Assim, que cheguei ao refeitório, avistei Heather, era fácil de saber quem ela era até no meio de uma multidão, alta, loira de cabelos lisos, roupas curtas e brilhantes, e sempre com sua bolsa da Cartier que sua mãe havia comprado numa liquidação, desde então, Heath nunca havia desgrudado dela.

Assim que seus olhos encontraram com os meus, ela soltou um enorme sorriso, como se nunca tivesse me visto antes, e com uma corridinha básica, de repente estávamos abraçadas, e enroladas uma na outra.

̶ Sav! Você está ótima, na verdade você está linda, como pode? O que eles tem te dado aqui? Pode me contar, querida, quero uma dose de conversa agora mesmo. ̶ Heath estava rindo como se tivesse 6 anos de idade, com uma gargalhada tão alta que me fazia rir também.

Sei que, ótima e linda, são as palavras que menos podem me descrever nesses últimos meses, pelo menos não hoje, já que eu estava com uma calça jeans, e uma blusa regata simples que estava sendo coberta pelo meu cardigan. Eu posso até agradecer por meu cabelo ter parado de cair, faz 8 meses que eu parei o quimioterapia, e ele já esta um dedo abaixo do ombro. Se eu fosse me olhar no espelho há 2 anos atrás, me viria com um cabelo loiro de longos fios, um corpo moldurado, uma cintura fina, peitos volumosos, e um olho azul contagiante. Mas nesse momento, se eu me olhar, vou me ver, com um cabelo sem brilho e armado, um corpo esquelético, e uma cor de olho indecifrável, como um azul encardido por 2 semanas.

̶ Ah, como se você precisasse, né. Heather Molzerds, a rainha da beleza, desejada por todos os garotos do primeiro ao último ano... Você está me pedindo dicas de beleza? ̶ Falei com um tom de sarcasmo.

̶ Ei!... Obrigada, mas não sou a rainha da beleza, bem que eu gostaria, e falando nisso, a votação pra rainha do baile foi aberta sexta feira passada, e advinha quem está em uma boca colocação? Sim, sua amigona aqui.

̶ Oh meu Deus, Heath! Que legal, e você está disputando os holofotes com quem?

̶ Com quem você acha? Beatrice Jhonson, o famoso adjetivo da frase “Você está fedendo a lixo.” ̶ Respondeu-me com um tom de angústia.

Todos de Northvan sabiam que Heather era uma boa garota, menos a Beatrice. As duas entraram em guerra quando tinham apenas 9 anos de idade, ninguém nunca me contou o motivo da briga, mas as duas fazem de tudo pra se irritarem, até roubar o namorado da outra, já passou na lista de vingança das delas.

Northvan era pequena, ficava na parte mais afastada de Seattle, desde que nasci só saí desta cidade pra visitar minha avó em Nova Iorque. Isso foi num natal há 8 anos atrás, mas minha mãe teve uma briga ridícula com minha tia por causa de uma tigela de purê de batata, então depois desta noite, nunca mais sai de Northvan, e minha mãe nunca mais falou com minha tia Christina.

Heather e Cassie, eram minhas melhores amigas, fazíamos tudo juntas, desde integrantes do grupo de líderes de torcida, até perseguir os ex-namorados da Heath. Quando descobri minha doença, nossa amizade abalou um pouco, percebi que as duas ficavam nervosas na minha presença, e não gostavam muito de falar sobre o que acontecia nas festas, nos ensaios, e até mesmos nos casos que elas tinham com os garotos, elas achavam que eu ia me importar, ou iria ficar magoada por não poder participar. Sim, eu ficaria magoada, mas não significa que eu não queria saber.

̶ Eu sei que você vai ganhar, Heath, não se preocupe, tá legal? Você é muito mais descolada do que a Beatrice. ̶ Com uma tentativa de faze-la esquecer isso, tentei outro assunto. ̶ Hum.. Tem alguma noticia da Cassie, ou do... Trevor?

Heather me olhou assustada, e percebi que sua respiração havia mudado, não sei porque mas ela nunca gostava de falar sobre o Trevor. ̶ Ah! A Cassie, está ótima, ela até de mandou um beijo, não pode vir porque teve que ficar tomando conta do Toby, sério, cada dia que passa esse menino vai ficando mais insuportável... Eu te contei que ele rasgou uma das blusas da Cass? Pois é, eu não aguentaria ter um irmão assim.

̶ Ei! Só te perguntei se tinha noticias do Trevor, não precisa ficar nervosa, ok? Você sabe que eu não me importo, isso já passou. É sério, Heath.

Trevor era meu ex-namorado, estávamos juntos por 1 ano e meio, até que seus pais resolveram se mudar pra Califórnia. Isso foi antes da minha “doença” mas nunca mais tive noticias dele. Há boatos de que ele foi pro Canadá, mas acho que não. Obviamente ele não deve saber que eu estou nessas condições, ou ele sabe e por isso não fala mais comigo, porque isso foi exatamente o que metade dos meus colegas fizeram.

̶ Que seja! Mas não gosto de falar sobre ele, você sabe que eu não tenho contato com esse garoto, não sabemos nem se ele está vivo. ̶ Respondeu-me Heather com um tom de riso.

̶ Aí, que horror! ̶ Não consigo imaginar o Trevor morto, ele foi a coisa mais importante pra mim, e mesmo longe e sem saber da minha existência, eu sinto sua falta as vezes.

̶ Que ótimo.. Sua mãe chegou.

Pude ver minha mãe antes dela chegar ao final do corredor, e também pude notar que ela estava usando sua roupa social, e isso significava que tinha trabalho hoje.

Minha mãe trabalhava em casa como advogada, mas quando surgia algum serviço, ela ia para o escritório, e hoje, era um dia desses. Isso se resultava em um dia sem companhia, já que o treino das líderes de torcida começavam as 14h no ginásio da Northvan High School.

̶ Oi meninas, só passei pra dar um olá mesmo, pois meu dia está corrido hoje, arranjei uns casos daqueles! Me desculpa filha, se eu puder, e não estiver muito tarde, prometo passar aqui na volta pra casa. ̶ Disse minha mãe rapidamente, enquanto me abraçava, me cheirava, me beijava, e como parte do ritual das mães, apertava minhas bochechas.

̶ Oi senhora Bennigton. ̶ Heather fez um gesto estranho com a mão e acabou torcendo um dos dedos.

̶ Heather, querida, não me chame de senhora, sabe que eu me considero cada vez mais velha quando uma pessoa me chama assim, e afinal eu te conheço desde sempre, é praticamente da família, sabe que pode me chamar de Rachel.

Enquanto minha mãe pedia um café pra garçonete, nós se sentamos na mesa, e ficamos ouvindo sobre seu novo caso, e sobre a ligação que ela fez pra tia Christinna e ela não retornou.

̶ Bom, tenho que ir... E querida, já falou pra Morgan trocar seus tapetes do quarto? Eu já expliquei pra ela que você tem alergia, mas essa mulher cisma em não me escutar. ̶ Resmungou minha mãe.

̶ Sim mãe, eu já te falei ontem que ela havia retirado os tapetes do quarto.

̶ Ah que ótimo! E não esqueça de deixar o celular ligado, você não tirou meu número da discagem rápida, né? E não vai deixar de diminuir o ar antes de dormir, não queremos você gripada...

̶ Tá, está bem mamãe, vou fazer isso.. Agora dá pra você parar de reclamar, minha cabeça vai explodir do tanto que você fala, e sempre a mesma coisa.

̶ Ah! Tia Liza, pode me dar uma carona? Não quero andar, vou deixar pra gastar minhas calorias no treino. ̶ Disse Heather enquanto arrumava o cabelo, e retocava seu gloss labial.

̶ Então vamos, porque já estou atrasada, pegue seu casaco, venha... ̶ Por fim, minha mãe me abraçou e passou a mão entre meus cabelos. ̶ Tchau meu amor, não esqueça de me ligar quando for deitar, está bem? Prometo que amanhã vamos passar o dias juntas, afinal seu pai chega de viagem, e a família vai estar completa, vou trazer seu irmão, e vamos fazer o dia em família.

̶ O Jackson? Dia de família? Ah tá bom! Ele pode até vir, mas dia de família não vai ser mesmo.

̶ Ah pare de reclamar do seu irmão, lembre-se de que não podemos escolher a família que Deus nos dá. Agora vamos, Heather. Tchau querida.

̶ Tchau vocês.