05

Depois de me despedir de meus pais, fui logo para o chuveiro me deixando se perder entre meus pensamentos, fiquei de baixo d’água o tempo necessário para meus dedos começarem a se enrugar. Deitada, desliguei a televisão e liguei o abajur, comecei a folhear revistas velhas, e tirei o guardanapo de Beatrice do bolso da calça e guardei-o na gaveta da estante. Só de pensar que no domingo de manhã vou levar alta e poder voltar pra casa, voltar pro meu quarto, pra minha rotina, isso me faz sorrir. Mas no fundo, irei sentir falta desse lugar, passei por várias experiências neste quarto, e uma delas foi como aprender a viver novamente. Me sentia insegura, não por o que me esperava, mas sim, por o que eu queria que me esperasse.

̶ Pensar demais pode causar danos ao cérebro.

Com um grito, olhei assustada para o lado, não conseguia ver nada, apenas uma sombra.

̶ Sabia que os maiores cientistas se tornaram loucos de tanto pensar? É, e foi exatamente por isso que eu parei de pensar e comecei a agir.

Foi quando ele se mostrou. Era ele, quem vinha me perseguindo, quem atordoava meus pensamentos. Era Ele. E ele era... Diferente. Seu cabelo era um preto ofuscado que se baseava em fios bagunçados e caia por sua testa, sua pele era branca de um branco puro, e seus olhos eram cativantes, de um castanho puxado pro mel que puxava pro verde, e ficava lindo. Ele era... Lindo.

̶ Está pensando de novo, não é? Meu Deus! Daria tudo pra saber o que passa por sua mente agora. ̶ Ele sorriu, e foi exatamente quando reparei que seus lábios eram vermelhos, quentes, suaves, macios.

̶ Você!... Precisa sair. Você tem que sair agora, não pode estar aqui, tem que ir embora e não voltar mais. Vá! ̶ As palavras saíram tremendo pela minha boca, eu não sabia o que estava dizendo, mas eu queria tocá-lo só por um instante.

Ele continuava sorrindo, como se tramasse algo. Seu sorriso era brilhante, estranho, irregular, sexy.

̶ Mas por que? Eu acabei de chegar, isto seria falta de educação, não acha? ̶ Seu rosto estava tão perto do meu que se eu chegasse mais pra frente, poderia cair dentro de sua boca. ̶ Levante-se, temos que ir.

̶ Ir pra onde? Não pode me tirar daqui. Não há como sair daqui.

̶ Não me subestime, amor. Isso é chato pra mim. ̶ Ele piscou. ̶ Venha!

̶ Em que parte você não entendeu o “não”? Eu não vou a lugar nenhum com você antes de você me falar seu nome, e antes de me dizer pra onde vamos.

̶ Meu Deus, menina! Você é sempre assim? Para de perguntar ou se esquivar, quanto mais rápido for, menos você irar notar.

̶ Notar o que? Me explica logo o que você quer e vai embora, por favor! ̶ Retruquei em tom alto.

Ele estava me deixando nervosa, sem ar, agoniada, e acima de tudo, cansada.

̶ Você é tão bonita, mas com a boca fechada deve ficar mais ainda! Então por que você não fica calada? Para de falar. ̶ Disse ele se levantando e indo em direção a beira da cama. Imediatamente me pus de pé.

̶ Como você ousa? Não vou fazer absolutamente nada do que você me mandar, até você me falar o seu nome. ̶ Meu timbre se elevou para o nível máximo de irritação.

̶ Meu santo Deus! Ben... O meu nome é Ben. Tá bom pra você? Ou quer mais alguma coisa? Um chá? Um prêmio de mais chata? A suas ordens.

Já chega! Ele foi longe demais, quem ele achava que era pra falar assim comigo? Não mesmo que eu iria deixa-lo escapar assim.

̶ Vai se danar.

̶ Ótimo! Vamos comigo. ̶ Respondeu-me de imediato enquanto fazia um gesto com a mão que dizia para eu me aproximar. De jeito nenhum!

̶ Se você não for embora agora, eu vou gritar. ̶ Fiz uma ameaça com um tom não tão verdadeiro.

̶ Eu não vou embora sem você. Não posso. ̶ Sua expressão ficou séria, e sua voz ficou firme, e isso me causou arrepios.

̶ Problema é seu.

̶ Savannah...

Ele sabia meu nome. Como? Quem era ele? Eu não aguentava mais, comecei a gritar por Morgan, qualquer pessoa, a pedido de socorro.

̶ Pare. Agora. Cale a boca, Savannah. ̶ Ele tinha uma expressão furiosa, sua mandíbula estava apertada. Quanto mais ele dizia meu nome, mais assustada eu ficava.

Ele estava caminhando em direção a porta, quando eu o peguei de surpresa e o segurei pelo braço. No momento em que o toquei, percebi uma estranha conexão entre nossas peles, a dele era fria, muito fria, me chegou a dar calafrios. Seus olhos se arregalaram em um susto, ele me olhou com um olhar de advertência, como se eu não devesse ter feito aquilo. Rapidamente soltei minhas mãos de seu corpo, com gesto brusco fui me afastando dele. De repente um ar estranho tomou conta do quarto, já não era a mesma coisa, e eu percebi que Ben, não era algo bom.

̶ Não me toque novamente, nunca.

̶ Me perdoe, eu não sabia, eu não fazia ideia. Eu juro. ̶ Minha voz saiu angustiada, eu queria chorar não sei porque, era como se eu tivesse sido atingida por uma bomba.

̶ Estarei de volta amanhã, esteja pronta, sem resmungos, ou irei te levar a força. Não tente fugir, se esconder, irei te achar onde você estiver, isso é uma promessa.

̶ Você não pode fazer nada comigo, ou posso ir a polícia.

Bem virou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada irônica.

̶ Escuta aqui, eu não tenho tempo pra joguinhos, isso não é brincadeira, tenho mais coisas pra resolver, caso não queira vir comigo, terá que ir com os outros, e eles não dão mole como eu, então será uma péssima escolha. Você já é bem grandinha pra diferenciar as coisas, Savannah. Não se finja de burra porque eu não aturo jogos, não sou um bom perdedor. ̶ Suas palavras saíram como facas entrando diretamente em meu estômago. Por que ele estava fazendo isso comigo? Pra onde queria me levar? Eu estava me sentindo enjoada, queria vomitar. Isso não era justo.

Quando Ben passou pela porta, o ar frio se foi com ele. Eu não conseguia raciocinar ou me mover, eu estava paralisada diante o medo. Por que eu?

Assim que amanheceu m revirei sob a cama, com uma dor de cabeça que me arrepiava, logo que meus sentidos se ligaram á realidade, eu escutei vozes baixas vindas do banheiro.

̶ Acha que eu devo usar a saia branca ou a vermelha?

̶ A vermelha óbvio. A branca tem cara de igreja, se você realmente quer algo com ele, invista na vermelha, amiga.

Heather e Cassie! Hoje era sábado, as visitas começavam de manhã, as meninas sempre vinham me visitar aos sábados. Como eu pude ter esquecido? Imaginava que era algo sobre o Ben. Não consigo tira-lo de minha cabeça, suas palavras ficam mais altas dentro da minha mente, vagando pelo meu interior.

̶ Até que enfim você acordou! Já tinha pegado a pasta de dente pra passar no seu rosto.

̶ Cass! Que saudade. ̶ Quase me afoguei em seus braços, era tão bom ficar perto das minhas amigas, eu morria de saudades delas todos os dias.

̶ Garota, você está péssima, levanta, vai tomar banho, eu deixo você usar meu gloss.

Cassie estava maravilhosa como sempre, seu cabelo era castanho com algumas mechas brancas, e para dar um toque de loucura, mês passado ela tinha inventado de colorir as pontas de roxo. Seu olho era azul, e destacava suas bochechas gordas, e seus lábios finos. Faz tempo uma semana em que ela não me visita, quase havia me esquecido como era bom tê-la por perto.

̶ Vocês acham que eu devo usar o biquíni azul ou o rosa? ̶ Heather saiu do banheiro segurando duas peças de biquinha de cada cor.

̶ Fala sério, você quer ajuda na calcinha também? ̶ Respondeu Cassie com um tom brincalhão.

Mal pude contar meu riso, toda vez que eu estava com Cassie e Heather, era como se nada tivesse acontecido, sem doença, sem internação, sem depressão, sem Trevor, como se estivéssemos todas no meu quarto decidindo qual garoto do time de futebol a gente deveria espiar durante a semana.

̶ Sav! ̶ Correu Heather para cama e se jogou em cima da gente, jogando um biquíni rosa no meu rosto.

̶ Anda, levanta. Você tem que ir com a gente no shopping! Já falamos com sua mãe, e com a direção do hospital, falando nisso amanhã você já vai estar da alta e vamos todas pra praia, mais um motivo pra você ir no shopping escolher um biquíni.

Eu não pude prestar atenção em nada do que elas estavam falando, só havia uma frase na minha cabeça: Irei te achar onde você estiver, isso é uma promessa.

No departamento de roupas femininas, enquanto Heather estava experimentando as calças jeans, eu e Cassie aproveitávamos das balas de cortesia no balcão da loja.

̶ Então... Tem notícias do Trevor? ̶ Perguntei para puxar um assunto, apenas na saudade de conversar com a Cassie.

̶ Não. Na verdade, não sei por que você continua na desse cara, ele é um idiota, nem ligou pra você quando você mais precisou, Sav. Tira ele da cabeça de uma vez, acho que você está precisando sair um pouco, conhecer gente nova! Por que não pergunta ao seu irmão se ele tem algum amigo pra te apresentar? E se o amigo tiver outro amigo, melhor ainda, querida. ̶ Respondeu-me com um piscar de olho.

̶ Ah tá bom... Pode deixar que eu irei perguntar, no dia em que ele tiver maturidade para arranjar algum amigo que não passe o dia inteiro em frente á televisão jogando Xbox e bebendo energético.

̶ Você fica cada dia mais otimista, amiga.

̶ Cass, preciso te contar uma coisa. Você não pode contar nada á ninguém, promete?

Precisava contar pra alguém sobre Ben, estava assustada, e não confiava em mais ninguém a não ser Cassie, se eu contasse a Heather, provavelmente ela e seu espírito materno iriam ser os primeiros a contar tudo para minha mãe.

̶ Tá, o que foi?

̶ Você precisa prometer, não pode contar nem pra Heather.

̶ Fala logo, prometo.

Eu nem sabia por onde começar, na verdade, nem sabia como começou.

̶ Tem um garoto. Ele apareceu lá no quarto ontem a noite querendo me levar pra um lugar.

̶ Tá e daí? Por que você não foi? Vai que ele queria te levar pra cama dele. ̶ Disse Cassie se contendo em um sorriso.

̶ Não. Ele era estranho, eu nunca o vi na minha vida, e ele me parecia do mal. Na verdade estou assustada. ̶ Meu tom se abaixou e meu olhar se encontrou com o de Cassie, ela percebeu que eu estava assustada.

̶ Savannah... Tá falando sério? Por favor né calma. Por que não bateu nele com o abajur ou chamou alguém. ̶ Cassie revirou os olhos e me deu um olhar de precaução.

̶ Esquece...

Eu sabia que ninguém iria me entender. Afinal, quem iria acreditar que um maluco apareceu no meu quarto querendo me levar pra onde nem eu mesma sabia. Nem eu acreditaria.

Após rodar o shopping inteiro atrás de uma calça jeans pra Heather, e passar numa loja de liquidação de biquínis para comprar um par com 50% por de desconto pra mim, paramos na praça de alimentação para dividir uma Banana Split.

̶ Já são quase 17h, acho que deveríamos voltar.

̶ Ah não mesmo, ainda tenho que comprar esmaltes, vocês sabem.

̶ Heather. Fala sério, você tem mais esmaltes do que a manicure da cidade, e a Sav tá certo, tenho que estar em casa cedo, tenho irmão pra cuidar caso você não saiba.

̶ Tá, que seja, então a gente vai! ̶ Resmungou Heather enquanto pegava metade da banana coberta pelo sorvete.

̶ Vem cá, Heath... Você não estava de regime? ̶ Provoquei-a

̶ O que? Regime não significa passar fome! ̶ Retrucou enfiando outra colherada na boca.

Eu e Cassie caímos na gargalhada vendo a cara de frustação da Heather.