The Departed
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Após quarenta minutos sentada no carro com o Jackson ao meu lado fazendo barulho com a boca pra me irritar, meu pai estacionou seu Audi em um estacionamento vago, erámos os únicos a estacionar no lugar, eu sabia onde estávamos mas não conseguia me recordar o nome do lugar, foi quando eu olhei para um pedaço de metal acima de minha cabeça, Northvan Cross Lake, é claro! Estávamos no antigo Parque Northvan, eu amava vim pra cá todos os dias quando eu era criança, pena que fecharam a área porque a contaminação na água do rio estava matando todos os peixes do local.
̶ Sabe aonde estamos? ̶ Perguntou meu pai com um sorriso de criança na cara. É óbvio que ele estava mais contente do que eu por estar neste lugar.
̶ O que a gente tá fazendo aqui? Sabiam que é proibido entrar no parque? Vamos ser presos, homem! Tire a gente daqui. ̶ Retrucou Jackson, com seu mau humor de sempre.
̶ Ah é? E desde quando você se importa com a lei, Jackson?
̶ Desde quando eu tenho coisas mais importantes pra fazer hoje a noite do que ficar numa cadeia com a minha família
Jackson era detestável o máximo de tempo que podia, mas eu não podia negar, mesmo o odiando por completa, não aguentaria ficar sem ele. Depois que você se acostuma a brigar todos os dias pra ver quem fica com a tigela de cereal maior, você meio que se apega a esses pequenos detalhes. Acho que no fundo, não vivo sem meu irmão.
̶ Tá legal! Parem de reclamar e vamos entrando. O pai de vocês queria fazer uma surpresa, e o que tem a gente invadir um local? Isso aqui está vazio, e acho que a policia não vai perder o tempo deles rodeando um lugar abandonado... E Jackson, não pense que vai sair hoje a noite, prometi a Sra. Turner que você iria ajuda-la a lavar o quintal de trás, temos que ser bons com os vizinhos. ̶ Dizia minha mãe enquanto nos empurrava pra dentro do Parque.
̶ A velha Turner? Não mesmo, de jeito nenhum. Mãe, é sexta a noite, eu e o Josh já tínhamos combinado isso há semanas, e por que essa velha não pode lavar o quinta? Olha, se você gosta tanto de ajudar os vizinhos, por que você não lava com ela?
̶ Jackson, você vai e acabou.
E para dar um velho retoque no clima familiar, aproveitei pra soltar uns risos solidários para Jackson, e aproveitando minha risada, meu pai se deixou levar e entrou na gargalhada comigo.
Enquanto minha meus pais organizavam nosso desajeitado piquenique, e Jackson procurava por sinal de celular, decidi dar umas voltas perto dos rios. Estava realmente medonho o fato de conter apenas, folhas velhas caídas, alguns corvos voando por cima das árvores, e uma quantidade enorme de frutas podres que caiam dos galhos. Parecia mais um cenário de filme de terror do que qualquer parque, e mais pra frente achei um banquinho soterrado pelas folhas, assim que tirei-as resolvi subir no banco pra ter uma vista mais privilegiada do local. Foi quando eu vi um vulto correndo ao meu redor.
Era preto, e cada vez ia chegando mais perto de mim. Não podia ser Trevor novamente, ou era? Não fazia sentido algum, o que ele estaria fazendo ali? Estava me seguindo? Pois se estivesses, era melhor que parasse de uma vez por todas.
̶ Trevor! ̶ Tentei um grito.
Não houve resposta, e a sombra continuou diminuindo a distância entre nós. Seu rosto era indecifrável, seu cabelo caia sobre sua face, sua pele estava coberta por suas roupas pretas. Podia ser qualquer um, mas não era Trevor.
̶ Quem é você? O que quer? Olha, você não cansa de ficar seguindo as pessoas?
̶ Consegue me ver? ̶ Disse ele, finalmente, mas com uma voz curta, baixa e que me causava arrepios.
̶ É óbvio.
E com essas duas palavras, ele se atirou contra o mato, desaparecendo completamente.
̶ Espere! Não vá... ̶ Então percebi que era tarde demais, ele já havia ido.
≡
Na volta pro hospital, depois de passar a tarde toda ouvindo as mesmas piadas de sempre do meu pai, ver minha mãe discutir com o Jackson sobre a festa, e ver meu irmão jogando as casas do pão no cabelo, eu finalmente me senti leve, queria um pouco de descanso, sem contar que não conseguia tirar o acontecimento do parque da minha cabeça. Por que ele sempre foge de mim? Por que ele é tão estranho? De uma coisa eu sabia, não conseguia tirar ele de minha mente.
̶ Última parada... Peçam o que quiser, sem ser o Fat Double, porque esse quem vai pedir sou eu. ̶ Falou meu pai entre os risos.
̶ Josh, não acredito que parou no Biggie’s de novo. Esse homem já deve estar cansado de ver sua cara. ̶ Retrucou minha mãe.
̶ O que? Hoje é o dia da Savannah! Ande, filha... O que preferes? Hambúrguer com fritas, ou mingau?
̶ Ai, mas que ironia, pai.
Assim que entramos no Biggie’s, eu percebi que fazia tempos em que eu não entrava aqui, ou até mesmo numa lanchonete. Desde que recebi alta, não durei muito tempo em casa, pois fiquei com depressão de alto nível, tentei me matar várias vezes, muitas delas envolvi minha família, por isso aceitei passar mais uns meses no hospital, assim pude ter contato com a ala de pós-recuperação, e com o pessoal da psicologia. Não me orgulho muito dessa fase, mas até hoje sofro de trauma que a doença me causou, parte dela veio com a depressão, que me acompanha até hoje.
O lugar estava cheio, na maioria jovens, no fundo havia um palco para karaokê, e notei que o local havia passado por várias reformas, o balcão se dividia em dois, uma parte para as bebidas alcóolicas, e outra para lanches e pedidos formais. E foi justamente, nas mesas perto do primeiro balcão, que eu avistei Beatrcie.
Ela usava uma saia que poderia me servir de calcinha, uma blusa de lantejoulas e seu cabelo preto estava brilhoso como uma estrela fazendo com que seus olhos azuis ganhem mais destaque do que merecem. Tenho que admitir que ela era bonita, e como sempre, estava cercada de gente. Não demorou muito pra que uma de suas amigas me notassem e cochichasse no ouvido de Beatrice, aposto que estavam falando algo do tipo: Não é aquela garota do câncer? Coitadinha perdeu a vida.
Por um momento, quis me desligar desse movimento, e me concentrar em minha família, não era o grau máximo de diversão que eu esperava, mas me mantinha distraída. Quando nossos pedidos chegaram à mesa, minha mãe começou a contar as história em que ela fugia com suas amigas na adolescência pra ir aos cinemas abertos.
Assim que meu pai pagou a conta, nos retiramos do local, já era mais 21h e eu precisava voltar pro hospital. Eu estava com dor de cabeça, acho que precisava de ar, estava tudo rodando dentro de mim, e por um motivo que eu não sabia qual. Meus pensamentos estavam embaraçados, e nisso se focava em tudo o que tem me acontecido recentemente, principalmente a parte do homem estranho.
̶ Savannah? ̶ Uma voz atrapalhou meus pensamentos. Não era familiar, mas eu já havia escutado antes. ̶ Oi! Você não deve se lembrar de mim.
Beatrice.
Beatrice Jhonson estava falando comigo. O que essa garota queria? De repente senti sua mão macia e gelada tocar meu braço esquerdo, enquanto eu passava pela porta do Biggie’s.
̶ Beatrice! Oi... Claro que lembro. ̶ Não sei se minha voz soou mais nervosa do que eu poderia estar, mas tentei ser firme.
̶ Ah que ótimo! Eu sei que você está passando por um momento difícil, e deve estar se sentindo sozinha, não é? Que seja. Sábado que vem, vou dar uma festa lá em casa, e se você quiser aparecer por lá, está convidada. ̶ Ela falava sorrindo, com seu sorriso brilhante, e suas mechas de cabelos pretos caia por boca prendendo em seu gloss labial.
̶ Sério? ̶ Não pude esconder meu tom de desconfiança. Beatrice estava me chamando pra uma de suas festas. ̶ Quer dizer... Sim! Eu adoraria ir, muito obrigada.
̶ Aqui está, é no final da rua. Te encontro lá.
Ela me passou um guardanapo velho com algumas letras escritas, um endereço e um número de celular. Isso era estranho, mais que estranho. Não estava conformada, mas de um jeito irregular, eu me sentia... Ansiosa.
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