar, Hara-san. Não vou puni-los, vim puramente dar as boas-vindas a Niikura-san... — ele desviou o rosto da direção de Toshiya e entregou uma pasta prateada para Kaoru, um pequeno sorriso no rosto. Ele percebeu que era a pasta que Shinya estivera segurando até pouco — E entregar as políticas da companhia.
Políticas da companhia? Ele não era novo na empresa, havia sido apenas transferido. Bom, talvez a matriz tivesse exigências diferentes. Fazendo outra pequena reverência, ele recebeu a pasta das mãos do chefe. — Espero que leia tudo assim que puder, Niikura-san. Quanto ao computador, não se preocupe... Acho que esse wallpaper pode ser removido. Se quiser. — ele deu um sorriso em nada inocente para Kaoru e se retirou, Shinya suspirando em seguida. — O antigo funcionário dava muito problema. Pelo wallpaper... Você tem idéia do que ele começou a fazer no computador dele. — sorrindo, ele se retirou mais uma vez, não sem antes acenar e sorrir para os outros dois homens. — Kami-sama. Que sorte. — Toshiya suspirou aliviado, olhando para Kaoru em seguida — Você está tendo um excelente primeiro dia, huh? — Você nem imagina. — o homem de cabelos roxos respondeu, clicando rapidamente nos botões que mudavam o wallpaper na área de trabalho, substituindo-o por um fundo preto e liso, inofensivo. As palavras de Toshiya trouxeram a imagem de Die à sua mente. O fim do expediente chegou relativamente rápido, e Kaoru se viu arrumando suas coisas para sair. Toshiya chamou por ele do outro lado da divisória, também já pronto para deixar o prédio. — Desligue seu computador. — Já desliguei. — Kaoru concordou com a cabeça — E troquei a senha para algo que eu me lembre. — Não acho que você esqueceria \\\"Trowa\\\". — o homem de cabelos azuis comentou — Afinal, você matou a charada. — Sorte. — o publicitário respondeu com humildade, e avistou Shinya vindo na direção deles — Ah, konbanwa, Shinya-san. — Kaoru-san, Totchi. Prontos? Eu acho que o resto das pessoas já desceu. — Resto? — Toshiya indagou — Tanta gente assim? — Não, não. — o secretário negou com a cabeça — Apenas umas duas ou três. Vamos, vamos. — ...Antes que Yoshiki descubra que você precisa fazer outra tarefa para ele. — comentou Toshiya baixinho, fazendo o outro publicitário rir. — Totchi-kun! Não fale assim de Hayashi-san. — o secretário acirrou os olhos, mas sorriu logo depois — Vamos vocês dois, senão esperaremos muito para pegar uma mesa. Concordando com um aceno de cabeça, os dois seguiram o jovem secretário elevador abaixo. O bar onde haviam ido parar era semelhante ao tipo que Kaoru costumava freqüentar em Hyogo. Aparentemente, segunda-feira era dia de música ao vivo, e ele balançava a cabeça no ritmo da melodia tocada no ambiente de forma inconscientemente. Os grupo se esgueirava por entre as mesas, ocasionalmente trocando uma palavra ou outra enquanto se dirigiam para a mesa que aparentemente, quase tinha os nomes de todos ali presentes marcados na madeira, devido à espantosa freqüência com que iam ao local. No entanto, Toshiya parou no meio do caminho, cumprimentando um conhecido sentado à uma mesa. O estranho deu um meio sorriso, conversando com o outro publicitário, mas Kaoru não entendeu uma palavra. Nessa hora, sentiu Shinya cutucá-lo no braço. — É Kyo-san, amigo de bares do Toshiya. — Amigo de bares? O secretário sorriu, jogando uma longa mecha de cabelo castanho claro para trás dos ombros e atraindo alguns olhares enquanto fazia aquilo. — Sim. Totchi sai muito à noite, e sempre esbarrava em Kyo em uma casa noturna, em um bar... Então eles acabaram ficando amigos, como pode ver. — Kaoru olhou para a mesa onde os dois estavam e concluiu que de fato, eles já haviam engatado uma conversa que não parecia prestes a terminar. Como se ouvisse os pensamentos do publicitário recém-chegado de Hyogo, Toshiya se virou: — Hey, vocês! Sentem-se aqui, Kyo se ofereceu para dividir a mesa conosco! Shinya e Kaoru se entreolharam e foram até a mesa do outro homem. O homem de cabelos roxos tentou conter ao máximo qualquer reação adversa em relação a quantidade nada saudável de piercings que o loiro baixinho com que Toshiya conversa tinha. Ele simplesmente não podia ser alguém normal. Passado algum tempo que tinham se acomodado, o secretário comentou que eles haviam se desgarrado do resto dos funcionários do escritório. De fato, estavam somente eles, Toshiya e Kyo, com um lugar vago em frente a Kaoru na mesa. Enquanto ele olhava o menu e pensava em quem estaria ali também, já que havia um maço de cigarro e um óculos de lentes escuras ali, o jovem publicitário quase pulou de susto quando ouviu uma voz infelizmente já conhecida dele, e que ainda por cima havia se dirigido a ele pelo seu novo \\\"apelido\\\". — Kao! Mas que surpresa agradável! A mesa inteira olhou para a expressão satisfeita no rosto de Die enquanto Kaoru parecia não acreditar no que via, forçando-se a acreditar que presenciava uma aparição. — Shinya... Me diga que não estou vendo um ruivo parado na minha frente. O secretário olhou de uma maneira engraçada para o novo colega de trabalho. — Anou... Você está vendo sim, Kaoru. Die deu outro sorriso brilhante antes de se sentar e oferecer um cigarro a Shinya, que recusou educadamente, e a Kaoru, que respondeu com um olhar fulminante. — Esqueci que você não fuma, Kao. — Estou tentando parar. E é Kaoru. — O que você quiser, Kao. Não sabe o que você e Shinya estão perdendo... — ele comentou ocasionalmente, acendendo um cigarro e exalando toda a fumaça na cara do próprio vizinho. — Ah, sei. Perdendo vários anos de vida. — Detalhes, detalhes. — Die replicou, fazendo um gesto com a mão — Vocês dois aí vão parar de conversar e pedir algo? Toshiya e Kyo efetivamente pararam de conversar e decidiram o que queriam comer, assim como os outros três. Quando o garçom estimou o tempo que os pedidos iriam demorar para chegar, Kaoru quis enterrar a cara na mesa. Era tempo demais ao lado do seu maldito vizinho. Apenas duas horas e meia depois, os cinco haviam terminado de comer, coisa que animou o publicitário de cabelos roxos sensivelmente. A perspectiva de ir para casa era encantadora, mesmo morando ao lado do demônio que sentava à sua frente; pelo menos no seu apartamento, ele não teria que ficar olhando para o ruivo que tinha aquele sorriso maldito pregado na cara. — A título de curiosidade: não acha que esse seu sorriso pode cair da sua cara um dia? Die sorriu, colocando os óculos escuros. — Não. O publicitário murmurou algo sobre a força que o soco dele tinha e Shinya reprimiu uma risada. Então era dele que Kaoru estivera falando de manhã... — Muito bem, o horário dos trens já passou! — gritou Toshiya — Quem volta como? — Eu estou com o meu carro lá fora. — o ruivo respondeu, e Kyo falou o mesmo. O colega de divisória de Kaoru deu um sorriso aliviado, abraçando o homem cheio de piercings e baixinho pelo pescoço, feliz por conseguir carona. Como se não bastasse os dois viverem se esbarrando à noite, eles também moravam na mesma vizinhança. — E você, Kaoru-san? O publicitário piscou, virando o rosto na direção do secretário. — Eu o quê, Shinya-kun? — Como vai embora? Ele não respondeu, percebendo que os trens haviam parado de circular e que ele morava relativamente longe do bar. Um tom assustador de vermelho foi subindo pelo seu rosto quando sentiu os olhos do ruivo em si, o irritante sorriso perfeitamente grudado na cara do outro. — Nem. Pense. Nisso. — Mas, Kao! Somos vizinhos! — Ah, hontou desu! Die-kun, você poderia levar Kaoru-san em casa! — Com todo o prazer. — Mas eu não quero! — Mas os trens pararam de circular, Kaoru. — Por isso mesmo tem de ser levado de carro. — E você, Shinya? — o publicitário perguntou, repentinamente. — Ah. — o jovem secretário piscou, sorrindo em seguida — Eu moro no quarteirão do lado. — em seguida, simulou uma expressão de choro — Kaoru-san, por favor! Volte com Die-kun para casa em segurança, onegai? Toshiya e Kyo se entreolharam. Shinya usava sua infalível tática do olhar de cachorro abandonado. Talvez ele adorasse demais seu próprio cachorro e tivesse aprendido alguma coisa com ele, porque até aquela noite, o olhar de Shinya nunca havia sido derrotado. A mesa ficou em silêncio enquanto Kaoru sentia-se profundamente culpado por ter sequer cogitado machucar os sentimentos do secretário, sem saber o que fazer. Odiava o vizinho, mas não queria deixar Shinya triste... — Okkei, Shinya-kun. Os amigos de bar suspiram. Mais uma batalha da qual Shinya saía vitorioso e sem um arranhão. Os cinco homens pagaram a conta e saíram do estabelecimento, despedindo-se do lado de fora e seguindo em caminhos separados. A pasta que Yoshiki havia entregado a Kaoru continuava com ele, apertada contra seu peito pelas suas duas mãos.
— Kao, o que tem na pasta? — Nada que interesse a você. — Mulheres nuas? — Não viu o bastante delas ontem? O ruivo deixou um sorriso imenso tomar seus lábios, mostrando dentes perfeitos e brancos, apesar de aparentar ser um fumante incansável. — Por acaso... Está com ciúmes? — Ciúmes! Kaoru fechou a expressão e não abriu mais a boca até ambos estarem no carro. Decidido a ignorar Die durante a viagem de volta, ele abriu a pasta prateada e tirou um calhamaço de páginas, com letras pretas e garrafais, formando as palavras \\\"Normas da Empresa\\\". O ruivo olhou com o canto do olho para o que continha a pasta, fazendo uma careta em seguida. — Que sorte a sua. — Nem imagina. — o homem de cabelos roxos falou por entre dentes cerrados, não querendo concordar com Die; mas ele sabia que era verdade. Ele rapidamente folheou o caderno de páginas por cima, assustando-se quando uma mão desceu sobre o caderno e o fechou sem aviso, jogando-o para o banco de trás junto com a pasta. — O que diabos foi isso? — Você ia ficar lendo enquanto voltamos. Eu preciso que alguém converse comigo. — Eu não sou seu terapeuta nem ganho nada para ajudá-lo em momentos de carência. — Mas eu fico com sono se dirigir essa hora... — Die virou o rosto devagar para Kaoru, a ausência de luz natural deixando apenas a iluminação do postes das ruas entrar pelas janelas, as lentes negras do óculos do ruivo brilhando de maneira enigmática — Senão conversar comigo, posso bater o carro... O publicitário tentou argumentar dizendo que não se importava, mas a sua vida estava em risco também. Muito a contragosto, ele se viu respondendo às intermináveis perguntas do seu vizinho com monossílabas, atendo-se ao \\\"sim\\\" e ao \\\"não\\\" com fervor. Ele quase quis socar o motorista quando este perguntou qual era a opção sexual de Kaoru, mas conteve-se ao avistar o prédio entrando na sua linha de visão. Sem esperar o carro entrar na garagem, o homem de cabelos roxos aproveitou a primeira parada que o veículo fez para descer, voando para dentro do prédio e subindo para o seu apartamento. Em minutos, ele havia se trocado, escovado os dentes e se jogado na cama, apagando a luz após alguns segundos. Quando ele estava prestes a dormir, ouviu a porta do apartamento vizinho ser aberta, batida e depois trancada. Aquele prédio deveria ter problemas com o isolamento acústico. Porém, o barulho que veio do outro lado da parede fez com que Kaoru lembrasse que a preciosa pasta com as normas da empresa havia ficado no banco traseiro do carro esportivo do ruivo. Ele enterrou a cara no travesseiro, abafando seu grito para ver se conseguia se livrar da frustração daquele dia. Não funcionou.Continua...
Notas finais
Muito obrigada a todos que deixaram seus comentários até agora! Posso garantir que muita coisa já está escrita e que os updates serão relativamente rápidos.
Obrigada de coração pelo apoio e elogios!
Mari-chan.
Obrigada de coração pelo apoio e elogios!
Mari-chan.
Fale com o autor