The Demigod Search Squad (d.s.s)
10 Foi Tudo Um Sonho?
Notas iniciais
Capítulo 10 – Foi Tudo Um Sonho?
Percy abriu os olhos ainda atordoado. Uma luz forte clareava o seu rosto e fazia seus olhos lacrimejarem. Ele estava deitado numa cama não muito confortável. Os lençóis pinicavam e o travesseiro era quase tão fino quanto o próprio lençol. Estava vestindo roupas brancas, parecidas com a de um hospital. Talvez estivesse em um... Forçou a mente, mas não conseguia se lembrar direito do que acontecera. Estava procurando a semideusa perdida... Luke aparecera? Não. Não fazia sentido. Onde estaria Annabeth?
A sua mente confusa o irritava quase tanto quanto a falta de informações. O que diabos acontecera com ele?
Tentou se levantar, mas a tontura tomou conta de seu corpo e ele caiu da cama. Era como se tivesse acabado de correr numa maratona e, logo depois, tomado algumas doses de sonífero... Ele olhou ao redor. Estava num quarto branco. Não era um lugar muito atraente. Havia apenas uma cama no centro e um banheiro ao lado.
Ele precisava sair dali. Forçou as pernas e conseguiu ficar de pé. Mesmo que cambaleando, ele foi até a porta do quarto. Estava trancada. Havia apenas uma janelinha de um vidro grosso na porta e ele pôde ver algumas pessoas passando do outro lado. Mas havia algo errado. Todos vestiam branco.
Percy começou a entender. Não podia ser. Não fazia sentido. Mas era. A cama e o quarto trancado. As roupas brancas e as pessoas do lado de fora... Estava num hospício.
Ele bateu na porta com força.
– Ei!. – gritou. – Abram a porta!
Um homem do outro lado o encarou, mas nem se moveu. Devia ser um dos enfermeiros.
–Estão cometendo um engano! –gritou mais alto. – Não sou doido!
Ele já percebera que aquilo era inútil, mas precisava fazê-lo. Era a única coisa que podia fazer. Continuava esmurrando a porta e berrando o mais alto que podia. Alguma hora alguém teria que ir lá.
E assim foi. A porta do quarto se abriu com força e ele cambaleou para trás. Um homem bem forte apareceu dentro do seu quarto.
–Escuta cara... Não sei o que estou fazendo aqui... Eu só me lembro de está com a minha namorada e...
O homem não parecia se interessar. Simplesmente retirou uma agulha do bolso e se aproximou. Percy deu um passo para trás. Não queria ser mais dopado. Aquele remédio poderia deixá-lo tão lerdo que ele nunca conseguiria sair dali...
– Ei... Isso não é necessário. – E o brutamontes continuava se aproximando. Sem escolha, Percy foi obrigado a pegar contracorrente. Colocou a mão no bolso do short de hospital... mas não havia caneta lá. O que estava acontecendo? Contracorrente nunca o abandonava. A não ser que ali tivesse algum encantamento que impedisse a caneta de retornar ao seu bolso...
– Não podemos conversar por um minuto?
A picada da agulha foi dolorosa. Percy até tentara desviá-la, mas o homem era com certeza experiente em apagar doidos (e semideuses não doidos que paravam lá por acaso), pois o acertou como se tivesse espetando um boneco de pano. Imediatamente a paisagem girou e o quarto branco ficou negro até desaparecer na escuridão...
...
Quando ele acordou, estava novamente na cama, mas dessa vez seus braços e pernas estavam presos em amarras nas laterais, deixando-o imobilizado com a barriga para cima. Tentou se soltar, mas o cinto de couro que prendia sua mão era realmente apertado e resistente
Percy pensou em Annabeth. Onde estaria a garota? Esperava que ela estivesse bem...
A porta do quarto se abriu. Percy se esforçou para visualizar quem se aproximava. Era um homem que ele nunca vira em sua vida. Tinha cabelos curtos e grisalhos e o encarava com expressão preocupada.
– Como se sente, Percy? – Percy não respondeu. Primeiro porque o efeito do sedativo ainda fazia sua língua pesar. Segundo porque não conseguia compreender o que ocorria naquele lugar. –Soube que teve outro ataque de pânico...
– Outro? – ele se esforçou para pronunciar a palavra.
–Sim. Outro. – o médico o olhava com interesse, como se aquela simples palavrinha que o garoto falara significasse algo de importante relevância. – Está se sentindo bem?
–Está brincando, certo? Primeiro me sequestra, depois manda seu capanga me sedar e agora pergunta como eu estou.
A expressão do médico se tornou em uma certa decepção, porém com uma fagulha de esperança.
–Te sequestrei? De onde?
Ele teve que forçar a memória para se recordar de onde estava. Parecia ser a muito tempo atrás.
–Newport Beach.
–Newport Beach? – o medico pareceu intrigado com a resposta. –Interessante.
–O que é interessante?
Ele anotou algo numa prancheta que trouxera com sigo.
– O fato de ter associado o fato de eu dizer que Ben iria morar em Newport com a sua... fantasia.
– Fantasia? Do que está falando? E o que fizeram com Ben? E Annabeth?
– Annabeth é a sua namorada, certo? – o jeito do médico o irritava. Parecia que Percy era uma criança que brincava de faz de conta enquanto ele fingia interesse. Só que o faz de conta era a sua vida.
– Sim! É a minha namorada... Onde ela está?
O Dr. Suspirou.
– Já tivemos essa conversa, Perseu. Annabeth não existe.
Percy sentiu um gosto metálico na boca e fez uma careta. Seu coração acelerou e uma angustia tomou conta de seu corpo.
– O que? Está louco? –havia uma certa ironia naquele comentário, devido à posição em que ele se encontrava.
Foi possível notar um brilho nos olhos do homem. Ele anotou algo na prancheta velozmente e tornou a encará-lo.
–Percy... Qual o nome da sua mãe?
Que tipo de jogo mental era aquele?
–Sally...
O médico fez outra anotação.
– E o do seu pai?
Percy travou. Será que deveria realmente responder? Falar que era filho do deus do mar num hospício poderia ser a sua perdição. Mas, por outro lado, aquilo não poderia ser um hospício normal. Nada ali fazia sentido e como ele sabia sobre Annabeth? E porque falara que a garota não existia?
Eram muitas perguntas para nenhuma resposta. Ele tinha vontade de fechar os olhos e esperar acordar daquele sonho... Mas não era sonho. Tudo parecia real de mais...
–Qual o nome de seu pai? – o médico repetiu, os olhos atentos esperando sua resposta.
–Eu... – respondia ou não respondia? – Meu pai é Posseidon, o deus do mar, e vai acabar com você quando descobrir o que está fazendo...
Fez sua escolha. Não iria negar o seu pai. A parte sobre Posseidon ir lá e acabar com o medico era provavelmente mentira, pois os deuses não costumavam interferir diretamente nos assuntos de seus filhos, mas não custava blefar...
O homem tornou a parecer um pouco decepcionado, porém forçou um sorriso.
– Acredito que estejamos chegando á um avanço... – ele falou se aproximando da cama do jovem. Percy teve o impulso de colocar a mão no bolso e pegar sua caneta, mas as amarras de couro não o deixaram se mover. – Temo que terá que passar a noite assim hoje. É o nosso protocolo, mas pretendo te liberar amanhã. Vai ser bom para você retomar o contato com seus amigos. E família...
–O que? Eles estão aqui também?
O medico inspirou fundo com tristeza.
– Sim, Percy. Eles estão aqui. Além disso, pedirei para sua mãe vir aqui amanhã. Acredito que esteja começando a enxergar a realidade.
A forma que ele falou isso fez o sangue de Percy gelar. O homem deu as costas e se dirigiu à porta, mas antes que ele a ultrapassasse, Percy perguntou:
–Como disse que se chamava?
O médico olhou orgulhoso. Por incrível que parecesse, Percy conseguia ver a bondade dele. Poderia até acreditar que ele tinha boas intenções se não fossem aquelas circunstancias...
–Edward. Edward Spector.
A porta se fechou e, mais uma vez, Percy se viu sozinho, impotente, angustiado e louco.
...
A noite foi algo que ele poderia descrever como infernal. Quando o efeito do calmante passara, lhe restara apenas uma intensa insônia, além da vontade de correr em círculos a noite toda para gastar suas frustrações. Claro que não podia, pois ainda estava amarrado à cama. Não podia nem se remexer para ficar mais confortável e sentia o incomodo da mangueira que prenderam nele caso sentisse a necessidade de urinar. Queria chorar. Queria gritar, mas não o podia fazer, pois o chamariam de louco. A única coisa que lhe confortava era o que eles não podiam lhe tirar: as lembranças dos momentos que passara com Annabeth. Lembrava-se de beijá-la, de sentir o seu corpo quente colado ao seu corpo. Lembrava-se da ultima noite que passaram juntos, na praia de Newport. Ele fechou o olho, mas não consegui dormir. Nem mesmo queria. Tinha medo de que quando acordasse, nem o conforto de suas lembranças ter mais.
...
Ele abriu os olhos de manhã. No final, acabara dormindo por algumas horas, mas sentia como se não o fizesse por semanas. Uma mistura de cansaço com o efeito restante dos calmantes lhe deixavam acabado. Ao menos viu uma enfermeira retirar seus braços e pernas das amarras de couro. Foi bom poder se mover de novo.
Ele se levantou com dificuldade e quando quase caiu a mulher o ajudou a ficar de pé.
–Obrigado... – ele murmurou.
–Não se preocupe, querido. Fica mais fácil com o tempo.
–O que?
– Andar... O efeito do remédio vai passando.
–Ah... Espero que sim. Não quero depender dessa mangueira minha vida toda.
A mulher riu divertida e Percy faria o mesmo se pudesse.
–Na verdade isso você já pode remover.
Depois, ela acompanhou Percy para fora do quarto. O resto do sanatório era até bonito. Quadros alegres enfeitavam as paredes brancas. Um até era de um pegasus.... Preto.
–Lembra-se do seu amigo? –perguntou uma voz às suas costas. Percy se virou e viu o Dr. Spector bem próximo.
–Pode deixá-lo comigo. – disse à mulher gentil. Ela assentiu e se afastou, fazendo Percy se sentir desamparado. Ele se desequilibrou, mas não caiu.
– De que amigo está falando? – Percy perguntou.
O Dr. Olhou para o quadro.
– O Pegasus. Como é que chamava ele...? Joker? Poker? Black Jack?
Percy sentiu o sangue gelar de novo. O médico provocava aquele efeito nele. Como ele sabia de tanto?
–Não importa. – Dr. Spector continuou. – Deixe-me levá-lo à sala de recreiação.
Percy o seguiu sem protestar. Havia algo muito curioso ali. Ele lutava contra a sensação, mas sentia que algo começava a fazer sentido. Como se a peça de um quebra cabeça estivesse finalmente se encaixando. Talvez... Talvez o médico não estivesse mentindo. Talvez ele realmente estivesse louco...
Passaram por alguns corredores e diversas portas. Em fim, chegaram à tal sala de recreação. Lá, diversos jovens se entretiam com coisas diversas. Piano, livros, mesa de Sinuca, Ping-Pong, violões e outros objetos. Imediatamente, Percy focou num garoto que se sentava sozinho. Tinha cabelos loiros e uma cicatriz no rosto.
– O que ele está fazendo aqui? –Perguntou apontando para Luke.
Dr. Spector segurou seu ombro, o que foi bom, pois evitou Percy de correr na direção do loiro que agora o olhava e atacá-lo.
–Percy... Luke é o seu amigo. Preciso que você não faça nada imprudente...
–Ele me traiu...
–Não, Percy, não traiu. – O tom do medico foi severo. – Você inventou isso. Criou com a sua mente como criou todo o resto, mas já é hora de você acordar. Luke sempre foi influenciável pelas suas historias e gora até ele acha que mudou para o lado do Titã Cronos...
Percy ouvia, mas não conseguia compreender o que o medico queria dizer. Ele inventou tudo aquilo?
–Do que você está falando? Ele me traiu. Ele estava morto...
–Não. Ele está bem na sua frente e preciso que se relacione bem com ele. Ou terei que colocá-lo de vota no quarto... É isso o que deseja?
Percy não podia argumentar quanto à isso. Não voltaria para aquela cama. Isso tinha certeza. Além do mais, poderia jogar o jogo deles até descobrir como sair dali.
–Tudo bem. – concordou. –Eu não serei imprudente...
O médico assentiu.
–Pode conversar com ele. Irei telefonar para a sua mãe e voltarei para te buscar. Preciso falar com você antes que ela chegue.
Ouvir falar em sua mãe o animou. Percy assentiu e seguiu para falar com seu antigo rival. Luke o olhou como se estivesse envergonhado, baixando a cabeça para baixo assim que ele chegou perto.
O filho de Posseidon estava obviamente desconfiado. Não compreendia como aquilo era possível. Luke estava morto, Cronos derrotado. Então quem podia ser aquele garoto.
–Percy... – Luke falou. – Eu sinto muito.
Imediatamente o garoto franziu a testa.
–O que?
–Sinto muito por ter ajudado Cronos. Eu nem mesmo me lembro de tê-lo feito, mas se você falou só pode ser verdade.
A forma como ele falava era quase delirante. Arrependimento e confusão transbordavam de seus olhos.
–Você não se lembra de tê-lo ajudado?
–Não. Mas sei que é verdade. Não mentiria para mim. Desde que descobri o que fiz sinto vergonha de mim mesmo. Não sei o que pode ter passado pela minha cabeça... Éramos amigos e...
Percy não conseguia acreditar. O que ele falava não podia ser verdade, mas o loiro também não parecia estar mentindo...
–Do que se lembra, Luke? – Percy perguntou o mais amigável possível.
–Só do que me falou. Que somos semideuses e morávamos no acampamento meio sangue. Que eu sou o filho de Hermes e você de Posseidon. Que você já salvou o mundo algumas vezes e eu... Me desculpe ter me virado contra você... –lagrimas ameaçaram cair de seus olhos. Ver o garoto naquele estado era lamentável. No final, Luke havia sim escolhido salvar o Olimpo. Agora estava num estado deplorável. A sombra de um herói presa na mente de um louco... Ou será que o louco ali era Percy?
–Não se preocupe. – ele falou. –Está tudo bem. Eu te perdoo pelo que fez, Luke.
Não era completamente verdade, mas também não era completamente mentira. Ao menos ouvir aquilo o faria se sentir melhor. Imediatamente Luke sorriu em gratidão.
–Então estamos novamente no mesmo time?
Imediatamente uma ideia surgiu na mente de Percy.
–Sim. – falou baixinho para que só ele pudesse ouvir. –E já tenho uma missão para nós trabalharmos juntos...
Luke se animou.
– O que posso fazer?
– Ninguém mais pode saber, Luke.
–Não vou contar.
–Ótimo. Vamos dar um jeito de sair desse lugar...
– Percy Jackson! –chamou um dos enfermeiros. –Dr. Spector quer vê-lo.
Percy colocou o dedo indicador no lábio indicando a Luke para ficar quieto. O garoto assentiu. Ele não sabia o que estava fazendo. Não sabia se Luke estava ou não sendo sincero ou se aquilo não era outra armadilha. Não sabia mais quem era louco e quem era são, mas a ajuda do filho de Hermes seria importante. Já seria difícil os dois conseguirem fugir, mas apenas ele era impossível.
Percy se levantou do banco onde sentava e se dirigiu à sala do Dr. Spector.
– Boas notícias, Percy. Sua mãe está à caminho. E está trazendo um antigo conhecido seu...
–Conhecido?
–Sim. Mas é só o que direi. Entenderá quando chegarem...
Percy não conseguia entender o plano do médico. Se estava lhe fazendo de refém, por que chamaria sua mãe? Ou será que aquilo era uma mentira?
–Era só isso? – Percy perguntou encarando o médico.
–De forma alguma. Preciso ter uma longa conversa com você, e preciso que me prometa que, por mais que lhe custe acreditar, vai ouvir com atenção o que eu tenho à dizer...
Percy assentiu. Dr. Spector fez um sinal ao brutamontes que guardava a porta para que esse os deixassem sozinhos.
–Sente-se, meu jovem. – o garoto obedeceu e o medico começou a falar. – Sabe porque está aqui, Percy?
–Por que me trancaram.
O homem sorriu.
–Sim, mas porque o trancamos aqui?
Percy não respondeu. Não tinha uma resposta.
–Está aqui por causa de uma imensa... imaginação que criou devido à uma sucessão de acidentes... – O jovem franziu a testa, ouvido atentamente, como prometera. –Lembra-se de um passeio ao museu, que fez aos seus doze anos?
Obviamente ele nunca esqueceria aquele passeio. Havia sido quando sua professora de álgebra se transformara numa fúria e tentara extrair a informação de onde estaria o raio mestre de Zeus. A partir dali, ele descobriu ser um semideus e sua vida tomou o rumo que tomara. O museu havia sido onde tudo havia acontecido...
–Sim.
– Pois bem. Na época, e todos esses anos depois, se negou a acreditar, mas houve um acidente lá. Sua professora de álgebra, a Sra. Dodds, foi... atingida por uma estatua mal colocada. – Dr. Spector falava lentamente, analisando a reação que o garoto poderia ter. – Era a escultura de uma Fúria, um monstro da mitologia grega e... ela não sobreviveu.
Mesmo sem querer demonstrar, Percy começava a ficar nervoso. Por algum motivo seus batimentos cardíacos aceleravam muito. Ele sabia que aquilo era uma mentira, muito mal contada por sinal. Mas então porque reagia daquela forma?
–Tudo aconteceu na sua frente, Percy. Você ficou transtornado, e com razão. Preferiu acreditar que a própria Sra. Dodds se transformara na criatura e saiu voando. – Percy notou que o medico tinha alguns papeis nas mãos. Alguns deviam conter registros hospitalares e diagnósticos psicológicos, mas no outro, que o homem lhe mostrou, chamou sua atenção: Um jornal com manchete “Professora é Morta em acidente de Museu”. Na capa havia a foto da escultura de uma fúria feita em pedra. Mais uma vez ele sentiu seu coração aumentar a velocidade dos batimentos.
– Sua mãe tentou te trazer aqui, junto com seu amigo Grover, quem insistira em vir com você. Foi aí que você surtou e ela acabou batendo o carro numa vaca à beira da estrada. – mais uma vez o homem fez uma pausa para verificar o seu estado. Talvez ele estivesse percebendo que Percy sentia sua cabeça perto de explodir. – Você e ela saíram ilesos, mas Grover ficou paraplégico... Tentamos lhe explicar que não fora a sua culpa... Fizemos inúmeras sessões para recuperar sua sanidade, Percy. Mas o peso na sua consciência foi demais. Você criou essa fantasia a qual vive até hoje, na qual Grover é um sátiro e a Sra. Dodds uma fúria, e você é filho de Posseidon... Não percebe que isso são apenas fantasias para você não precisar lidar com a realidade ao seu redor? – a voz do homem começava a se intensificar.
Percy tentava responder, mas seus olhos começavam a lacrimejar e sua voz não saia.
– Vive lutando com monstros e carregando o peso do mundo em suas costas desde então. Foi esse o seu jeito de se culpar que provou isso em primeiro ligar. Precisa se desapegar disso, Percy. Precisa aceitar que nem tudo está em seu controle. Sim, seu pai lhe abandonou e sim, sua professora morreu e seu amigo está paraplégico, mas ainda existem pessoas quem se importam com você. Esta na hora de acordar para a realidade.
–Está mentindo. –falou.
–Está a cinco anos trancado aqui. Se tornou agressivo, vendo monstros e conspirações em todos os lugares. Por que não aceita? Do que tem tanto medo, que não quer enxergar o que está em sua frente?
– Cala a boca!!! – Percy gritou e se ergueu da cadeira, lagrimas jorrando de seus olhos e escorrendo pelo seu queixo. Imediatamente o enfermeiro entrou na sala para ver o que se passava.
–Está tudo bem, Willson. –falou o medico. –Ele apenas está começando a entender...
Ao sinal do Dr. Spector, o brutamontes Willson se aproximou e o pegou pelo braço, a fim de retirá-lo da sala.
– Avise as enfermeiras para lhe darem um banho e vestirem-lhe uma roupa mais arrumada. Sua mãe está vindo levá-lo para um passeio...
Percy sentiu ser puxado na direção da porta, mas antes que saísse do aposento tornou a se voltar ao medico.
– Dr...?
–Sim, Percy?
–Por que está me contando isso agora?
O homem sorriu satisfeito de sua reação.
–Porque ontem notei que havia algo diferente em você. Normalmente é você quem cria as realidades em que vive, sempre tendo todas as respostas. Ontem percebi que você sabia onde estava. Está apenas em choque por acordar de um sonho tão longo. Aos poucos vai conseguir retornar à realidade. Não se preocupe.
Percy apenas assentiu. Estava sim em estado de choque. Não sabia mais o que se passava ali. Tentava negar com todas as suas forças que aquilo era apenas uma armação. A armadilha de um monstro ou algo do tipo, mas tudo estava real de mais. E, pensando bem, monstros realmente pareciam invenções de crianças assustadas. Talvez agora que tinha dezessete anos ele estivesse realmente acordando para a realidade.
A única coisa que o fazia se apegar à vida que conhecia era a visão do rosto de Annabeth. Seu sorriso alegre e inteligentes olhos castanhos. Como aquilo poderia ter sido uma criação de sua mente? Ele não se julgava bom o suficiente para criar algo tão perfeito como a garota. Não. Havia algo errado ali. Não podia ter vivido uma mentira nesses últimos anos. Se recusava a acreditar nisso. Pelo ou menos por enquanto...
...
O banho foi algo realmente desconfortável. Ficou sob vigia de uma enfermeira, a mesma que o tirara da cama mais cedo, e do guarda costas Willson, quem parecia sempre pronto para pular sobre ele e lhe injetar uma injeção dopante novamente. Ao menos, depois de se lavar ele pôde vestir uma calça Jeans e uma camisa laranja (irônico não?), ambos muito mais confortáveis do que aquelas roupas brancas de hospital.
Depois de vestido, Willson lhe acompanhou até a sala do Dr. Spector mais uma vez. O vigia era sempre calado, como se tivesse medo ou nojo dos “loucos”. Vai ver por isso que ele fora tão frio ao lhe apagar na noite passada.
Quando a porta da sala do psiquiatra se abriu, Percy viu sua mãe sentada na cadeira. Ela sorriu imediatamente quando ele apareceu e correu para lhe abraçar.
– Como está, meu filho?
Percy sentiu o conforto daquele abraço. Naquela situação em que se encontrava, ver a mãe era a melhor coisa que lhe acontecera.
–Estou bem. – mentiu.
Ela sorriu e acariciou seus cabelos...
Percy então viu a outra pessoa na sala. Estava numa cadeira de rodas e um rosto sorridente.
– Quíron? – Percy se sentiu aliviado. Agora o seu mentor poderia lhe explicar o que acontecia. Poderia acabar com tudo aquilo...
–Olá Percy. Eu prefiro Sr. Brumer, mas é bom te ver...
A forma que o centauro (ou apenas homem deficiente) falava era simpática e animada, mas aquilo foi como um balde de água fria em sua cabeça. O desanimo lhe tomou por completo. Então aquele pesadelo não iria acabar...
–Claro... Sr. Brumer... Foi só força do habito...
O homem sorriu. Sua mãe ainda estava ao seu lado, segurando sua mão.
– Dr. Spector falou que está bem melhor, Percy. Disse que poderá voltar para casa em breve se continuar nesse ritmo.
–Não posso ir logo agora? – ele não queria mais ficar ali naquele lugar.
O Doutor se levantou de sua cadeira.
–Ainda é cedo, Percy. Mas prometo que não irá demorar muito. Basta continuar como está...
–Mas podemos dar um passeio, não é? –sua mãe falou. – Podemos ir a qualquer lugar que quiser. Onde tem vontade de ir, querido?
Aquilo era fácil. Tinha uma forma de acabar com aquela duvida angustiante.
– Long Island, Mountauk, numero 3,141. Preciso ver o acampamento meio sangue. – Sally Jackson olhou apreensiva para o Dr. Spector, mas ele deu um sorriso e fez um sinal afirmativo.
–Essa é uma ótima ideia. –disse o medico.
...
No caminho de carro, Percy olhava atentamente para o caminho, para se certificar que não estava sendo enganado. Confiava em sua mãe, mas do jeito que as coisas estavam, prevenir não era uma má ideia. Mesmo depois que ele saiu do Hospital Psiquiátrico Fresh Start, contracorrente não retornou ao seu bolso. Ele ouvira o Dr. Spector falar para a sua mãe antes de saírem: “Essa é uma fase definitiva. Ele pode escolher ver a verdade ou tomar o caminho mais fácil e continuar no mundo o qual se sente confortável. A família vai ser muito importante nesse período...”
No caminho, sua mãe lhe contara que o Sr. Brumer tinha lhe ajudado muito nos últimos tempos. O seu antigo professor (e possível treinador de batalha) sorria encabulado pelos elogios.
–Obrigado por cuidar dela. – Percy falou.
–Não se preocupe, Percy. Sally é como minha família agora. Cuido dela como se fosse minha filha. Assim como você... (Aquela ideia, apesar de um ângulo diferente, não era novidade, pois Quiron, como filho de Cronos, era irmão de seu pai e consequentemente seu tio, mas tê-lo como parte da família por parte de mãe era algo... estranho).
Finalmente o carro parou numa colina. Colina a qual Percy já vira milhares de vezes. Ele saiu do veículo esperançoso e caminhou para cima. Se tinha um lugar o qual se sentia seguro era ali. Finalmente chegou ao topo... A entrada do acampamento meio sangue estaria visível a qualquer momento...
E apenas a verde vegetação podia ser vista, na frente do mar de Long Island... Aquela linda paisagem representava tanta coisa. Em um segundo toda a vida que pensou ter foi desconstruída. O mundo não fora salvo, ele não era um semideus e não havia nenhuma Annabeth Chase, filha de Atena e namorada de Percy Jackson...
As lágrimas saíram involuntárias e ele se ajoelhou no topo da colina. Sua mãe chegou ao seu lado e pousou a mão em seu ombro, mas os Sr. Brumer ficou esperando no carro, pois para ele era complicada a locomoção.
–Está tudo bem, querido... – disse Sally.
Ele puxava a grama com força, como se aquele gesto fosse a ultima e inútil tentativa a se apegar ao seu passado inexistente.
–Mãe... – conseguiu dizer. –Foi tudo um sonho?
Ela se sentou ao seu lado, abraçando-o.
– Sim, querido. Foi apenas um sonho. Mas está acordado agora. E estou aqui com você...
Ele enxugou as lagrimas e voltou a falar.
–Posso voltar ao Fresh Start?
Sally sorriu, sabendo o que aquilo significava.
–É claro, Percy... Podemos voltar.
...
Quando Percy voltou ao Hospital Psiquiátrico, foi na sala do Dr. Spector. Quando chegou à porta, o medico estava prestes a entrar...
– Doutor... Posso falar com você?
O homem lhe deu um sorriso e olhou o relógio.
–Um momento, Percy. O Diretor Donavan acabou de voltar de mais uma de suas pescarias. Preciso falar com ele sobre a situação de alguns personagens, a sua inclusive... Falo com você depois, certo... – Percy assentiu. Seria realmente bom poder descansar um pouco. Havia sido um dia longo... Precisamente, um dia que levara cinco anos para passar... –Mas Percy... Como se sente?
–Estou acordando... – falou tristemente. O medico ficou satisfeito com a resposta e entrou na sala. Se era verdade que ele estava finalmente vendo a realidade da forma como devia, porque se sentia tão mal?
Ele olhou pela porta entreaberta para o Diretor Donavan, dirigente do Freash Start. Um sorriso inexpressivo se formou involuntariamente em seus lábios. O rosto serio e familiar dele provocou recordações falsas em sua mente. Percy o imaginava diferente, vestindo uma bermuda de pescador e expressão cansada e poderosa, mas era sem duvida o mesmo homem. O homem que pensava ser o seu pai, Posseidon...
Deu as costas para a sala e foi embora, na direção do seu quarto. O rosto de Annabeth se formando em seus pensamentos. Aparentemente, ela nunca saíra de lá. Havia sido apenas um sonho, mas com certeza fora o melhor de sua vida.
- “Percy, você sabe como Atena nasceu?” – ela lhe perguntara uma vez.
- Ela surgiu da cabeça de Zeus, vestindo uma armadura de combate completa, ou algo assim.
- Exatamente. Ela não nasceu da maneira habitual. Nasceu literalmente de pensamentos.Os filhos dela nascem da mesma forma. Quando Atena se apaixona por um mortal, é puramente intelectual, assim como ela amou Odisseu nas histórias antigas. É um encontro de mentes. Ela lhe diria que esse é o tipo de amor mais puro.
- Então seu pai e Atena… então você não…
- Fui uma filha do cérebro — disse Annabeth. — Literalmente. Os filhos de Atena nascem dos pensamentos divinos de nossa mãe e da engenhosidade mortal de nossos pais. Presume-se que sejamos um presente, uma bênção de Atena aos homens que ela favorece...”
“Uma filha do cérebro...” Aquela frase ecoava em sua mente. Talvez fosse o seu subconsciente tentando lhe contar que a amada garota não era real, mas apenas uma criação de sua mente, tentando suportar de alguma forma a dura realidade da vida...
Percy foi dormir pensando em como a verdade era frustrante e a loucura, libertadora.
–Boa noite, Annabeth. Falou baixinho antes de dormir...
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